Enquanto o café timorense conquista novos mercados e se afirma no segmento dos cafés de especialidade, muitos agricultores enfrentam quebras acentuadas na produção devido às alterações climáticas, ao envelhecimento dos cafezais e à baixa produtividade. Especialistas salientam que, sem investimentos na renovação das plantações e na adaptação do setor, o futuro da principal exportação agrícola de Timor-Leste poderá ficar comprometido.
O café continua a ser a principal exportação agrícola e não petrolífera de Timor-Leste e uma das mais importantes fontes de rendimento para milhares de famílias rurais. Contudo, enquanto a procura internacional pelo café timorense aumenta, muitos produtores enfrentam uma realidade cada vez mais difícil: colhem menos café, apesar de o mercado pagar melhores preços.
Nas zonas montanhosas do país, onde o café é cultivado há várias gerações, os agricultores apontam as alterações climáticas, o envelhecimento dos cafeeiros e a fraca produtividade das plantações como os principais fatores responsáveis pela redução das colheitas.
Em Ermera, o principal município produtor de café do país, Tomé Alves Madeira viu a produção cair para cerca de um terço da registada no ano anterior. “Comparando com o ano passado, a produção diminuiu bastante. No ano passado a colheita foi relativamente boa, mas este ano não foi satisfatória”, contou ao Diligente.
Segundo o agricultor, em 2025 conseguiu colher cerca de 12 sacos de café, aproximadamente 480 quilogramas. Este ano, a produção ficou-se por apenas quatro sacos, cerca de 160 quilogramas.
Para Tomé Alves Madeira, a principal explicação está nas condições meteorológicas cada vez mais imprevisíveis. “O calor prolongado enfraqueceu os cafeeiros e muitos frutos caíram antes de amadurecer. Quando chega a época da floração, a chuva excessiva também prejudica as plantas, porque as flores apodrecem e caem antes de se transformarem em frutos”, explicou.
Outro dos problemas é o envelhecimento dos cafezais. “Muitas árvores já estão velhas e produzem cada vez menos”, disse.
Perante esta realidade, o agricultor pretende renovar gradualmente a plantação, substituindo os cafeeiros mais antigos por novas plantas e aumentando a cobertura de árvores de sombra, como o samatuku (Albizia moluccana) e o cacau, para proteger os cafeeiros das temperaturas elevadas. “Queremos plantar novos cafeeiros e aumentar as árvores de sombra para proteger as plantas mais jovens.”
A poucos quilómetros dali, Luísa Fernandes enfrenta dificuldades semelhantes. “O café já está muito envelhecido e produz poucos frutos. O que colhemos é praticamente apenas para consumo da família”, afirmou.
A agricultora recorda que, no ano passado, a colheita permitiu garantir algum rendimento para sustentar a família durante vários meses. Este ano, porém, quase não houve café para vender. “Não conseguimos ganhar dinheiro porque há muito pouco café.”
Apesar das dificuldades, ambos reconhecem o apoio prestado pelos extensionistas agrícolas que trabalham nas suas comunidades, sobretudo na manutenção das plantações e na divulgação de boas práticas agrícolas. Ainda assim, consideram que esse apoio precisa de ser reforçado.
Entre as principais necessidades apontam o acesso a novas plantas de cafeeiro mais resistentes às alterações climáticas, formação técnica contínua, equipamentos para o processamento do café e programas de renovação dos cafezais.
“Quando a produção diminui, também diminui o rendimento da família. Vivemos do café e, quando há menos produção, torna-se muito mais difícil sustentar a casa”, resumiu Tomé Alves Madeira.
Embora cultivem milho, mandioca e hortaliças para consumo próprio e venda ocasional, ambos sublinham que nenhuma destas culturas consegue substituir o rendimento proporcionado pelo café.
As histórias de Tomé Alves Madeira e Luísa Fernandes refletem uma realidade comum em muitas comunidades produtoras de café de Timor-Leste, numa altura em que o setor procura responder ao aumento da procura internacional por cafés de maior qualidade.
O desafio é produzir mais sem perder qualidade
Se para os agricultores o problema está sobretudo na redução da produção, para os exportadores a principal preocupação é conseguir responder à crescente procura internacional.
O vice-presidente da Associação Café Timor (ACT), Afonso de Oliveira, afirma que o maior desafio do setor é garantir uma produção suficientemente consistente para manter a confiança dos compradores estrangeiros.
“O café é um dos produtos mais importantes de Timor-Leste. Precisamos de continuar a valorizá-lo e, ao mesmo tempo, garantir uma oferta estável para não perdermos os mercados que já conquistámos”, afirmou.
