À terceira é de vez? Governo gastou até 30 mil dólares em lançamentos da Biblioteca Nacional

Nove anos depois da primeira pedra, a Biblioteca Nacional de Timor-Leste foi novamente relançada, naquela que é a terceira cerimónia de lançamento do projeto / Foto: Diligente

Nove anos após a colocação da primeira pedra e depois de dois relançamentos, concursos públicos fracassados e desistências de empresas, a construção da Biblioteca Nacional de Timor-Leste voltou a ser lançada esta segunda-feira. As várias cerimónias de lançamento custaram entre 20 e 30 mil dólares e o Governo garante agora que a obra arrancará na próxima semana.

A construção da Biblioteca Nacional de Timor-Leste voltou a ser oficialmente relançada esta segunda-feira, 6 de julho, numa cerimónia que assinala mais um capítulo de um projeto marcado por sucessivos atrasos e adiamentos.

Com a cerimónia desta segunda-feira, a Biblioteca Nacional soma três lançamentos oficiais sem que a construção física do edifício tenha chegado a começar, tornando-se um dos projetos de infraestrutura cultural mais adiados da história recente de Timor-Leste.

Esta é, pelo menos, a terceira cerimónia de lançamento da obra, cuja primeira pedra foi colocada em 16 de agosto de 2017, com conclusão inicialmente prevista para 2019.

A 19 de julho de 2022, a Secretaria de Estado da Arte e Cultura (SEAC) realizou uma nova cerimónia de relançamento, anunciando então que a construção estaria concluída em janeiro de 2024. No entanto, a obra nunca avançou.

Só em dezembro de 2025 foi finalmente assinado o contrato de construção, depois de concluído um novo concurso internacional realizado entre 2024 e 2025, permitindo a entrada do projeto na fase de implementação.

O projeto, localizado em Hudi-Laran, Díli, numa área de cerca de 27 mil metros quadrados, pretende criar um centro nacional de preservação da cultura, da literatura e da história de Timor-Leste.

O financiamento inicialmente previsto para a obra, de acordo com documentos da Autoridade Nacional do Petróleo (ANP), é de cerca de 11,7 milhões de dólares. Deste montante, 10 milhões de dólares são financiados pela multinacional italiana ENI e cerca de 1,7 milhões de dólares correspondem à contribuição do Estado de Timor-Leste, através da Secretaria de Estado da Arte e Cultura (SEAC).

O projeto resulta de uma cooperação entre a Secretaria de Estado da Arte e Cultura e a então Autoridade Nacional do Petróleo e Minerais (ANPM), atualmente Autoridade Nacional do Petróleo (ANP), no âmbito da cooperação no setor energético.

Entre 20 e 30 mil dólares gastos em cerimónias de lançamento

O presidente da ANP, Gualdino do Carmo da Silva, reconheceu que as várias cerimónias de lançamento do projeto tiveram custos significativos. “Foram vários lançamentos. Já não se repetem, gastámos no total cerca de 20 a 30 mil dólares”, afirmou.

Segundo o responsável, a ANP continuará a acompanhar o projeto até à sua conclusão e entrega à Secretaria de Estado da Arte e Cultura, entidade que ficará responsável pela sua utilização e gestão. “Em termos de papel da ANP no futuro, com certeza, através da equipa de trabalho, continuaremos a trabalhar em conjunto com as partes relevantes até o projeto estar concluído e entregue a 100%”, disse.

O montante gasto nas várias cerimónias surge num contexto em que, quase nove anos após o primeiro lançamento da primeira pedra, a construção física da Biblioteca Nacional continua por iniciar.

Os atrasos na construção da Biblioteca Nacional têm sido sucessivamente justificados por dificuldades administrativas e técnicas.

Numa reportagem publicada pelo Diligente em maio de 2025, foi revelado que a Biblioteca Nacional continuava por construir oito anos após a primeira inauguração simbólica. Na altura, foi noticiado que a empresa chinesa Shanghai Construction, vencedora do concurso para a construção do muro perimetral, desistiu posteriormente do projeto.

Em 2022, a empresa indonésia Vika Construction também não avançou com a obra devido a problemas técnicos. Além disso, vários concursos públicos acabaram por fracassar devido a restrições administrativas e às exigências do caderno de encargos, contribuindo para os sucessivos adiamentos.

O Secretário de Estado da Arte e Cultura, Jorge Soares Cristóvão, afirmou esta segunda-feira que o atual processo não representa um novo projeto, mas a continuação de um processo iniciado há vários anos.

“Este não é um processo que começa do zero, mas sim a continuação de um processo já em curso. Estamos agora com um novo compromisso para garantir que todas as fases sejam mais transparentes e eficazes”, afirmou.

Segundo o governante, os atrasos registados anteriormente deveram-se à complexidade dos processos de financiamento e de contratação pública. Acrescentou que várias máquinas pesadas já se encontram no local e que os trabalhos de construção propriamente ditos deverão começar na próxima semana.

