Para José Manuel Simões, os media, a arte e a tecnologia só fazem sentido quando colocados ao serviço das pessoas e dos valores humanistas. Em entrevista ao Diligente, o académico português defende um jornalismo livre e fiscalizador, alerta para ameaças à liberdade de imprensa em Timor-Leste e sublinha a importância da língua portuguesa, da cultura e da solidariedade na aproximação entre os povos lusófonos.
O livro “Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua Portuguesa” reúne perspetivas de especialistas sobre a interligação entre os media, a arte e a tecnologia nos diferentes espaços da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O projeto procura aproximar nove culturas que partilham o português como língua oficial.
“Os meios de comunicação e a tecnologia não são apenas formas de comunicação, mas partes fundamentais da expressão artística e da identidade cultural”, lê-se no prefácio da obra, apresentada no dia 5 de junho, na Universidade Católica Timorense, em Díli.
O organizador e editor da publicação, José Manuel Simões, atualmente coordenador do Mestrado em Comunicação e Media da Universidade de São José, em Macau, explicou que a ideia surgiu após a coorganização do livro Jornalismo e Qualidade no Mundo da Expressão Portuguesa, publicado em 2022, no qual Virgílio Guterres e Pedro Brinca assinaram um artigo dedicado a Timor-Leste.
Com uma carreira de 18 anos no jornalismo cultural, o professor associado do Departamento de Media, Arte e Tecnologia pretende criar pontes entre pessoas, investigadores e estudantes que partilham a língua portuguesa e um interesse comum pelas áreas dos media, da arte e da tecnologia.
Para José Manuel Simões, é fundamental que estas três áreas estejam alinhadas com princípios éticos e humanistas. Considera, por isso, que a obra é também uma manifestação de afeto, refletida na proximidade dos autores aos temas que abordam.
Tecnologia como alicerce da identidade e da língua
O conceito de “nove culturas”, em vez de “nove países”, foi escolhido para incluir Macau, território chinês onde o português continua a ser língua oficial e onde subsiste o sistema jurídico de matriz portuguesa. “Prefiro falar em culturas e não em territórios ou países, porque é a cultura que nos une. Os media, a arte e a tecnologia encontram-se unidos neste livro”, afirmou.
O editor explicou ainda que optou por não incluir a Guiné Equatorial, apesar de o português ser uma das línguas oficiais do país, por considerar que não existe ali uma presença cultural lusófona suficientemente consolidada.
Embora cada artigo atribua diferentes graus de relevância aos media, à arte e à tecnologia, todos evidenciam a relação entre estas três dimensões. José Manuel Simões acredita que essas diferenças resultam sobretudo das áreas de investigação e dos interesses dos autores, mais do que das especificidades de cada contexto nacional.
Para a elaboração dos textos, deu liberdade total aos colaboradores para articularem os três temas. Cada capítulo inclui ainda um código QR através do qual o respetivo autor apresenta, em vídeo, uma síntese do seu trabalho, constituindo um exemplo prático da convergência entre media, arte e tecnologia.
Os artigos dedicados a Cabo Verde e ao Brasil centram-se mais na tecnologia. Entre outros aspetos, abordam o impacto da inteligência artificial nas redações jornalísticas cabo-verdianas, a arte digital brasileira e a utilização de criptomoedas no Brasil.
Outros textos dão maior destaque às raízes culturais, à gastronomia, aos rituais e às danças tradicionais, como acontece no capítulo dedicado à Guiné-Bissau. Já o artigo sobre Timor-Leste atribui maior relevância ao jornalismo, enquanto o de Macau se centra na filantropia e na solidariedade.
“Sabemos que o jornalismo na Guiné-Bissau é muito pobre e a cultura é muito rica. Por isso, dar maior destaque à cultura e não ao jornalismo é também uma forma de mostrar uma realidade mais saudável do país”, observou.
Para o editor, a cultura, a arte, a tecnologia e o próprio jornalismo devem contribuir para o bem comum e para o amor ao próximo. Sublinhou que a tecnologia pode aproximar as pessoas quando é utilizada de forma consciente, mas também pode afastá-las e dominá-las quando é aceite “de forma acrítica e meramente imitativa”.
“No prefácio, o meu amigo, o professor João Bruchado, salienta a importância da tecnologia para unir os povos que falam português à escala global. O importante é não perdermos aquilo que é mais importante: o humanismo. São as relações humanas, a ligação ao outro, o contacto da palavra, o afeto, o amor ao bem comum e aos valores morais e éticos.”