Segundo o responsável, uma empresa associada da ACT exportou cerca de 700 toneladas de café para a Austrália no ano passado. No entanto, alerta que a redução dos volumes disponíveis pode comprometer relações comerciais construídas ao longo de vários anos. “Se deixarmos de fornecer as quantidades necessárias, os compradores procuram outros fornecedores. Não podem depender de uma oferta instável.”
Para Afonso de Oliveira, a quebra da produção resulta sobretudo do envelhecimento dos cafeeiros e dos impactos crescentes das alterações climáticas.
Embora reconheça os esforços desenvolvidos pelo Governo na reabilitação dos cafezais, considera que os resultados ainda estão longe do necessário para garantir um crescimento sustentado da produção.
A irregularidade das colheitas também dificulta a abertura de novos mercados. “Há clientes que, num ano, recebem dez contentores de café e, no ano seguinte, apenas dois. Essa falta de consistência torna muito difícil manter contratos comerciais de longo prazo”, explicou.
Além da quantidade, a qualidade continua a ser determinante. Antes de cada exportação, são enviadas amostras para laboratórios especializados, onde são avaliadas as características físicas e sensoriais do café. “Os compradores verificam se as características apresentadas correspondem efetivamente ao produto que vão adquirir.”
Embora existam plantações em praticamente todos os municípios do país, Ermera e Ainaro continuam a concentrar a maior parte da produção nacional, desempenhando um papel central no abastecimento das empresas exportadoras.
Mais produção num ano não resolve problemas estruturais
Apesar das dificuldades relatadas pelos agricultores, os dados mais recentes indicam que a produção nacional registou uma recuperação significativa em 2025.
Segundo uma análise da Market Development Facility (MDF), a produção de café atingiu cerca de 8.200 toneladas, um aumento de 72% face ao ano anterior. No entanto, os especialistas sublinham que este crescimento não representa, por si só, uma tendência sustentada.
A recuperação foi impulsionada por condições climáticas favoráveis e pelo ciclo natural de maior produtividade dos cafeeiros, após vários anos de colheitas mais fracas. Ainda assim, o setor continua a enfrentar problemas estruturais que limitam a sua capacidade de responder à crescente procura internacional.
Entre esses problemas destacam-se o envelhecimento das plantações, a baixa produtividade, a reduzida adoção de boas práticas agrícolas e a dificuldade em garantir volumes consistentes de produção.
Em 2025, o mercado internacional também favoreceu os produtores. Os preços do café atingiram níveis historicamente elevados e a procura manteve-se forte, tanto nos mercados externos como no mercado interno.
O preço máximo pago pelo café em pergaminho seco chegou aos 4,50 dólares por quilograma, acima dos 3,50 dólares registados em 2024. O café em cereja também valorizou, atingindo até 0,85 dólares por quilograma.
Segundo os exportadores citados pela MDF, esta valorização resultou sobretudo da subida dos preços no mercado internacional. Como Timor-Leste representa menos de 0,1% da produção mundial de café, acompanha a evolução dos preços internacionais, sem capacidade para os influenciar.
Ao mesmo tempo, a concorrência entre compradores nacionais e internacionais por uma oferta limitada contribuiu igualmente para a subida dos preços pagos aos agricultores.
Apesar da recuperação registada em 2025, especialistas e exportadores alertam que estes resultados poderão não repetir-se se não forem acelerados os programas de renovação dos cafezais.
Mais de metade dos cafeeiros existentes no país já ultrapassaram a idade de maior produtividade, reduzindo o potencial de crescimento da produção nacional. Os programas de reabilitação começam, contudo, a produzir resultados animadores.
Segundo a MDF, os cafeeiros reabilitados em 2021 aumentaram a produção média de cerejas de café de 0,73 quilogramas para 2,27 quilogramas por árvore.
No entanto, apenas uma pequena parte das plantações foi intervencionada até ao momento, pelo que o impacto na produção nacional continua a ser reduzido.
Os especialistas estimam que a recuperação de apenas um quarto da área cultivada permitiria produzir entre quatro e cinco mil toneladas adicionais de café beneficiado por ano.
O café de especialidade abre novas oportunidades
Embora continue a exportar sobretudo café convencional, Timor-Leste tem vindo a afirmar-se cada vez mais no mercado dos cafés de especialidade, um segmento em rápida expansão e que oferece preços significativamente superiores aos praticados no mercado tradicional.
Desde 2015, a MDF e várias empresas do setor têm investido na assistência técnica aos agricultores, na melhoria do processamento do café e na promoção internacional da produção timorense.
O objetivo passa por aumentar a qualidade do produto e criar mais valor ao longo de toda a cadeia de produção. Os resultados começam a ser visíveis.
