Dengue: alegada negligência médica na morte de criança de três anos

Mosquitos de Aedes Aegypti levam o vírus de dengue/Foto: Diligente

Por não conseguir falar, tal era a dor, mordia os lábios até sangrar. Com a cara lavada em lágrimas, mal se conseguia mexer. A mãe testemunhava, impotente e desesperada, a luta da filha. Na madrugada de 13 de maio, Royalty Maria de Jesus Moniz perdeu a batalha contra a doença. Tinha três anos e sete meses.

A morte infantil por dengue é uma tragédia que assola, todos os anos, muitas famílias em Timor-Leste. A doença é causada por um vírus, transmitido por mosquitos, para o qual ainda não há medicação específica e que apresenta diferentes fases de agravamento. O diagnóstico e tratamento precoces permitem mitigá-lo e evitar que se espalhe pelo corpo e resulte em morte.

A tia de Royalty, Octávia Gonçalves, que acompanhou a situação dramática da sobrinha e se disponibilizou a contá-la ao Diligente, recorda com carinho a “princesa da família”, que sempre “foi uma criança feliz, muito faladora e vaidosa”. Autónoma desde os primeiros passos, assim que se levantava, às 5h ou 6h da manhã, ia sozinha tratar do seu pequeno-almoço. Com menos de quatro anos, já sonhava em ir à escola. O desejo “cumpria-se” com os primos da mesma idade, com quem costumava brincar como se estes fossem seus alunos e os estivesse a ensinar.

A família de Royalty vive em Manleu, Díli, numa casa com quintal. Consciente dos perigos e para evitar as doenças causadas pelos mosquitos, a mãe foi sempre incansável quando se tratava de aplicar, de manhã e à tarde, repelente nos filhos. Dentro de casa, também pulverizava inseticida, todos os dias.

Apesar de todos os cuidados da mãe, Royalty começou a mostrar alguns sintomas do vírus da dengue, no dia 7 maio. Os primeiros sinais de alerta chegaram quando a menina, que era sempre muito ativa, começou a ficar mais taciturna e com febre.

A tia conta que os pais chegaram a achar que o estado da menina se devia às “saudades que sentia dos avós”, que costumava visitar regularmente em Colmera, e que já não via há algum tempo.

Levaram-na, então, a visitar os avós, na esperança que melhorasse. Estes, assim que a viram, aconselharam os pais a levá-la logo para o hospital. Foram de imediato para o Hospital Municipal de Vera Cruz, em Díli, no mesmo dia 7. De acordo com o relato da tia de Royalty, alegadamente, os enfermeiros que a atenderam disseram que estava tudo bem, mesmo sem a examinar ou fazer o teste da dengue. Receitaram-lhe apenas paracetamol para a febre e mandaram os pais e a criança para casa, com a indicação de que voltassem a trazê-la, caso o seu estado de saúde piorasse nos três dias seguintes.

A febre diminui, mas voltou três dias depois e mais alta ainda. Além disso, perdeu o apetite e começou a ter vómitos com sangue. No dia 10 de maio, às 23h, os pais levaram-na diretamente ao Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV).

Nesse mesmo dia, os médicos puseram-na a soro, medicaram-na com paracetamol e usaram também compressas frias para tentar que a febre baixasse. Só no dia seguinte, 11 de maio, é que fizeram análises ao sangue. Ao mesmo tempo que recolhiam a amostra de sangue, os médicos avisaram os pais da menina que, se fosse dengue, a condição era crítica e já era muito tarde para fazer uma transfusão de sangue, conta a tia, ainda com a voz trémula.

A transfusão de sangue é um tratamento de último recurso, apenas usado no estádio grave da dengue, quando o paciente liberta sangue no vómito, nas fezes e também pelo nariz.

Enquanto esperava o resultado, Royalty tentava suportar uma dor que não conseguia pronunciar. Sem se conseguir mexer e com a cara lavada em lágrimas, mordia os lábios até sangrarem. O corpo, cada vez mais magro, porque praticamente não comia desde que regressou do hospital de Vera Cruz para casa, há quase quatro dias. O resultado do teste chegou no dia 12 à tarde. Positivo para dengue. A menina não resistiu ao vírus. Acabaria por morrer na madrugada de 13 de maio.

A irmã mais velha de Royalty também acusou positivo para o vírus da dengue. Rainha de Jesus Moniz, 7 anos, foi internada no hospital de Vera Cruz, um dia antes da morte da irmã, por insistência do pai, uma vez que o procedimento dos profissionais de saúde foi em tudo igual ao que tinha acontecido com a filha mais nova. “Deram-lhe comprimidos e, como com a Royalty, disseram para voltar no prazo de três dias, caso piorasse”, conta Octávia, relembrando o discurso dos médicos.

