Teoria da Mente: a arte de imaginar o outro

O adolescente aprende a decifrar a ironia. O adulto interpreta o silêncio. Passamos a ler entrelinhas, a captar intenções por detrás das palavras, a distinguir o que alguém diz do que realmente quer dizer/Foto : DR

Há uma competência que usamos sem pensar, dezenas de vezes por dia: imaginar o que outra pessoa pensa, sente ou sabe. Quando percebemos que um amigo está calado porque está triste, e não aborrecido, quando reconhecemos o sarcasmo num comentário, quando antecipamos que alguém pode não saber o que nós já sabemos, estamos a exercitar aquilo que a psicologia chama de teoria da mente.

A teoria da mente refere-se à capacidade de reconhecer que os outros têm uma vida mental própria – crenças, desejos, intenções, emoções – e que essa vida interior pode ser completamente diferente da nossa.

Antes de continuarmos, vale a pena distinguir três conceitos relacionados, mas distintos. A cognição social designa o conjunto mais amplo de processos que nos permitem interpretar e responder ao comportamento dos outros. Nesse conjunto, a teoria da mente é a capacidade de inferir o que o outro pensa, quer ou sabe – sem que isso implique identificação ou a partilha desses estados. A empatia, por sua vez, acrescenta uma dimensão afetiva: envolve uma resposta emocional ao estado do outro e não apenas o seu reconhecimento.

Uma conquista que começa cedo

A teoria da mente é uma competência que se constrói, progressivamente, ao longo dos primeiros anos de vida. Por volta dos quatro ou cinco anos, a maioria das crianças atinge um marco no seu processo de desenvolvimento: percebem que alguém pode ter uma crença falsa – isto é, acreditar em algo que não é verdade – e que essa crença, mesmo errada, influencia o comportamento dessa pessoa.

Parece simples, mas é uma revolução cognitiva. Antes disso, a criança tende a assumir que toda a gente vê o mundo como ela vê. A partir desse momento, começa a compreender que cada pessoa tem os seus próprios pensamentos.

À medida que crescemos, esta capacidade vai-se tornando mais sofisticada. O adolescente aprende a decifrar a ironia. O adulto interpreta o silêncio. Passamos a ler entrelinhas, a captar intenções por detrás das palavras, a distinguir o que alguém diz do que realmente quer dizer.

O que acontece no cérebro

Por detrás desta aparente naturalidade há uma complexa dinâmica neural. A neurociência identificou uma rede de regiões cerebrais – incluindo o córtex pré-frontal medial (associado à tomada de decisão social), o sulco temporal superior e a junção temporoparietal – que se ativam quando tentamos inferir o estado mental de outra pessoa.

Não existe um único centro no cérebro, mas um sistema distribuído que integra informação social, afetiva e contextual, ao mesmo tempo que articula atenção, memória e regulação emocional.

E é por isso que tudo o que interfere com o desenvolvimento cognitivo – desde carências nutricionais crónicas a situações de stresse prolongado – pode, indiretamente, afetar também a formação da teoria da mente.

Quando interpretar o outro se torna difícil

Como toda a competência humana, a teoria da mente pode desenvolver-se de forma atípica. Em algumas pessoas dentro do espectro do autismo, por exemplo, a interpretação de pistas sociais subtis pode ser difícil – não por falta de interesse no outro, mas porque os circuitos que processam esse tipo de informação funcionam de modo diferente. Perturbações como a esquizofrenia podem também distorcer a forma como interpretamos as intenções dos outros, tornando o mundo social desorientador.

A avaliação clínica desta capacidade – através de tarefas específicas, histórias sociais ou testes de reconhecimento emocional – permite aos profissionais de saúde identificar dificuldades precocemente e intervir de forma direcionada.

Mas há uma dimensão menos evidente e frequentemente ignorada: a de pessoas que, mesmo sem qualquer perturbação diagnosticável, cresceram em ambientes marcados por agressividade, opressão, desconfiança, intolerância, negligência afetiva ou imprevisibilidade.

Nestas situações, a teoria da mente não deixa de se desenvolver. Mas pode tornar-se ajustada a um contexto hostil que já não corresponde aos factos atuais, mas que continua a servir de mapa para interpretar o mundo.