Os trabalhos técnicos decorrem de acordo com o calendário definido pela empresa executora, com uma duração estimada de cerca de um ano e seis meses. “O que garantimos é que não haverá novamente situações como no passado. Todo o equipamento já está instalado e os trabalhos vão começar na próxima semana”, sublinhou.

O Governo prevê que a construção física da Biblioteca Nacional esteja concluída antes do final do atual mandato constitucional. Após a conclusão da obra, a próxima fase será a preparação dos recursos humanos e da gestão operacional da futura biblioteca, para garantir o seu pleno funcionamento.

Biblioteca deve ser um centro de aprendizagem e preservação da memória

O diretor executivo do Centro Nacional Chega (CNC), Hugo Maria Fernandes, defendeu que a Biblioteca Nacional deve ser desenvolvida não apenas como um espaço de armazenamento de livros, mas também como um centro de aprendizagem e de preservação da história e da memória cultural do país.

“Este lugar deve ser um espaço de aprendizagem e de preservação da nossa memória e história, incluindo a memória cultural de Timor-Leste”, afirmou Hugo Fernandes, defendendo que a Biblioteca Nacional terá um papel essencial na salvaguarda do património histórico do país, nomeadamente da história do colonialismo, das tradições orais e dos conhecimentos locais que ainda não foram devidamente documentados e cuja preservação é fundamental para as gerações futuras.

Defendeu ainda o reforço da cooperação entre a Secretaria de Estado da Arte e Cultura e o CNC, para que as coleções e recursos culturais existentes possam ser devidamente preservados e integrados na futura Biblioteca Nacional.

O responsável considera igualmente que a instituição não deve funcionar apenas como uma biblioteca, mas também incluir um museu dedicado à preservação e divulgação da memória histórica de Timor-Leste.

Além disso, destacou o desafio da fraca adesão à leitura entre os jovens, rejeitando a ideia de que os timorenses não tenham hábitos de leitura. “Não concordo quando se diz que Timor-Leste não tem cultura de leitura. O problema é o acesso difícil, com pouca publicação e poucos livros disponíveis”, afirmou.

Segundo Hugo Fernandes, muitos jovens dependem atualmente do computador e da internet devido à escassez de livros e materiais de leitura, razão pela qual a criação da Biblioteca Nacional poderá contribuir para melhorar o acesso ao conhecimento.

Revelou ainda que a pequena biblioteca existente no CNC recebe regularmente estudantes e membros do público, demonstrando que existe interesse pela leitura, apesar das limitações de acesso.

Falta de livros continua a dificultar a aprendizagem

O acesso limitado a livros de referência e literatura técnica continua a ser um dos principais desafios enfrentados pelos estudantes e universitários em Timor-Leste.

Uma das leitoras, Relia Costa, afirmou que a principal dificuldade que enfrenta é a escassez de livros adequados às necessidades académicas, levando muitos estudantes a dependerem da internet como principal fonte de informação. “Os desafios que enfrento são quando preciso de livros relacionados com a minha área de estudo. É muito difícil encontrar livros técnicos ou de referência”, afirmou.

Segundo Relia, em situações urgentes, é frequentemente obrigada a comprar livros no estrangeiro, incluindo na Indonésia, ou a procurar obras em livrarias locais.

A estudante alertou ainda para os riscos associados à dependência da internet, nomeadamente no que diz respeito à credibilidade da informação e às dificuldades de acesso a conteúdos pagos. “Por vezes recebemos informações não credíveis. E a informação de qualidade muitas vezes é paga, e nem todos têm cartão de crédito ou débito”, disse.

Relia considera ainda que a falta de livros de referência prejudica não apenas os alunos, mas também os professores no processo de ensino. “Espero que o Governo, após a conclusão da Biblioteca Nacional, possa preparar livros adequados às universidades e trabalhar em conjunto com o Ministério da Educação”, afirmou.

“Os livros são como janelas para o mundo. Se queremos que as futuras gerações tenham conhecimento sólido, temos de investir em bibliotecas de qualidade”, acrescentou.

Escritores esperam que a biblioteca impulsione a investigação e a literatura

A escritora Lena Mafalda manifestou a expectativa de que a Biblioteca Nacional se torne um centro de conhecimento, investigação e desenvolvimento académico. “Espero que este espaço não seja apenas um edifício para guardar livros, mas sim um espaço vivo que incentive os estudantes, investigadores e as novas gerações a desenvolverem ainda mais a cultura de leitura e escrita”, afirmou.

Segundo a escritora, a biblioteca deverá desempenhar um papel importante na proteção e valorização da história, da cultura e das obras dos autores timorenses, além de facilitar o acesso a recursos literários e científicos.

Também leitores, escritores e editoras têm defendido que a futura Biblioteca Nacional deverá desempenhar um papel mais amplo, incluindo o apoio ao setor editorial através da atribuição do ISBN (Número Internacional Normalizado de Livro), essencial para o reconhecimento internacional das obras publicadas em Timor-Leste.

Para muitos dos que aguardam há quase uma década pela construção da Biblioteca Nacional, a esperança é que, desta vez, a terceira primeira pedra seja, finalmente, a definitiva.

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