Novas paragens ainda não mudam hábitos de passageiros e motoristas em Díli

“É muito raro ver passageiros aqui, tanto de manhã como à tarde", disse o motorista/ Foto: Diligente

Meses após a construção de 10 novas paragens de transportes públicos em Díli, passageiros e motoristas continuam, em muitos casos, a utilizar pontos informais para a entrada e saída de passageiros, apesar das novas infraestruturas já serem usadas em várias zonas da cidade. A conclusão resulta de uma observação realizada pelo Diligente em diferentes locais da capital, complementada por testemunhos de passageiros, motoristas e do ministro dos Transportes e Comunicações.

Concluídas em 2025 pelo Ministério dos Transportes e Comunicações, as 10 paragens, designadas oficialmente por Abrigos de Onibus, representaram um investimento superior a 96 mil dólares. O objetivo era organizar a circulação das microletes, reduzir o congestionamento e incentivar passageiros e motoristas a utilizarem locais próprios para a entrada e saída de passageiros. As estruturas foram instaladas em zonas de maior circulação da capital e dispõem de cobertura, bancos e acessos adaptados para pessoas com deficiência motora e visual.

A observação realizada pelo Diligente mostra, no entanto, que a utilização destas infraestruturas varia consoante o local e a hora do dia. Enquanto alguns passageiros aguardam sentados nas paragens, outros preferem permanecer junto à berma da estrada para aumentar as hipóteses de entrar na primeira microlete que passa. Em resposta a esse comportamento, os motoristas continuam a parar onde encontram passageiros, independentemente da existência de uma paragem nas proximidades.

Foi o que se verificou junto ao Ministério da Solidariedade Social e Inclusão. Embora algumas pessoas permanecessem sentadas na paragem, a maioria aguardava alguns metros antes do abrigo, fazendo sinal aos motoristas, que paravam junto à estrada para permitir a entrada dos passageiros.

Em Mandarin, Ana Maria explicou que a escolha do local de espera depende da situação. “Às vezes, sento-me na paragem e outras vezes não. Se estiver cansada ou a chover, prefiro esperar aqui. Mas, quando há muitos passageiros, sobretudo de manhã e ao fim da tarde, fico um pouco mais afastada para conseguir apanhar a microlete”, contou.

Para a passageira, o mais importante é estar junto à via por onde circulam os transportes públicos. “Podemos apanhar a microlete em vários pontos. O essencial é estar na estrada por onde ela passa.”

Junto à Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), alguns passageiros aguardavam sentados na paragem, enquanto outros permaneciam de pé junto à estrada. Jacob da Costa afirmou que procura utilizar as paragens sempre que possível, mas admite que nem sempre isso acontece.

“Sempre que existe uma paragem disponível, procuro utilizá-la para me sentar enquanto espero. No entanto, quando necessário, aguardo a microlete em qualquer ponto da estrada”, explicou.

Ainda assim, considera que a cidade necessita de mais infraestruturas. “Agradeço ao Governo por ter construído estas paragens. No entanto, penso que ainda são necessárias mais paragens para facilitar a vida tanto dos passageiros como dos motoristas”, disse Jacob da Costa.

Em Balide, a realidade era diferente. No momento da visita do Diligente, a paragem encontrava-se praticamente vazia. O único ocupante era Eugénio da Silva, que tinha viajado de mota de Ainaro para Díli e utilizava o abrigo apenas para descansar antes de seguir viagem. “Como vim de mota, normalmente não paro aqui. Mas hoje vi que não havia passageiros nem microletes a utilizar esta paragem e aproveitei para descansar um pouco. Foi a primeira vez que me sentei aqui”, contou.

Ao longo da observação efetuada em diferentes zonas da cidade, foi ainda possível verificar que algumas pessoas utilizam as paragens não apenas para esperar transporte, mas também como espaço de descanso ou para se protegerem do calor e da chuva.

Também os motoristas reconhecem que o funcionamento do sistema continua a depender dos hábitos dos passageiros. António da Costa, que conduz uma microlete no percurso para Bairo-Pite, explicou que os condutores adaptam o local de paragem à posição dos clientes.

“Se estiverem perto da paragem, paramos aí. Se estiverem um pouco mais à frente ou mais atrás, também paramos. Dependemos sempre da posição dos passageiros”, afirmou.

Segundo o motorista, quando não há passageiros numa determinada paragem, os condutores continuam viagem à procura de clientes noutros locais.

Na paragem de Bebora, durante o período de observação, não havia passageiros à espera nem qualquer microlete efetuou paragens. António da Costa diz que essa situação é frequente. “É muito raro ver passageiros aqui, tanto de manhã como à tarde. Ao meio-dia, então, quase nunca. Só ocasionalmente vejo algumas pessoas a utilizar a paragem, normalmente para se protegerem do sol ou da chuva.”

Questionado pelo Diligente, o ministro dos Transportes e Comunicações, Miguel Manetelu, reconheceu que é necessário reforçar a fiscalização para garantir o cumprimento das regras. “Precisamos de controlar para que as microletes transportem e deixem os passageiros nas paragens”, afirmou.

Confrontado com a observação de que algumas pessoas utilizam as paragens apenas como local de descanso, o governante respondeu que também tem verificado a utilização das infraestruturas por passageiros. “Vi que as pessoas estão sentadas”, afirmou, defendendo que o objetivo continua a ser concentrar a entrada e saída de passageiros nas paragens construídas para esse efeito.

Meses após a inauguração das novas infraestruturas, a observação realizada pelo Diligente mostra que as paragens já fazem parte da paisagem urbana e são utilizadas por uma parte dos passageiros. No entanto, a utilização continua longe de ser generalizada e os hábitos de passageiros e motoristas permanecem, em muitos casos, os mesmos, apontando para a necessidade de maior fiscalização e sensibilização para que o investimento público cumpra plenamente a sua função.

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