Entre a festa e o excesso: o outro lado do Mundial em Timor-Leste

Adeptos assistem aos jogos do Campeonato do Mundo de 2026/ Foto: Diligente

As madrugadas do Campeonato do Mundo transformam cidades e aldeias timorenses em palcos de celebração. Mas, entre gritos de golo, caravanas de veículos e apostas em dinheiro, cresce também a preocupação com o descanso da população, a segurança nas estradas e o risco de dependência do jogo. Cidadãos, especialistas, polícia e Governo defendem que a paixão pelo futebol não deve sobrepor-se aos direitos dos outros.

Às duas da madrugada, um golo basta para acordar um bairro inteiro. Gritos, buzinas e caravanas de veículos percorrem as ruas de Díli sempre que uma seleção vence. Para uns, é a forma de viver a maior festa do futebol. Para outros, é mais uma noite sem dormir. De quatro em quatro anos, o Campeonato do Mundo volta a dividir opiniões em Timor-Leste entre a paixão pelo desporto e o direito ao descanso.

O Campeonato do Mundo transforma as noites de Timor-Leste. Cafés e espaços públicos enchem-se de adeptos, famílias e grupos de amigos reúnem-se para acompanhar os jogos e, sempre que uma seleção marca ou vence, as ruas ecoam com gritos de celebração, buzinas e caravanas de veículos.

Mas a festa tem também um outro lado. Para muitos cidadãos, sobretudo quando os jogos se prolongam pela madrugada, o entusiasmo traduz-se em noites mal dormidas, ruído constante e dificuldades em descansar antes de mais um dia de trabalho ou de aulas. Ao mesmo tempo, aumenta a prática de apostas em jogos de futebol e as autoridades veem-se obrigadas a reforçar a vigilância para prevenir acidentes e perturbações da ordem pública.

O Mundial que tira o sono

Joanina Mendonça acompanha o entusiasmo que o Campeonato do Mundo desperta no país, mas confessa que, durante a competição, o descanso se torna um desafio. “O que mais me incomoda são os jogos durante a noite. Sempre que há um golo, as pessoas gritam e torna-se difícil descansar”, contou ao Diligente.

Apesar do incómodo, Joanina faz questão de sublinhar que não é contra as celebrações. Considera natural que cada pessoa apoie a sua seleção favorita, mas defende que esse direito deve coexistir com o respeito por quem precisa de dormir. “Cada um é livre de assistir aos jogos e apoiar a sua seleção favorita, mas é importante respeitar os outros, porque no dia seguinte todos têm trabalho ou outras atividades.”

A experiência de Cipriana da Silva é diferente. Para ela, o Campeonato do Mundo é um dos momentos mais aguardados do calendário desportivo e ficar acordada até de madrugada faz parte da experiência.

Grande parte desse entusiasmo, explica, nasce das sessões de visualização coletiva, onde dezenas de pessoas acompanham os jogos juntas. “Muitos cidadãos não têm condições para assistir aos jogos em casa e preferem reunir-se num único local. É isso que cria um ambiente muito especial, mas também faz com que haja mais barulho”, afirmou.

Ainda assim, reconhece que o entusiasmo nem sempre é vivido com moderação. “É verdade que isso pode perturbar outras pessoas. Espero que as celebrações sejam feitas com mais moderação, sem necessidade de gritar excessivamente ou organizar caravanas exageradas.”

As consequências fazem-se sentir no dia seguinte. “Quando os jogos acabam muito tarde, muitas vezes tenho sono na escola ou durante outras atividades.”

Também Ivo Zacarias Mendonça, adepto da seleção portuguesa, admite que costuma celebrar as vitórias nas ruas juntamente com outros adeptos. “Escolhemos celebrar com desfiles pelas ruas porque sentimos alegria”, explicou.

Reconhece, porém, que as buzinas e as caravanas podem causar incómodo aos restantes cidadãos. “É verdade que causa incómodo, mas isso normalmente acontece apenas durante o Campeonato do Mundo, que se realiza de quatro em quatro anos.”

As celebrações espontâneas são uma das imagens mais marcantes do Campeonato do Mundo em Timor-Leste. Depois dos jogos, sobretudo quando as seleções favoritas vencem, grupos de adeptos percorrem as ruas em motociclos e automóveis, fazendo soar buzinas e exibindo bandeiras.

Para muitos, estes momentos representam uma demonstração de alegria coletiva e um raro espaço de convívio entre amigos e vizinhos. Para outros, porém, as caravanas prolongam o ruído pela madrugada dentro, dificultam a circulação nas estradas e alimentam preocupações relacionadas com a segurança pública.

O outro jogo: quando a emoção passa pelas apostas

A paixão pelo futebol não se manifesta apenas nas bancadas improvisadas, nas ruas ou nas sessões de visualização coletiva. Para muitos timorenses, o Campeonato do Mundo é também sinónimo de apostas entre amigos, uma prática que, embora encarada por alguns como uma forma de entretenimento, envolve riscos financeiros e pode evoluir para um comportamento problemático.

