Saúde mental: uma área importante que ignoramos

Se pudermos detetar problemas mentais precocemente, podemos procurar soluções para prevenir que se tornem graves./Foto: Pixabay

Ao ouvir o termo saúde mental, muitas pessoas pensam apenas em “loucos”, mas prefiro usar o termo “pessoas com problemas de saúde mental graves”. Muitos não reconhecem, ou talvez não saibam, que a saúde mental é uma parte importante das nossas vidas. É crucial para o nosso bem-estar.

A área da saúde mental, pelo que sei, não recebe muita atenção na nossa sociedade nem por parte de nossos governantes. É muito fácil ignorar a importância desta área, pois muitas vezes é uma invisível no nosso dia a dia. O problema só é notado quando os sinais da doença já são graves. Muitas pessoas também não se apercebem que têm um problema mental.

Exemplos simples são a depressão, a dificuldade em controlar a raiva e os impulsos, a ansiedade e o trauma, que podem ser difíceis de serem identificados, se a própria pessoa não tiver nenhuma noção do que está a sofrer. Ao contrário dos problemas mentais, os problemas físicos são fáceis de serem vistos, compreendidos e resolvidos, tais como a dor de cabeça, dor de estômago ou problemas cardíacos.

Alguns problemas de saúde mental começam desde cedo na vida, mas há pessoas que sofrem de problemas mentais devido às suas experiências e/ou condições de vida. Alguns problemas de saúde mental, como traumas e depressão, podem ser transmitidos de geração em geração, se não forem tratados de forma adequada. Os problemas podem surgir em nossas mentes, mas é difícil para os outros perceberem ou entenderem se não expressarmos.

Impacto da ocupação estrangeira na saúde mental

Os problemas mentais que existem na nossa sociedade não estão isolados da história que sabemos. Precisamos de entender que a invasão deixou cicatrizes profundas na nossa saúde mental. Durante a ocupação portuguesa, os nossos antepassados foram tratados como pessoas sem valor. Não havia autoridade que investisse tempo para ouvir os seus pensamentos. As nossas bisavós ficaram a pensar que a sua voz não tinha valor e que não valia a pena expressarem-se. Para se tornar cidadão respeitado na própria terra, tinham de seguir apenas as políticas dos estrangeiros. Pagavam impostos e trabalhavam para os estrangeiros, construindo, por exemplo, as suas casas. Naquele momento, os timorenses raramente tinham oportunidade de frequentar a escola.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão ocupou a nossa terra. Nessa altura, as pessoas foram tratadas com desrespeito e brutalidade. Foram forçadas a construir estradas. Muitas avós também foram obrigadas a servir sexualmente os militares japoneses. O que aprenderam, psicologicamente, dessas experiências? Involuntariamente, aprenderam que a sua vida não tinha valor. As suas vozes e os seus pensamentos não tinham peso. Nem as suas necessidades básicas foram respeitadas.

Durante a ocupação indonésia, muitos de nós se sentiram oprimidos e subjugados.

Naquela época, os timorenses dividiram-se em dois grupos, um que queria a independência e outro que queria juntar-se à Indonésia. Há quem tenha escolhido trabalhar com os indonésios, talvez por medo. Alguns fugiram para a montanha, porque queriam viver e resistir à ocupação. Muitas pessoas não tiveram nenhuma opção devido às circunstâncias.

Durante esse tempo, muitos de nós testemunhámos com os próprios olhos atos violentos que ocorriam com frequência. Víamos e ouvíamos, em qualquer altura, tiroteios, lutas, assassinatos, incêndios de casas e desaparecimento das pessoas.

Os acontecimentos receberam diversas reações. Por parte dos que quiseram a independência, as agressões físicas, os assassinatos e manifestações contra os militares indonésios eram considerados justos. Eram ações utilizadas para reafirmar que os timorenses recusavam a ocupação. Assim, a sociedade aprendeu automaticamente que o crime é o caminho para fazer ouvir as nossas vozes e reafirmar a nossa existência.

Infelizmente, as ocupações afetaram o nosso desenvolvimento psicológico. Sentimo-nos inferiores, sem peso perante as autoridades e tornamo-nos submissos aos líderes. Acreditamos que os estrangeiros são sempre melhor do que nós.

