Ego Lemos, o ativista que “promove o ambiente na música e a música no ambiente”

Cantor e fundador da permacultura em Timor-Leste, Ego Lemos deu a milhares de timorenses acesso a um bem essencial, a água. Foto: DR

Popular em Timor-Leste pela música, Ego Lemos é também um ativista ambiental, que já melhorou o acesso a água a 400 mil timorenses, o equivalente a quase 30% da população do país.

É um “homem do seu povo e para o seu povo e, por isso, também para o mundo”, um “espírito indomável” na melhoria da vida da população local. Um homem de “visão e paixão” que envolve a cultura local na defesa do ambiente e do bem-estar das pessoas. Os elogios, atribuídos ao timorense Ego Lemos, vieram do Prémio Ramon Magsaysay, uma Fundação que, em 2023, o laureou como visionário da soberania alimentar pelos trabalhos desenvolvidos no âmbito da Permacultura de Timor-Leste (PERMATIL), organização da qual é diretor-executivo. A premiação é uma das mais prestigiadas na Ásia.

Mas as sementes que Ego Lemos lança não estão só nas mãos e na terra. Estão também na música e fazem parte do repertório musical de Timor-Leste. Toca guitarra acústica e harmónica, compõe e canta músicas em tétum, que falam da necessidade de conservação da natureza ou de um passado doloroso do país. Foi igualmente premiado como cantautor pelos Screen Music Awards com a canção “Balibó”, composta para o filme homónimo em 2009 – que aborda o assassinato de cinco jornalistas da Austrália nesta localidade timorense às mãos dos militares indonésios, em 1975.

A música está presente desde a infância na vida de Eugénio Fátima Lemos, mais conhecido por Ego Lemos, 52 anos. Natural de Díli, gostava de tocar quando ainda era criança. Era a mãe que o inspirava: “Aprendi com ela e depois comecei a tocar com os amigos do bairro, em Motael”, recorda. Na altura, não tinha rádio e televisão, mas, com colegas, ia para casas vizinhas de modo a conseguir ouvir música.

Durante a sua carreira como cantautor, Ego Lemos já escreveu mais de vinte canções, embora não o faça agora. por uma questão de tempo. Para ele, a música é “remédio para curar as feridas das pessoas”. Nos eventos, quando o convidam para cantar, escolhe músicas como  “Tebe Tebe”, “Oh Oh Timor”, “Toos Na’in” (“Agricultor”) e “Timor Ida De’it” (“Timor é só um”) ou “Dame iha Timor” (“Paz em Timor”) , que deixam as pessoas animadas. “Queria continuar a contribuir para o desenvolvimento humano e libertar as pessoas da tristeza e traumas através da minha música”, reflete. Heróis musicais? A resposta sai pronta: John Lennon, Bob Dylan, Ebit G. Ade, Iwan Fals e Bob Marley.

“Balibó” e a música que compôs para esse filme abriam-lhe as portas internacionais. O jornal britânico The Guardian classificava, em 2010, a música de Ego Lemos como “poderosa e comovente”. Sobre o primeiro álbum, “O Hele Le”,  as canções “Balibó” (“uma balada dramática e comovente”), “Timor Loro Sa’e” (“um hino patriótico que soa como uma canção country e “Sasin Ba Raius” (“um aviso grandioso e melódico contra a desflorestação”) são destacadas pelo jornal.

Foi em 1989 que Ego compôs a primeira música, “Toos Na’in”, uma das mais populares no país. “Muitas famílias timorenses trabalham na agricultura e, quando vão à horta, só tomam café e comem um pedaço de mandioca. Aguentam assim o dia inteiro”, conta. A realidade dura dos agricultores inspirou-o a escrever a música e a “relembrar as pessoas, sobretudo os estudantes, da necessidade de pensarem nos sacrifícios dos pais e se focarem nos estudos”. Volvidos 35 anos, a canção permanece e ecoa em muitas salas de aula das escolas básicas timorenses.

Ego acredita que, para que a música não perca a atualidade, um compositor deve ter cuidado de escolher palavras simples e com algo de visionário: “Quando escrevo uma música, tenho de refletir muitas vezes e, se sentir que a letra ainda não é boa,  procurar outras expressões para que tenha sentido”, explica.

Jovem e estudante na altura, Ego Lemos não se calou perante os crimes cometidos durante ocupação indonésia do país. Em 1991, participou na marcha da igreja de Motael para o cemitério de Santa Cruz, que resultou na morte, ferimentos e tortura de muitos jovens – episódio conhecido como Massacre de Santa Cruz. “Não sou uma vítima deste processo, mas envolvi-me na manifestação. Graças a Deus, consegui salvar-me”, lembra. Depois dos acontecimentos de Santa Cruz, o músico integrou o movimento estudantil Dewan Solidaritas Mahasiswa dan Pemuda Timur Timur (Órgão de Solidariedade dos Universitários e Juventude Timor-Leste, em português), que trabalhava na rede clandestina.

Ego Lemos sobreviveu a Santa Cruz, mas a ocupação indonésia, o refúgio no mato e a má nutrição já lhe tinham levado grande parte dos familiares mais próximos: o pai e os dois irmãos. Da família, ficaram só ele e a mãe. Apesar das dificuldades, a experiência no mato alimentou-lhe ainda mais o amor pela natureza, “um supermercado livre que disponibiliza tudo, legumes, água, carne, oxigénio e tudo de forma gratuita”. E defende: “Os nossos recursos naturais apoiaram a resistência contra a ocupação da Indonésia”. Em 1997, já liderava o movimento Agricultura Orgânica, um grupo estudantil que se focava no desenvolvimento agrícola.

