Cem anos após a morte de Camilo Pessanha, uma exposição inaugurada em Díli está a dar a conhecer a vida e a obra do poeta português a muitos timorenses que nunca tinham ouvido falar do autor. Além de apresentar o legado literário do escritor, a iniciativa procura aproximar a literatura portuguesa do público local através da arte e da participação dos visitantes.
Inaugurada ao final da tarde de sexta-feira, 19 de junho, no Centro Cultural Jorge Sampaio, em Díli, a exposição dedicada a Camilo Pessanha assinala os 100 anos da morte do poeta português e procura aproximar a sua obra do público timorense através da literatura e da arte visual. A mostra, que estará patente durante cerca de um mês, inclui uma instalação artística criada pela Arte Moris e convida os visitantes a interagir com o legado do escritor.
Para Álvaro Vasconcelos, a exposição constituiu a primeira oportunidade para conhecer Camilo Pessanha. Segundo o visitante, a iniciativa despertou o seu interesse pela poesia e contribuiu para uma maior valorização do legado literário do autor. “Aquilo que vi foi muito interessante. É também uma boa oportunidade para nós, timorenses e estudantes, nos dedicarmos mais à poesia”, afirmou.
Álvaro Vasconcelos considera que é necessário promover mais atividades dedicadas a escritores e poetas, de forma a alargar o conhecimento do público sobre diferentes figuras da literatura. “No futuro, seria importante apresentar mais obras e promover novas iniciativas culturais para educar, sensibilizar e incentivar os jovens a conhecer melhor os autores que marcaram a história da literatura. Somos uma nação que tem muito para aprender”, acrescentou.
Também Helena Tavares, visitante portuguesa, afirmou que a exposição lhe permitiu revisitar conhecimentos adquiridos durante os anos de escola. “Quando eu era estudante, tínhamos obras de leitura obrigatória”, recordou.
A visitante destacou particularmente os postais suspensos na instalação artística e a possibilidade de estabelecer uma ligação simbólica com o poeta.
Na sua perspetiva, estas iniciativas são importantes não apenas para divulgar a vida e a obra de Camilo Pessanha, mas também para dar a conhecer outros autores da literatura portuguesa. “Todos nós passamos por estas obras. Portanto, é um bocadinho do nosso passado”, concluiu.
A estudante da Escola CAFE de Díli, Zinigia Sobral, confessou que nunca tinha ouvido falar de Camilo Pessanha antes desta iniciativa.
Durante a exposição, teve a oportunidade de declamar alguns poemas do autor e ficou particularmente sensibilizada por um texto dedicado ao tema da saudade. “O poema relaciona-se com a experiência de quem se encontra longe do seu país de origem, um sentimento com que me identifico”, explicou.
Segundo a jovem, a leitura do poema levou-a a refletir sobre a distância da terra natal e sobre o desejo de procurar melhores oportunidades no estrangeiro. “Eu também queria ter um futuro melhor e estudar lá fora”, afirmou.
Zinigia Sobral considera que iniciativas desta natureza são importantes para reforçar os laços culturais entre os países lusófonos e pretende continuar a explorar a obra do poeta.
Arte Moris transforma poesia em arte visual
Um dos elementos centrais da exposição é uma instalação artística criada pelo coordenador da Arte Moris, Evang Pereira.
Inspirada na vida e na obra de Camilo Pessanha, a peça assume a forma de um grande livro atravessado por linhas suspensas e por centenas de postais escritos por estudantes do CAFE e da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL).
Segundo Evang Pereira, antes desta colaboração nunca tinha ouvido falar do poeta português. “Depois de ouvir este nome, surgiu logo uma pergunta na minha cabeça: quem é esta pessoa?”, contou.
Após conhecer melhor a biografia de Camilo Pessanha, decidiu criar uma obra que simboliza a transmissão do conhecimento e a importância da leitura.
Inicialmente, pensou apenas na construção de um grande livro, mas, com o apoio da equipa da Embaixada de Portugal, decidiu acrescentar outros elementos à instalação.
Foram distribuídos cerca de 300 postais a estudantes do CAFE e da UNTL, para que escrevessem mensagens dirigidas ao poeta. “O livro foi criado por mim, mas os postais contêm ideias e mensagens de outras pessoas. Por isso, acredito que os visitantes também podem sentir que esta obra lhes pertence”, afirmou.
Segundo o artista, os postais ainda em branco poderão ser preenchidos por novos visitantes, permitindo que a instalação continue a crescer.
Exposição assinala o centenário da morte de Camilo Pessanha
A exposição foi inaugurada no Centro Cultural Jorge Sampaio, em Díli, para assinalar os 100 anos da morte de Camilo Pessanha, ocorrida em 1926, em Macau.
A iniciativa pretende divulgar a obra do escritor e promover o diálogo cultural entre Portugal e a Ásia, reforçando simultaneamente os laços históricos e linguísticos entre Portugal e Timor-Leste.
Segundo o embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, a escolha de Camilo Pessanha deve-se não apenas ao centenário da sua morte, mas também ao facto de o poeta representar uma ponte entre a cultura portuguesa e o Oriente.
“Os 100 anos da sua morte são a razão de estarmos a celebrar, mas também porque achámos interessante trazer para o nosso Centro Cultural um escritor, um poeta e um intelectual que foi um agente do diálogo entre a Europa e a Ásia, entre Portugal e Macau”, afirmou.
O diplomata destacou ainda que a exposição integra uma obra criada pela Arte Moris, refletindo a aposta da Embaixada no trabalho conjunto com artistas timorenses. “Queremos trabalhar com os artistas timorenses, queremos puxar pela criatividade timorense e dar oportunidade aos artistas timorenses para trabalharem no nosso Centro Cultural”, disse.
Duarte Bué Alves defendeu que o diálogo cultural pode constituir um estímulo à criatividade e sublinhou que a própria vida de Camilo Pessanha representa a junção entre a sua origem portuguesa e a experiência vivida na Ásia.
Língua e cultura portuguesas reforçam laços entre os povos
Por sua vez, a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Jesuína Ferreira Gomes, considerou que a iniciativa constitui uma homenagem ao legado da língua e da cultura portuguesas.
Segundo a governante, o português, enquanto uma das línguas oficiais de Timor-Leste, desempenha um papel importante na educação, na administração pública, na diplomacia e na cooperação com os restantes países lusófonos.
“Timor-Leste, através da língua portuguesa enquanto uma das línguas oficiais, continua a desempenhar um papel crucial na afirmação da identidade nacional e na preservação do património cultural. O português é uma ferramenta fundamental para a educação, a administração pública, a diplomacia e a cooperação com outros países lusófonos”, afirmou.
Jesuína Ferreira Gomes defendeu ainda que iniciativas culturais desta natureza contribuem para reforçar o diálogo, a compreensão mútua e os laços de amizade entre os povos.
Na ocasião, felicitou a Embaixada de Portugal, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e as restantes entidades parceiras pelo empenho contínuo na promoção da língua e da cultura portuguesas em Timor-Leste.
A exposição estará patente ao público durante cerca de um mês e pretende receber escolas, universidades, professores, investigadores e artistas.























