Jovens começam a fumar cada vez mais cedo e muitos não conseguem parar

A OMS sublinha que o tabaco danifica praticamente todos os órgãos do corpo humano /Foto:Diligente

No Dia Mundial Sem Tabaco, assinalado a 31 de maio, especialistas alertam para os elevados níveis de consumo de tabaco em Timor-Leste. Influência dos amigos, pressão social e dependência da nicotina ajudam a explicar porque muitos fumadores começam cedo e encontram dificuldades em abandonar o hábito, apesar de conhecerem os riscos para a saúde.

No Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado a 31 de maio, cresce a preocupação com o elevado consumo de cigarros em Timor-Leste. Apesar dos riscos conhecidos para a saúde, muitos fumadores admitem ter dificuldade em abandonar o hábito devido à influência do meio social, à dependência da nicotina e a comportamentos enraizados desde a juventude.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), constantes do relatório WHO Report on the Global Tobacco Epidemic 2023 – Country Profile Timor-Leste, mostram que o país continua a registar níveis elevados de consumo de tabaco, sobretudo entre os homens. Cerca de 67,8% dos homens consomem tabaco e 52,3% fumam diariamente. Entre as mulheres, a prevalência situa-se nos 10,8%, sendo que 8,7% são consumidoras diárias.

No que respeita especificamente ao consumo de cigarros, a prevalência entre os homens atinge os 59,2%, dos quais 43% fumam diariamente. Entre as mulheres, a percentagem é de 4,5%, sendo 3,1% fumadoras diárias.

A OMS sublinha que o tabaco danifica praticamente todos os órgãos do corpo humano. Substâncias como a nicotina e o alcatrão aumentam o risco de doenças graves, incluindo cancro do pulmão, doença cardíaca coronária e doença pulmonar obstrutiva crónica.

Os efeitos não se limitam aos fumadores. A exposição ao fumo passivo representa também uma ameaça para a saúde pública, afetando particularmente crianças e mulheres grávidas, que enfrentam um risco acrescido de problemas respiratórios, crises de asma e complicações durante a gravidez.

Por isso, a OMS continua a apelar à redução do consumo de tabaco e ao abandono do hábito de fumar, incentivando igualmente os governos a reforçarem políticas e campanhas de prevenção e a criarem mais espaços livres de fumo.

O peso da influência social

O hábito de fumar em espaços públicos continua a ser uma realidade frequente em Timor-Leste. Alguns cidadãos reconhecem os riscos associados ao fumo, mas admitem que a influência dos amigos, o hábito adquirido desde cedo e a dependência da nicotina tornam difícil deixar de fumar.

Anacleto Pires Pereira, residente em Audian, afirma que costuma fumar em espaços públicos juntamente com os amigos, embora procure manter distância das pessoas que não fumam. “Quando fumamos em locais públicos, normalmente ficamos apenas com amigos que também fumam. As pessoas que não fumam costumam sentar-se mais afastadas de nós”, disse.

Apesar disso, reconhece que fumar em espaços públicos pode prejudicar a saúde de terceiros, sobretudo devido às doenças respiratórias associadas ao tabaco.

Na sua opinião, o Governo deveria reforçar o controlo do consumo de tabaco nos espaços públicos, definindo claramente zonas destinadas aos fumadores e áreas livres de fumo. “Se o Governo criar áreas específicas para fumadores e colocar sinais de proibição de fumar nos espaços públicos, estaremos dispostos a cumprir essas regras”, afirmou.

Ângela De Jesus Ximenes Sequeira, de 17 anos, começou a fumar ainda no ensino primário, influenciada pelos colegas.

Segundo contou, tudo começou por curiosidade, depois de observar alguns rapazes a fumarem às escondidas na escola. Com o tempo, a experiência transformou-se num hábito. “Comecei a fumar quando tinha 10 anos por influência dos meus amigos da escola. No início, era apenas curiosidade, mas depois comecei a gostar e até hoje continuo a fumar”, contou.

Ângela afirma preferir a marca Marlboro, embora aceite também cigarros oferecidos pelos amigos. Fuma diariamente às escondidas por receio de que os pais e os irmãos descubram o hábito.

Segundo a jovem, a dependência já afeta o seu quotidiano. “Se passo um dia sem fumar, sinto-me mal. Estou habituada desde pequena, por isso é muito difícil parar”, afirmou.

Também Cosme Fortunato José Gonçalves, de 50 anos, fuma desde a adolescência. Começou aos 12 anos e admite que o cigarro se tornou uma parte constante da sua vida. “Para nós homens, fumar já se tornou um hábito normal. Os amigos e familiares também fumavam, por isso comecei a fumar sem pensar muito nas consequências”, afirmou.

Cosme prefere a marca Surya e revela que pode consumir até dois maços por dia. Reconhece que o dinheiro gasto em cigarros representa uma despesa significativa e admite que, por vezes, pensa noutras formas de utilizar esse valor. “Às vezes penso que seria melhor comprar materiais de construção em vez de cigarros, mas é difícil deixar porque já estou habituado”, disse.

O agricultor e artista de teatro considera que o consumo de tabaco continua fortemente associado aos convívios masculinos e à vida social.

Apesar de continuar a fumar, admite que gostaria de abandonar o hábito no futuro, sobretudo devido à idade e ao agravamento do seu estado de saúde. “Quando começarmos a adoecer frequentemente, teremos de reduzir o consumo de cigarros para continuarmos saudáveis enquanto estivermos vivos”, afirmou.

