SABEH: Médicos voluntários levam cuidados de saúde e dignidade às zonas mais remotas de Timor-Leste

“O Governo, muitas vezes, valoriza e acolhe apenas organizações que dispõem de recursos financeiros ou aquelas provenientes do estrangeiro, em vez de apoiar organizações formadas por timorenses”/Foto : Diligente

Fundada por profissionais timorenses, a organização combate o isolamento e a falta de assistência médica nas áreas rurais, dando prioridade a mulheres grávidas, crianças, idosos e pessoas com deficiência.

Criada em 2019 por médicos, enfermeiros, parteiras e farmacêuticos timorenses, a Saúde Ba Ema Hotu (SABEH) nasceu para enfrentar um dos maiores desafios do país: levar cuidados de saúde de qualidade a comunidades onde o acesso a serviços básicos é escasso ou inexistente. Com uma abordagem centrada na dignidade humana, a organização desenvolve programas de prevenção, rastreio, tratamento e apoio, chegando a locais que, muitas vezes, ficam fora do alcance do sistema público.

Entre as suas principais iniciativas está o medical outreach, que inclui consultas comunitárias, visitas domiciliárias e ações educativas. A prioridade vai para os grupos mais vulneráveis — mulheres grávidas, crianças, idosos e pessoas com deficiência —, mas a SABEH também atua em cuidados paliativos, garantindo conforto e dignidade a pacientes em fase terminal.

Na entrevista, o médico geral, fundador e diretor executivo da SABEH, André Belo, fala sobre as conquistas da organização e os obstáculos que impedem a expansão para outras regiões. Denuncia ainda casos de discriminação por parte de responsáveis públicos e alerta para a necessidade urgente de fortalecer a cooperação entre organizações comunitárias e o sistema nacional de saúde, de modo a detetar precocemente doenças e assegurar encaminhamentos adequados.

Como e por que foi criada a SABEH?

O acesso à saúde é um direito consagrado na Constituição, que determina que todos os cidadãos devem receber atendimento gratuito e de qualidade, em qualquer lugar e a qualquer momento. No entanto, olhando para a realidade dos serviços de saúde e para o contexto de um país pós-conflito, percebemos que o setor continua a enfrentar grandes desafios — especialmente no caso dos idosos, crianças, mulheres grávidas e pessoas com deficiência, que muitas vezes não têm acesso a cuidados de saúde primários adequados.

Em muitas zonas remotas, as infraestruturas básicas — como estradas, postos de saúde, eletricidade, comunicações e água potável — ainda são insuficientes, tornando-se um obstáculo sério para as comunidades rurais. Perante este cenário, decidimos criar uma organização que reunisse médicos, enfermeiros, parteiras, profissionais de saúde pública e farmacêuticos dispostos a levar cuidados de saúde a toda a população.

Entendemos que a saúde não se limita ao tratamento de doenças físicas; exige uma abordagem holística, que inclua empatia e respeito pela dignidade da pessoa. A nossa missão é, por isso, levar cuidados de saúde completos a todos, independentemente da raça, cor, religião, origem familiar ou localização geográfica. Atuamos tanto na prevenção como no tratamento, com o objetivo de garantir que ninguém fique para trás nem sem acesso aos serviços essenciais.

“Dedicamo-nos também a pessoas com deficiência visual, auditiva, motora, mental ou intelectual, que frequentemente enfrentam estigma e exclusão. Por exemplo, indivíduos com epilepsia são muitas vezes estigmatizados como “loucos” e ignorados pela comunidade”

Quais são os principais serviços ou programas oferecidos pela organização?

A SABEH é amplamente reconhecida pelo seu programa de medical outreach, que leva cuidados de saúde a comunidades com acesso muito limitado — ou mesmo inexistente — a serviços básicos. Através deste programa, promovemos ações de prevenção, realizamos rastreios, tratamentos, visitas domiciliares e identificamos fatores de risco que podem estar na origem de doenças físicas.

