Dia Mundial de Prevenção do Suicídio: jovens timorenses partilham dor, coragem e esperança

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem/Foto: Unsplush

 Assinala-se hoje o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Em Timor-Leste, o suicídio continua a ser uma preocupação crescente: mais de 40 mortes por automutilação foram registadas em 2021, principalmente entre jovens de 15 a 29 anos. Esta é uma luta contra o silêncio, a dor invisível e o estigma que ainda rodeia a saúde mental.

Em Timor-Leste, o suicídio tem sido uma preocupação constante. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2021 registaram-se mais de 40 mortes por automutilação no país, correspondendo a uma taxa superior a três por 100 mil habitantes. A nível global, estima-se que cerca de 720 mil pessoas se suicidem todos os anos — o que significa que, a cada 40 segundos, uma vida é perdida.

O suicídio é hoje a terceira maior causa de morte entre jovens dos 15 aos 29 anos e resulta de múltiplos fatores: sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais.

O suicídio é o resultado de um sofrimento prolongado, muitas vezes silencioso, explicou o psicólogo Alessandro Boarccaech. “Geralmente, a pessoa que pensa em suicídio não tem necessariamente o desejo de morrer, mas sim de acabar com uma dor emocional intensa e de mudar a sua vida.”

A OMS define saúde mental como “um estado de bem-estar em que o indivíduo realiza as suas capacidades, consegue lidar com o stress normal da vida, trabalha de forma produtiva e contribui para a comunidade”. No entanto, para muitos jovens timorenses, este bem-estar é posto à prova diariamente.

Piadas ou comentários duros da própria mãe, a morte do pai e a separação do companheiro — pai do seu filho — foram alguns dos picos de sofrimento que marcaram a vida de Elsa Viana, de 21 anos, que ponderou suicidar-se no início deste ano. A depressão começou a instalar-se ainda no ensino pré-secundário. Os pais descarregavam nela o stress e as frustrações de um ambiente familiar problemático, sobretudo a nível económico.

Assistir às discussões constantes entre os progenitores, somadas às dificuldades do dia a dia, deixou Elsa num lugar frágil, presa a relações tóxicas — tanto com amigos como com o jovem que viria a ser inesperadamente o pai do seu filho. O momento que mudou tudo foi a rejeição da gravidez por parte da sua mãe. Quando o bebé tinha apenas três meses, o progenitor abandonou-os. Poucos meses depois, o pai de Elsa faleceu.

De regresso a casa da mãe, Elsa teve de enfrentar críticas severas e palavras duras, desde piadas a acusações, sendo muitas vezes culpada pelos problemas da família.

“Pensei: o meu bebé também vai crescer sem pai. A minha mãe fala mal de mim e magoa-me com palavras”, recorda, descrevendo como o suicídio passou a surgir como uma saída para pôr fim ao sofrimento. Foram várias as tentativas, mas as irmãs intervieram sempre a tempo de evitar o pior: “retiravam-me os medicamentos, a faca…”.

Um dia, ouviu um sussurro interior: “Elsa, tu consegues.” E ganhou coragem, convencendo-se de que só se vive uma vez, que todos os problemas têm solução e que deveria dedicar-se mais ao filho.

O caminho, no entanto, não foi fácil. Houve momentos em que já não tinha forças para interagir com a família e passava uma semana inteira fechada no quarto a chorar. “Choro para libertar todos os sentimentos, ouço música e penso sempre em palavras encorajadoras. Além disso, faço sempre as minhas orações”, contou. Na universidade, onde estudou Psicologia, conseguiu partilhar a sua experiência e encontrou apoio entre os colegas.

Févio Duarte Brites Correia Guterres, de 23 anos, cresceu a enfrentar episódios de bullying escolar devido a uma condição física que afeta o lado esquerdo do seu corpo. Atualmente, é agente para a inclusão das pessoas com deficiência na organização Raes Hadomi Timor, em Viqueque.

Entre 2021 e 2023, atravessou os momentos mais difíceis da sua vida: enfrentou stress, vergonha e pensamentos suicidas.

O jovem explica que a parte esquerda do corpo é mais pequena do que a direita. Os pais sempre suspeitaram que tal condição pudesse estar relacionada com uma queda sofrida em criança ou com alguma reação a uma vacina.

