La’o Hamutuk pede transparência e decisões concretas após visita de Albanese

“A parceria deve basear-se na justiça, na equidade e na responsabilidade mútua, e não em interesses unilaterais” / Foto: DR

Apesar da receção calorosa a nível político, a La’o Hamutuk alerta que a visita do Primeiro-Ministro australiano não pode ficar pelo simbolismo e exige transparência, consultas públicas e benefícios reais num país que enfrenta o fim das receitas petrolíferas.

Embora reconheça a importância política e estratégica da visita, a La’o Hamutuk – Instituto Nacional de Monitorização e Análise do Desenvolvimento – defende que este momento deve traduzir-se em decisões concretas que respondam aos desafios estruturais que o país enfrenta no período pós-petróleo.

O investigador da La’o Hamutuk, Celestino Gusmão Pereira, alertou que Timor-Leste atravessa uma fase crítica do seu desenvolvimento. “O país está marcado pelo encerramento do campo petrolífero Bayu-Undan, pelo fim gradual das receitas do petróleo e do gás e por uma diversificação económica ainda frágil”, afirmou.

Neste contexto, sublinhou que a visita australiana deveria representar uma oportunidade real para melhorar a governação. “É fundamental reforçar a transparência, a participação pública e a responsabilização”, defendeu, acrescentando que também é necessário reorientar a cooperação bilateral para um modelo de desenvolvimento inclusivo, centrado nas pessoas e orientado para uma economia produtiva, renovável e sustentável.

Segundo o investigador, os interesses estratégicos da Austrália nesta visita incluem o legado petrolífero no Mar de Timor, como Bayu-Undan, o projeto de Captura e Armazenamento de Carbono (CCS) e o Greater Sunrise, bem como a segurança regional, a estabilidade geopolítica e a afirmação da sua posição estratégica no Indo-Pacífico.

“A parceria deve basear-se na justiça, na equidade e na responsabilidade mútua, e não em interesses unilaterais”, sublinhou, defendendo que os benefícios da cooperação sejam reais, duradouros e direcionados para o povo timorense.

A La’o Hamutuk considera que o projeto Greater Sunrise permanece um “ponto sensível” a nível nacional, devido à ausência prolongada de decisões claras, à persistência da incerteza e a um discurso político dominante que, segundo a organização, tem prevalecido sobre análises técnicas rigorosas dos riscos e da viabilidade comercial.

De acordo com Celestino Gusmão Pereira, esta situação tem contribuído para a paralisação do planeamento nacional. “Isto aumenta a incerteza quanto aos benefícios reais do projeto e eleva o risco de investimentos em infraestruturas de retorno duvidoso”, alertou, acrescentando que tal acontece “ao mesmo tempo que desperdiça oportunidades financeiras para orientar a economia para caminhos mais sustentáveis.”

A organização defende que, antes de qualquer compromisso político definitivo, sejam realizadas análises independentes de custo-benefício, assegurada uma fiscalização parlamentar efetiva, divulgados publicamente os riscos comerciais envolvidos e conduzidas consultas públicas genuínas, sobretudo com as comunidades diretamente afetadas.

Manifestou ainda preocupação com acordos energéticos e ambientais que não garantam benefícios diretos para a população. A La’o Hamutuk alertou que iniciativas como o CCS podem transferir responsabilidades ambientais e financeiras para Timor-Leste sem salvaguardas adequadas.

Para a organização, “os principais poluidores devem assumir integralmente os custos ambientais, incluindo a recuperação dos danos causados”, através de garantias legais sólidas e de total transparência. Segundo a La’o Hamutuk, até ao momento não existem sinais claros, a nível político ou legal, de avanços concretos nesse sentido.

Celestino defendeu ainda que a cooperação bilateral deve dar prioridade áreas como a soberania alimentar, as energias renováveis descentralizadas, o apoio às pequenas e médias empresas, a educação, a saúde e a capacitação da juventude.

Alertou que, caso a cooperação continue excessivamente focada em grandes infraestruturas e indústrias extrativas, “os impactos na redução da pobreza serão limitados, enquanto os riscos fiscais e ambientais poderão aumentar.”

A organização alertou igualmente para a importância de evitar que Timor-Leste se torne palco de rivalidades entre grandes potências. Embora reconheça a dimensão geopolítica regional, sublinhou que as decisões económicas devem basear-se nos interesses de longo prazo do povo timorense: soberania económica, justiça social e segurança ambiental.

Por fim, defendeu que o Governo publique todos os documentos relacionados com a visita, apresente um roteiro claro para o projeto Greater Sunrise e crie uma equipa independente para avaliar os riscos e benefícios dos grandes projetos nacionais, incluindo os impactos sociais, económicos, culturais e ambientais do Projeto Tasi Mane.