Damos atenção especial às mulheres grávidas e às crianças, verificando se o calendário de imunização está completo e procurando compreender as razões pelas quais, por vezes, algumas vacinas não foram administradas. Avaliamos se as grávidas fazem consultas pré-natais, se receberam a vacina contra o tétano, se tomam a medicação adequada e se enfrentam problemas que possam comprometer a gestação.

Também identificamos casos de malnutrição e realizamos rastreios para doenças como a tuberculose (TBC) e a lepra — uma enfermidade antiga, mas muitas vezes esquecida. Quando encontramos situações que não conseguimos tratar no local, encaminhamos os pacientes para níveis superiores de atendimento.

Outro programa de grande importância é o de cuidados paliativos comunitários, voltado para pessoas em estado terminal. Muitos destes doentes acabam por permanecer em casa, sozinhos, sem acompanhamento adequado. Mobilizamos voluntários para lhes prestar apoio, garantindo conforto e dignidade até ao fim da vida. Infelizmente, em Timor-Leste, muitas pessoas morrem sem dignidade — não apenas por causa da doença, mas devido a dores e complicações não tratadas.

Dedicamo-nos também a pessoas com deficiência visual, auditiva, motora, mental ou intelectual, que frequentemente enfrentam estigma e exclusão. Por exemplo, indivíduos com epilepsia são muitas vezes estigmatizados como “loucos” e ignorados pela comunidade. Procuramos aproximar-nos destas pessoas, compreender as causas das suas condições e oferecer tratamento sempre que possível.

Promovemos ainda ações educativas e preventivas porta a porta, explicando aos pacientes a sua condição de saúde, a importância da medicação e as razões para o tratamento. Acreditamos que cada pessoa tem o direito de compreender o que se passa com o seu próprio corpo.

Embora a SABEH atue de forma autónoma, trabalhamos sempre em colaboração com postos e centros de saúde. Encaminhamos os casos mais complexos para unidades de maior capacidade, embora o transporte — especialmente de idosos que vivem sozinhos — seja um desafio constante. Para reduzir estas dificuldades, procuramos aumentar o número de visitas e rastreios, de forma a detetar doenças mais cedo e evitar complicações graves.

Desde a nossa fundação, em 2019, a única região onde ainda não conseguimos atuar é a Região Administrativa Especial de Oe-Cússe-Ambeno, não por falta de vontade, mas devido a limitações financeiras. Sendo uma organização voluntária, dependemos dos nossos próprios recursos para cobrir custos com medicamentos, transportes e logística — um desafio constante para levar a nossa missão a todo o território.

Que tipo de doenças ou problemas de saúde são mais frequentes nas zonas rurais?

A maioria dos pacientes que registamos apresenta infeções respiratórias, que variam de quadros ligeiros a casos graves. Muitas vezes chegam até nós apenas com tosse persistente e febre, mas sem diagnóstico preciso, podendo tratar-se de pneumonia, tuberculose ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) — esta última, uma das enfermidades mais comuns em Timor-Leste. Tais situações afetam sobretudo idosos e também crianças que vivem em áreas remotas, sendo agravadas por fatores como as mudanças climáticas, o estilo de vida e as precárias condições habitacionais.

A hipertensão arterial surge em seguida como um problema recorrente, muitas vezes apelidada de “assassina silenciosa”. Encontramos inúmeros casos nas zonas rurais, e, nas consultas comunitárias que realizamos, é frequente identificarmos pacientes com níveis de pressão arterial extremamente elevados, chegando a crises hipertensivas.

As doenças de pele também são prevalentes, resultando de múltiplas causas: más condições de higiene nas habitações, sobrelotação domiciliar, falta de higiene pessoal e dificuldades económicas que limitam o acesso a produtos básicos de limpeza.