De sobreaviso e preocupado com o estado em que estava Royalty no HNGV, o pai insistiu que a filha mais velha fosse testada. O resultado positivo chegou passadas cinco horas. Foi imediatamente feita uma transfusão de sangue e começou a tomar paracetamol de duas em duas horas para baixar a temperatura corporal. Ficou internada durante três dias, até que a febre baixou e teve alta para voltar para casa.

A tia das crianças questiona o comportamento dos médicos e enfermeiros do Vera Cruz e considera que “não foram profissionais”.

O teste

Questionada sobre o caso de Royalty, a chefe do hospital de Vera Cruz confessa não estar a par da situação. Ainda assim, Marília Piedade, reconhece que, “às vezes, os médicos aconselham os pacientes a voltarem para casa por estarmos na época seca, altura em que normalmente não acontecem surtos de dengue, por isso, normalmente, não suspeitam que seja dengue”.

Porém, a responsável alerta para o facto de o teste de sangue ser obrigatório em qualquer época, sobretudo na época da chuva. “Depois de 24 horas com febre, o teste deve ser feito”, realçou. “Os pacientes são encaminhados para casa, quando o seu estado de saúde não é considerado alarmante, podendo voltar ao hospital depois de três dias, caso piorem”.

Questionada sobre o motivo pelo qual não fizeram o teste de dengue a Royalty, a responsável argumenta que “se calhar, houve falta de reagentes para o realizar”. De acordo com a mesma fonte, “a escassez deve-se à elevada prevalência de pacientes com dengue na época da chuva”. Apesar disso, a responsável assegura também que “o reabastecimento não demora mais do que uma semana, depois de feito o pedido ao Serviço Autónomo de Medicamentos e Equipamentos de Saúde (SAMES)”.

Caso não haja reagentes suficientes, os pacientes em pior estado têm prioridade para realizarem o teste e, se for positivo, começam de imediato a tomar paracetamol. Os que não apresentam sintomas graves, aguardam três dias para averiguar se o vírus está realmente a desenvolver-se.

Relativamente ao caso de Royalty, que foi mandada para casa e cuja família foi aconselhada a voltar ao hospital Vera Cruz caso piorasse, a diretora acredita que tenha havido problemas de comunicação entre os médicos e os familiares, que deveriam ter sido alertados para a importância de levar a criança imediatamente para o HNGV, caso tivesse febre alta ou dores de barriga. “Se fornecêssemos informações claras aos parentes, talvez pudéssemos evitar este tipo de situações”, sublinhou Marília Piedade, naquilo que parece ser o reconhecimento de uma possível negligência do pessoal hospitalar do Vera Cruz.

Por sua vez, a chefe do departamento de Pediatria do HNGV, Milena Lay dos Santos, ainda que igualmente sem conhecimento do caso específico de Royalty, também defende que o teste da dengue deve ser feito a todas as crianças que se dirijam ao hospital com febre. “Haja suspeita ou não de dengue, é obrigatório realizar o teste, porque a possibilidade de contágio existe sempre, tanto na época da chuva como na seca”. A chefe acrescentou que o HNGV está a registar, atualmente, em média, cinco casos de dengue por dia.

A médica garante ainda que, sempre que os pacientes chegam à unidade de emergência do HNGV com febre alta, são testados para a dengue. O resultado demora apenas duas horas. Na mesma unidade, os pacientes que chegam nessas condições, além de fazerem o teste, recebem de imediato prontos-socorros e são monitorizados, enquanto esperam o resultado do teste.

Sobre a demora no resultado do teste de Royalty, que, em vez de duas horas, demorou um dia, Milena dos Santos alega que quando essas situações acontecem é devido “ao desempenho da máquina, muitas vezes, sobrecarregada com testes”.

Ainda de acordo com a mesma responsável, depois de terem o resultado do exame, as crianças que não apresentem sintomas graves, não ficam internadas. No entanto, quando o resultado é positivo, “devem voltar diariamente ao HNGV para serem monitorizadas e repetir análises sanguíneas”.

A gravidade da doença é classificada de acordo com três categorias: leve, moderada e grave. “Em caso de sinais que indiquem que a doença pode estar a subir de leve para moderada ou, caso a criança se inclua no que designamos como grupo de risco, deverá ser internada para receber infusão de soro e fazer análises sanguíneas de duas em duas horas”, explicou a chefe do departamento da pediatria. Consideram-se do grupo de risco os doentes cardíacos, pessoas malnutridas, crianças com menos de um ano ou com excesso de peso.

