Professores destacados em zonas remotas denunciam falta de condições e salários insuficientes

Professores colocados através da Bolsa de Candidatura denunciam a falta de alojamento, os baixos salários, as longas deslocações e o incumprimento de subsídios prometidos pelo Ministério da Educação/ Foto: Diligente

Docentes colocados em zonas remotas dizem viver longe da família, sem alojamento e com salários insuficientes. Defendem que a melhoria da educação em Timor-Leste também exige melhores condições de trabalho para quem aceita lecionar nas áreas mais isoladas do país.

Professores colocados através da Bolsa de Candidatura denunciam a falta de alojamento, os baixos salários, as longas deslocações e o incumprimento de subsídios prometidos pelo Ministério da Educação/ Foto:

“Quando os meus filhos adoecem, tenho de deixar a escola e voltar para casa. Como mãe, a separação torna-se ainda mais difícil quando os meus filhos ficam doentes. Tenho de regressar para cuidar deles e, quando recuperam, volto novamente ao meu local de trabalho.” O testemunho é de Fátima de Jesus Leite, professora colocada em abril de 2025 na Pré-Escolar Leo-Lima, no município de Bobonaro. Apesar de trabalhar no município onde nasceu, vive separada dos filhos devido às exigências profissionais.

A realidade de Fátima é partilhada por muitos dos docentes colocados através da Bolsa de Candidatura em zonas remotas de Timor-Leste. Longe da família, obrigados a percorrer diariamente longas distâncias e com salários que consideram insuficientes para responder às despesas básicas, os professores afirmam que lecionar nas áreas mais isoladas do país é uma missão marcada por desafios que vão muito além da sala de aula.

Embora garantam o seu compromisso diário com os alunos, defendem que a melhoria da qualidade da educação passa também pela criação de melhores condições de trabalho.

Segundo dados publicados no Jornal da República, em 2024, mais de 111 mil candidatos participaram nos testes de recrutamento de professores, dos quais cerca de 500 foram aprovados na primeira fase. No início de 2026, tomaram posse cerca de 1.140 novos docentes para o Ensino Básico.

Salários considerados insuficientes e separação da família

Olandino dos Santos, colocado na Escola Básica Filial de Lumululi, no suco de Maulau, posto administrativo de Maubisse, município de Ainaro, está entre os professores deslocados do seu município de origem. Natural de Remexio, em Aileu, começou a lecionar em outubro de 2024.

Todos os dias percorre cerca de 11 quilómetros, numa viagem de aproximadamente uma hora e 25 minutos de mota até à escola. Recebe um salário de 288 dólares, acrescido de um subsídio de transporte de 25 dólares.

Segundo o professor, este valor não é suficiente para sustentar a família, que permanece em Aileu, nem para suportar as suas próprias despesas, incluindo o pagamento de uma renda de 50 dólares por mês.

“Se o Ministério pretende melhorar a qualidade da educação, deve tratar melhor os professores, sobretudo construindo residências para que possamos viver com tranquilidade e ensinar em melhores condições”, afirmou.

A distância da família também pesa para Luciana de Araújo, professora da Escola Básica Central Pública de Tassaebeno, em Oé-Cusse. Natural de Ermera, iniciou funções em maio de 2024, após ter sido aprovada na primeira fase da Bolsa de Candidatura. A docente vive numa sala de aula próxima da escola.

“É difícil ter acesso à água e à internet. Estou longe do meu filho, que ainda é bebé. Se surgir algum problema familiar, é difícil conseguir transporte e os custos são elevados”, afirmou. Além disso, teve de aprender a comunicar em língua baikeno, uma vez que muitos dos seus alunos ainda não compreendem o tétum.

Também Emília Guterres dos Reis, natural de Baguia e destacada para Venilale, no município de Baucau, afirmou que a maior dificuldade é estar afastada da família e ser obrigada a arrendar uma casa para conseguir exercer a profissão.

Apesar das dificuldades, garante que continua a cumprir as suas responsabilidades “com disciplina e dedicação” e a contribuir para o desenvolvimento da educação.