Outro desafio preocupante é a malnutrição. Estima-se que cerca de 47% das crianças em Timor-Leste sofram de algum grau de desnutrição, causada principalmente pela ausência de uma alimentação equilibrada e nutritiva. Este problema exige mais do que programas pontuais de distribuição de alimentos ou refeições escolares — é essencial atacar a raiz da questão. A intervenção deve começar logo quando um casal decide formar família, garantindo acesso à informação sobre hábitos alimentares adequados, estilos de vida saudáveis e o que constitui uma dieta nutritiva. Muitas comunidades acreditam que só os alimentos comprados nas lojas são nutritivos, mas, na verdade, os produtos cultivados localmente podem ter igual ou maior valor nutricional.

“O nosso objetivo deixou de ser apenas a quantidade de pessoas atendidas e passou a incluir a qualidade da relação estabelecida com cada uma delas. Queremos que sintam que estamos realmente presentes”

Pode partilhar alguma história marcante de transformação ou melhoria concreta na vida de uma família ou comunidade? Existem dados ou exemplos que ilustrem o impacto positivo do trabalho da SABEH?

Temos inúmeras histórias de sucesso. A população enfrenta diversas doenças que, por falta de tratamento adequado, acabam por evoluir para quadros muito graves. Embora nem sempre consigamos curar totalmente essas patologias, conseguimos aliviar sinais e sintomas, permitindo que os pacientes levem uma vida mais estável e digna, mesmo com a condição de saúde que apresentam.

Um exemplo marcante é o de um paciente cujas mãos e pés se encontravam deformados, com lesões e feridas provocadas pela lepra. Esta situação levou a comunidade a discriminá-lo, impossibilitando-o de trabalhar. Realizámos várias visitas, prestámos tratamento, ensinámos-lhe técnicas de autocuidado e, com o tempo, as feridas cicatrizaram. Hoje, voltou ao trabalho e vive de forma independente.

Outro caso foi o de uma mulher com epilepsia crónica que, durante uma crise, caiu ao fogo, sofrendo queimaduras graves por todo o corpo. A sua condição impedia-a de cuidar devidamente dos filhos. Depois de a identificarmos, passámos a acompanhá-la de forma regular, fornecemos medicação e ajudámos a controlar a doença. Atualmente, ela consegue desempenhar plenamente o papel de mãe.

Também acompanhámos uma jovem com epilepsia que foi impedida de prosseguir os estudos, devido ao receio da família de que pudesse ter crises na escola ou em locais perigosos. Além disso, era alvo de desprezo por parte dos colegas. Com a nossa intervenção e acompanhamento contínuo, conseguiu regressar à escola e retomar o seu percurso educativo.

Estas doenças, muitas vezes, não recebem a devida atenção dos profissionais de saúde. Um outro exemplo comum é a crise hipertensiva, que afeta um grande número de pessoas. Sem tratamento adequado e sem controlo regular da medicação, os pacientes correm riscos sérios, incluindo episódios súbitos potencialmente fatais. Por isso, investimos no acompanhamento da toma de medicamentos, na promoção de mudanças de estilo de vida e em ações diretas sobre a alimentação e hábitos de consumo — e temos observado resultados concretos.

Até hoje, já atendemos mais de 300 mil pacientes. No entanto, atualmente repensamos a nossa abordagem: antes, o foco era “ir ver os doentes”; agora, é também tratá-los como seres humanos integrais. Isso significa dedicar tempo a ouvir as suas histórias, compreender os seus problemas e dificuldades, e não apenas registar sintomas.

O nosso objetivo deixou de ser apenas a quantidade de pessoas atendidas e passou a incluir a qualidade da relação estabelecida com cada uma delas. Queremos que sintam que estamos realmente presentes. Muitas vezes, os profissionais de saúde não explicam claramente o diagnóstico nem dedicam tempo suficiente ao diálogo; limitam-se a fazer perguntas objetivas. Nós defendemos o contrário: é dever do profissional permitir que o paciente se expresse livremente antes de aprofundar a investigação clínica. Essa abordagem aumenta a confiança e faz com que as pessoas procurem os serviços de saúde com maior frequência.

Quais são os maiores desafios enfrentados na promoção da saúde nas comunidades atendidas?

