Tomás Freitas: “As montanhas de Timor-Leste são as melhores para turismo de aventura”

O fundador do Comrider Mountain Bike Timor-Leste, Tomás Ato Freitas/Foto: Diligente

Em conversa com o Diligente, o fundador da Comrider Mountain Bike Timor-Leste fala sobre a produção da curta-metragem “Maubisse” e do potencial turístico do país para movimentar a economia.

Muitos turistas estrangeiros, quando visitam Timor-Leste, preferem ficar na capital e nos arredores. No entanto, os municípios reservam excelentes surpresas.

Maubisse, uma zona montanhosa no município de Ainaro, é conhecida pela sua beleza natural. Mais fresca do que Díli, é o paraíso para os praticantes de ciclismo de montanha. Com o intuito de divulgar a região e atrair amantes e entusiastas de turismo de aventura, um grupo de jovens teve a iniciativa de produzir uma curta-metragem.

Foi assim que a empresa Comrider Mountain Bike Timor-Leste, única iniciativa no país especializada em atividades de ciclismo de montanha, contratou dois profissionais, Dave Inabinet e Amin Barreto, para a realização do material.

Lançado no passado dia 3 de maio, “Maubisse” impressiona pela beleza das imagens captadas de ciclistas a explorar os trilhos nas montanhas da localidade, pelas interações com os locais e pela narração que descreve um pouco da história recente do país. Até este domingo (12.05), a curta-metragem, de aproximadamente 14 minutos, acumula mais de quatro mil visualizações.

Em entrevista ao Diligente, o fundador da Comrider Mountain Bike Timor-Leste, Tomás Ato Freitas, fala um pouco sobre como foi o processo de filmagem e do imenso – a seu ver ainda subaproveitado – do turismo no país para melhorar os indicadores económicos.

Como surgiu a Comrider Mountain Bike Timor e quais são os seus objetivos?

Antes de criar a empresa, alguns dos meus colegas ciclistas estrangeiros pediram-me para fazer trilhos nas montanhas para atrair visitantes o país.

No entanto, respondi que nas montanhas ainda não temos condições para acolher os turistas. Os meus colegas insistiram e acabei por aceitar a ideia, mas não tínhamos dinheiro. Começámos a procurar agências internacionais que pudessem apoiar a nossa iniciativa. Conversei com a Asia Foundation e, como a organização tem fundos para apoiar o turismo, legalizámos o grupo para podermos ter acesso a esse apoio.

Já fizemos oito trilhos: três em Dare e cinco em Maubisse. Em agosto do ano passado, organizámos uma competição de ciclismo de montanha em Dare, que contou com a participação de ciclistas nacionais que ficaram muito satisfeitos com a prova.

Apesar de Timor-Leste ter uma Federação de Ciclismo, esta enfrenta dificuldades financeiras. Realiza um evento de ciclismo uma vez por ano e durante os outros meses não tem atividades.

Esta situação levou-nos a criar esta comunidade. Neste momento, temos mais de 60 membros. Todos os fins de semana percorremos as montanhas em Metinaro, Aileu, Ermera, Liquiçá e Ainaro. Queremos também preparar os novos atletas para representarem o país em eventos nacionais e internacionais. Pretendemos promover o turismo do país, através do ciclismo.

Pode contar-nos como surgiu a ideia de produzir a curta-metragem “Maubisse”?

A ideia surgiu quando fomos de bicicleta com David Inabinet, ciclista australiano, até Maubisse. Chegamos ao local e ele ficou impressionado com a beleza de lá, chegou mesmo a dizer que a riqueza timorense estava em Maubisse. Disse ainda que uma das receitas permanentes do país é Maubisse e não o petróleo, uma vez que o petróleo vai secar um dia e que era necessário investir na região.

David contou ainda que os ciclistas de vários cantos do mundo vão à ilha da Madeira, em Portugal, para fazer ciclismo de montanha, mas as montanhas de Fleixa – Maubisse, são muito melhores comparando com Portugal, mas não estão a ser bem aproveitadas. Fiquei surpreendido com o que ele disse e pedi-lhe que ajudasse a promover o local.

Começámos por nos aproximar da comunidade e das autoridades locais e depois identificámos os locais para fazer os trilhos. Depois, surgiu a ideia de produzir um filme sobre as aventuras de bicicleta em Maubisse para promover a beleza das montanhas.

Conversámos com o nosso amigo, Amim Barreto, para nos ajudar a fazer o filme. Expliquei também ao David que muitas pessoas ainda não conhecem a história da resistência e que gostaria de incluir isso no filme, e assim foi. As pessoas não vão conhecer apenas os trilhos e as belezas do país, mas também aprender sobre a nossa história.

