Galileo Madeira: “As pessoas que têm tatuagens podem ser mais autoconfiantes por terem uma obra de arte no seu corpo”

As partes do corpo mais comuns para tatuar incluem braços, pernas, costas, peito e ombros, mas os desenhos podem ser feitos em praticamente qualquer região: procedimento exige rigor na higiene e segurança/Foto: DR

Em entrevista ao Diligente, o tatuador reflete sobre a atividade artística e aborda os desafios da profissão em Timor-Leste.

Tatuagem é uma marca permanente feita na pele através da injeção de pigmento na derme, a camada mais profunda da epiderme. Pode ser feita por várias razões, incluindo expressão pessoal, homenagem a entes queridos ou simplesmente por apreciação estética. Em Timor-Leste, contudo, os desenhos no corpo, muitas vezes, não são bem vistos.

O preconceito, porém, não impede que cada vez mais pessoas decidam fazer as tatuagens: é do conhecimento geral que o procedimento tem a capacidade de elevar a autoestima – razão esta que serve de principal motivação para que homens e mulheres procurem os serviços de um profissional.

No país, não são muitos os tatuadores, mas Galileo Madeira é um talentoso representante que honra a profissão. Natural de Díli, o jovem de 28 anos viveu sete anos em Portugal, onde concluiu a licenciatura em Design na Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia (IADE), em Lisboa. A formação permitiu-lhe conhecer teorias que lhe são úteis para a atividade de tatuador.

Após terminar os estudos, regressou a Timor-Leste em 2020 e decidiu apostar na arte da tatuagem, ofício que seu pai exercia antes de falecer. Juntou as economias e abriu um estúdio em Bidau, em Díli, que funciona diariamente. 

Conte-nos um pouco como saiu de Timor para estudar em Portugal? Como foi a adaptação?

Andava na escola portuguesa, onde tirei o curso de arte e aprendi todas as disciplinas em língua portuguesa. Em 2016, decidi candidatar-me a uma bolsa de curta duração para estudar em Portugal durante seis meses. Passei e fui estudar.  Fiquei surpreendido e assustado quando cheguei a Portugal, é um ambiente, contexto social e cultura muito diferentes daqui. Em Portugal, as pessoas vivem cada uma focada na sua vida. Aqui, o estilo de vida é mais sociável, sentamo-nos a falar uns com os outros. Por exemplo, quando uma pessoa passa à frente da nossa casa, mesmo que não a conheçamos, cumprimentamo-la e perguntamos se é servido, se estivermos a comer. Em Portugal, as pessoas comem dentro de casa e têm o seu dia programado. A comida lá também é muito diferente da daqui. O meu primeiro ano foi muito difícil, mas depois adaptei-me.

Quando acabei o curso, candidatei-me ao IADE. Frequentei o curso de Design durante sete anos e depois trabalhei em Portugal. 

Tirou a licenciatura de Design em Portugal. Como surgiu o interesse pela tatuagem e em que momento decidiu ser tatuador profissional?

Quando era criança, via o meu pai a tatuar as pessoas. Queria apreender, mas ele não me deixou, porque achava que eu não ia arranjar emprego. Depois de ele morrer, em 2013, aprendi a tatuar, mas depois fui para Portugal e tatuar passou a ser apenas um passatempo. Fui estudar para ter um emprego no futuro. Em 2020, voltei para Timor-Leste, mudei de ideias e decidi ser tatuador profissional. O curso de Design ajudou-me bastante a aprofundar esta profissão, porque aprendi teorias que posso aplicar quando tatuo. Uso software que usava na faculdade, o photoshop ilustrator, para fazer montagens de fotografias e tatuagens e também para editar.

O processo de tatuar envolve o uso de uma máquina de tatuagem, que insere agulhas na pele para depositar o pigmento. Antes de começar a tatuar, o tatuador desenha ou transfere um esboço do desenho na pele do cliente. Em seguida, a máquina de tatuagem é usada para traçar e preencher o desenho com pigmento. 

Porque decidiu voltar a Timor-Leste? Como conseguiu abrir o seu negócio?

Voltei a Timor-Leste, porque queria contribuir para o meu país com o meu talento, principalmente na arte e design. Percebi que tatuar é a melhor forma de o fazer e decidi criar um lugar para tatuar. 

Quantas pessoas por média tatua por mês? Qual é o perfil deste público?

Mensalmente, não tenho muitos clientes, porque muitas pessoas acham o preço muito caro. São jovens, e em igual número de homens e mulheres. Para tatuar menores de idade, têm de ter a permissão dos pais.