O maior desafio que enfrentamos é o orçamento. Desde o início do nosso trabalho, em 2019, até 2023, a SABEH funcionou “com as mãos e os bolsos vazios”. Tudo o que realizámos dependia da ajuda dos amigos da SABEH — pessoas que valorizam e reconhecem o nosso trabalho e, por isso, contribuíram com dinheiro, medicamentos, cupões de combustível e outros apoios que permitiram sustentar as nossas atividades.

Só em 2024 conseguimos apoio do Gabinete de Apoio à Sociedade Civil, o qual foi suficiente para comprarmos medicamentos, abastecermos o carro e garantirmos alimentação para os nossos voluntários. Este ano, também recebemos um pequeno subsídio do Governo. Este dinheiro não é usado como incentivo para os voluntários, mas sim para cobrir custos com medicamentos, combustível, alimentação, transporte e formações.

Temos mais de 300 voluntários registados, mas infelizmente não temos recursos suficientes para os mobilizar em todas as áreas. Contamos apenas com um carro, o que significa que não conseguimos transportar toda a nossa equipa para os diversos locais. Por isso, fazemos o possível com os recursos limitados de que dispomos.

Sabemos que atuar nas zonas remotas não é fácil e nem todos estão dispostos a fazê-lo. Trabalhar nesses locais exige dedicação e sacrifício pessoal — fazer algo pelos outros sem esperar receber nada em troca. Muitas vezes, o maior retorno que obtemos é ouvir alguém doente partilhar a sua história e confiar em nós. Isso ensina-nos muito.

Queremos que a nossa presença nas comunidades seja constante, e não apenas em visitas esporádicas. Contudo, devido às limitações, por vezes só conseguimos visitar uma comunidade e voltar uma ou duas semanas depois. O ideal seria poder permanecer mais tempo nas próprias comunidades. O nosso trabalho exige continuidade, mesmo que as equipas mudem.

“Em vários municípios onde atuamos, encontramos postos de saúde abandonados e sem medicamentos essenciais. Muitas vezes, ao deslocarmo-nos às zonas rurais, os postos não dispõem sequer dos medicamentos básicos”

Quais são as lacunas ou falhas nas políticas públicas que a SABEH identifica com mais frequência nas comunidades onde atua?

O Governo, muitas vezes, valoriza e acolhe apenas organizações que dispõem de recursos financeiros ou aquelas provenientes do estrangeiro, em vez de apoiar organizações formadas por timorenses que trabalham com as próprias mãos e recursos limitados. Quando falamos sobre equidade na saúde, frequentemente observamos que a discriminação surge justamente por parte dos próprios implementadores das políticas. Falo com base na experiência dos últimos anos, pois temos estado presentes em zonas remotas e enfrentámos diretamente essas situações. Esta discriminação é algo que notamos com frequência.

No entanto, isso não abala o nosso espírito nem a nossa vontade de servir, porque tudo o que fazemos nasce do nosso compromisso com o povo. Criámos esta organização com o objetivo de servir a nossa população.

Digo isto porque temos experiência e competência para executar os serviços que realizamos. Mas, por vezes, só porque não temos conexões políticas ou influência, acabamos por ser excluídos de programas. Muitos programas vêm até nós no início, para consultar a SABEH antes de serem implementados, mas, na fase de execução, somos simplesmente deixados de lado.

Além disso, identificamos graves falhas nas condições dos postos de saúde. Em alguns casos, os edifícios estão concluídos, mas os profissionais de saúde não se encontram presentes. Há muitos postos que continuam fechados. Se a SABEH conseguisse um financiamento adequado, poderíamos mobilizar os nossos voluntários para ocupar temporariamente esses postos abandonados, em vez de os deixar vazios.

Em vários municípios onde atuamos, encontramos postos de saúde abandonados e sem medicamentos essenciais. Muitas vezes, ao deslocarmo-nos às zonas rurais, os postos não dispõem sequer dos medicamentos básicos. Nesses casos, somos obrigados a contribuir com as nossas próprias doações. Não porque possuímos medicamentos em excesso, mas porque não podemos deixar as pessoas doentes sem qualquer apoio, especialmente em locais tão isolados. Os profissionais de saúde podem até realizar consultas, mas se não há medicamentos, o efeito é praticamente nulo.