Segundo a MDF, a percentagem de café de especialidade nas exportações nacionais aumentou de apenas 2%, em 2017, para 24%, em 2022.
No mesmo período, o valor das exportações deste segmento passou de cerca de 713 mil dólares para mais de 10 milhões de dólares. Também o número de produtores envolvidos neste mercado cresceu significativamente.
Em 2022, mais de 11 mil agricultores forneceram café destinado ao segmento de especialidade, quando cinco anos antes eram menos de mil. Ao mesmo tempo, aumentou o número de empresas exportadoras interessadas neste mercado, refletindo uma aposta crescente na diferenciação pela qualidade.
O preço médio de exportação duplicou praticamente nesse período, passando de 2,5 dólares para cerca de 5 dólares por quilograma, acima da média internacional.
Segundo os exportadores, um dos fatores que mais contribuiu para esta valorização foi o desenvolvimento da produção de cafés naturais, método em que a cereja seca inteira antes da extração do grão, permitindo obter perfis sensoriais mais valorizados por muitos compradores.
“O aumento da qualidade permitiu que o café timorense chegasse a mercados de maior valor acrescentado, onde os compradores estão dispostos a pagar prémios significativos por lotes especiais”, refere o relatório da MDF.
O Canadá tornou-se o principal destino das exportações timorenses de café de especialidade entre 2021 e 2022, absorvendo mais de metade deste mercado. Seguem-se os Estados Unidos, a Austrália, o Japão e a Coreia do Sul. Além das exportações, o consumo interno também tem vindo a crescer.
Segundo a MDF, cerca de 420 toneladas de café produzido em Timor-Leste foram comercializadas em cafés, restaurantes e produtos embalados durante 2024.
A expansão de cafés em Díli e noutros municípios tem contribuído para aumentar o consumo de café produzido no país. Apesar deste crescimento, o mercado interno continua a representar menos de 10% da produção nacional.
A integração de Timor-Leste na ASEAN poderá abrir novas oportunidades para o setor. Segundo a MDF, a redução das barreiras comerciais deverá facilitar o acesso aos mercados regionais, sobretudo ao da Indonésia, atualmente um dos principais destinos do café timorense.
As exportações para a Austrália e para o Japão também têm vindo a crescer. Entre janeiro e agosto de 2025, Timor-Leste exportou 303 toneladas de café para a Austrália, ultrapassando o volume total exportado para aquele país durante todo o ano de 2024.
Apesar das oportunidades, os exportadores alertam que o maior desafio continua a ser responder à procura. A crescente reputação internacional do café timorense está a abrir portas em mercados cada vez mais exigentes, mas a baixa produtividade das plantações e a irregularidade da produção dificultam o aproveitamento desse potencial.
Para os responsáveis da Associação Café Timor, aumentar a produção é importante, mas preservar a qualidade será decisivo para consolidar a posição de Timor-Leste entre os produtores mundiais de cafés de especialidade.
Alterações climáticas colocam futuro do café timorense em risco
As alterações climáticas são hoje apontadas por agricultores, exportadores e investigadores como uma das maiores ameaças ao futuro do setor cafeeiro em Timor-Leste.
Um estudo desenvolvido pela Market Development Facility (MDF) e pela Parceria Climática Austrália-Pacífico (APCP) conclui que o aumento das temperaturas, a maior irregularidade da precipitação e a intensificação dos fenómenos meteorológicos extremos poderão reduzir significativamente as áreas adequadas ao cultivo de café arábica nas próximas décadas.
O presidente da Associação Café Timor (ACT), Daniel Leong, considera que a adaptação às alterações climáticas será determinante para garantir a sustentabilidade do setor. “O aumento das temperaturas e as alterações nos padrões de precipitação podem reduzir as áreas adequadas ao cultivo e afetar a qualidade do café”, afirmou.
Segundo o dirigente, a qualidade continuará a ser o principal fator diferenciador do café timorense nos mercados internacionais.
Os consumidores valorizam cada vez mais as características sensoriais do produto e estão dispostos a pagar preços superiores por cafés com origem certificada e perfis aromáticos distintos.
“O nosso trabalho passa por garantir a qualidade do café, avaliar as suas características sensoriais e fornecer aos compradores informação transparente sobre a origem, o processamento e as particularidades de cada lote”, explicou.
Daniel Leong destaca ainda uma vantagem competitiva rara de Timor-Leste: o Híbrido de Timor, uma variedade que surgiu naturalmente do cruzamento entre o café arábica e o robusta e que é reconhecida internacionalmente pela sua resistência a algumas doenças e pela sua importância na melhoria genética de cafeeiros.
Para os investigadores, esta diversidade genética constitui um património de elevado valor científico e comercial. Ainda assim, sublinham que essa vantagem, por si só, não será suficiente para compensar os efeitos das alterações climáticas.