Esta dimensão humana foi sentida pelo próprio organizador da obra durante as suas visitas a Timor-Leste, país que considera ser a cultura de língua portuguesa que mais atrai os portugueses.
“Aqui sou tratado como grande irmão, e não é por ser grande; é assim que os portugueses são chamados. Sinto uma solidariedade especial das pessoas quando sabem que sou português. É algo que se associa à simpatia natural dos timorenses, mas que se fortalece através da ligação a Portugal e aos portugueses”, afirmou.
Para José Manuel Simões, é também o amor pela língua portuguesa que explica esta proximidade. Na sua terceira visita ao país, regressou com um afeto ainda maior pelo povo timorense e apelou a todas as instituições para que continuem a investir na promoção e valorização do português.
O professor reconheceu o trabalho desenvolvido pelas instituições de ensino em Timor-Leste, mas considera que os meios de comunicação social desempenham um papel igualmente decisivo no fortalecimento da língua. “Quanto melhor for o desempenho dos meios de comunicação social, mais forte será esta língua oficial que une os países lusófonos”, afirmou.
José Manuel Simões aproveitou ainda para elogiar o trabalho desenvolvido pelo Diligente na promoção da língua portuguesa. “Quero aproveitar para felicitar o Diligente pelo trabalho que tem desenvolvido na promoção, aproximação e valorização da língua portuguesa”, declarou.
O jornalismo nasceu para ser o quarto poder
Para José Manuel Simões, o jornalismo perde a sua razão de ser quando deixa de fiscalizar os centros de poder. O académico defende uma imprensa livre, rigorosa e comprometida com a verdade, rejeitando tanto a censura como a instrumentalização dos meios de comunicação social por interesses políticos ou económicos.
Apesar de ter transitado do jornalismo para a academia, continua a defender um jornalismo de causas, assente na solidariedade, na responsabilidade social e na procura da verdade. Entre os países de língua portuguesa, considera que Timor-Leste ocupa um lugar singular. “Porque o jornalismo nasceu da tragédia, da luta e da morte”, afirmou.
Na sua perspetiva, a história da resistência timorense e o sacrifício daqueles que arriscaram a vida pela independência deixaram uma marca profunda na profissão. Recorda figuras como Max Stahl, Adelino Gomes e os jornalistas australianos assassinados durante a invasão indonésia.
“É por isso que o jornalismo nasceu, na sua génese, para ser o quarto poder, isto é, para vigiar os outros poderes, nomeadamente o poder político. E não para ser o quarto do poder, onde se estabelecem relações promíscuas, compadrios, corrupção, controlo e censura, substituindo, à escala global, o princípio do quarto poder”, explicou.
Como exemplo do papel fiscalizador do jornalismo, recordou o caso de São Tomé e Príncipe, onde o trabalho de jornalistas contribuiu para a prisão de uma ministra da Saúde. Para o professor, tal só foi possível graças ao compromisso com a verdade e à consciência do que significa ser íntegro, honesto, responsável e incorruptível.
“É obrigação do jornalista, quando dispõe de provas e factos, denunciar quem comete desvios éticos e viola princípios fundamentais”, defendeu.
José Manuel Simões destacou o papel dos media na mobilização da sociedade civil, na fiscalização da ação governativa e na exigência de prestação de contas. Considera que o jornalismo contribui para o desenvolvimento dos países através da informação livre e rigorosa, do jornalismo de investigação e da grande reportagem.
Embora Timor-Leste seja atualmente o país mais bem classificado do Sudeste Asiático no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), alertou para sinais que considera preocupantes.
Segundo o académico, o recurso por parte de políticos ao artigo 285.º do Código Penal, relativo ao crime de denúncia caluniosa, tem sido utilizado para retaliar contra jornalistas envolvidos na divulgação de alegados casos de corrupção em instituições públicas e privadas. “Se um jornalista não denuncia casos de corrupção, não está a contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Quando o faz, está a cumprir a sua missão”, afirmou.
Além do crime de denúncia caluniosa, encontra-se em debate uma proposta de alteração ao Código Penal que prevê penas de prisão até cinco anos para crimes de difamação praticados através dos meios de comunicação social ou das redes sociais.
José Manuel Simões reconheceu a gravidade da censura e da autocensura, mas sublinhou que a liberdade de imprensa não pode servir de pretexto para divulgar acusações sem fundamento. “É tão grave a censura e a autocensura como o abuso da liberdade de imprensa”, afirmou.
