“O Estado deve ser maior do que todas as pessoas”: o legado de Lú-Olo

“Observava, analisava e estudava antes de decidir. Nunca ultrapassava os limites das suas competências e sabia distinguir claramente as funções de cada instituição.” / Foto: Página Oficial Francisco Guterres Lú-Olo

Combatente durante 24 anos, dirigente da resistência, presidente da Assembleia Constituinte, do Parlamento Nacional e da República, Francisco Guterres ‘Lú-Olo’ atravessou meio século da história de Timor-Leste. Familiares, companheiros da luta, antigos colaboradores e líderes políticos recordam um homem que defendia o diálogo acima do confronto, o Estado acima dos interesses pessoais e o serviço ao povo acima do poder.

Combatente durante 24 anos, dirigente da FRETILIN, presidente da Assembleia Constituinte, do Parlamento Nacional e da República, Francisco Guterres ‘Lú-Olo’ deixou uma marca que ultrapassa fronteiras partidárias. Familiares, companheiros da resistência, antigos colaboradores, jovens e líderes nacionais e internacionais recordam um homem que privilegiava o diálogo, rejeitava o confronto e acreditava que servir o povo era mais importante do que exercer o poder.

A morte de Francisco Guterres ‘Lú-Olo’ provocou uma onda de emoção em Timor-Leste. Dos familiares aos antigos companheiros da resistência, dos colaboradores mais próximos aos líderes políticos nacionais e estrangeiros, multiplicam-se os testemunhos sobre uma das figuras mais marcantes da história contemporânea do país.

Ao longo de quase cinco décadas de vida pública, Lú-Olo foi guerrilheiro, dirigente da resistência, líder partidário, presidente da Assembleia Constituinte, presidente do Parlamento Nacional e Presidente da República. Mas, para muitos dos que com ele conviveram, o traço mais distintivo não foi nenhum dos cargos que ocupou. Foi a simplicidade.

Nos relatos recolhidos após a sua morte, surgem repetidamente as mesmas palavras: humildade, serenidade, diálogo e compromisso com o povo. Qualidades que acompanharam o antigo Presidente desde os anos da luta clandestina até aos últimos dias da sua vida.

“Perdemos o nosso irmão, uma pessoa boa, simples, respeitadora e de poucas palavras.” – Domingos Guterres

‘Lú-Olo’, o homem antes do político

Para a família, a morte de Francisco Guterres representa antes de mais a perda de um irmão, marido, pai e amigo.

Domingos Guterres recorda-o como uma pessoa reservada, respeitadora e profundamente humana. “Perdemos o nosso irmão, uma pessoa boa, simples, respeitadora e de poucas palavras. Mantinha uma boa relação com toda a gente. Por isso, sentimos orgulho nele e, ao mesmo tempo, tristeza. No entanto, a sua memória ficará sempre connosco”, afirmou.

A família acompanhou à distância os últimos dias de tratamento médico na Malásia, para onde o antigo Presidente da República se deslocou no final de maio. A notícia da sua morte, a 21 de junho, encerrou uma longa trajetória de dedicação ao país, mas abriu também um período de reflexão sobre o legado que deixa às futuras gerações.

Entre familiares, amigos e antigos colaboradores, há uma ideia comum: apesar das responsabilidades políticas que assumiu ao longo da vida, ‘Lú-Olo’ nunca perdeu a proximidade com as pessoas.

“Eu vim sem nada e morrerei sem nada.” – Francisco Guterres ‘Lú-Olo’

Lú-Olo, o guerrilheiro

Muito antes de ocupar os mais altos cargos do Estado, Francisco Guterres foi um dos homens que permaneceram no mato durante os 24 anos da resistência contra a ocupação indonésia.

O investigador Naldo Rei, que o conheceu através da rede clandestina, guarda até hoje uma fotografia enviada por Lú-Olo em 1989. “Foi através dessa fotografia que conheci Lú-Olo”, recordou.

A imagem, que viria mais tarde a mostrar ao próprio antigo Presidente durante a cerimónia da sua tomada de posse em 2017, captava um momento aparentemente banal: Lú-Olo escrevia uma carta.