O que deveria fazer o Governo para tornar o sistema de saúde mais inclusivo e eficaz para todos os grupos sociais?

Organizações como a nossa funcionam como braços do Ministério da Saúde. Somos nós que levamos serviços de saúde a áreas com menor acesso a cuidados médicos ou onde estes simplesmente não existem. Por isso, o Governo deveria acolher e apoiar organizações como a SABEH e outras semelhantes, para que se tornem uma força adicional na implementação dos programas de saúde pública.

Muitas vezes, o trabalho voluntário é visto apenas como uma forma de “passar tempo” em comunidades remotas, mas, analisando todo o percurso desde a nossa criação até hoje, a SABEH é uma organização voluntária que nunca parou. Outras organizações realizam ações pontuais, mas frequentemente estão limitadas pelo tempo, orçamento, disponibilidade ou facilidade de acesso. É isso que nos diferencia: não dispomos de apoio financeiro nem de muitos recursos, mas temos vontade, espírito de serviço e dedicação ao nosso trabalho e às pessoas doentes, especialmente àquelas que são frequentemente esquecidas.

Além disso, o Governo precisa de fazer um mapeamento sério dos problemas. Todos os anos, reúne-se com agências para realizar estudos nas comunidades mais distantes. Os dados já existem — agora é necessário analisar em conjunto quais são os problemas, dividir tarefas e responsabilidades: o que o Governo pode assumir diretamente e onde organizações parceiras podem intervir.

Não podemos trabalhar sozinhos. É essencial colaborar com outras entidades, incluindo grupos que muitas vezes são vistos apenas como voluntários de base, como a SABEH.

Por exemplo, se alguém se sentir doente numa determinada semana, pode ter de esperar até à semana seguinte, quando os profissionais estiverem disponíveis, para receber atendimento”

A SABEH já enfrentou obstáculos ou atrasos no apoio por parte do Governo? Pode dar exemplos concretos?

A SABEH começou a receber subsídios do Gabinete de Apoio à Sociedade Civil apenas em 2024, e, nesse mesmo ano, também recebemos um pequeno apoio do Governo. De outras entidades, incluindo o próprio Ministério da Saúde, não recebemos qualquer apoio. Durante esse período, a maior parte dos nossos gastos foi direcionada à compra de medicamentos.

Se o Ministério da Saúde nos pudesse apoiar com medicamentos, isso aumentaria significativamente a nossa capacidade de mobilizar mais voluntários para áreas remotas — especialmente para comunidades que conhecemos bem, mas às quais não conseguimos chegar devido à falta de recursos financeiros e de transporte.

O que tem permitido à SABEH continuar a existir até hoje é, em grande parte, o apoio dos amigos da organização e a colaboração com organizações internacionais, que, por vezes, solicitam o nosso apoio para facilitar formações nas comunidades. O dinheiro obtido através dessas colaborações é reunido e utilizado para adquirir os materiais de que precisamos, como medicamentos, equipamentos médicos e combustível para transporte.

Existem políticas públicas de saúde que, na sua opinião, prejudicam mais do que ajudam as comunidades vulneráveis?

Atualmente, ainda não temos um sistema de saúde com políticas públicas suficientemente estruturadas, em que se possa afirmar claramente que “quem assume a liderança será o responsável a seguir”. Muitas vezes, as alterações de nomes ou de pessoas em cargos diferentes causam impacto direto na continuidade e a implementação das políticas.

Temos, por exemplo, um programa chamado “Saúde na Família”, mas ainda não foi realizado um estudo aprofundado que avalie se este programa se adequa realmente ao contexto de Timor-Leste. Por vezes, decide-se suspender ou substituir um programa por outro, alegando que o anterior apenas consumia recursos, mas a forma de implementação continua a mesma, sem mudanças estruturais.