Apesar dos tratamentos que recebeu, ao ver os colegas a praticar atividades físicas das quais não conseguia participar, sentiu vergonha e entrou em depressão. Recorda, com clareza, que o período mais duro foi entre 2021 e 2023, quando, além do bullying, viveu uma situação que preferiu não detalhar, mas que lhe causou medo e forte stress. “Fiquei profundamente traumatizado e até fui internado devido a tensão arterial elevada”, revelou.

“Cheguei a pensar em suicidar-me”, recorda. Mas encontrou apoio num padre e num grupo de madres que o incentivaram a não desistir. Além da oração, recorreu a exercícios de expressão emocional, como escrever as suas preocupações e queimá-las em rituais simbólicos, ou gritar no mar e nas montanhas para libertar sentimentos acumulados.

Hoje, Févio também aposta no exercício físico para controlar a ansiedade e afirma que aprendeu a valorizar a própria vida: “Um problema passa. Não pode destruir tudo o resto.”

David Cabral, estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), também enfrentou episódios de automutilação e desespero.

“O meu corpo está coberto de cicatrizes, tanto literais como metafóricas”, partilha. Marcado pela violência familiar e pelas memórias do passado, confessa que o medo da solidão continua a persegui-lo. Para não se perder nos pensamentos, procura estar com amigos, cantar, acampar ou até dormir ao ar livre.

David já tinha partilhado a sua história com o Diligente há dois anos. Agora, enfrenta novamente dificuldades, experienciando o que Févio Guterres descreveu como mudanças de humor.

Sempre que fica sozinho, as memórias regressam, sobrecarregando-o, levando-o às lágrimas e a magoar-se. Recentemente, contou que foi queimado pela própria mãe adotiva e que a ferida ainda não cicatrizou.

“É difícil ultrapassar. Desde criança nunca tive a mesma liberdade que os outros. Mesmo quando tinha 23 ou 25 anos e já estava na universidade, a minha mãe adotiva continuava a magoar-me”, relatou o jovem.

“Quando nos sentimos sozinhos, há maior possibilidade de tomarmos más decisões”, alerta, encorajando outros jovens a não enfrentarem a depressão sozinhos.

João (nome fictício) viu-se a viver nas ruas após o divórcio dos pais e a falta de apoio para prosseguir os estudos. Durante três meses, dormiu fora de casa, oscilando entre a rua, casas de familiares e colegas.

Mais tarde, começou a vender cocos e a dar aulas de yoga para se ocupar e reencontrar sentido. “Quando estivermos em depressão, não devemos tomar decisões fáceis e imediatas. É preciso pensar em quem podemos ser daqui a cinco anos”, aconselha.

Para João, pedir ajuda e partilhar a realidade sem vergonha é fundamental: “Falem com amigos, não se isolem. A vergonha pode ser mais perigosa do que o problema em si.”

Arte e criatividade como caminho para lidar com a ansiedade

Catarino Bere, jovem artista timorense, enfrenta atualmente ansiedade enquanto estuda fora do país, longe da família e dos amigos, e lida com novos desafios. A ansiedade manifesta-se ao longo do dia: “Sinto aperto no peito, tremores, dificuldade de concentração, falta de apetite, pensamentos constantes sobre coisas que podem correr mal, vontade de evitar situações sociais e dificuldade em dormir à noite. Esta ansiedade afeta bastante o meu dia a dia, tornando até tarefas simples mais difíceis de realizar.”

No início destas fases mais difíceis, Catarino sentiu-se sobrecarregado e confuso. Tentou ignorar os sentimentos ou manter-se ocupado com os estudos, mas isso muitas vezes aumentava a ansiedade. “Aos poucos, fui percebendo que precisava de reconhecer os meus sentimentos e procurar formas de os gerir de maneira mais saudável.”

O artista começou, então, a procurar pequenas estratégias para acalmar a mente e reduzir a ansiedade. Aprendeu novas atividades, como o croché, que o ajuda a concentrar-se e a aliviar o stress. Além disso, dedica-se a atividades prazerosas, como ouvir música, ler, desenhar ou pintar.