Fotografia enviada por ‘Lú-Olo’ a Naldo Rei / Foto: Arquivo de Naldo Rei

Quando questionou o antigo Presidente sobre a fotografia, recebeu uma resposta inesperada. “O saudoso disse-me que estava a escrever uma carta para mim.”

Esse episódio tornou-se um dos símbolos da relação que ambos mantiveram ao longo de décadas e esteve na origem do projeto de biografia que Naldo Rei começou a desenvolver após a restauração da independência.

Ao investigar o percurso de Lú-Olo, entrevistou cerca de cinquenta antigos guerrilheiros e visitou diversos locais onde o dirigente da resistência viveu e organizou operações durante a luta.

A conclusão a que chegou foi clara. “Lú-Olo não era apenas um dirigente político. Era também um grande mobilizador da população para a causa da libertação nacional.”

Os testemunhos recolhidos revelam igualmente uma faceta menos conhecida do antigo líder: a utilização da música e da poesia como instrumentos de resistência.

Segundo antigos companheiros, Lú-Olo escrevia canções e incentivava os guerrilheiros a cantar para manter a esperança durante os momentos mais difíceis da luta. A música servia para aliviar o medo, combater o desânimo e fortalecer a união entre combatentes e população.

Entre as reflexões que mais marcaram Naldo Rei estão palavras que considera particularmente atuais. “Os que já morreram na luta são os mais felizes, porque defenderam a Pátria e o povo Maubere com orgulho. Nós, que continuamos vivos, carregamos o peso que eles deixaram sobre os nossos ombros.”

Noutras ocasiões, Lú-Olo defendia uma gestão ética da coisa pública. “Se todos nós governarmos com consciência limpa, o que pertence ao povo é do povo, e o que é nosso é nosso.” Mas talvez nenhuma frase resuma melhor a forma como encarava a vida e o poder do que esta: “Eu vim sem nada e morrerei sem nada.”

Décadas depois da resistência, essas palavras continuam a definir a imagem que muitos timorenses guardam dele: a de um combatente que nunca deixou que o poder se sobrepusesse aos princípios.

“Se todos nós governarmos com consciência limpa, o que pertence ao povo é do povo, e o que é nosso é nosso.” – Francisco Guterres ‘Lú-Olo’

‘Lú-Olo’, o dirigente que privilegiava a unidade

Para os seus companheiros de partido, Francisco Guterres ‘Lú-Olo’ deixa uma herança política assente na unidade, na integridade e no compromisso com o interesse nacional.

O secretário-geral da FRETILIN, Mari Alkatiri, considerou que este é um momento de dor, mas também de responsabilidade para aqueles que continuam o percurso iniciado por uma das figuras históricas do partido. “Devemos aproveitar esta situação para estarmos todos unidos na nossa dor. Seja qual for a dificuldade, com a ajuda de Deus podemos transformar o sofrimento em força”, afirmou.

Alkatiri recordou décadas de trabalho conjunto e uma relação construída ao longo dos anos da resistência e da vida política. Entre as memórias que guarda está uma mensagem simples, mas exigente: quando um deixar de poder continuar, cabe ao outro prosseguir o caminho. “Nós os dois trabalhámos juntos. Quando um já não estiver aqui, o outro deve continuar o trabalho”, recordou.

Segundo o líder da FRETILIN, Lú-Olo acreditava que a política deveria ser exercida com honestidade e rejeitava qualquer forma de corrupção ou aproveitamento do poder para benefício pessoal.

Essa imagem é partilhada pelas gerações mais jovens do partido. FiChe, jovem militante da FRETILIN, considera que o antigo Presidente da República representa uma referência para os timorenses que não viveram diretamente os anos da resistência. “O saudoso ‘Lú-Olo’ nunca mediu os seus sacrifícios nem o sofrimento enfrentado pelo povo maubere e colocou sempre os interesses da nação acima de qualquer benefício pessoal”, afirmou.

Para a jovem militante, o legado do antigo líder ultrapassa as fronteiras partidárias. “A influência de ‘Lú-Olo’ não se limita apenas aos jovens da FRETILIN. Estende-se a toda a juventude timorense.”

Entre os ensinamentos que mais a marcaram estão a simplicidade, a firmeza de caráter e o respeito pelos outros. “Numa época em que muitas pessoas sacrificam os seus princípios por poder e dinheiro, o saudoso ensinou-me que não devemos desejar aquilo que pertence aos outros e que devemos respeitar os direitos de cada pessoa.”