Em Sukalau, em Dare, população cava, com apoio da PERMATIL, uma vala para armazenamento de água/Foto:DR
As mãos que não conseguem estar paradas

Ego Lemos tem de estar sempre a fazer qualquer coisa com as mãos.  A música e a terra deram-lhes sempre que fazer. Chegada a libertação do país, no final de novembro de 1999, depois da Consulta Popular, o australiano Steve Cran apresentou-o à permacultura. Começou, então, a aprender sobre a área e praticar no terreno.  Em 2000, Ego Lemos fundava a PERMATIL.

Amante da natureza, a forma como os timorenses trataram o ambiente, depois da independência, magoava Ego Lemos. Entristeciam-no o corte desnecessário de árvores e as queimadas, que levaram à seca de nascentes. “As alterações climáticas devem-se às nossas atitudes irresponsáveis e, para prevenir esta situação, temos de ser ativos no cuidado da nossa natureza”, argumenta.

Outra situação que sempre o incomodou é o facto de muitas famílias nas montanhas terem dificuldades de acesso a água e, em alguns casos, andarem mais de três ou quatro quilómetros para acederem a este bem essencial. “Criámos a PERMATIL e trabalhamos junto da comunidade na questão de água, alimentação, plantas ou sementes. Considero que estas são bases fundamentais para nossa produção agrícola e a sobrevivência humana”, afirma.

A PERMATIL atua, essencialmente, em três áreas: na formação de jovens; no programa Hortas Escolares e no programa de Gestão de Recursos Hídricos e Naturais.

A formação de jovens com 17 ou mais anos, organizados em acampamentos, inclui atividades de aprendizagem ligadas à gestão da água, além de noções de agricultura, aquacultura e sistemas agroflorestais. Para os mais novos, são desenvolvidas tarefas mais simples, como jardinagem e preparação de alimentos orgânicos.  Os resultados? Já mais de 5 mil jovens foram formados em todo o país e “a maioria aplica o que aprendeu na formação, quando volta, o que é bom para podermos proteger a nossa natureza”.

Com o programa de Hortas Escolares, já implementado em 250 escolas públicas do 1.º ciclo do ensino básico, as crianças cuidam do cultivo de vegetais, aprendem a fazer compostagem, a controlar pragas naturais e a escolher sementes. “Desenhamos este programa não só para cultivar os produtos, mas como um laboratório vivo, de modo a que os professores os possam usar para ensinar artes, cultura, ciências naturais, sociais, ambiente, entre outros”, explica. No período do surto de covid-19, o programa parou. “Agora estamos a ver como o reativar, mas, por falta de recursos humanos, neste momento estamos focados na questão da água”, disse Ego Lemos.

Já com o programa de Gestão de Recursos Hídricos e Naturais, promove-se a recolha de águas pluviais através da construção de lagos ou valas, que armazenam água, recarregam aquíferos e regeneram nascentes. Com a PERMATIL, Ego Lemos e os colegas conseguiram chegar a vários pontos do país. Os resultados e os números deste programa são impressionantes: mais de mil lagoas de recolha de água construídas, 300 nascentes revitalizadas e mais de 400 mil habitantes beneficiados. “Já fizemos atividades de permacultura em mais de 500 aldeias e, neste ano, vamos percorrer mais, porque o nosso alvo são todas aquelas com nascentes”, adianta.

O maior prémio: melhorar a vida dos timorenses

Mestre em Desenvolvimento Comunitário, pela Universidade de Vitória, na Austrália, e atualmente doutorando de Agricultura e Ambiente na Ásia e África, na Universidade de Quioto, no Japão, Ego Lemos diz que gosta de criar e depois aprender. Foi o que aconteceu com os projetos de conservação de água. “Criámos primeiro a iniciativa e posteriormente aprendemos com aquilo que fizemos, confrontando-o com referências de outros países”, detalha.

O reconhecimento chegou em 2018, quando ganhou o prémio de Direitos Humanos Sérgio Vieira de Mello, atribuído pelo então presidente da República de Timor-Leste, Francisco Guterres ‘Lú-Olo’. Em 2023, recebeu a Medalha de Ordem de Timor-Leste das mãos do presidente José Ramos-Horta. No mesmo ano, ser-lhe-ia atribuído o prémio Ramon Magsaysay, nas Filipinas.

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Ego Lemos venceu, em 2023, o prémio Ramon Magsaysay, nas Filipinas, na categoria de visionário de soberania alimentar/Foto: DR

José Ramos-Horta nomeou-o, também em 2023, Embaixador da Boa Vontade para o Ambiente e Cultura. O cargo permitiu-lhe representar Timor-Leste na conferência de permacultura na Austrália, que decorreu em abril do ano passado. “Como ambientalista, tenho a responsabilidade de continuar a promover o ambiente na minha música e a música no ambiente”, sublinha, visivelmente orgulhoso.

O reconhecimento não lhe inchou o ego. A humildade mantém-se, mas as atividades não param. A PERMATIL vai organizar um evento de acampamento nacional e internacional em agosto deste ano, em Dare. No nacional, serão convidados jovens dos municípios para aprenderem sobre a permacultura. No evento internacional, a juventude de outros países partilhará experiências, desafios e soluções para as alterações climáticas. Em final de agosto, será ainda organizado um festival de cultura e ambiente em Díli.

Ego Lemos já foi abordado para entrar no mundo da política, mas recusou por acreditar que pode mudar o país de outra forma. E já mudou a vida de quase um terço da população timorense. A entrega, essa, está sempre lá. Antes de terminar a conversa, com o sorriso que lhe é habitual e com a sua voz agradável – traços que lhe reforçam a humildade –, deixa o apelo: “Temos de aproveitar a época das chuvas para plantar mais árvores e garantir mais nascentes. É preciso pensar nas gerações futuras”.

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