Catarino procura também manter uma rotina de exercício físico, mesmo que apenas uma curta caminhada, e reservar momentos para respirar fundo e relaxar. “Conversar com amigos ou familiares, mesmo à distância, também me ajuda a sentir-me mais apoiado e menos sozinho. Estas estratégias não eliminam totalmente a ansiedade, mas ajudam-me a enfrentá-la de forma mais tranquila e a recuperar alguma sensação de controlo no dia a dia.”

O apoio da família em Timor-Leste e das amigas em Portugal, que o escutam, incentivam e ajudam, tornou os desafios mais fáceis de enfrentar.

Para quem enfrenta dificuldades semelhantes, Catarino Bere deixa uma mensagem de encorajamento: “Não estão sozinhos. É normal sentir ansiedade, tristeza ou stress perante mudanças e dificuldades. É importante reconhecer os sentimentos, aceitá-los e procurar formas saudáveis de lidar com eles. Conversar com alguém de confiança, como amigos, familiares ou profissionais de saúde mental, pode fazer uma grande diferença.”

Encontrar atividades que proporcionem prazer ou relaxamento, como desporto, hobbies criativos ou aprender algo novo, pode aliviar a mente e recuperar algum controlo sobre o dia a dia. “A arte e outras formas de expressão têm sido muito importantes para me ajudar a lidar com a ansiedade e a manter o equilíbrio emocional. Quando desenho, pinto ou faço croché, consigo concentrar-me na atividade e desligar-me um pouco dos pensamentos negativos. Essas atividades permitem-me relaxar, sentir-me mais calmo e ter um momento só meu, longe da pressão do dia a dia.”

Além disso, criar algo com as próprias mãos proporciona sensação de conquista e controlo, contribuindo para a redução do stress. A expressão criativa torna-se, assim, uma forma de libertar emoções, organizar os pensamentos e encontrar equilíbrio mental mesmo nos momentos mais difíceis.

Quebrar o silêncio: a urgência do apoio à saúde mental

O psicólogo Alessandro observou que, em Timor-Leste, as principais causas estão relacionadas com pressões familiares – casamentos forçados, falta de liberdade, exploração económica, violência sexual e bullying.

O isolamento, a discriminação, a rejeição familiar e social e a falta de apoio emocional podem desencadear sentimentos de impotência, solidão e desesperança, afirmou o psicólogo. Além disso, o sofrimento psicológico causado por estados de depressão, de ansiedade ou de traumas não tratados também pode levar a pensamentos suicidas. Relações familiares rígidas ou autoritárias podem impedir que as pessoas expressem emoções ou procurem ajuda, aumentando o isolamento e o sofrimento psicológico.

Segundo Févio Guterres, em Timor-Leste, a epilepsia continua a ser muitas vezes associada a fenómenos místicos, em vez de ser tratada como uma condição médica. Raramente quem sofre desta doença é encaminhado para consultas psiquiátricas. Esta perceção errada faz com que, ao longo do tempo, muitos doentes acabem por desenvolver deficiências mentais ou psicossociais.

O jovem alerta ainda para outro problema crescente: o consumo excessivo de conteúdos mediáticos e a pressão para imitar os estilos de vida e modas que se veem nas redes sociais. “Há pessoas que entram em relações amorosas sem qualquer preparação ou conhecimento, ficam sobrecarregadas, entram em stress e, em alguns casos, acabam por decidir tirar a própria vida”, observou. Outros, acrescentou, contraem dívidas para manter um estilo de vida que não conseguem sustentar e, sem alternativas, recorrem ao roubo.

“Isso também é um problema de saúde mental. Achamos que estamos bem, mas não. As redes sociais têm um grande impacto na nossa saúde mental se não as soubermos usar. E muitas vezes não estamos conscientes quando isso acontece”, explicou Févio.

Para ele, outro estigma enraizado na sociedade timorense é a ideia de que pessoas com perturbações mentais são fracas. “Quando alguém passa por uma separação, um divórcio, uma traição ou violência doméstica, em vez de compreendermos e apoiarmos, julgamos e culpamos essas pessoas. Não tentamos perceber nem nos aproximamos”, lamentou.