Cipriana da Silva admite que costuma apostar sempre que joga a Argentina, a seleção de que é adepta. “Quando a Argentina entra em campo, faço quase sempre apostas com os meus amigos”, contou.

Habitualmente, explica, as apostas não ultrapassam os 40 dólares. Apesar de considerar que ganhar e perder faz parte do jogo, reconhece que o hábito tem impacto na sua rotina. “Mesmo quando os jogos começam às duas da madrugada, continuo a vê-los. Como consequência, no dia seguinte sinto frequentemente sono na escola ou durante outras atividades.”

Além da privação de sono, admite que existe sempre o risco de perder dinheiro quando a equipa em que apostou não vence.

Também Ivo Zacarias Mendonça faz apostas durante o Campeonato do Mundo. No seu caso, os valores variam entre 50 e 100 dólares por jogo.

Segundo explicou, utiliza dinheiro proveniente do seu próprio trabalho, pelo que não afeta o orçamento familiar. Ainda assim, reconhece que as perdas podem levar algumas pessoas a entrar num ciclo difícil de quebrar. “O maior risco é perder dinheiro. Muitas pessoas, depois de perderem, procuram formas de conseguir mais dinheiro para voltar a apostar.”

Já Deonísio Silva da Costa opta por uma estratégia diferente. Adepto da Alemanha, nunca aposta mais de cinco dólares por jogo. “Se perder, perco apenas cinco dólares. Por isso, nunca faço apostas de valores elevados.”

Na sua perspetiva, limitar o valor apostado é uma forma de evitar prejuízos significativos quando o resultado não corresponde às expectativas.

Quando o entretenimento se transforma em dependência

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica as apostas como uma forma de jogo (gambling) e alerta que esta atividade pode evoluir para uma perturbação comportamental quando deixa de estar sob controlo, afetando a situação financeira, as relações familiares e a saúde mental.

O psicólogo Alessandro Boarccaech explica que a dependência associada às apostas desportivas funciona através dos mesmos mecanismos psicológicos presentes noutras formas de jogo de azar, incluindo a bola guling, que continua a ser praticada em algumas comunidades de Timor-Leste.

Embora muitas pessoas apostem apenas por diversão, explica o especialista, o problema surge quando o jogo deixa de ser uma atividade recreativa e passa a ocupar um lugar central na vida da pessoa.

Segundo Boarccaech, a expectativa de obter ganhos rápidos provoca a libertação de dopamina, um neurotransmissor associado às sensações de prazer e recompensa. Essa resposta do cérebro incentiva o jogador a continuar a apostar, sobretudo depois de uma vitória.

O psicólogo alerta ainda para algumas ideias erradas que alimentam este comportamento. “Uma delas é acreditar que um número que não saiu durante muito tempo tem maior probabilidade de aparecer na jogada seguinte ou que uma sequência de vitórias significa que a sorte continuará.”

Na realidade, explica, cada aposta é independente da anterior e os resultados permanecem aleatórios.

Em Timor-Leste, Boarccaech afirma que não são raros os casos de pessoas que chegam a apostar dinheiro, veículos, animais de criação e até terrenos, colocando em risco o património familiar. “Quando as perdas se acumulam, podem surgir dificuldades financeiras, conflitos familiares e problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão”, alertou.

O especialista considera que a crescente popularidade das plataformas de apostas online veio agravar este cenário. “A possibilidade de apostar a qualquer momento através do telemóvel, aliada às campanhas promocionais e aos mecanismos concebidos para manter os utilizadores envolvidos, aumenta o risco de dependência, sobretudo entre adolescentes e jovens adultos.”

Boarccaech sublinha que a perturbação do jogo é uma condição de saúde mental tratável e defende que as pessoas procurem ajuda logo que sintam dificuldade em controlar o tempo ou o dinheiro investidos nas apostas.

Além do acompanhamento psicológico e, quando necessário, médico, considera essencial investir na educação da população e criar um quadro regulamentar mais claro para as atividades de jogo, permitindo que os cidadãos compreendam melhor os riscos associados às apostas antes que estas se transformem num problema.

É precisamente este equilíbrio entre o direito à celebração e o direito ao descanso que marca o debate em torno do impacto do Campeonato do Mundo no quotidiano timorense.

“A euforia não pode justificar comportamentos antissociais”

Para o diretor da Fundasaun Mahein, Nelson Belo, muitos dos problemas que surgem durante o Campeonato do Mundo não resultam da paixão pelo futebol, mas da forma como algumas pessoas escolhem manifestá-la. “No final, não há qualquer benefício, apenas prejuízos”, afirmou.

Segundo Nelson Belo, as celebrações que se prolongam pelas ruas, os desacatos, a destruição de bens públicos e os conflitos entre adeptos revelam uma fraca consciência cívica e um défice de respeito pelos direitos dos outros. “O ser humano vive em sociedade, não vive sozinho. Por isso, devemos construir uma organização social que estabeleça a forma como cada pessoa deve respeitar os direitos dos outros.”