Jovens estão entre os principais compradores de cigarros

O elevado consumo de cigarros entre os jovens preocupa Paulina Maria de Araújo, de 23 anos, estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) e vendedora de cigarros na zona do Largo de Lecidere.

Segundo explicou, o Largo de Lecidere é um dos principais pontos de encontro da população para passear, descansar e conviver, o que contribui para o elevado volume de vendas. “Na zona de Largo, muitas pessoas vêm passear, descansar e encontrar-se com amigos. Nessas situações, os consumidores sentem-se mais livres para fumar e comprar cigarros”, afirmou.

Paulina observa que a maioria dos compradores são jovens e considera que o consumo de tabaco se tornou parte da vida social de muitos adolescentes e jovens adultos. “Os jovens compram mais cigarros porque passam muito tempo reunidos com amigos e fumar já se tornou parte da vida social deles”, disse.

A estudante refere ainda que é frequente ver alunos do ensino secundário a comprarem cigarros, normalmente à unidade. “Há também estudantes do secundário que vêm comprar cigarros, normalmente um ou dois cigarros apenas”, revelou.

Na sua opinião, o elevado número de fumadores demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer em matéria de educação para a saúde e sensibilização para os riscos associados ao tabaco.

A decisão de abandonar o cigarro

Embora muitos fumadores enfrentem dificuldades para deixar o hábito, há quem consiga dar esse passo.

Carlos Martins, de 27 anos, natural do município de Manufahi, deixou de fumar há quatro meses depois de concluir que o tabaco estava a prejudicar tanto a sua saúde como a sua situação financeira. “Decidi deixar de fumar porque percebi que o cigarro causava grandes impactos na minha saúde e na minha economia”, afirmou.

Segundo explicou, o cigarro fazia parte da rotina diária e estava presente após as refeições, nos encontros com amigos e até durante o trabalho. “Quando não fumava, parecia que ia adoecer. Onde quer que fosse, pensava sempre no cigarro”, recordou.

Carlos garante que a decisão foi inteiramente pessoal. “A decisão de deixar de fumar veio da minha própria consciência. Não houve apoio especial da família nem dos amigos”, afirmou.

Para evitar recaídas, procura substituir o cigarro por café ou rebuçados quando está junto de amigos que continuam a fumar. O ex-fumador considera que a maior vantagem de ter deixado o tabaco foi a redução das despesas e a possibilidade de utilizar o dinheiro noutras necessidades. “Ninguém pode controlar-nos além de nós próprios. O cigarro pode parecer agradável na boca, mas a doença fica escondida dentro do corpo”, alertou.

ANCTTL pede reforço da fiscalização

O diretor da Aliança Nacional para o Controlo do Tabaco de Timor-Leste (ANCTTL), Sancho Fernandes, explicou que a organização trabalha em quatro áreas principais: advocacia junto do Governo, campanhas de sensibilização, investigação e formação de vendedores para o cumprimento da legislação.

“O nosso principal objetivo é reduzir o número de fumadores em Timor-Leste e incentivar aqueles que já deixaram de fumar a não voltarem ao hábito”, afirmou.

Segundo dados da organização, Timor-Leste apresenta uma das mais elevadas taxas de consumo de tabaco da região da ASEAN. Cerca de 40,5% dos adultos fumam e 30,9% das crianças entre os 13 e os 15 anos são fumadoras.

A ANCTTL salienta que estes números representam um dos principais fatores de risco para o aumento das doenças não transmissíveis e das mortes prematuras no país.

Entre os principais desafios identificados estão a dependência provocada pela nicotina, a necessidade de reativar clínicas de cessação tabágica, a escassez de recursos para campanhas de sensibilização e a fraca aplicação da legislação existente.

“Muitas pessoas continuam a fumar nos transportes públicos sem que existam medidas firmes de acordo com a lei. Isto demonstra que a implementação da lei de controlo do tabaco ainda não é eficaz”, afirmou.

A organização alerta igualmente para o facto de muitos menores continuarem a conseguir comprar cigarros facilmente, apesar da proibição legal, e para a persistência da venda de cigarros à unidade em diversos estabelecimentos.

No futuro, a ANCTTL pretende reforçar a utilização das redes sociais para chegar a um maior número de jovens.

Na mensagem final, Sancho Fernandes apelou aos jovens para se manterem afastados do tabaco e das drogas. “Os jovens são o futuro da nação. A saúde é a principal força para construir o país. Cuidem da saúde e afastem-se do cigarro e das drogas para se tornarem uma geração saudável e capaz de contribuir para Timor-Leste”, concluiu.

Ministério da Saúde promete reavaliar o problema

A ministra da Saúde, Élia Amaral, reconheceu que o consumo de tabaco continua a representar um desafio importante para a saúde pública.

“O consumo de tabaco não é apenas um problema em Timor-Leste, mas em todo o mundo. Precisamos analisar melhor como reduzir o hábito de fumar, porque sabemos que o tabaco provoca impactos graves na saúde respiratória. Esta é uma questão que precisamos rever”, afirmou.

A equipa do Diligente tentou igualmente contactar o diretor do departamento responsável pelas doenças transmissíveis e não transmissíveis, mas até ao momento não obteve resposta.

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