O professor explicou que a censura e a autocensura são fenómenos difíceis de medir, uma vez que muitas pessoas, por receio de represálias ou de perderem o emprego, acabam por ocultar informações de interesse público. Por outro lado, considerou que difamar alguém sem factos ou provas constitui uma grave violação ética e deve ser sancionado.
Defendeu que os jornalistas não podem mentir deliberadamente nem aceitar práticas que confundam jornalismo com propaganda, relações públicas, marketing ou publicidade. “Confunde-se propaganda, relações públicas, marketing e publicidade com jornalismo. Não pode ser. E quem comete esses delitos, no âmbito da difamação, deve ser penalizado”, afirmou.
Contudo, salientou que denúncias sustentadas por provas não podem ser classificadas como difamação ou denúncia caluniosa. “As pessoas devem ser responsabilizadas quando cometem crimes ou violam a lei. E os jornalistas que fazem este trabalho não podem ser criminalizados de forma alguma, porque estão a defender os princípios e os valores do código deontológico e a exercer o seu poder de vigilância”, explicou.
Na sua opinião, os profissionais que investigam e denunciam irregularidades devem ser valorizados pela coragem demonstrada. “A difamação com justa causa, baseada em provas e factos, não deve, em caso algum, ser penalizada. A difamação assente em rumores, falsos testemunhos ou fontes anónimas inventadas deve ser criminalizada.” José Manuel Simões sublinhou ainda que as fontes anónimas legítimas devem ser protegidas e podem ser utilizadas quando a informação é corroborada por provas.
Reconheceu, porém, que o acesso às fontes continua a ser uma das principais dificuldades nos países lusófonos, sobretudo nos de menor dimensão, onde as relações de proximidade tornam mais difícil a denúncia. “Mas, se o jornalista descobre uma fatura e verifica que foram gastos recursos em camas que nunca chegaram ao hospital, isso é uma prova, uma evidência, e tem de ser denunciado.”
Para o académico, o jornalismo de investigação representa uma das dimensões mais nobres da profissão, precisamente porque exige coragem, persistência e compromisso com a verdade. “É verdade que não pode haver autocensura e que é preciso coragem para investigar. Mas isso faz parte de ser um bom jornalista.”
O professor reconheceu igualmente os desafios que persistem na promoção da liberdade de imprensa, nomeadamente a escassez de recursos financeiros, a falta de capacidades técnicas e as pressões políticas exercidas sobre os órgãos de comunicação social.
Sem informação livre não há desenvolvimento
José Manuel Simões destacou a importância do jornalismo para o desenvolvimento social e económico dos países lusófonos. No artigo que dedicou a São Tomé e Príncipe, analisa o contributo dos meios digitais para o empreendedorismo e para a modernização económica, bem como a crescente presença da China nos diferentes espaços de língua portuguesa.
O investigador chamou também a atenção para desigualdades persistentes no setor da comunicação social, principalmente na São Tomé e Príncipe. “Não é justo que, até hoje, apenas uma mulher tenha ocupado um cargo de chefia. É importante que alguém, mesmo sendo de fora, alerte para estes desequilíbrios”, observou.
Defendeu igualmente que o crescente envolvimento económico da China nos países lusófonos deveria ser acompanhado por uma maior aproximação cultural. “Era importante que a China também se aproximasse culturalmente e que parceiros como Portugal ou a Austrália contribuíssem para o desenvolvimento da arte, da tecnologia e dos media em Timor-Leste”, sugeriu.
A investigação realizada para o livro permitiu-lhe observar o papel relevante desempenhado pelas rádios comunitárias em São Tomé e Príncipe. Na sua perspetiva, estes meios aproximam os cidadãos da informação e reforçam os laços entre as comunidades graças à relação de proximidade que mantêm com a população.
Destacou ainda a importância da rádio na difusão de informação em contextos onde persistem desigualdades significativas no acesso à Internet, sobretudo nas zonas rurais e mais isoladas.
Apesar da sua relevância social, muitas destas rádios enfrentam dificuldades de sobrevivência devido à escassez de recursos e de apoios institucionais. “Penso que os investidores estrangeiros e todos aqueles que beneficiam da economia local devem dar esse contributo de forma solidária, através da filantropia, apoiando os media, a arte e a tecnologia. Trata-se de um investimento no desenvolvimento destes países, sobretudo dos mais frágeis do ponto de vista económico”, afirmou.
Ao longo da entrevista, José Manuel Simões regressou várias vezes à mesma ideia: os media, a arte e a tecnologia só cumprem verdadeiramente a sua função quando estão ao serviço das pessoas.























