Dia Mundial do Idoso

Cidadãos com mais de 60 anos partilham como é envelhecer em Timor-Leste, a relação com a família, saúde e apoio do Governo

Cerimónia de lançamento do subsídio de apoio para idosos e pessoas com alguma limitação, em Liquiçá /Foto: DR

O Governo disponibiliza o subsídio de 342 dólares de seis em seis meses para cidadãos da terceira idade. Será que o subsídio é suficiente para garantir o acesso à saúde, a uma alimentação saudável e a uma vida digna?

Comemora-se a 01 de outubro, o Dia Mundial do Idoso, data estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1991, com o objetivo de sensibilizar a sociedade para as questões relacionadas com o envelhecimento e para a necessidade de proteger e cuidar desta fatia da população.

A Assembleia da ONU, no ano passado, proclamou a Década do Envelhecimento Saudável das Nações Unidas (2021-2030) – uma colaboração global, alinhada com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Na altura, reuniram-se todos os governos, a sociedade civil, agências internacionais e órgãos de comunicação social para discutirem formas de melhorar a vida dos idosos.

Em Timor-Leste, a terceira idade dá-se a partir dos 60 anos. No país, segundo os dados do censo 2022, há 1,3 milhões de habitantes, dos quais 75 mil são pessoas da referida faixa etária (homens 34.8 mil e mulheres 40.2 mil).

A maioria desta parte da população vive no limiar da pobreza, enfrentando dificuldades alimentares e habitacionais. Para fazer face a esta questão, desde 2008, o IV Governo criou um sistema de proteção social queproteger os idosos. Atualmente, cidadãos com mais de 60 anos e pessoas com alguma limitação têm o direito de receber 342 dólares semestralmente. Segundo os dados do Ministério da Solidariedade Social e do Governo, nos primeiros 6 meses deste ano, 99.564 pessoas beneficiaram do subsídio.

O presidente da República, José Ramos-Horta, na sua intervenção no âmbito da 78.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, há pouco mais de uma semana, em Nova Iorque, informou que, em 21 anos de restauração da independência, os indicadores económicos e socias de Timor-Leste mostram progressos significativos, sobretudo, na redução da pobreza, na diminuição da mortalidade infantil e na esperança média de vida – “que aumentou de 60 para 70 anos”.

Para perceber melhor como é a vida dos idosos no país, o Diligente saiu à rua para conversar com estes cidadãos.

“Muitas vezes, não há ninguém com quem conversar. Então, fico sozinha, sentada no meu quarto. Preciso mesmo de ser animada, porque sozinha penso demasiado”

Anita Maria, 76 anos, doméstica, vive em Bidau/Foto: Diligente

“Nunca ouvi dizer que os idosos tinham uma data especial, mas, como sabemos, nós velhos enfrentamos muitos desafios e dificuldades na vida, porque a idade aumenta e a força diminui. Todos os dias, fico em casa e faço aquilo que consigo, cozinho e limpo.

Tenho três filhos e todos já têm as suas famílias, então fico aqui sozinha, mas moro perto de um deles. A visita dos meus outros filhos depende da disponibilidade deles, porque todos trabalham. Muitas vezes, não há ninguém com quem conversar. Então, fico sozinha, sentada no meu quarto. Preciso mesmo de ser animada, porque sozinha penso demasiado. Neste momento, tenho problemas de visão e audição. Quando alguém fala comigo, tem de fazê-lo em voz alta, caso contrário não ouço. Esta limitação, às vezes, irrita os meus filhos e netos. Quanto à visão, já fui operada à vista direita, mas à esquerda ainda não.

Também tenho diabetes e tensão alta. Fui ao médico no Hospital Nacional e ele receitou-me medicamentos, que os meus filhos compraram na farmácia portuguesa, tomo-os e sinto-me melhor. Segundo a recomendação dos profissionais de saúde, o mais importante é ter cuidado com a alimentação. Normalmente, como arroz, peixe, frango e bananas.

Estou muito agradecida pelo reconhecimento do Governo para com os idosos através do pagamento do subsídio. Para mim, este subsídio ajuda-me muito, consigo sustentar-me e ainda dar algum dinheiro aos meus netos”.

“O Governo tem a responsabilidade de continuar a apoiar-nos, não basta oferecer o subsídio e abandonar-nos, deve garantir a qualidade de vida”

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Nuno Morreira Ximenes, 80 anos, pedreiro, vive em Comoro/Foto: Diligente

“Todas as pessoas querem ser jovens, porque nessa idade ainda somos fisicamente fortes, mas o tempo passa e começamos a enfrentar dificuldades e limitações. É o caminho da vida, do qual não nos podemos afastar.