Queremos que Maubisse tenha mais movimento turístico, sobretudo ciclistas. Esperamos que esta iniciativa crie mercado de trabalho para a comunidade local. Disse aos habitantes de Maubisse para prepararem residenciais nas montanhas para que os ciclistas tenham onde descansar uma noite. Um morador já começou a construir um dormitório, tem apenas de melhorar a hospitalidade. Algumas pessoas podem ser guias para que deixe de depender do governo.

Por que escolheram Maubisse como cenário para o filme?

Temos outras montanhas melhores para ciclismo, por exemplo, em Dare. No entanto, quando filmamos com o drone, vê-se a capital e não queremos. O filme deve retratar a montanha, por isso, escolhemos Maubisse, por ser longe da cidade e os trilhos serem os usados pela população, não foram escavados por máquinas.

Melhoramos alguns trilhos, mas a maioria ficou como estava, pois muitos ciclistas procuram trilhos que não foram escavados.

Na montanha de Fleixa, o vento é muito forte, propício para a prática de parapente. Além disso, também é um bom local para praticar escalada. Maubisse é um lugar muito rico, por isso decidimos mostrar a beleza da localidade e promover as suas potencialidades.

No site da vossa empresa, afirmam que Timor-Leste pode competir com qualquer destino global de ciclismo de aventura. Acredita mesmo que o país reúne as condições necessárias para acolher turistas dedicados ao ciclismo?

No ano passado, fui fazer ciclismo de aventura na Tasmânia, Austrália. Um dia estávamos na floresta e não havia restaurantes, mas um dos meus colegas disse-me que íamos almoçar ao restaurante. Na verdade, ele referia-se às casas dos habitantes daquela zona. A comunidade local prepara refeições e estadia. Nesse momento, pensei que devíamos replicar a ideia em Timor-Leste.

Depois de conversar com a comunidade em Maubisse, algumas pessoas já começaram a reabilitar as casas tradicionais, de modo a que sirvam como lugares para pernoitar e fazer as refeições, como é o caso do chefe de suco de Rabilau. Na montanha de Rabilau também já há casas de banho e esperamos que a comunidade na Fleixa também se organize nesse sentido.

Como é que a comunidade local encara o ciclismo de montanha e que benefícios esta atividade pode trazer para os cidadãos de Timor-Leste?

A comunidade observa o ciclismo da montanha como algo novo. Já ouviram falar sobre ciclismo de montanha, mas nunca viram. Mesmo assim, quando a nossa equipa visitou o local, a reação da comunidade foi muito positiva, porque percebem que a atividade vai atrair turistas e, consequentemente, a população pode lucrar com isso.

Desde janeiro até agora já levámos mais de trinta ciclistas, incluindo estrangeiros, para explorarem os trilhos de Maubisse. O aluguer diário de uma bicicleta custa 50 dólares, o mesmo valor é aplicado ao aluguer do guiador. São preços mais baixos do que os praticados em outros países, onde podem chegar aos 100 dólares. Queremos que as pessoas experimentam os trilhos em Timor-Leste, por isso oferecemos preços acessíveis.

Sempre que levamos ciclistas, aviso os habitantes para prepararem comida. Escolho sempre pessoas diferentes para que todos possam beneficiar desta atividade.

Quanto tempo demorou a produção do filme e quais foram as principais dificuldades encontradas?

Produzimos o filme no mês de novembro do ano passado. Na altura, íamos todos os fins de semana para Maubisse captar vídeos e imagens.  Foi um processo cansativo, porque queríamos imagens de qualidade, então tivemos de subir e descer a montanha várias vezes.

Segundo os realizadores, para obtermos boas imagens, tínhamos de filmar de madrugada. Concluímos as filmagens em um mês, a edição demorou seis. Foi o David Inabinet que fez a edição na Austrália e depois enviou para vermos. Fiquei muito orgulhoso com o resultado final.

Sobre as músicas no filme, pedi autorização à banda Cinco de Oriente para usar a música “Hele Hele Lei”. Expliquei que não temos dinheiro para pagar, mas prometi convidá-los para tocarem no lançamento e em outros eventos. Relativamente ao som, é da responsabilidade do nosso amigo David.

Quais as mensagens que pretendem transmitir com este filme?

Queremos que as pessoas conheçam Maubisse. Muitas vezes, em outros filmes, as pessoas gostam de colocar Timor-Leste no título. Nós queremos deixar as pessoas curiosas com o local, por isso colocámos apenas Maubisse.

Primeiro, queremos promover o local. Historicamente, Maubisse é uma zona de concentração das Falintil e dos guerrilheiros.

É um filme único sobre aventuras de bicicleta. Antes já tínhamos publicado um filme no youtube, mas teve poucas visualizações, porque não contávamos a história, apenas mostrámos a montanha e o ciclismo. Agora, temos a narração de uma jovem que quer ser ciclista profissional e fala sobre os seus desejos para o país.

O filme retrata também a beleza e a cultura do povo de Maubisse. Como foi organizada a cena em que aparecem avós vestidos com trajes e objetos culturais?