“O Estado deve ser maior do que todas as pessoas.” — Francisco Guterres ‘Lú-Olo’

“Lú-Olo”, o Presidente do povo

Se os antigos companheiros da resistência recordam o guerrilheiro e o dirigente político, Jufer Guterres recorda sobretudo o homem que acompanhou diariamente durante cinco anos na Presidência da República.

Jufer integrou a equipa de comunicação do Palácio Presidencial e tornou-se um dos colaboradores mais próximos de ‘Lú-Olo’ durante o seu mandato.

A relação começou anos antes, quando trabalhava como jornalista e acompanhava atividades políticas e partidárias. Mais tarde, após a eleição presidencial de 2017, foi convidado a integrar a equipa de comunicação da Presidência.

A convivência diária permitiu-lhe conhecer um lado menos visível do antigo Chefe de Estado. “Vi que o Presidente ‘Lú-Olo’ era uma pessoa muito simples, mas muito forte nas suas decisões. Tinha a convicção de ser um Presidente do povo, com o povo e para o povo.”

Segundo Jufer, uma das características mais marcantes era a forma como reagia às críticas. Apesar dos ataques políticos que enfrentava, raramente respondia publicamente. “Nunca procurava responder ou confrontar quem falava contra ele. Mantinha-se tranquilo, com um sorriso.”

Quando queria afastar-se do ambiente político, recorria frequentemente à música. “Muitas vezes, levava a sua viola para tocar e animar os seus momentos”, recordou.

Mas foi nas conversas privadas que Jufer encontrou algumas das preocupações mais profundas do antigo Presidente. Uma delas era a crescente divisão entre os veteranos da luta de libertação nacional. “Agora nós, os veteranos da luta, continuamos juntos, mas já praticámos demasiada política suja e demasiado ódio entre nós”, lamentava ‘Lú-Olo’.

Noutras ocasiões, questionava o impacto dessas divisões sobre os mais jovens. “Se nós, antigos combatentes, continuarmos a atacar-nos mutuamente e a destruir a personalidade uns dos outros, como podemos educar este povo?”

A educação era, aliás, um dos temas mais presentes nas suas reflexões. Segundo Jufer, ‘Lú-Olo’ considerava que muitos dos problemas estruturais do país só poderiam ser resolvidos através de um investimento sério na formação das novas gerações.

“Agora nós, os veteranos da luta, continuamos juntos, mas já praticámos demasiada política suja e demasiado ódio entre nós” – Francisco Guterres ‘Lú-Olo’

Mesmo após deixar a Presidência da República, os contactos entre ambos mantiveram-se regulares. As conversas passaram a incluir temas familiares, políticos e reflexões sobre o futuro de Timor-Leste.

Os últimos contactos ocorreram durante o tratamento médico realizado na Malásia. Até aos dias finais, continuaram a trocar mensagens sobre a situação do país.

Perante a notícia, Jufer e a deputada Nurima organizaram imediatamente a elaboração de um comunicado para publicação na página oficial. “Escrevíamos enquanto chorávamos. As lágrimas caíam, mas continuámos a escrever até concluir a publicação”, relatou.

Ao recordar o homem que acompanhou durante tantos anos, Jufer Guterres concluiu que a maior herança deixada por Lú-Olo foi a sua humanidade, simplicidade e humildade. “Estas qualidades permanecem vivas na memória daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado”, concluiu Jufer Guterres.

“Era um líder incorruptível”

Entre os dirigentes da FRETILIN que trabalharam de perto com Francisco Guterres ‘Lú-Olo’, Edio José Maria Guterres recorda sobretudo a proximidade humana e a coerência política do antigo Presidente da República.

Membro do Comité Central da FRETILIN, acompanhou-o durante vários anos e afirma que nunca sentiu distância hierárquica na relação que mantinham.

“Era um líder, mas também um irmão, um pai e um camarada. Tinha uma grande proximidade com as pessoas que trabalhavam com ele. Mesmo quando estava na Presidência da República, conversávamos muitas vezes como amigos e não apenas como Presidente e assessor”, recordou.

Entre as lições que mais o marcaram, destaca duas mensagens que considera particularmente relevantes para as novas gerações. “Não se cansem de aprender. A vida é uma viagem de aprendizagem. Continuem a aprender.”

