Profissionais de tradução em Timor-Leste queixam-se da falta de formações específicas e de políticas de incentivo à leitura

Em Timor-Leste, o português e o tétum são as línguas oficiais, já o inglês e o indonésio são reconhecidos como idiomas de trabalho/Foto: Diligente

Pessoas que atuam na área em cargos de relevância alertam para a pouca quantidade de recursos humanos qualificados no país.

Depois de 24 anos de ocupação indonésia, em que o português foi e o indonésio ganhou terreno, restaurou-se a independência em Timor-Leste. O momento marcou também uma recuperação da identidade linguística e, dessa forma, o português e o tétum foram escolhidos como línguas oficiais do país. O Estado reconheceu ainda o inglês e o indonésio como idiomas de trabalho, bem como a existência de vários dialetos locais.

Em Timor-Leste, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas, de 2022, 70% da população domina o tétum, 40% o português, 30% o indonésio e 15% o inglês. Grande parte dos cidadãos é fluente em mais de um dos idiomas. Conforme o censo de 2022, há 1,3 milhões de habitantes no país.

Perante esta Babel, surgiu a necessidade de criar serviços de tradução em vários órgãos do Governo. Depois de 21 anos de retomada da democracia, como estão estes serviços? Quem são os tradutores? Quais são as suas principais necessidades e potencialidades? O que é que foi feito e o que é preciso ainda fazer para melhorar um serviço fulcral para o desenvolvimento do país?

Paulo Henriques, 36 anos, doutorado em Literacias de Ensino de Língua Portuguesa e formador e tradutor no Centro de Formação Jurídica e Judiciária (CFJJ), contou que a sua profissão como tradutor não foi planeada: aproveitou uma oportunidade surgida, em 2010, aquando do recrutamento para formação em tradução, oferecida pelo Ministério da Justiça (MJ).

“Eu não tinha pensado em seguir este caminho. Porém, houve esse processo de seleção e decidi candidatar-me, uma vez que sou licenciado em ensino da língua portuguesa. Quando eu entrei, não tinha a mínima noção do que era uma tradução”, partilhou. Depois de dois anos de formação profissional, Paulo Henriques tornou-se tradutor das duas línguas oficiais do país, português e tétum.

Na sua rotina, o profissional é responsável pela tradução de leis (tétum-português e vice-versa) e obras literárias. Passou também a ser formador de tétum no CFJJ, para estrangeiros e para os próprios timorenses.

A seu ver, a falta de uma política nacional de tradução para ampliar esses serviços traz problemas para a população. “Muitas vezes, nos tribunais, as pessoas têm dificuldade em reclamar os seus direitos, porque as leis estão escritas em português e não as percebem”, lamentou o formador e tradutor do CFJJ.

Este ano, o ex-ministro da Educação, Armindo Maia, chegou a dizer que 80% das escolas públicas do país não utiliza o português – apesar de os materiais didáticos serem todos no idioma.

Na avaliação de Paulo Henriques, o Estado deveria criar um serviço nacional de tradução, capaz de envolver os profissionais da área, para que se consolide a identidade linguística e também para assegurar a qualidade do trabalho. A falta de uma política nesse sentido não estimula a formação de novos profissionais, avaliou.

“Daqui a pouco tempo, vamos pertencer à ASEAN e com certeza que haverá muitas reuniões e conferências a nível ministerial. Quem é que vai fazer as traduções simultâneas ou de documentos? Nós não temos profissionais qualificados nesta área”, lamentou.

O formador destacou que, para se ser tradutor, além de ter de dominar duas línguas, a pessoa precisa de ter hábitos de leitura. “Precisamos de insistir neste assunto, dado que a leitura é muito importante para o desenvolvimento humano. Em Timor-Leste, quase não há livros em tétum, por exemplo. O Governo deveria olhar para esta questão com mais cuidado. Sem leitura, nós não conseguimos melhorar o nosso pensamento crítico”, concluiu.

Por sua vez, Marcelo Nunes, 36 anos, tradutor há 13 anos e professor de português nas Instituições do Ensino Superior Privadas (ISP) do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura (MESCC), destacou que uma das razões para não haver muitas obras literárias em tétum é a falta de recursos humanos qualificados, “já que que um tradutor literário deve ser um escritor ou um leitor compulsivo, ou alguém que tenha conhecimento da literatura mundial”.