“A saúde mental é um assassino silencioso. Pode atingir qualquer pessoa. Precisamos de parar com o estigma, com a culpabilização e o julgamento. Não é apenas dizer que alguém se matou porque tinha muitas preocupações”, reforçou.

Févio Guterres aconselha os que passam por momentos traumáticos a escreverem o que sentem, a libertarem as emoções através do grito, a praticarem desporto ou outras atividades que ajudem a aliviar a pressão.

Em Timor-Leste, o acesso a acompanhamento psicológico continua a ser limitado e rodeado de preconceitos. Expressões como “quem vai ao médico de saúde mental não está bem da cabeça” afastam muitos de procurarem ajuda.

Para o artista Catarino Bere, estas barreiras sociais e culturais têm consequências sérias: levam ao isolamento e aumentam a ansiedade e o stress. “É essencial ser paciente consigo mesmo e lembrar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas sim de coragem!”, sublinhou. Acrescentou ainda que as pressões sociais, familiares e económicas tornam mais difícil gerir estudos, trabalho e expectativas pessoais.

Catarino defende a criação de mais serviços de saúde mental acessíveis, com psicólogos e profissionais preparados para ouvir e orientar os jovens. Para ele, é igualmente crucial reduzir o estigma associado a falar sobre sentimentos e procurar ajuda, de modo a que ninguém se sinta envergonhado ou isolado.

O jovem lamenta também a falta de recursos e de espaços para os jovens desenvolverem competências artísticas ou musicais, sugerindo a criação de programas que incentivem a expressão criativa através da arte, da música, do teatro ou de hobbies. “São formas saudáveis de expressar emoções, aliviar o stress e combater a ansiedade”, destacou.

“Acredito que mais apoio comunitário e escolar, através de programas educativos sobre saúde mental e redes de apoio entre pares, faria uma grande diferença no bem-estar emocional dos jovens, tanto em Timor-Leste como em qualquer comunidade”, concluiu Catarino Bere.

“Para os que estão em momentos difíceis, tentem procurar coisas para fazer, ouçam música animada, visitem lugares sossegados, perto do mar, por exemplo, ou lugares sagrados para orar e aliviar a dor, se não quiserem falar”, sugeriu Elsa Viana.

O psicólogo Alessandro Boarccaech, por sua vez, dirigiu-se a quem atravessa momentos de desespero, lembrando que ninguém está sozinho. “Mesmo quando tudo parece perdido, há sempre alguém disposto a ouvir – um amigo, um professor, um familiar ou um profissional de saúde. O sofrimento que agora parece insuportável pode ser aliviado e tratado, mas é preciso dar o primeiro passo: falar.”

Catarino Bere reforçou a ideia, afirmando que procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem e de cuidado consigo próprio. Segundo ele, a vida pode recuperar cor e sentido — pedir apoio é o início desse caminho.

Sinais de alerta

É fundamental estar atento a mudanças bruscas de comportamento. Alessandro Boarccaech mencionou alguns sinais, como isolamento repentino, perda de interesse por atividades habituais, alterações no sono ou no apetite, quebras no rendimento escolar ou profissional, frases de desesperança e gestos de despedida.

“Nem sempre estes sinais são óbvios. A pessoa pode estar a esconder o seu sofrimento. A presença de vários destes sinais, especialmente se forem recentes, deve servir de alerta para abordar a pessoa com empatia, ouvi-la sem julgamento e incentivá-la a procurar ajuda profissional”, alertou o especialista.

Alessandro salientou que, para apoiar alguém em sofrimento, é essencial não deixar a pessoa sozinha com a dor: escutá-la com atenção, sem críticas, pressa ou necessidade de dar conselhos imediatos. “Manter proximidade — seja através de visitas, mensagens ou simples conversas — ajuda a reduzir a sensação de isolamento.”

O especialista sugere ainda estimular hábitos que promovam o bem-estar, como manter uma rotina de sono regular, praticar atividades físicas leves, participar em grupos comunitários, artísticos ou religiosos, ou realizar tarefas simples do dia a dia, como uma caminhada, que devolvam sentido à vida e transmitam segurança. Em momentos de crise, mesmo sem especialistas por perto, é possível procurar o centro de saúde local, ligar para linhas de emergência ou envolver familiares. O essencial é mostrar à pessoa que não está sozinha e que existe uma rede de cuidado à sua volta.