Um exemplo: crescer num ambiente onde demonstrar vulnerabilidade é visto como fraqueza pode levar a pessoa a interpretar as intenções dos outros como perigosas. A capacidade de compreender o outro mantém-se, mas pode tornar-se defensiva: percebe-se o outro, mas protege-se a própria vida interior.

Noutros casos, pode acontecer o inverso. Quem cresceu em relações marcadas pelo controlo ou pela manipulação pode ter dificuldade em confiar nas próprias perceções, o que leva a uma sensação de constante incerteza – como se as intenções dos outros fossem sempre ambíguas ou difíceis de decifrar. Estas dificuldades não são doenças nem falta de inteligência. São adaptações a contextos onde é preciso estar sempre em alerta.

Por outro lado, o desenvolvimento da teoria da mente também depende do contacto com o contraditório. Quando uma criança cresce num ambiente superprotetor e indulgente, onde os seus desejos são sempre satisfeitos, a sua perspetiva raramente é desafiada e os pais tendem a dar-lhe razão, perde oportunidades importantes de aprendizagem social: perceber que os outros pensam de forma diferente, lidar com a discordância e corrigir mal-entendidos. Sem esse atrito, a mente pode ficar excessivamente centrada em si própria, com maior dificuldade em reconhecer a vida interior do outro como algo independente da sua.

Mesmo quando a teoria da mente se desenvolve sem dificuldades aparentes, a forma como interpretamos o outro é sempre filtrada por vieses cognitivos, ideologias, valores, crenças e experiências acumuladas – o que significa que compreender alguém nunca é neutro.

O que se come e o que se lê também forma a mente

A teoria da mente constrói-se a partir de experiências relacionais – mas também depende daquilo que o corpo recebe e daquilo a que a imaginação é exposta. Dois fatores merecem atenção: a alimentação e o contacto precoce com a leitura.

O cérebro de uma criança em desenvolvimento é exigente do ponto de vista nutricional. Estruturas e circuitos que sustentam funções como a atenção, a memória de trabalho e a regulação emocional – todas elas indispensáveis para aprender a ‘ler’ o outro – dependem de um fornecimento adequado de nutrientes específicos.

A deficiência em ferro, por exemplo, compromete a atenção e a velocidade com que o cérebro processa informação – funções importantes para acompanhar uma conversa, perceber expressões ou interpretar situações sociais. A falta de iodo durante os primeiros anos de vida pode afetar o desenvolvimento cognitivo. Os ómega-3 estão associados à regulação emocional, à plasticidade cerebral e à comunicação entre neurónios. O zinco intervém em processos de aprendizagem e memória.

Nenhum destes nutrientes fabrica, por si só, a capacidade de imaginar o que o outro pensa ou sente – mas a sua ausência compromete as condições biológicas mínimas para que a aprendizagem social aconteça.

A insegurança alimentar acrescenta ainda uma camada diferente de dano. Uma criança que cresce sem saber o que comerá amanhã vive num estado de alerta. Esse estado consome energia cognitiva e emocional que, de outro modo, estaria disponível para o contacto social, para a curiosidade pelo outro e para interações de qualidade que alimentam a vida interior e o raciocínio.

O stresse prolongado não é apenas um estado psicológico: altera a forma como o cérebro em desenvolvimento se organiza, tornando-o mais reativo e menos reflexivo.

A leitura age por um mecanismo diferente, mas igualmente importante. Quando uma criança ouve ou lê uma história, é convidada a habitar temporariamente a mente de outra pessoa – a sentir o que a personagem sente, a compreender por que razão age como age, a antecipar as consequências das suas escolhas.

Romances, contos, novelas e poesia – seja através dos livros ou das histórias contadas – oferecem algo que a experiência quotidiana dificilmente proporciona: acesso à vida interior de personagens cujas experiências e formas de ver o mundo são diferentes das do leitor.

Alguns estudos em psicologia e linguística sugerem que leitores habituais de ficção literária tendem a ter maior capacidade de inferir estados mentais alheios. Não porque sejam mais inteligentes ou atentos por natureza, mas porque podem ter praticado a arte de entrar na perspetiva do outro.