“Nós não temos ainda tradutores com essa qualidade, uma vez que a prática da leitura ainda não está enraizada. Não há uma política do Ministério da Educação que incentive a leitura. O Estado deve promover atividades para a promoção literária em tétum e em português através de concursos de escrita”, concluiu o professor, que também é estudante de mestrado em Ensino de Português no contexto de Timor-Leste, na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL).

Capacidades

Tradutora há mais de 20 anos, Maria Mercês do Carmo, licenciada em língua Portuguesa e diretora do Gabinete de Tradução da Presidência do Conselho de Ministros, ressalta que os profissionais, em Timor-Leste, precisam de ter conhecimento geral, já que não há formação específica na área.

De acordo com a diretora, o Gabinete de Tradução está a trabalhar para traduzir as notícias e os documentos oficiais do Governo em três línguas: tétum, português e inglês.

O departamento envolve, neste momento, sete funcionários permanentes, dois assessores – que também são revisores de tétum, português e inglês – e sete funcionários contratados. Todos os funcionários são timorenses e licenciados em linguística.

“Traduzimos conforme o documento original, às vezes de português para tétum ou da língua nativa para inglês”, explicou Maria do Carmo.

Também licenciado em linguística, João Paulo Esperança, 50 anos, tradutor, intérprete e revisor de texto no Parlamento Nacional, contou que começou a trabalhar na área por prazer e depois desenvolveu as suas competências através da prática. O português foi o responsável por realizar a tradução de uma das primeiras obras literárias para tétum: Le Petit Prince (O Principezinho, em português), clássico de Antoine de Saint-Exupéry, que se tornou Liurai Oan Kiik, em tétum.

“Começou por ser um hobby. Eu era professor e dava aulas de linguística e de língua portuguesa. Fazia traduções para me divertir, porque gostava de tradução literária, particularmente. Foi assim que traduzi o Le Petit Prince ou Principezinho em português, para Liurai Oan Kiik, em tétum”, detalhou.

O processo de tradução do livro começou em 2001 e foi longo, sendo publicado na língua nativa de Timor-Leste apenas em 2010. O trabalho envolveu os apoios da Organização Não-Governamental (ONG) Timor Aid e da Associação de Cooperação para o Desenvolvimento.

Em 2007, João Paulo voltou a Portugal e começou a fazer traduções profissionalmente para ganhar dinheiro. Regressou depois a Timor e surgiu a oportunidade de trabalhar na área. “Tradução literária, faço fundamentalmente de português ou de inglês para tétum, mas tradução técnica, faço qualquer combinação entre as três línguas”, afirmou.

O tradutor português considera que uma pessoa ter conhecimento de duas ou mais línguas não significa que seja um bom tradutor, dado que a ocupação exige atenção ao pormenor. “Da mesma maneira que não basta ter duas mãos para tocar piano, também não basta saber duas línguas para ser tradutor ou intérprete”, refletiu.

João Paulo Esperança destacou a necessidade de haver mais formação para tradutores e intérpretes, uma vez que o país é bilingue, salientando o nível de responsabilidade que a profissão requer.

“A atenção de um tradutor é mais do que a do escritor para tentar perceber a mensagem que aquele quer transmitir. Para além disso, o texto oficial da Constituição da República Democrática de Timor-Leste é em português e existem, pelo menos, quatro versões diferentes de traduções para tétum e duas delas têm erros muito graves, mas estão a ser utilizadas e distribuídas no país”.

Outra preocupação do tradutor tem a ver com a necessidade de o país investir mais na produção, na tradução e publicação de livros em tétum, sobretudo infantis, pois seria um importante estímulo para meninos e meninas aprenderem a ler e a cultivarem hábitos de leitura desde cedo.

“Há crianças no 6º ano que ainda não sabem ler. É importante que as crianças, logo desde pequenas, comecem a aprender português. Se queremos que elas saibam português quando forem grandes, quanto mais cedo começarem, melhor”, sublinhou João Paulo Esperança.

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  1. No meu tempo anos 60 ate 70, tinhamos a nos proprios e o velho dicionario. As vezes as traducoes eram feitas a luz do petromax pois a luz nem sempre assinava o ponto. E tinhamos canetas que era necessario encher de tinta e o famoso mataborrao. Tinhamos de comer o pao que o diabo amassava. E vivo velho.
    Mas o amanhecer do dia seguinte trazia sempre um rastilho de esperanca!

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