Na sua opinião, a maioria das pessoas pode ser confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas? Há décadas que esta é uma das perguntas feitas a pessoas de dezenas de países no âmbito do World Values Survey (WVS), um dos maiores estudos internacionais sobre valores e atitudes.
As respostas revelam muito mais do que uma opinião sobre os outros. Elas ajudam a compreender até que ponto uma sociedade acredita que vale a pena cooperar, participar na vida comunitária e confiar em pessoas para além da família e dos amigos. Quando essa expectativa enfraquece, cresce a tendência para olhar os outros como potenciais ameaças, esperando oportunismo, desonestidade ou prejuízo.
Estudos baseados no WVS mostram que sociedades onde predomina a desconfiança interpessoal tendem a confiar menos nas instituições públicas, a percecionar níveis mais elevados de corrupção, a desconfiar de pessoas que não pertencem ao seu grupo, a participar menos em organizações comunitárias e a encontrar maiores dificuldades para construir redes de colaboração. Nesses contextos, é frequente que a proteção individual seja mais valorizada do que a abertura a pessoas ou grupos diferentes.
Este modo de olhar para o mundo manifesta-se nos pequenos gestos do quotidiano. Alguém oferece ajuda e procura-se imediatamente um interesse escondido. Uma pessoa faz um elogio e suspeita-se de que não é sincero. Escondem-se as conquistas com receio de despertar a inveja alheia. Um colega consegue uma promoção no trabalho e logo surgem boatos sobre favores ou benefícios ocultos. Quem tem hábitos diferentes é visto com reservas, como se a diferença fosse, por si só, uma ameaça. Um estrangeiro é recebido com desconfiança. Há uma sensação constante de que estamos a ser prejudicados. Iniciativas comunitárias e projetos inovadores acabam porque as pessoas passaram a desconfiar, a acusar e a competir umas com as outras.
Em vez de conhecermos as pessoas pelo que fazem, passamos a julgá-las pelo que imaginamos que pretendem fazer.
Um olhar sobre a desconfiança social em Timor-Leste
Entre fevereiro e maio de 2026, realizei um inquérito com 120 pessoas, com idades entre os 20 e os 45 anos (70 homens e 50 mulheres). Todos os participantes eram residentes em Díli e responderam voluntariamente.
A pergunta inicial inspirou-se no inquérito do WVS: “Na sua opinião, a maioria das pessoas é confiável ou é preciso ter muito cuidado com elas?” Entre os participantes, 109 responderam que é preciso ter muito cuidado, por considerarem que, em Timor-Leste, não se pode confiar em toda a gente.
O inquérito incluía ainda um segundo bloco, mais alargado, de questões sobre a confiança social e institucional, no qual os participantes podiam também acrescentar comentários. Entre as respostas: 103 afirmaram percecionar a existência de corrupção na administração pública; 97 consideraram a polícia violenta; 93 disseram que o governo é ineficiente; 78 afirmaram que os estrangeiros procuram sobretudo vantagens económicas; e 110 acreditam que as pessoas, em geral, tendem a agir em benefício próprio.
Os familiares surgem, num primeiro momento, como o grupo em que mais se confia. Ainda assim, 59 participantes afirmaram que nem mesmo nos parentes próximos é possível confiar totalmente.
Depois deste conjunto de questões, foi-lhes perguntado se consideravam que eles próprios eram pessoas confiáveis. Todos os 120 participantes consideraram-se pessoas confiáveis.
Esta última resposta revela uma assimetria entre a perceção dos outros e a autoavaliação individual: a tendência para desconfiar dos outros, enquanto se mantém uma autoimagem positiva.
Ainda que estes dados ofereçam indícios interessantes sobre os padrões de confiança interpessoal, os resultados devem ser interpretados com cuidado. A amostra é limitada e o inquérito tem um carácter exploratório, não permitindo tirar conclusões sobre a população em geral. Além disso, o inquérito não mede se as pessoas são efetivamente confiáveis, mas sim a forma como são percecionadas pelos participantes.
Aprendemos a desconfiar
Ninguém aprende a olhar para o outro de forma desconfiada por acaso. Somos influenciados pelas experiências que acumulamos ao longo da vida.
Quem cresceu em ambientes onde predominavam a negligência, a agressividade, a punição física, a humilhação, o autoritarismo, o abandono ou relações marcadas pela manipulação e pela imprevisibilidade aprende desde cedo que confiar pode ser perigoso.
Nada disto determina o futuro de uma pessoa. Muitos atravessam essas experiências sem desenvolver uma visão desconfiada do mundo. Mas elas podem levar-nos a confundir prudência com uma expectativa permanente de má-fé.
Quando muitas pessoas passam a esperar intenções negativas umas das outras, cria-se um ambiente social de desconfiança, onde a suspeita deixa de ser uma reação a uma situação concreta e passa a ser um padrão pelo qual se interpreta o mundo.