Por isso, precisamos de políticas e programas fixos e bem estabelecidos, para que, independentemente de quem ocupe cargos de liderança, haja um compromisso em seguir e implementar os planos já definidos. Nas áreas remotas, questionamos frequentemente a falta de recursos e as condições inadequadas da infraestrutura de saúde. Mas, se o Governo abrir espaço e apoiar todas as organizações dispostas a colaborar, podemos garantir que o serviço de saúde funcione de forma mais eficaz, mesmo que não seja possível alcançar uma cobertura de 100%.

Considera que existe desigualdade na distribuição de recursos e serviços de saúde entre áreas urbanas e rurais?

Nas áreas urbanas, as pessoas têm dinheiro e é mais fácil aceder a tratamento em clínicas privadas. Já nas zonas remotas, a população depende da chegada dos profissionais de saúde e da abertura dos postos de saúde para poder ser atendida. Por exemplo, se alguém se sentir doente numa determinada semana, pode ter de esperar até à semana seguinte, quando os profissionais estiverem disponíveis, para receber atendimento.

Portanto, existe uma grande desigualdade que ainda persiste neste setor. Estamos muito distantes da equidade em saúde. A Cobertura Universal de Saúde, sobre a qual tanto se fala, continua a ser, na prática, apenas um discurso, pois a sua implementação ainda não chega a todas as pessoas.

Esta situação acontece principalmente devido à má gestão. Sabemos quais são os problemas de saúde, mas muitas vezes os programas necessários não são implementados, seja por falta de recursos, financiamento insuficiente ou dependência excessiva de agências externas. Estes fatores constituem grandes obstáculos à realização da cobertura universal de saúde.

Existem casos em que questões políticas ou interesses privados influenciaram negativamente decisões ligadas à saúde pública?

Acredito que as pessoas que atualmente ocupam cargos no Governo têm capacidade e programas bons para a população. No entanto, quando participo em encontros no estrangeiro, vejo que Timor-Leste é frequentemente apontado como líder em várias estatísticas negativas: por exemplo, a taxa de mortalidade materna e infantil continua elevada, a má nutrição está entre as mais altas, a tuberculose e outras doenças continuam a afetar-nos gravemente.

Estes dados devem servir de alerta e informar o desenvolvimento dos nossos programas. É necessário também fazer uma reflexão séria, pois muitas vezes a implementação dos programas não atinge os públicos-alvo como deveria.

De forma geral, o nosso sistema de saúde é bom, mas precisamos de mais vontade política para implementar os programas e para trabalhar de forma colaborativa. Timor-Leste é um país pequeno, mas os desafios na área da saúde são extremamente complexos.

Os governantes precisam ainda de reconhecer os próprios erros e abrir espaço para o diálogo, conversando com todas as pessoas que genuinamente desejam ajudar e contribuir com ideias para melhorar o sistema de saúde em Timor-Leste.

“No entanto, verificamos que muitas crianças abandonam a imunização, o que nos leva a questionar o que está a acontecer. O pessoal de saúde informa que, quando o carro não tem combustível ou apresenta avarias, não conseguem transportar os medicamentos”

Timor-Leste tem capacidade para garantir medicamentos, equipamentos e profissionais suficientes nas áreas mais remotas?

Temos o Instituto Nacional de Farmácia e Produtos Médicos, responsável pelo fornecimento de medicamentos. No entanto, verificamos que muitas crianças abandonam a imunização, o que nos leva a questionar o que está a acontecer. O pessoal de saúde informa que, quando o carro não tem combustível ou apresenta avarias, não conseguem transportar os medicamentos. Na prática, a capacidade de gestão do stock nas áreas remotas é um problema, apesar de os diretores ou chefes dos centros de saúde deverem conhecer o stock existente para garantir o seu reabastecimento antes de esgotar.