A segunda mensagem estava relacionada com a construção do Estado e a responsabilidade das gerações futuras. “À vossa geração entregamos este Estado. A nossa geração fez a guerra para o fundar, mas isso não significa que o Estado nos pertença. O Estado deve ser maior do que todas as pessoas. No futuro, terão a responsabilidade de garantir que assim continue.”

Para Edio Guterres, estas palavras não eram apenas um discurso político. Eram princípios que ‘Lú-Olo’ procurava aplicar na sua própria atuação.

Durante o mandato presidencial, defendia o fortalecimento do Estado de direito democrático e o respeito pelas instituições, pela Constituição e pelas leis da República. Mas a característica que mais o impressionou foi a integridade. “Era um líder incorruptível. Detestava a corrupção.”

Como exemplo, recorda a recusa em dar posse a governantes indigitados que enfrentavam processos judiciais relacionados com alegados casos de corrupção. “Não tomou essa posição apenas em relação a membros de outros partidos. Também a aplicou a membros da própria FRETILIN. Foi uma atitude de coerência política.”

Segundo Edio, mesmo nos momentos mais difíceis da vida política nacional e partidária, ‘Lú-Olo’ mantinha a serenidade e evitava decisões precipitadas. “Observava, analisava e estudava antes de decidir. Nunca ultrapassava os limites das suas competências e sabia distinguir claramente as funções de cada instituição.”

Para o dirigente da FRETILIN, a simplicidade que caracterizou ‘Lú-Olo’ durante a resistência acompanhou-o até ao fim da vida. “Ele viveu sempre dentro das suas possibilidades. Nunca procurou viver acima daquilo que tinha. Costumava dizer que um bom político não precisa de pertencer a uma elite nem uma pessoa rica.”

Esse percurso, acrescenta, começou na resistência e prolongou-se até aos mais altos cargos do Estado. “Começou como guerrilheiro, tornou-se dirigente político da resistência e acabou por assumir algumas das maiores responsabilidades da nação. Mas nunca perdeu a simplicidade.”

“Era um Presidente do povo, com o povo e para o povo.” — Jufer Guterres

‘Lú-Olo’, o construtor das instituições democráticas

Se a resistência moldou o combatente, a independência revelou o construtor de instituições.

Alexandre Corte Real, antigo deputado da União Democrática Timorense (UDT) e membro da Assembleia Constituinte, recorda ‘Lú-Olo’ como um líder capaz de construir consensos numa das fases mais delicadas da história do país.

Foi sob a sua presidência que a Assembleia Constituinte concluiu a elaboração da Constituição da República Democrática de Timor-Leste e lançou as bases do futuro Parlamento Nacional. “Ele conseguiu gerir todas as bancadas parlamentares e aprovámos muitos projetos de lei”, recordou.

Segundo Alexandre Corte Real, apesar de a FRETILIN deter uma maioria expressiva, ‘Lú-Olo’ procurava envolver todas as forças políticas no funcionamento das instituições. “Ele distribuía responsabilidades e envolvia todas as bancadas. Era um homem moderado, equilibrado e não discriminava ninguém.”

O antigo deputado considera que uma das suas maiores qualidades era a capacidade de ouvir opiniões divergentes e transformar diferenças políticas em consensos.

Ao recordar o ambiente parlamentar dos primeiros anos da independência, lamenta que o espírito de diálogo tenha enfraquecido. “No tempo de ‘Lú-Olo’ existia mais respeito entre as bancadas e os debates decorriam dentro dos mecanismos legais, da ética e do regimento. Não havia insultos.”

Para Alexandre Corte Real, esse legado continua atual. “É melhor que os deputados atuais sigam esse exemplo: menos conflitos e mais trabalho.”

Outro aspeto que sempre admirou foi o percurso académico de ‘Lú-Olo’ após a independência. Depois de passar 24 anos na resistência, regressou aos estudos e concluiu a licenciatura em Direito. “Isso mostra que a idade não é um fator determinante para aprender. Qualquer pessoa pode estudar, desde que tenha vontade.”

