Após estudar Psicologia Clínica no Brasil, Canizia Castela regressou a Timor-Leste com um objetivo: ouvir e ajudar quem sofre em silêncio. A jovem psicóloga enfrenta a falta de infraestruturas, o estigma social e o limitado reconhecimento da profissão, mas insiste na importância de investir na saúde mental para melhorar vidas, desenvolver competências socioemocionais e prevenir transtornos.
Comemora-se a 10 de outubro o Dia Mundial da Saúde Mental, instituído em 1992 pela Federação Mundial de Saúde Mental, com o objetivo de sensibilizar para questões de saúde mental e promover o acesso a cuidados de qualidade, garantindo o bem-estar de todos como um direito humano universal.
Em Timor-Leste, a saúde mental continua a ser pouco compreendida pela população. Apesar do aumento de casos de transtornos como depressão e ansiedade, muitos cidadãos desconhecem como identificar sinais de alerta ou procurar apoio adequado.
Canizia Castela, de 28 anos, recorda que a sua paixão por ajudar os outros começou ainda na infância, ao participar no grupo social Crianças Unidas, uma ONG que apoiava crianças em situação de vulnerabilidade através de atividades como canto, dança e capoeira. Foi nesse contexto que se despertou nela o interesse pelo desenvolvimento social e pela Psicologia. Hoje, como psicóloga clínica em Díli, Canizia alerta para os desafios da saúde mental em Timor-Leste e defende um maior investimento do Governo, tanto em formação como em serviços especializados, para que os cidadãos possam receber apoio adequado.
Na entrevista ao Diligente, Canizia partilha os desafios de oferecer atendimento psicológico em Timor-Leste, desde a falta de reconhecimento da profissão até às dificuldades em garantir privacidade nas consultas online. Apesar destas limitações, e com o apoio da Associação de Psicólogos de Timor-Leste, conseguiu criar um espaço em Taibesi para atendimentos presenciais.
Pode contar-nos como foi a sua escolha de estudar Psicologia e a experiência ao chegar ao Brasil?
Inicialmente, escolhi Turismo, mas queria algo na área da saúde e perguntei a mim própria: que área da saúde ainda falta em Timor-Leste? Foi então que encontrei a Psicologia. Pesquisei sobre o curso e percebi que estudava o comportamento e os pensamentos humanos, podendo também contribuir para políticas públicas de saúde.
Ao chegar ao Brasil, fiz um curso intensivo de português durante oito meses, além de formações sobre cultura e política brasileiras. No início, a minha professora desmotivava-me bastante, mas em vez de desistir, usei isso como força para continuar.
Quando entrei na faculdade, senti-me um pouco perdida, pois tinha pouco conhecimento prévio sobre Psicologia. Mas, com o tempo, através das aulas e das explicações dos professores, comecei a identificar-me com as teorias e a compreender melhor como expressar os meus sentimentos e emoções. Isso teve um impacto muito positivo na minha vida.
Mesmo quando os professores diziam que, se eu não me identificasse com o curso, poderia mudar, decidi continuar. Senti que a Psicologia tinha uma ligação com o meu passado e que poderia usá-la para contribuir para o meu país no futuro.
Uma das coisas que mais me encanta na Psicologia é a escuta qualitativa. Muitas vezes, as pessoas gostam apenas de falar, sem ouvir o outro. Mas sentar-me para ouvir o que alguém tem a dizer sobre os seus sentimentos é algo que me traz muita satisfação. É por isso que hoje me sinto realizada na área da Psicologia: por poder ouvir e compreender o outro.
Quais são os principais problemas de saúde mental que observa atualmente entre os timorenses?
A minha especialização é em Psicologia Clínica. Desde que comecei a atender, percebo que o problema mais presente entre os meus clientes é a ansiedade. A ansiedade é muito intensa, mas muitas vezes é normalizada, especialmente porque em Timor-Leste ainda há pouca formação na área da psicologia. Por isso, muitas pessoas não têm consciência de que isso pode afetar seriamente a saúde. A ansiedade é uma condição psíquica que pode gerar preocupações constantes, medo, stress e outros sintomas.
Durante a minha estadia no Brasil, ouvi frequentemente falar de casos de suicídio em Timor-Leste. Essa situação leva-me a questionar: o que tem feito o Governo em relação às políticas públicas de saúde mental? E qual tem sido o progresso?