“Pedir apoio não é fraqueza, é um passo para proteger a vida”, reforçou Alessandro, defendendo a criação de mais informação acessível e apoio comunitário. Sugeriu que escolas, igrejas e associações criem espaços de confiança, reconhecendo sinais de alerta, promovendo educação emocional e oferecendo ambientes seguros para os jovens.

O papel da família e dos colegas também é crucial. O especialista acrescentou que o Estado deve assegurar políticas públicas e serviços de saúde acessíveis, complementados por campanhas de sensibilização. “Igrejas e outras instituições religiosas, quando abertas ao diálogo, oferecem apoio espiritual e redes de pertença. As comunidades, no dia a dia, têm a força de criar redes de solidariedade, quebrar o isolamento e combater o estigma.”

Discriminação e rejeição: a história de Aldo expõe fragilidade da comunidade LGBTQIA+ em Timor-Leste

O Diligente acompanhou, em 28 de julho de 2023, a história de Grivaldo de Jesus Loudoe, conhecido como Aldo, um jovem homossexual timorense que, aos 18 anos, relatava sofrer rejeição familiar e social por causa da sua orientação sexual. Aldo confessava que a mãe preferia vê-lo “bandido a homossexual” e que o pai o ameaçara de violência física para o obrigar a “agir como um homem verdadeiro”. Já nessa altura, revelava ter tentado o suicídio duas vezes.

Apesar das dificuldades, participou pela primeira vez na Marcha da Diversidade e apelava à coragem de outros jovens para não se calarem perante a discriminação. O encontro que teve com Bella Galhos e com o Presidente da República, José Ramos-Horta, parecia abrir-lhe uma porta de esperança.

Mas o desfecho não foi o que se desejava. No dia 1 de junho de 2024, precisamente no mês em que se assinala o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, Aldo, então com 19 anos, foi encontrado morto em casa da família, em Becora, Díli. Antes, teria discutido com familiares.

A tragédia abalou profundamente a comunidade. Amigos recordam a solidão e o sofrimento do jovem, que desejava apenas ser aceite pela família e viver com dignidade. Bella Galhos sublinhou que Aldo “queria amar e ser respeitado como ser humano”, mas acabou por se sentir sozinho, mesmo rodeado de pessoas.

O caso de Aldo, noticiado pelo Diligente em diferentes momentos, expõe a vulnerabilidade da comunidade LGBTQIA+ em Timor-Leste, ainda alvo de discriminação social, cultural e religiosa. Apesar de o país se afirmar democrático, os direitos desta comunidade não estão legalmente reconhecidos, e persistem preconceitos que agravam o isolamento e aumentam os riscos para a saúde mental dos jovens.

Num dia que chama à prevenção do suicídio, a história de Aldo lembra que a intolerância e o estigma podem ser fatais. A luta contra o preconceito e a promoção de apoio psicológico acessível são passos urgentes para evitar que mais jovens sintam que não têm alternativa.

A dor da família e a ausência de compreensão sobre o sofrimento de Aldo refletem a forma como muitas famílias timorenses lidam com o suicídio: com silêncio, culpa e vergonha. Segundo o psicólogo Alessandro Boarccaech, a perda de um filho ou de uma filha para o suicídio é uma dor imensa, para a qual não existem palavras suficientes.

“Muitas famílias vivem esse luto em silêncio, carregando sentimentos de culpa e vergonha, muitas vezes associando o suicídio a uma punição espiritual ou à fraqueza da pessoa. O caminho para superar a dor passa por aceitar o direito de sentir, falar sobre a perda sem medo de julgamentos e procurar apoio – seja na família alargada, em amigos próximos, em grupos de ajuda ou com profissionais de saúde mental”, frisou o psicólogo.

“Partilhar a dor pode ajudar a transformá-la em força”, disse Alessandro, lembrando que manter viva a memória da pessoa que partiu é também uma forma de cuidar de si e de honrar a sua história.

 

Se tem pensamentos suicidas, em crise emocional ou preocupado com alguém, procure ajuda agora.

📞 Em Timor-Leste, ligue para a PRADET através do número (+670) 332 1562

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