Quanto aos profissionais de saúde, existem recursos humanos suficientes, mas a gestão destes recursos não é clara. Por exemplo, em alguns postos há excesso de profissionais, que são transferidos para outras localidades. É necessário garantir que cada posto disponha de pelo menos um médico, um enfermeiro, uma parteira, um profissional de saúde pública, um farmacêutico e um técnico de laboratório. Temos profissionais, mas falta vontade política para utilizar adequadamente estes recursos.

Além disso, no processo de recrutamento, por vezes acumulam-se profissionais em locais onde nem sabem exatamente o que devem fazer, devido à distribuição desigual do pessoal de saúde. Em alguns centros há muitos profissionais, enquanto noutros postos as equipas são reduzidas ou o pessoal falta durante meses.

Há resistência por parte de algumas comunidades à adoção de práticas de saúde recomendadas pela SABEH? Quais os motivos?

As comunidades valorizam muito o trabalho da SABEH, pois ajudamos a aliviar as doenças que enfrentam. Não podemos afirmar que rejeitam o tratamento, já que a maioria das nossas comunidades convive com doenças crónicas antigas. Muitas vezes solicitam que forneçamos medicamentos e que permaneçamos próximos, pois têm outras condições que querem partilhar com os profissionais de saúde.

Considera que a atual estrutura do Ministério da Saúde permite uma resposta eficaz às necessidades específicas das comunidades rurais?

O Ministério da Saúde lançou o programa Pacote Integrado de Serviços (IPS), que garante acesso e cuidados de saúde às comunidades. Este programa é positivo, pois traz equipas especializadas para consultas em áreas remotas. No entanto, nem todas as necessidades são atendidas, pois os médicos gerais realizam a triagem inicial para identificar doenças e depois informam as equipas especializadas para atuarem.

Acompanhei equipas especializadas em atividades de campo e consultas: os médicos gerais realizam a consulta inicial, recolhem todas as informações e encaminham os casos para as equipas especializadas. Assim, os especialistas sabem que tratamentos e medicamentos fornecer. Caso contrário, os pacientes teriam apenas a consulta geral e teriam de regressar várias vezes, enquanto a doença persiste.

Alguma vez sentiram que o vosso trabalho foi condicionado por interesses políticos ou partidários?

Isso acontece frequentemente. Em Timor-Leste, quando tiramos fotografias com um líder político, algumas pessoas desconfiam que estamos ligados a esse partido. Na maioria das vezes, não confirmam isso connosco, mas fazem suposições prematuras sobre o que veem e ouvem.

A politização do nosso trabalho é forte, mas temos de compreender a maturidade política das pessoas. O nosso objetivo é levar saúde às comunidades e cuidar das pessoas doentes, permitindo-lhes viver de forma saudável e participar ativamente em campanhas eleitorais.

Quais são os planos futuros da SABEH para expandir ou reforçar o seu trabalho?

Vamos continuar firmes no nosso trabalho nas comunidades até que os serviços de saúde do Governo estejam disponíveis ou, se necessário, permanentemente nas áreas remotas. Todas as pessoas devem ter acesso a cuidados de saúde que abordem os problemas físicos, psicológicos, espirituais e sociais. Precisamos de garantir que ninguém fique sem acesso à saúde. Todos, independentemente do local onde vivem, têm direito a um tratamento digno, de qualidade e adequado.

Que reformas urgentes deveriam ser feitas no sistema de saúde para que organizações como a SABEH não tenham de preencher tantas lacunas deixadas pelo Estado?

É necessário integrar os cuidados paliativos nos programas de saúde primária, pois é importante prevenir e aliviar o sofrimento, controlando a dor e outros problemas físicos, psicológicos, sociais e espirituais. Segundo estatísticas, quase cinco mil pessoas por ano necessitam de cuidados paliativos. Não é necessário criar hospitais específicos, mas fornecer este cuidado nas próprias famílias.

Além disso, é essencial que, a qualquer hora e em qualquer lugar, todas as pessoas possam aceder a tratamento de saúde. O Governo precisa de trabalhar em parceria com organizações voluntárias como a SABEH para garantir que os serviços de saúde sejam próximos das comunidades e de qualidade.

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