“No tempo de Lú-Olo existia mais respeito entre as bancadas.” — Alexandre Corte Real

‘Lú-Olo’, o companheiro da luta

Para aqueles que partilharam com ele os anos da resistência, a morte de Lú-Olo representa também a perda de um companheiro de jornada.

O antigo Presidente da República Taur Matan Ruak considera que Timor-Leste perdeu uma personalidade de enorme valor humano e político. “Obrigado ao irmão Lú por tudo o que contribuiu e deixou para Timor-Leste, sobretudo para as novas gerações.”

Taur Matan Ruak destacou a disciplina, a paciência e o sentido de serviço que caracterizavam o antigo líder. “Precisamos de continuar o seu trabalho e desenvolver este país, combatendo a pobreza, o desemprego e a miséria.”

Também Lere Anan Timur recorda os anos passados ao lado de ‘Lú-Olo’ durante a resistência. “Durante a resistência, vivi com ele. Dormimos juntos, comemos, bebemos e fumámos juntos.”

Mais do que uma amizade, partilhavam uma missão comum. “Os compromissos dos guerrilheiros eram sofrer, sim; morrer, sim. Mas tínhamos de conquistar a independência.”

Lere admite que gostaria de ter continuado a contar com os conselhos do antigo Presidente. “Queria que ele estivesse do nosso lado para dar ideias e ajudar a desenvolver este país.”

“Os compromissos dos guerrilheiros eram sofrer, sim; morrer, sim. Mas tínhamos de conquistar a independência.” — Lere Anan Timur

‘Lú-Olo’, o legado para as novas gerações

José Ramos-Horta considera que a morte de ‘Lú-Olo’ representa a perda de uma das figuras fundamentais da geração que assegurou a continuidade da resistência. “Ele pertence a uma geração mais nova. Por isso, perdemos muito.”

O Presidente da República acredita que o seu exemplo continuará a inspirar os jovens timorenses e todos aqueles que assumem responsabilidades públicas.

Essa visão é partilhada pelo artista e agricultor Kiera Zen. Embora não tenha convivido de perto com ‘Lú-Olo’, via nele uma referência moral rara na política timorense. “Ele respeitava todas as pessoas, dos idosos aos jovens.”

Segundo Kiera Zen, uma das características mais marcantes do antigo Presidente era a sua capacidade para defender convicções sem recorrer ao insulto ou à hostilidade. “Quando tinha opiniões diferentes, defendia-as com dignidade.”

Para muitos jovens, essa postura tornou-se uma das marcas distintivas do seu legado.

“Se nós, antigos combatentes, continuarmos a atacar-nos mutuamente, como podemos educar este povo?” — Francisco Guterres ‘Lú-Olo’

‘Lú-Olo’, o líder respeitado além-fronteiras

As homenagens não se limitaram a Timor-Leste. Governos, organizações internacionais e representantes diplomáticos associaram-se ao luto pela morte do antigo Presidente da República.

Os Estados Unidos descreveram Lú-Olo como «uma figura central no movimento de independência e no desenvolvimento democrático da nação».

A União Europeia recordou-o como um «herói timorense que dedicou a sua vida à luta pela independência, autodeterminação e construção da nação».

Da Malásia, onde recebeu tratamento médico nos últimos meses de vida, o Primeiro-Ministro Anwar Ibrahim destacou a dedicação permanente de Lú-Olo ao seu povo. “A Malásia chora a sua morte ao lado do povo timorense.”

Também Portugal manifestou pesar pela morte de uma personalidade que sempre valorizou o diálogo, a reconciliação e a paz. As mensagens provenientes de diferentes continentes demonstram que o reconhecimento da sua trajetória ultrapassou largamente as fronteiras de Timor-Leste.

Ao longo dos últimos dias, os testemunhos sobre Francisco Guterres ‘Lú-Olo’ revelaram múltiplas facetas de uma mesma personalidade: o guerrilheiro que resistiu durante 24 anos, o dirigente político que ajudou a construir a democracia, o Presidente que privilegiava o diálogo e o homem simples que nunca deixou de se preocupar com as pessoas que o rodeavam.

As palavras que mais se repetem nos relatos daqueles que o conheceram são humildade, serenidade, integridade e serviço.

Talvez por isso, entre todas as frases que deixou, seja uma das mais simples a resumir melhor a forma como viveu. “Eu vim sem nada e morrerei sem nada.”

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