Na sua perspetiva, apoiar uma seleção estrangeira não pode servir de justificação para comportamentos que perturbem a comunidade. “Temos muito entusiasmo em apoiar equipas estrangeiras. Mas aquilo que muitas vezes vemos são comportamentos antissociais, destruição de bens, conflitos nas ruas e perturbação da comunidade.”

Defende, por isso, que o Governo deve promover uma cultura de celebração mais organizada e responsável, envolvendo diferentes instituições públicas na prevenção de incidentes durante grandes competições desportivas.

Além do papel das autoridades, considera que as famílias têm igualmente uma responsabilidade importante na transmissão de valores de cidadania e respeito pelo espaço público.

Nelson Belo apela ainda a uma maior coordenação entre a Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), o Ministério da Administração Estatal, o Ministério da Juventude, Desporto, Artes e Cultura, o Secretariado da Proteção Civil, o Ministério das Obras Públicas e o Ministério da Educação para garantir que as celebrações decorram em segurança.

Um dos aspetos que mais o preocupa é a ocupação das vias públicas. “As estradas pertencem a todos. Não podem ser bloqueadas apenas por causa da euforia. E se houver uma mulher grávida ou um doente que precise de ser transportado rapidamente para o hospital? O direito dessas pessoas a receber assistência não pode ser comprometido.”

Na sua opinião, quando o interesse individual prevalece sobre o interesse coletivo, toda a organização social sai fragilizada.

Polícia reforça fiscalização durante as celebrações

O diretor nacional de Trânsito e Segurança Rodoviária da PNTL, superintendente-chefe João da Costa, garante que a polícia continua a acompanhar de perto as celebrações relacionadas com o Campeonato do Mundo.

Embora a corporação não disponha de dados estatísticos específicos sobre infrações cometidas durante a competição, o responsável afirma que continuam a ser detetadas situações como a utilização de escapes ruidosos, a circulação sem capacete e caravanas de veículos realizados sem condições de segurança.

“A polícia continuará a deter e a processar todas as infrações de acordo com a lei. Todos os cidadãos devem cumprir as regras de trânsito para garantir a segurança de todos.”

Segundo João da Costa, alguns participantes tentaram mesmo fugir quando se aperceberam da presença policial, situação que, em Díli, contribuiu para acidentes de viação provocados por excesso de velocidade e condução imprudente.

Apesar de a eliminação de Portugal ter reduzido significativamente o ambiente de euforia nas ruas da capital, a PNTL mantém patrulhas junto dos locais onde decorrem sessões de visualização coletiva.

O objetivo, explica, é prevenir conflitos entre adeptos de diferentes seleções e garantir que as celebrações decorram de forma pacífica. “Celebrar o Campeonato do Mundo é um direito da população, mas os restantes cidadãos também têm o direito de realizar as suas atividades sem serem perturbados.”

O responsável recorda ainda que o Governo disponibilizou vários espaços para transmissões públicas dos jogos, permitindo que a população acompanhasse o torneio em segurança e reduzindo a necessidade de concentrações espontâneas noutros locais.

Governo pede responsabilidade e respeito pelos outros

O ministro da Juventude, Desporto, Artes e Cultura, Nélio Isaac Sarmento, reconhece que o Campeonato do Mundo constitui um momento de união para milhares de timorenses, mas sublinha que esse entusiasmo deve ser vivido com responsabilidade.

Segundo o governante, o Executivo tem procurado garantir que toda a população possa acompanhar os jogos através das transmissões asseguradas pela RTTL e do apoio prestado às sessões de visualização coletiva organizadas pela plataforma SMNEWS. “Queremos que todos tenham oportunidade de acompanhar o maior evento desportivo do mundo, mesmo aqueles que não têm condições para assistir aos jogos em casa”, afirmou.

Ainda assim, lembra que celebrar uma vitória não pode significar desrespeitar os direitos dos restantes cidadãos. “Apelo a toda a população para apoiar as suas equipas favoritas. Mas não devemos esquecer que vivemos no mesmo país e que todas as pessoas têm direito ao descanso e a viver tranquilamente. Sejam bons adeptos, não provoquem distúrbios e não prejudiquem os direitos dos outros.”

O ministro espera que o espírito desportivo prevaleça sobre os excessos e que o Campeonato do Mundo seja recordado como um momento de convívio e união, e não pelos problemas provocados nas ruas.

Entre a paixão e a responsabilidade

Em Timor-Leste, o Campeonato do Mundo continua a mobilizar milhares de pessoas, unidas pela paixão pelo futebol e pelo ambiente de festa que a competição proporciona.

Mas, por detrás da alegria dos golos e das bandeiras agitadas nas ruas, permanecem desafios que se repetem de edição para edição: o ruído que rouba horas de descanso, as apostas que podem transformar entretenimento em dependência e os comportamentos que colocam em causa a segurança e a convivência entre cidadãos.

O desafio, defendem adeptos, especialistas e autoridades, passa por garantir que a celebração termine com o apito final e não com acidentes, conflitos ou prejuízos que perdurem muito para além do Mundial.

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