Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+: “significa mais uma liberdade a ser conquistada, que é a liberdade de amar”

Segundo a Rede Feto e a ASEAN SOGIE Caucus, em 2017, 86% dos timorenses LGBTQIA+ sofreram violência física e psicológica/Foto: Arcoiris Timor-Leste

O Diligente saiu à rua para conversar com as pessoas sobre a diversidade sexual e a data que celebra a luta por uma sociedade mais inclusiva.

Comemora-se hoje (28.06) o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, data celebrada desde 1969 que tem como objetivo sensibilizar a população mundial para a luta contra a discriminação das lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros, queer, intersexuais e assexuais.

Em Timor-Leste, assuntos relacionados com os direitos das pessoas LGBTQIA+ não são muito discutidos, tanto pelo Governo como pela opinião pública em geral.

Apesar de muitas organizações, como a Arcoiris Timor-Leste, a Estrela+ e a Fundação Codiva terem dado passos importantes, nestes últimos anos, na área dos direitos humanos e na defesa da comunidade LGBTQIA+, o tema costuma deparar-se com preconceitos – que impedem maiores avanços na promoção de uma sociedade mais inclusiva.

A não aceitação da diversidade também fere princípios garantidos pela Constituição de Timor-Leste, como prevê o artigo 16.º (Universalidade e igualdade). O número 1 do artigo destaca: “Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres”. Já o parágrafo 2 enfatiza que “ninguém pode ser discriminado com base na cor, raça, estado civil, sexo (…)”.

No país, observa-se que situações de violência praticadas contra as pessoas LGBTQIA+ são recorrentes, como o Diligente demonstrou na reportagem publicada a 13 de maio. Por essa razão, muitos timorenses escondem a sua identidade de género ou orientação sexual da família e dos amigos.

Segundo um estudo da Rede Feto e ASEAN SOGIE Caucus, em 2017, 86% dos timorenses LGBTQIA+ sofreram violência física e psicológica.

Para ouvir o que os cidadãos têm a dizer sobre o assunto o Diligente saiu à rua e conversou com algumas pessoas.

“Este dia veio para mostrar que não temos de ter medo de ser quem somos”

Graziela Kalçona, 35 anos, funcionária pública/Foto: DR

“Esta data é muito especial e merece ser comemorada. De facto, este dia veio para mostrar que não temos de ter medo de ser quem somos. É um passo positivo para aqueles que ainda não ‘saíram do armário”.

Muitas pessoas que eu conheço não concordam com a existência desta comunidade, porque, segundo elas, a nossa cultura e a religião católica não permitem relações entre pessoas do mesmo sexo. Não percebem que as pessoas também têm outras escolhas, além do contexto em que estão inseridas.

Se o meu filho fosse gay, eu não me importaria. A escolha é dele. Porque me haveria de meter? Eu quero que ele seja uma pessoa que faz escolhas conscientes e viva feliz. Se eu o aceitasse, porque é que a sociedade teria de interferir?

Infelizmente, a mentalidade da nossa sociedade é problemática. Os comentários que eu sempre ouço é de que ‘os gays e as lésbicas só merecem porrada’. Até os meus conhecidos fazem comentários desadequados, como ‘a presença dos LGBTQIA+ só está a sujar a capital’. Isto é um absurdo!

Se uma pessoa escolhe viver uma experiência diferente de amar e ser amado, porque haveríamos de interceder? Todos vivenciamos o amor de maneiras diferentes”.

“Todos nós sabemos que a diversidade não existe só na cultura e na comida, mas também na identidade de género”

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Osvaldo Madeira Leco, 25 anos, responsável pela organização de eventos no Hotel Novo Turismo/Foto: Diligente

“Vamos ser realistas, estamos a falar sobre diversidade. Todos nós sabemos que a diversidade não existe só na cultura e na comida, mas também na identidade de género como, masculino, feminino, transgénero e outros. Devemos compreender e respeitar as diferenças entre grupos de pessoas. Eu particularmente não aceito a comunidade LGBTQIA+, mas respeito as suas escolhas.

Sabemos que a sociedade timorense é uma sociedade tradicionalista. Na minha opinião, as pessoas que não saem do mesmo lugar e só estão dentro do seu ambiente dificilmente respeitam a comunidade LGBTQIA+.

Eu era uma dessas pessoas. No entanto, quando saí do meu ambiente e conheci pessoas novas, comecei a respeitar as escolhas de cada uma. Se não aceita, pelo menos, respeite”.

“Este dia para mim significa mais uma liberdade a ser conquistada, que é a liberdade de amar”

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Lay Tung Moe, 20 anos, estudante do curso de Gestão Empresarial da Universidade Católica Timorense/Foto: Diligente

“Na minha opinião, cada pessoa tem o direito de escolher como se sente em relação à sua identidade de género e à sua orientação sexual. Se alguém quer ‘colorir’ a sua vida, é normal, não cabe à sociedade decidir por ninguém a cor de roupa que cada um deve usar.

O que me deixa triste é que a nossa sociedade gosta de apontar o dedo às pessoas homossexuais e defende veemente princípios baseados na religião. Nós ouvimos, muitas vezes, que Deus criou Adão e Eva, ou seja, homem e mulher, portanto todos nós somos o resultado desta criação. Infelizmente, esta é a razão principal para muita gente não aceitar a comunidade LGBTQIA+.

Para que vivamos numa sociedade com harmonia e paz, temos de respeitar a escolha de cada pessoa. Ninguém pode discriminar o outro por diferenças no caminho de vida traçado. Todos temos direitos. Somos todos iguais perante a lei, independentemente das nossas escolhas.

Este dia, para mim, significa mais uma liberdade a ser conquistada, que é a liberdade de amar”.

“O movimento LGBTQIA+ é a cultura do ocidente e dos países desenvolvidos”

(Guido Lopes, 28 anos, vendedor ambulante, não quis que a sua fotografia fosse divulgada)
A meu ver, é notório que Timor-Leste tem outras prioridades. Não é a hora de promover a existência da comunidade LGBTQIA+.

O movimento LGBTQIA+ é a cultura do ocidente e dos países desenvolvidos. Timor-Leste é um país em desenvolvimento que precisa de dar atenção a outras áreas como o acesso à educação de qualidade, aos recursos humanos (professores qualificados), à saúde, à segurança alimentar (combate da má nutrição), à assistência social (combate à pobreza) e à proteção ambiental (recolha e triagem do lixo). Considero que estes são problemas sensíveis que devem ser resolvidos de modo a garantir o bem-estar do povo”.

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