Parlamento e Governo destacam Greater Sunrise como prioridade nacional

No Parlamento Nacional, Anthony Albanese foi recebido com honras e reconhecido por todas as bancadas, que destacaram a importância política e estratégica da parceria entre Timor-Leste e a Austrália, com especial enfoque no futuro do Greater Sunrise.

Em nome da FRETILIN, a deputada Nurima Ribeiro Alkatiri classificou a visita como “um sinal inequívoco da importância atribuída à relação bilateral com Timor-Leste” e “um gesto de respeito pela nossa soberania, pelo nosso povo e pelas nossas instituições democráticas”. A bancada recordou ainda que Bayu-Undan garantiu receitas essenciais para a reconstrução nacional e defendeu que o Greater Sunrise deve ser processado em território timorense.

“Esta foi, e continua a ser, a posição da FRETILIN e da sua liderança”, sublinhou.

Pelo CNRT, o deputado Patrocínio Fernandes salientou a amizade histórica entre os dois países e apelou ao apoio australiano para trazer o gasoduto do Greater Sunrise para Timor-Leste, considerando-o uma prioridade nacional.

“A vinda do gasoduto para a costa sul é a nossa prioridade nacional para impulsionar o crescimento económico e desenvolver a soberania energética”, afirmou.

O Partido Democrático (PD) recordou o papel decisivo da Austrália na missão INTERFET em 1999 e reafirmou apoio ao Greater Sunrise e ao Projeto Tasi Mane, alertando que o plano continua pendente. “Infelizmente, continua a ser um assunto ainda sem certeza de solução”, declarou a bancada, solicitando também maior cooperação na área da segurança e defesa.

A deputada Angelina Sarmento, do PLP, afirmou que a visita constitui “um testemunho da amizade entre os dois países” e destacou resultados concretos da cooperação bilateral, como bolsas de estudo e programas de mobilidade laboral. Sobre o Greater Sunrise, considerou-o “central para o nosso futuro económico”, defendendo benefícios sustentáveis para várias gerações.

Já o deputado António Verdial, do KHUNTO, descreveu a Austrália como parceiro “extraordinário” e recordou o apoio australiano desde 1999 em setores como saúde, educação e infraestruturas.

Visita termina com anúncios e nova parceria bilateral

Durante a visita, Albanese e Xanana Gusmão assinaram a declaração conjunta “Nova Parceria para uma Nova Era” destinada a aprofundar a cooperação em segurança, energia e desenvolvimento económico.

Xanana afirmou que os encontros foram “calorosos, abertos e produtivos”, reiterando a posição timorense sobre o Greater Sunrise: “O gás natural do Greater Sunrise deve ser processado como fonte de combustível. Isto é essencial para o desenvolvimento nacional.”

Por sua vez, Albanese declarou que Timor-Leste é “um vizinho e, acima de tudo, um amigo”, anunciando apoio financeiro adicional à adesão timorense à ASEAN e investimentos no setor privado.

Relativamente ao Greater Sunrise, o Primeiro-Ministro australiano anunciou que 10% da receita estatal futura de qualquer projeto entre os dois países será destinada à criação de um fundo dedicado à infraestrutura em Timor-Leste.

“Um total de 10% da receita do Estado será utilizado para estabelecer um fundo destinado a fortalecer a resiliência económica de Timor-Leste e a ampliar as oportunidades para o seu povo”, afirmou.

Albanese acrescentou que as negociações seguem o enquadramento do Tratado Marítimo de 2018 e que a questão do gasoduto será tratada de forma construtiva, tendo em conta as considerações comerciais e sob supervisão governamental.

Apesar do clima de cordialidade institucional e dos anúncios feitos, a sociedade civil sublinha que o verdadeiro impacto da visita dependerá da capacidade de transformar compromissos políticos em decisões concretas, transparentes e orientadas para um desenvolvimento sustentável e inclusivo no período pós-petróleo. Para a La’o Hamutuk, a visita só terá significado se os compromissos anunciados forem acompanhados de transparência, fiscalização e decisões que coloquem o povo timorense no centro do desenvolvimento pós-petróleo.

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  1. Eu gostei de ver a cowboiada, a fumarada de matar mosquitos(nova arma contra o dengue?). Pareciam “teenagers” na festa de final de curso. Procedimento errado na visita de qualquer dignatario. Nao pode servir de exemplo para ninguem. Acredito mais no PM australiano do que naquilo que vi no minimoke. Valha-me o Maromak.
    Tem razao o Hau hamutuk de pedir, “please explain”!

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