Pensávamos que com atos violentos, podemos ser ouvidos e respeitados. Temos dificuldades em controlar a raiva e não sabemos a melhor forma de expressar a nossa opinião e frustração. Esses comportamentos violentos não eram apenas mostrados por pessoas comuns, mas alguns dos nossos líderes também mostravam comportamentos semelhantes. Quem vamos culpar? Reconhecemos ou não que é um problema que precisa de ser tratado?

O impacto da vida precária no desenvolvimento da saúde mental

Muitos timorenses vivem em condições difíceis, em que são expostos a stress. Essas condições afetam muito o seu bem-estar mental. Muitos estudos mostraram que pessoas que sofrem de stress diário têm, possivelmente, dificuldade em controlar as suas emoções e comportamento, ter sucesso nos estudos e resistir à influência de outras pessoas.

Muitas pessoas pobres têm a tendência a viver em áreas de risco de crime. Pessoas que vivem em ambientes como esses têm uma forte tendência a mostrar comportamento antissocial, um comportamento prejudicial à sociedade, como roubo, brigas, abuso de drogas, entre outros, no futuro. O que isso significa? Isso indica que a saúde mental desempenha um papel importante não apenas para o bem-estar de uma pessoa, mas também para o bem da sociedade, a longo prazo.

Quando isso acontecer, precisamos de dar importância a esta área?

As consequências de ignorar problemas mentais podem ser muito graves. Algumas pessoas manifestam problemas mentais graves, cometendo suicídio, agredindo fisicamente outras pessoas, abusando de drogas, fugindo e cometendo outros crimes. Alguns problemas mentais como psicopatia, sociopatia e autismo são difíceis de tratar quando são graves, mas muitos deles podem ser tratados e prevenidos.

Problemas de saúde mental podem ser prevenidos se identificados e prognosticados. Se pudermos detetar problemas mentais precocemente, podemos procurar soluções para prevenir que se tornem graves. É melhor prevenir do que remediar.

O custo desses problemas mentais é muito alto. Esses problemas podem levar as pessoas a perderem a vontade de trabalhar ou ir para a escola. Quando vamos reconhecer a importância desta área? Se quisermos desenvolver a nossa nação de maneira inclusiva, precisamos de dar a devida importância a esta área.

Sem uma boa saúde mental, a saúde física também não é estável e, posteriormente, afeta o desenvolvimento do capital humano e físico do nosso país. Todos nós temos um papel e o poder de proteger a nossa saúde mental e a dos outros. Vamos usar esse poder para o bem. Juntos, podemos!

Ângelo Alcino Menezes Guterres Aparício, natural de Baucau, licenciou-se em Psicologia e Sociologia na Universidade de Havai e fez o mestrado em Psicologia Clínica Forense na Universidade de Montclair State University, Nova Jersey, Estados Unidos da América. Atualmente, trabalha como consultor independente.

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  1. Dias ha que acordo a falar para os meus botoes.
    A maior tristeza e eles nunca me responderem. Fico na duvida se eles sao surdo mudos ou se a diferenca geracional e o factor nesta tentativa de bate papo. As vezes lembro-me de um malai militar portugues que foi forcado a ir para Timor para cumprir o servico militar obrigatorio. Rasgava folhas de jornais, fazia bolas e atirava-as a parede dizendo: pega ou nao pega, pega ou nao pega. Os camaradas riam-se dele. Passava os dias nisto ate que um dia foi dado como maluco e regressou a Portugal. No dia do regresso virou para os camaradas com um sorriso matreiro e disse: pegou ou nao pegou?
    Das coisas que eu me lembro!

  2. O autor associa pobreza a criminalidade. Diz que pessoas pobres tem tendência a morar em “áreas de risco de crime”. As pessoas pobres não têm “tendência”, elas não têm alternativas, o que é totalmente diferente.

    Diz também que pessoas pobres e que moram em lugares pobres tem a “tendência a mostrar comportamentos antissocial…”. Crime não escolhe classe social, as pessoas economicamente favorecidas apenas têm mais possibilidade de esconder os seus crimes.

    Pessoas ricas não vão ao posto médico ou ao posto policial, elas não aparecem nas estatísticas oficiais. Mas isto não significa que não cometam crimes (violência sexual, roubo, corrupção, agressões físicas e etc.).

    Penso ser perigoso, preconceituoso e conceitualmente desatualizado associar pobreza ao crime.

  3. Preocupa o facto que um profissional da saúde como o psicólogo Angelo Aparício venha a público associar pobreza com práticas de crime. Mostra desconhecimento, propaga desinformação e reproduz uma ideia elitista e preconceituosa.

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