Segundo o estudo da MDF e da APCP, a temperatura média global poderá aumentar 1,5 graus Celsius já durante a primeira metade da década de 2030. Caso esta tendência se confirme, vários países produtores de café deverão perder parte das áreas atualmente adequadas ao cultivo de arábica.
Em Timor-Leste, onde a temperatura média ronda atualmente os 24,3 graus Celsius, o impacto poderá ser igualmente significativo.
Os investigadores analisaram dois cenários climáticos. Num cenário de baixas emissões de gases com efeito de estufa, a temperatura média nacional poderá aumentar cerca de 1,1 graus até 2050. Num cenário de emissões elevadas, o aumento poderá atingir 1,8 graus em 2050 e cerca de 2,6 graus em 2070.
Como consequência, a área nacional adequada ao cultivo de café arábica poderá diminuir de 33,2% para apenas 22% até meados do século. No cenário mais pessimista, essa área poderá reduzir-se para apenas 16,6%.
A maioria dos municípios deverá perder áreas favoráveis ao cultivo. A principal exceção será Ainaro, onde as altitudes mais elevadas poderão continuar a proporcionar condições adequadas para a produção de café.
O estudo alerta igualmente para o aumento do risco de propagação de doenças, como a ferrugem do cafeeiro, e de pragas, como a broca-do-café, favorecidas pelas temperaturas mais elevadas.
Embora os sistemas agroflorestais utilizados em Timor-Leste ofereçam alguma proteção natural às plantações, os investigadores defendem que será necessário reforçar a gestão fitossanitária e investir em investigação para reduzir estes riscos.
As alterações climáticas não deverão traduzir-se apenas em temperaturas mais elevadas. Os especialistas preveem igualmente uma maior frequência de períodos de seca prolongada alternados com episódios de precipitação intensa.
Estas condições poderão comprometer a floração, reduzir a produtividade, aumentar a erosão dos solos e dificultar a colheita, a secagem e o armazenamento dos grãos, afetando a qualidade final do café.
Adaptar hoje para produzir amanhã
Perante este cenário, o estudo apresenta um conjunto de recomendações destinadas ao Governo, às empresas exportadoras e às organizações de produtores, em linha com o Plano de Desenvolvimento Nacional do Setor do Café (2019-2030).
Entre as prioridades identificadas destacam-se a renovação dos cafezais envelhecidos, a adoção de boas práticas agrícolas, o reforço dos serviços de extensão rural, o investimento em investigação e inovação e a expansão da produção para áreas de maior altitude.
Os investigadores recomendam ainda a diversificação das culturas em zonas onde o cultivo de café poderá tornar-se menos viável, bem como o desenvolvimento de mecanismos de financiamento associados aos mercados de carbono e a outros instrumentos de incentivo à agricultura sustentável.
Apesar dos desafios, os especialistas consideram que Timor-Leste reúne condições para reforçar a sua posição no mercado internacional dos cafés de especialidade.
O país continua a beneficiar de um património genético único, de sistemas tradicionais de produção sob sombra, de um número crescente de produtores especializados e de uma reputação internacional cada vez mais sólida.
A aposta na qualidade tem permitido compensar, em parte, a reduzida dimensão da produção nacional.
Segundo a MDF, alguns agricultores conseguiram aumentar os seus rendimentos em até 17% graças à venda de café de especialidade a preços superiores aos praticados no mercado convencional.
Para os especialistas, esta estratégia deverá continuar a ser uma prioridade. Num mercado global cada vez mais competitivo, Timor-Leste dificilmente competirá pela quantidade.
A sua vantagem continuará a residir na qualidade, na diferenciação e na valorização da origem do produto. Agricultores, exportadores e investigadores convergem, por isso, numa mesma conclusão: sem investimentos na renovação dos cafezais, no reforço da assistência técnica e na adaptação às alterações climáticas, será difícil responder à crescente procura internacional por café timorense.
O reconhecimento conquistado nos mercados internacionais representa uma oportunidade histórica para o setor. Transformar esta oportunidade num motor de desenvolvimento sustentável dependerá, contudo, da capacidade de aumentar a produtividade sem comprometer a qualidade que fez do café de Timor-Leste uma referência entre os cafés de especialidade.
O Diligente procurou obter esclarecimentos junto do ministro da Agricultura, Pecuária, Pescas e Florestas, Marcos da Cruz, sobre os desafios enfrentados pelo setor cafeeiro, as medidas previstas para aumentar a produtividade e as estratégias de adaptação às alterações climáticas. Até ao fecho desta reportagem, não foi possível obter uma resposta.