Para a professora, caso o Estado não consiga garantir melhores condições, os docentes destacados deveriam ser transferidos para os respetivos municípios de origem. “Como não existe subsídio, o salário dos professores não é suficiente para pagar uma casa arrendada”, disse.

Francisca Viegas, natural de Manatuto e colocada em Ermera, descreve dificuldades semelhantes. “Não me adaptei ao clima de Ermera, porque é muito frio e isso afeta a minha saúde. Além disso, a distância até ao hospital é grande e não existem transportes públicos”, contou.

Longas deslocações e estradas em mau estado agravam dificuldades

As dificuldades de deslocação constituem outro dos principais problemas apontados pelos professores.

Fátima de Jesus Leite explica que o caminho para a escola obriga a atravessar uma ribeira. Durante a estação seca, a situação é controlável, mas, na época das chuvas, a subida do caudal impede a passagem.

Segundo a professora, quando os docentes adoecem nesse período, muitas vezes não conseguem chegar ao centro de saúde para receber tratamento.

Situação semelhante é descrita por Nicodemos Sarmento Moniz, professor da Escola Básica Filial de Fatuk Kahi, em Manufahi. Natural de Ainaro, percorre diariamente cerca de uma hora a pé para chegar à escola.

“Na época das chuvas, as ribeiras e as pontes ficam inundadas e dificultam a deslocação. Vivo numa casa de familiares, por isso não pago renda, mas tenho de suportar as despesas de alimentação e outras necessidades básicas”, explicou.

Segundo o professor, os docentes, com a ajuda dos alunos, limparam e recuperaram uma antiga residência para servir de alojamento. No entanto, como o edifício ainda não reunia as condições necessárias, a comunidade voltou a utilizá-lo para guardar animais.

Professores dizem que promessas continuam por cumprir

Além das dificuldades de acesso, os professores afirmam que continuam sem as condições prometidas pelo Ministério da Educação.

Olandino dos Santos refere que o Ministério prometeu construir residências para os professores, mas, até ao momento, nada foi feito. “Ainda não recebemos o subsídio de alojamento, os subsídios para as áreas remotas, muito remotas e extremamente remotas, nem o subsídio para os professores colocados fora do seu município”, afirmou.

Luciana de Araújo refere igualmente que o Ministério ainda não disponibilizou habitação para os docentes destacados.

Quanto aos subsídios, a professora afirma que recebeu apenas um apoio equivalente a três meses, apesar de ter sido informada de que os professores colocados entre municípios receberiam cinco meses de subsídio e os colocados dentro do mesmo município receberiam três meses. “No final, todos nós recebemos apenas um subsídio equivalente a três meses”, disse.

Nicodemos Sarmento Moniz acrescenta que, somando o salário e o subsídio de transporte, recebe cerca de 300 dólares por mês. “Esse valor não é suficiente para suportar a alimentação, o alojamento e ajudar a família”, afirmou.

Os professores defendem a construção urgente de residências para docentes destacados, o reforço dos subsídios de transporte e alojamento, o cumprimento dos incentivos prometidos para as zonas remotas e uma revisão da política de colocação para reduzir a separação das famílias.

Ministério admite falta de alojamento e promete construir residências

Questionada sobre as críticas, a Ministra da Educação, Dulce de Jesus, reconheceu que alguns professores não foram colocados nos seus municípios de origem.

“Na primeira fase de colocação, demos prioridade às necessidades e exigências das escolas localizadas nas áreas remotas e extremamente remotas”, afirmou.

Relativamente ao alojamento, a governante recordou que o Ministério já tinha informado os candidatos, antes do processo de recrutamento, de que ainda não existiam residências para professores.

“Emitimos um aviso claro de que, neste momento, ainda não temos residências próprias para professores. Por isso, todos os candidatos sabiam dessa situação. O Governo pretende implementar, no próximo ano, um plano de construção de residências, sobretudo nas áreas remotas”, esclareceu a ministra.

Apesar da promessa, os professores insistem que a melhoria da qualidade da educação em Timor-Leste não depende apenas do recrutamento de novos docentes, mas também da criação de condições dignas para aqueles que aceitam lecionar nas zonas mais isoladas do país.

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