Os mais velhos gostaram de aparecer no filme, porque adoram ver os ciclistas a saltar e quase a voar, tanto os mais velhos como as crianças ficam muito contentes.

Quando disse à comunidade que íamos fazer um filme sobre Maubisse e sobre ciclismo e que gostávamos que eles aparecessem, ficaram muito entusiasmados.

A cena em que estão a dançar na montanha, vestidos com trajes tradicionais e a orar à natureza é uma forma de promover a cultura local. Queremos mostrar ao mundo que se vierem a Maubisse, não vão apenas praticar ciclismo de montanha, vão também aprender sobre as tradições da região. Quando queremos andar de bicicleta na montanha, temos de ir às casas sagradas para receber matak malirin (um tipo de bênção dos lian nains – donos da palavra).

O filme foi lançado recentemente e já foi visto por mais de quatro mil pessoas. Como avalia a repercussão?

Fico assustado e surpreendido ao mesmo tempo. Ficámos muito satisfeitos com o esforço e trabalho duro de toda a equipa, mas nunca pensámos que conseguíssemos chegar a tantas pessoas.

Queremos que as pessoas de outros países conheçam a nossa cultura e a beleza das montanhas. Esperamos que os ciclistas de países vizinhos, como a Austrália e a Nova Zelândia, venham cá. As montanhas de Timor-Leste são as melhores para o turismo de aventura. Alguns ciclistas estrangeiros já experimentaram e ficaram muito satisfeitos.

O filme vai fazer parte de um festival de cinema, na categoria cultura, turismo e aventura, com o objetivo de promover a nossa cultura e turismo.

Já pedi a vários embaixadores de vários países aqui em Timor para que nos ajudem a publicar o filme nos aeroportos, mas infelizmente ainda não tive resposta.  Por exemplo, o governo indonésio promove Lamboa Bajo, um sítio turístico, nos aeroportos e muitos turistas acabam por visitar o lugar. O nosso governo deveria fazer o mesmo, em vez de usar o dinheiro para fazer viagens inúteis. Ainda não há um compromisso sério para promover o turismo. Fico triste por ver que os órgãos de comunicação social timorenses ainda não têm interesse em promover o turismo nacional.

A equipa da Comrider já explorou muitos lugares no país. Quais são os melhores locais para o ciclismo de montanha em Timor-Leste e porquê?

Todos os lugares em Timor-Leste são bons para o ciclismo de montanha, e é importante sairmos da capital. Alguns lugares são considerados sagrados, mas o importante é que tenhamos boas intenções. Não podemos dizer asneiras, estragar o meio ambiente ou os objetos encontrados nas montanhas.

Uma vez, num passeio com colegas, alguns deles tiveram problemas com as bicicletas: pneus furados, correntes partidas, mas com a minha isso não aconteceu. Porquê? Porque eles tinham dito asneiras. Mostrei-lhes o vídeo que gravámos e disse-lhes que, apesar de termos bicicletas iguais, a minha estava em ótimo estado, mas a deles não. A nossa natureza é diferente, temos de a respeitar para que nos proteja.

Normalmente, partimos de bicicleta de Metinaro, perto da fábrica da Heineken, até ao Remexio. Depois passamos por Lequidoe e continuamos até Salele, área de Aileu. Seguimos até Railaco, Leorema e Kutulau, em Ermera. As montanhas podem chegar até aos três mil metros. Estes lugares são muito bons, tal como Maubisse e outros lugares que ainda não percorremos.

Ciclismo de montanha é uma atividade benéfica para a nossa saúde. Alguns dos nossos colegas eram fumadores, mas depois de começarem a praticar este desporto, deixaram de fumar.

Quem são os patrocinadores deste filme?

Ganhamos, no ano passado, o fundo da Asia Foundation para fazer trilhos em Maubisse. Acabámos este projeto e pensámos que seria boa ideia fazer um filme para promover o sítio. A produção do filme é iniciativa da Comrider Timor-Leste e usámos o nosso próprio dinheiro.

Para o lançamento, contámos com o apoio da Asia Foundation.

Quais os planos futuros da Comrider?

Vamos organizar uma competição internacional de ciclismo de montanha em Maubisse. No ano passado, realizámos a competição em Dare, mas como era um evento local, não convidámos ciclistas dos outros países.

Aconselho os membros da Comrider a prepararem-se fisicamente para, quando os estrangeiros saltarem na bicicleta, os timorenses mostrarem que também conseguem.

Os nossos jovens são corajosos e têm iniciativa, mas o problema é que não têm bicicletas e o governo também não apoia. Durante a campanha, alguns partidos políticos prometeram reativar a Tour de Timor, mas isso não aconteceu. Por isso, criámos o Comrider para procurar os nossos próprios patrocinadores e não dependermos do governo.

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