Isto coloca uma responsabilidade sobre políticas públicas e práticas familiares. Garantir que as crianças se alimentam bem e leem desde cedo não é apenas uma questão de saúde física ou de desempenho escolar. É também uma questão de desenvolvimento humano no sentido mais amplo: a capacidade de reconhecer o outro como alguém com uma mente própria, digna de atenção e compreensão, começa, em parte, na mesa e na prateleira de livros.

 Família, escola e cultura

A teoria da mente aprende-se sobretudo na interação social. Em casa, nas conversas em família, quando os adultos nomeiam emoções e explicam comportamentos; na escola, na convivência com outras crianças e adultos; nas brincadeiras simbólicas, onde a criança ensaia papéis diferentes; e nas histórias que mostram personagens com mundos interiores ricos e contraditórios.

A cultura também molda esta aprendizagem. Em algumas sociedades, a comunicação é explícita e verbal; noutros contextos, predominam os sinais não verbais, o gesto, o silêncio, a distância. Nenhuma é melhor que a outra, são apenas formas diferentes de interpretar o mundo social.

Mas o que acontece quando esse código social é construído sobre o medo, o autoritarismo, a punição ou a exclusão? A criança pode aprender a interpretar o outro não para se aproximar, mas para se proteger. Torna-se hábil em detetar sinais de perigo, antecipar reações adversas, calcular como não errar e manter o outro à distância. É uma inteligência social, mas orientada para a sobrevivência, não para a conexão.

Em contextos onde as emoções das mulheres são desvalorizadas – tratadas como exagero, instabilidade, sem importância ou manipulação –, há o risco de os rapazes aprenderem a ignorar ou a invalidar a vida interior feminina, e de as meninas aprenderem a duvidar da legitimidade das próprias emoções. Em ambos os casos, empobrece-se a capacidade de compreender a perspetiva do outro.

De um modo geral, as sociedades que assentam na desconfiança – onde o diferente é visto como ameaça, onde a solidariedade é negociada e a competição é norma – dificultam o desenvolvimento da teoria da mente. Não porque as pessoas sejam menos capazes, mas porque o ambiente social não oferece os exercícios necessários: a experiência de ser compreendido, de compreender, de errar na leitura do outro e poder corrigir esse erro sem consequências graves. 

O que nos permite viver juntos

Numa conversa, construímos uma representação do que o outro sabe, sente ou pretende – e fazemos isso de forma tão automática que raramente nos apercebemos do esforço cognitivo que exige. É como respirar: só notamos quando falta ar.

É esta capacidade que torna possível a compreensão social, a cooperação e a negociação de conflitos – tudo o que faz da vida social algo mais do que uma sucessão de encontros. Sem ela, o outro seria apenas um comportamento a observar, não alguém com uma mente para compreender.

E porque se aprende, pode também ser ensinada, protegida, estimulada e aprimorada. O que fazemos com os ambientes onde as crianças crescem – o que lhes pomos à mesa e nas mãos, as regras e culturas que construímos – contribui para a forma como pensamos e interagimos uns com os outros.

É dessa matéria-prima que nascem as pessoas – e as formas como aprendem a pensar umas sobre as outras – que amanhã terão de viver juntas e compreender-se mutuamente.

Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.

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  1. agradese tebes ba media ida nee no hau bele iformasaun oioin ligadu problema sira ne’ebe akontese iha rai-laran no mos husi rai-liur. iha media ida ne’e mos hau sempre iha bontade hodi lee artigu sira ne’ebe ita boot fo sai kada loron. ida ne’e deit mak hau hato no agradese ba imi nia esforsu no aluta kontinua….?

    “Estou muito agraedes a este órgão de comunicação, que me fornece diversas informações sobre assuntos que ocorrem tanto a nível nacional como internacional. Tenho sempre a oportunidade de ler os artigos que publicam diariamente. É tudo o que tenho a dizer, e agradeço os vossos esforços e dedicação contínuos”…?

  2. Estou muito grato a este órgão de comunicação, que me fornece diversas informações sobre assuntos que ocorrem tanto a nível nacional como internacional. Tenho sempre a oportunidade de ler os artigos que publicam diariamente. É tudo o que tenho a dizer, e agradeço os vossos esforços e dedicação contínuos!

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