“A tatuagem tem muitas vantagens. A primeira tem a ver com arte na pele. A segunda vantagem é aumentar a autoestima. As pessoas que têm tatuagens podem ser mais autoconfiantes por terem uma obra de arte no seu corpo”

Como define o preço de uma tatuagem?

O preço varia de acordo com o tamanho e detalhes da tatuagem. Para tatuar, preciso de muitos materiais: luvas, agulha, tinta. E estes instrumentos são usados apenas para uma pessoa. Então, tenho de estabelecer um preço razoável para que possa comprar os materiais e, ao mesmo tempo, ter algum lucro. O preço mínimo é 25 dólares. A escolha do design e do local da tatuagem é pessoal e varia de acordo com as preferências individuais. Algumas pessoas optam por tatuagens pequenas e discretas, enquanto outras preferem designs maiores e mais elaborados. Os locais mais comuns para tatuar incluem braços, pernas, costas, peito e ombros, mas as tatuagens podem ser feitas em praticamente qualquer parte do corpo. Se o cliente quiser tatuar as costas inteiras, posso demorar mais de quatro meses, dependendo do cliente. Se aguentar a dor, posso fazê-lo em um ou dois meses. Caso o cliente não aguente, podemos fazer primeiro uma sessão, por exemplo, faço uma linha, e depois na semana seguinte, faço uma segunda sessão, em que coloco a tinta para desenhar alguns detalhes. Em todas as sessões, troco a agulha. O cliente só paga o equivalente ao preço da agulha e da tinta. Cada sessão pode durar oito a nove horas. 

Pode contar-nos quais são vantagens e desvantagens das tatuagens?

A tatuagem tem muitas vantagens. A primeira tem a ver com arte na pele. A segunda vantagem é aumentar a autoestima. As pessoas que têm tatuagens podem ser mais autoconfiantes por terem uma obra de arte no seu corpo. Uma das desvantagens tem a ver com o emprego. Em muitas ofertas de trabalho, sobretudo em instituições estatais, um dos critérios é não ter tatuagens. Outra desvantagem é o preconceito da maioria das pessoas, que acha que os jovens que têm tatuagens são criminosos e toxicodependentes. Também pode acontecer alguns tatuadores não utilizarem instrumentos higienizados ou usaram os mesmos instrumentos para tatuar várias pessoas, podendo haver o risco de transmissão de doenças.

“Para mudar a mentalidade das pessoas, temos de nos mostrar e mostrar o que fazemos sem medo. Ninguém tem o direito de interferir na vida de ninguém, nem aquilo que cada um faz com o seu corpo”

Em Timor-Leste, existem muitos preconceitos com as pessoas que têm tatuagens. O que pensa sobre isto? O que deveria ser feito para acabar com este estigma?

Acho que este estigma não acontece apenas no nosso país, mas noutros países também. As tatuagens não definem o caráter de uma pessoa. Cada qual tem o seu caráter independentemente de ter ou não tatuagens. Não só as mulheres, mas os homens também sofrem preconceito, incluindo eu. As pessoas acham que um jovem com tatuagens é desempregado, toxicodependente ou criminoso, mas, na verdade, não há relação entre a profissão ou o caráter das pessoas e as tatuagens. A tatuagem é uma obra de arte, fazemos se quisermos. Para mudar a mentalidade das pessoas, temos de nos mostrar e mostrar o que fazemos sem medo. Ninguém tem o direito de interferir na vida de ninguém, nem aquilo que cada um faz com o seu corpo. 

Como avalia o atual panorama do setor da tatuagem no país?

Em Timor-Leste ainda não há muitos clientes, então também não há muitos artistas. Muitos tatuadores, por medo do preconceito, escondem o que fazem. No ano passado, o grupo Resist, composto por músicos, pintores e poetas, organizou um festival de tatuagem, na organização HAK (Hak Asasi dan keadilan, em língua indonésia, que significa direitos e justiça), no Farol. Naquela altura, vi que os artistas começaram a mostrar-se mais. Há progressos, mas temos de continuar a lutar para exista uma comunidade de tatuadores no país.

“No futuro, queria que existisse uma comunidade de tatuadores em Timor-Leste. Para isso, temos de lutar para formar profissionais na área e, pouco a pouco, mudar o preconceito social”

Quais são seus planos para futuro?

No futuro, queria que existisse uma comunidade de tatuadores em Timor-Leste. Para isso, temos de lutar para formar profissionais na área e, pouco a pouco, mudar o preconceito social. Através dessa formação, os tatuadores podem aprender como tatuar bem e a seguir com rigor os protocolos de higiene e segurança, minimizando o risco de complicações, como infeções, reações alérgicas e doenças transmissíveis.

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