Basta que algumas experiências de traição se transformem em histórias repetidas nas famílias, nas comunidades ou nas redes sociais para que pessoas que nunca foram diretamente lesadas passem igualmente a esperar o pior dos outros.
A suspeita viaja mais depressa do que a confiança, porque o medo é um poderoso transmissor de crenças.
Existe ainda um fenómeno menos evidente. A desconfiança constante tende a criar distância nas relações e produzir aquilo que espera encontrar. Quem acredita antecipadamente que será enganado aproxima-se dos outros com reservas, evita expor demasiado de si próprio, observa cuidadosamente cada mudança de comportamento e interpreta frequentemente as ambiguidades como sinais de perigo.
Se as experiências individuais influenciam a forma como cada pessoa aprende a confiar, também a história pode moldar a forma como as sociedades se veem a si próprias e umas às outras.
Quando a história ensina a desconfiar
Há memórias que não pertencem apenas aos indivíduos. Pertencem também às sociedades. Séculos de ocupação, violência e conflitos deixam marcas que atravessam gerações.
Um povo aprende a sobreviver e, muitas vezes, transmite aos seus filhos não apenas a sua história, mas também as formas de olhar para o mundo que essa história ajudou a produzir.
A desconfiança deixa de pertencer apenas ao domínio da moralidade e passa a ser um instrumento de sobrevivência.
Ao longo da sua história, a ilha de Timor viveu ocupações estrangeiras, guerras entre os diferentes reinos, alianças e traições, bem como tensões entre topasses e liurais. No século XX, a parte leste da ilha conheceu ainda a atuação das colunas negras durante a ocupação japonesa na década de 1940, a colaboração de setores da sociedade com governos estrangeiros, a guerra civil de 1975, conflitos internos na resistência à Indonésia e a violência das milícias pró-integração.
Estes episódios dividiram famílias e deram origem a massacres, torturas, abusos e delações, por vezes praticados pelos próprios vizinhos e amigos. Mesmo após a restauração da independência, persistiram momentos de tensão entre instituições do Estado, partidos políticos, a Igreja e forças de segurança.
A transformação de Timor-Leste em Estado-nação é recente. Durante grande parte da história, a organização social esteve ligada às lisan, aos liurais, aos lia na’in, às uma lulik, às redes de parentesco e às dinâmicas das comunidades locais, com as suas próprias formas de autoridade, territorialidade e memória.
A construção da ideia de um Timor-Leste unificado resulta da combinação de diferentes experiências históricas, visões de mundo, ideologias, memórias silenciadas e projetos de poder que continuam em disputa pela narrativa oficial.
Estes são apenas alguns fatores e não explicam tudo. A relação entre sociedades marcadas por conflitos e a desconfiança social não é linear e pode assumir diferentes níveis de intensidade.
Tal como o processo histórico é complexo, também as causas da desconfiança são diversas, dinâmicas e interligadas. Experiências semelhantes não têm necessariamente as mesmas consequências.
Conhecer as influências do passado ajuda-nos a compreender o presente. Mas é a forma como respondemos a essas heranças que nos permite construir o futuro.
Algumas consequências da desconfiança
Com o tempo, estas formas de interpretar o comportamento dos outros podem tornar-se padrões relativamente estáveis de leitura social, reforçados, por exemplo, pela sensação de instabilidade, desemprego e impotência, pela perceção de que a lei nem sempre é aplicada de forma igual para todos e por condições materiais que limitam a qualidade de vida.
Quando essa forma de interpretação se generaliza, os efeitos podem ser sentidos tanto nos projetos coletivos como nas relações pessoais.
Este tipo de organização social, marcado por níveis elevados de desconfiança, pode também abrir espaço a formas de liderança mais centradas no controlo e na demonstração de força, onde a obediência surge menos do respeito do que do receio da punição. A cooperação, por outro lado, deixa de ser apenas uma escolha e passa a depender da vigilância externa.
Nestes contextos, pode observar-se uma tendência para a formação de grupos assentes em relações de lealdade pessoal, mais do que na partilha de ideias ou de projetos comuns. Do mesmo modo, a expressão de opiniões divergentes pode ser desencorajada por receio de exclusão ou de ser visto como desleal, inimigo ou traidor.
Ainda assim, esta perceção de desconfiança não significa ausência total de confiança. A confiança não desaparece; transforma-se, reorganiza-se, segue outros caminhos, opera em tempos mais longos e obedece a códigos próprios. Ao mesmo tempo, as relações podem permanecer amistosas e cordiais na superfície, com sorrisos e cumprimentos de cortesia, sem que isso implique abertura ou intimidade.
Confiar, no entanto, não é o mesmo que ser ingénuo ou agir sem critério. Entre a desconfiança generalizada e a confiança cega, há um espaço amplo e mais equilibrado a construir.
Talvez aqui caiba o questionamento: a quem interessa uma sociedade desconfiada? Que sociedade queremos deixar às próximas gerações? E o que cada um de nós está a fazer, neste momento, para construir esse futuro?