Os problemas de saúde mental mais comuns na sociedade são ansiedade, depressão, esquizofrenia e burnout, principalmente entre profissionais que atuam em ambientes de trabalho exigentes. Por isso, acredito que as empresas e instituições deveriam ter leis e políticas específicas sobre saúde mental no trabalho, para ajudar os funcionários a lidar com a carga emocional.
Em Timor-Leste, a psicologia ainda é uma área muito frágil, com poucos recursos e sem reconhecimento, o que torna difícil prestar atendimento às populações nas áreas rurais.
Por que considera importante falar sobre saúde mental e qual o impacto deste tema na vida das pessoas?
A saúde mental faz parte da nossa vida diária. Precisamos de cuidar de três aspetos essenciais: espiritualidade, saúde física e saúde mental. Se não cuidarmos da saúde mental, isso pode afetar também a saúde física.
Por exemplo, se não conseguimos controlar as nossas emoções, a ansiedade pode surgir. Quando não expressamos os nossos sentimentos ou emoções, isso pode refletir-se fisicamente no corpo, causando dor de estômago, dores de cabeça, problemas intestinais, fadiga, hipertensão, problemas nos rins, no coração ou no fígado.
Por isso, é fundamental manter o equilíbrio entre o espiritual, o físico e o mental. A saúde mental não se cura apenas com remédios; é algo que precisamos aprender a gerir. Se não cuidarmos da saúde mental, a saúde física também não melhora — e vice-versa.
Como adapta a sua prática psicológica ao contexto cultural e social de Timor-Leste?
Durante o meu trabalho clínico e em projetos com veteranos, começo sempre por explicar que tudo o que acontece durante a sessão fica entre nós. Se eu levasse essas informações para fora, estaria a violar o meu código de ética. Procuro sempre criar um ambiente confortável e seguro para o paciente.
Nunca obrigo ninguém a falar se ainda não se sentir à vontade. Digo sempre que estou ali para ajudar a pessoa a sair da sua situação, e não para a julgar. O meu papel é apoiar o paciente a encontrar caminhos para resolver os seus próprios problemas. Por isso, o meu foco inicial é sempre criar um ambiente acolhedor, onde o paciente se sinta seguro para partilhar as suas histórias e sentimentos, garantindo a confidencialidade das informações.
Quando atendo mulheres, costumo dizer que, em vez de procurar soluções imediatas para o problema, é melhor primeiro conhecer melhor a nós mesmas, ou seja, desenvolver o autoconhecimento. Se não conseguimos compreender-nos, como podemos ultrapassar a situação que nos causa sofrimento? Incentivo sempre o caminho do autoconhecimento antes de tomar decisões importantes.
Timor-Leste passou por períodos de violência e conflito que continuam a afetar a saúde mental da população. Na sua opinião, como é que a psicologia pode ajudar quem sofreu traumas históricos?
O Centro Nacional Chega! solicitou o apoio da Associação de Psicólogos de Timor-Leste para realizar acompanhamento psicológico aos sobreviventes da guerra, muitos dos quais apresentam níveis de transtorno de stress pós-traumático. No entanto, enfrentamos muitas dificuldades em prestar esse acompanhamento, devido ao tempo limitado de que dispomos.
O nosso objetivo é ajudar estas pessoas a reintegrar-se na sociedade e a retomarem as suas atividades quotidianas, mas reconhecemos que isso, muitas vezes, é um grande desafio — às vezes, até impossível. Por isso, é essencial que o Governo crie espaços específicos para atender estas vítimas ou forneça apoio direto à associação, para que possamos continuar o acompanhamento psicológico necessário.
Muitos dos sobreviventes que acompanhamos não recebem qualquer tipo de apoio, nem do Governo, nem da própria família. Isto mostra que o nosso trabalho precisa de ser coletivo, pois a reintegração destas pessoas exige o envolvimento de todos. Infelizmente, em muitas situações, a sociedade e até as próprias famílias discriminam quem sofre de transtornos mentais. E esse cenário está muito presente em Timor-Leste.
Apesar disso, continuamos a intervir e a acompanhar os casos, mesmo sabendo que esse trabalho exige muito tempo. Na psicologia, só conseguimos ajudar quando a pessoa aceita e está disposta a receber ajuda. Se a família não aceitar ou não colaborar, a nossa intervenção também não traz resultados positivos.