O meu cabelo já está todo branco, a maioria dos meus dentes já caiu e a pele está engelhada, mas o meu espírito ainda é jovem. Tento sempre fazer atividade física, sobretudo na construção civil. Os meus filhos, muitas vezes, pedem-me para não continuar a trabalhar, mas não me sinto bem quando fico em casa.

Recebo mensalmente a pensão dos veteranos. As pessoas perguntam-me porque é que continuo a trabalhar. É por uma questão da saúde. Considero a minha profissão, de pedreiro, como ginástica. Quando não fazemos exercício físico, as doenças podem surgir a qualquer momento. Por outro lado, preciso de trabalhar para ajudar a família, a vida na capital não é fácil, é preciso dinheiro para tudo.

Felizmente, nunca tive doenças graves, apenas febre e dor de cabeça. Costumo comer os produtos locais como batata, mandioca, banana e sedok (arroz misturado com folha de papaia e feijão).

No entanto, preocupo-me com os outros idosos, muitos têm problemas de saúde e vivem no limiar da pobreza, sobretudo os que estão nas áreas rurais. O Governo tem a responsabilidade de continuar a apoiar-nos, não basta oferecer o subsídio e abandonar-nos, deve garantir a qualidade de vida”.

“Se o Governo enviasse os profissionais de saúde para nos visitar e fazer tratamento em casa, seria melhor”

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Lena Marçal, 81 anos, vive em Bidau/Foto: Diligente

“O que vou fazer na minha terceira idade? Passo os dias sentada e, quando me sinto mais cansada, vou dormir. Não posso movimentar-me muito bem, porque que já não tenho força, então não vou à rua. Fico isolada dentro da casa. Para ir à casa de banho, preciso que alguém me leve ao colo. Vivo com os meus filhos e netos e eles ajudam-me. Porém, quando todos estão a trabalhar e na escola, sinto mais dificuldades.

A minha alimentação é só canja, não como mais nada. Quando tenho dinheiro, então junto espinafres. Recebo a pensão dos idosos e fico muito feliz com este apoio do Estado, porque é uma ajuda, mas apenas recebemos o dinheiro semestralmente, o que não é bom. O dinheiro que recebo não dura um mês, porque também ajudo os meus filhos e netos. Gostaria de receber o subsídio mensalmente para poder pagar as despesas diárias.

A minha saúde já não é a melhor, tenho febre e dores de cabeça frequentemente e o ácido úrico também está alto. Não fui ao hospital, porque não posso andar. Quando tenho estes sintomas, os meus filhos compram os medicamentos e eu tomo, mas não me sinto melhor. Se o Governo enviasse os profissionais de saúde para nos visitar e fazer tratamento em casa, seria melhor”.

“Enquanto tiver força, não peço nada ao Governo. O importante é vivermos em segurança e em liberdade”

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Manuel Sarmento, 78 anos, produtor e vendedor dos fogões tradicionais em Díli/Foto: Diligente

“Todos os dias produzo fogões feitos em barro, que levo na carreta para vender em todas as zonas da cidade. Moro em Becora e tenho de andar até Comoro. Estou feliz com o meu trabalho, apesar de ser cansativo. Ando sempre de um lado para o outro e isso é muito bom na minha idade, preciso de me movimentar.

Mesmo que esteja velho e tenha pouca força, ainda estou cheio de energia para trabalhar. E tenho mesmo de o fazer, porque tenho dez filhos e netos. Os meus filhos ainda não têm emprego, então ajudam-me a fazer fogões.

As pessoas dizem-me que já não devia trabalhar, mas preciso mesmo de dinheiro para responder a todas as necessidades familiares. Felizmente, consigo ganhar 25 dólares por dia.

Recebo a pensão dos veteranos, mas fiz um crédito, então mensalmente recebo uma quantia muito reduzida, que não chega para as necessidades. Sendo assim, obrigatoriamente, tenho de ter outras atividades rentáveis. Enquanto tiver força, não peço nada ao Governo. O importante é vivermos em segurança e em liberdade”.

 

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Ver os comentários para o artigo

  1. Sou de Timor e idoso!

    Continuo a ser orgulhoso
    Do Timor tao amoroso
    Gente simples, POVO bondoso
    Sofredor, com algum politico guloso
    Esbanja $26000 com boxista famoso
    Mas que gozo
    Sou de Timor e idoso!

    Ze Katuas
    Pueta de TL, felizardo a viver na diaspora

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