A mesma fonte informou que alguns pacientes se dirigem ao HNGV “já em estado grave e com sinais de alarme, como pés e mãos frios, tensão baixa, concentração baixa de oxigénio no corpo devido a hemorragias e o pulso fraco, por isso, é importante a monitorização regular. Precisamos de detetar o vírus o mais cedo possível. Os pacientes não devem esperar até vomitarem sangue ou terem fezes escuras. Se, ainda por cima, fizerem parte do grupo de risco, será difícil recuperarem”, alerta a chefe da pediatria.

O HNGV recebe pacientes em estado grave provenientes de cinco hospitais, dos municípios de Baucau, Maliana, Oecússe, Suai e Maubisse e também os utentes das clínicas de Díli, que recorrem ao hospital nacional. A chegada tardia dos pacientes ou em estado grave leva a que “muitos acabem por falecer no HNGV”, admitiu a pediatra.

O ciclo da dengue

A primeira fase é a incubação, sinalizada com febre durante três dias. Os sinais são vómitos, falta de apetite, diminuição de plaquetas no sangue, dor de barriga, náuseas, pontos vermelhos no corpo, tosse e muco nasal, explica a médica do hospital de Vera Cruz, Marília Piedade.

Já a pediatra do HNGV, Milena Lay dos Santos, explica relativamente à segunda fase, que acontece ao quarto ou sexto dia, quando a febre desaparece, a tensão diminui e as mãos e os pés ficam frios. A este estado dá-se o nome de condição de choque. Nesta fase crítica, “o vírus começa a atacar o sistema imunitário e rompe os vasos sanguíneos, causando hemorragias e a consequente perda de proteínas e de outras componentes importantes”, esclareceu.

Vómitos persistentes, falta de apetite, dor de barriga ou nos pulmões e tensão baixa, devido à diminuição de oxigénio no sangue, são os sintomas desta fase crítica.

A médica salientou que, se o vírus atingir o cérebro, o paciente começa a ter alucinações, sofre convulsões ou crises cerebrais e pode até ficar paralisado. “Por isso, quando a febre baixa, é sinal que o paciente vai entrar na fase crítica e deve ser levado para o hospital o quanto antes”.

Sugere, por isso, aos familiares que estejam atentos aos sintomas das crianças, sobretudo à respiração, à temperatura, ao pulso e à circulação sanguínea. “Para saber se a circulação sanguínea é normal, pressionamos a ponta dos dedos durante dois segundos e verificamos se volta ao normal rapidamente”, aconselhou.

Se, nesta fase crítica, receberem tratamento adequado, os pacientes têm ainda hipóteses de recuperar, concluiu.

“Não existe um tratamento específico para a doença, mas a deteção precoce e o acesso a cuidados médicos adequados reduzem consideravelmente a taxa de mortalidade da dengue grave”, lê-se no site da Organização Mundial de Saúde.

Também a médica, Marília Piedade, considera a prevenção “o ‘tratamento’ mais eficiente”. Para além da procura atempada de cuidados médicos, destaca que “possíveis contágios podem ser acautelados ao limpar as valetas, trocar a água dos vasos e dos tanques, tapar os reservatórios de água, usar repelente e rede mosquiteira e vestir roupa com mangas compridas, principalmente entre as 6h e as 18h”.

Milena dos Santos lembra que, em 2015 surgiu uma vacina para a dengue, nas Filipinas. Porém, “não chegou a ser distribuída em Timor-Leste por não estar comprovada a sua eficácia”.

Prevalência de casos de dengue

De janeiro a junho deste ano, o hospital de Vera Cruz registou 124 casos de dengue e zero mortes. “O espaço só atende os casos leves e moderados. Os pacientes que vêm em estado de choque são transferidos diretamente para o HNGV” o que, de acordo com Marília Piedade, pode justificar que não se registem mortes no hospital municipal.

Comparando com o mesmo período do ano passado, o hospital de Vera Cruz registou, este ano, cinco vezes mais pacientes de dengue. Em 2022, registaram-se 694 casos e, à semelhança deste ano, nenhum óbito.

Por sua vez, até meados de julho de 2023, a direção de pediatria do HNGV, unidade que recebe desde recém-nascidos até crianças de 15 anos, registou 508 crianças com dengue e nove óbitos. No mesmo período do ano passado, registaram-se o dobro dos casos.

Em 2022, a pediatria do HNGV sinalizou 1.252 casos de dengue, num total de 3.671 crianças atendidas. No mesmo ano, morreram 64 crianças, no que se considerou ser um surto da doença. Milena Lay explica, no entanto, que “mesmo que não estejam a ocorrer surtos de dengue ou que estejamos na época seca, isso não significa que não se registem casos da doença”.

A Direção Nacional da Saúde Pública (DNSP) reportou, até 17 de julho, 1.438 casos de dengue e 7 óbitos em Timor-Leste. No ano passado, registaram-se, no mesmo período, 5.436 casos de dengue e 58 mortos.

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