Durante o seu trabalho de apoio às crianças em Díli, pode partilhar algumas experiências marcantes e os tipos de casos que acompanhou?
Acompanhei recentemente a história de uma criança que foi injustamente acusada de ser “naokten” (ladrão). Essa criança vivia num ambiente doméstico inseguro, onde era frequentemente agredida pelo pai. Tal situação causava-lhe muito medo, impedindo-a de contar ou partilhar com alguém os abusos que sofria.
As pessoas julgavam-na por uma situação que não foi escolha sua, pois a criança foi forçada por terceiros. Mais tarde, o pai descobriu e, com raiva, amarrou-lhe as mãos e os pés, trancando-a dentro de um quarto.
Consegui acompanhar essa criança e realizar sessões de psicoterapia, além de orientar os pais sobre como controlar melhor as suas emoções. O acompanhamento foi feito apenas durante um dia, mas situações como esta exigem uma atenção mais profunda.
Além da educação familiar, é fundamental dar espaço para que as crianças se possam expressar. Tenho observado que algumas crianças, quando realizam trabalho precoce em locais públicos, podem desenvolver traumas psicológicos que as afetarão no futuro.
Em Timor-Leste, ainda não realizei muitos atendimentos a crianças, mas durante os meus estudos no Brasil, trabalhei com uma organização que prestava assistência a crianças vítimas de violência doméstica, acompanhando vários casos nesse contexto.
Quais são os maiores desafios que enfrenta no atendimento clínico?
Após concluir os meus estudos no Brasil, regressei a Timor-Leste e abri uma clínica privada em Díli. Um dos maiores desafios que enfrento é quando os clientes pedem atendimento gratuito ou dizem que o meu serviço não deveria ser remunerado. Este é um desafio constante, e explico sempre que se trata de um serviço particular, e não de um serviço oferecido pelo Governo.
Sei que pagar por uma consulta psicológica ainda é difícil para muitos timorenses. Os meus pacientes são, na sua maioria, estudantes que procuram apoio psicológico, e por isso ofereço valores acessíveis.
Outro desafio importante ocorre durante os atendimentos online. Antes de iniciar uma consulta virtual, preciso de confirmar que o cliente está sozinho no quarto e a utilizar auscultadores, para garantir a privacidade. No entanto, na prática, muitas vezes encontram-se acompanhados de outras pessoas, o que viola o meu código de ética. Quando isso acontece, muitas vezes sou obrigada a cancelar a sessão e remarcar para outro momento.
Além disso, ainda não tenho um espaço próprio para realizar os atendimentos, mas, com o apoio da Associação de Psicólogos de Timor-Leste, consegui um espaço em Taibesi, onde realizo as consultas presenciais.
Muitas vezes, os clientes acreditam que a psicoterapia é algo rápido, que se resolve em uma ou duas sessões. Isso dificulta o processo de acompanhamento, pois a psicoterapia clínica exige tempo, e o progresso depende muito da situação apresentada, que muitas vezes requer continuidade para não comprometer a saúde mental.
Que tipo de apoio governamental considera necessário para fortalecer a área da saúde mental em Timor-Leste?
Os espaços de acolhimento para pessoas com transtornos mentais ainda são muito distantes de Díli. O único existente é no Hospital Nacional Guido Valadares, mas o espaço é insuficiente para atender à procura.
Reconheço que já existem psiquiatras em atividade, mas acredito que a psicologia é igualmente importante, porque muitos dos meus clientes, sobretudo estudantes, apresentam problemas sérios que requerem acompanhamento psicológico.
O Ministério da Saúde ainda não reconhece devidamente a importância da saúde mental. Timor-Leste ainda não tem uma data específica para um Dia Nacional da Saúde Mental, que poderia servir para sensibilizar o público sobre as suas consequências. O Governo deve promover formação e atuação em psicologia para melhorar o bem-estar da população.
A Associação de Psicólogos de Timor-Leste existe há vários anos, mas não tem recebido atenção do Governo. No passado, tivemos apoio da senhora Isabel Ferreira, esposa do ex-primeiro-ministro Taur Matan Ruak, mas desde o seu falecimento, a associação deixou de contar com esse suporte.
O que quero sublinhar é que o Ministério da Saúde precisa de reconhecer e apoiar os serviços de psicologia, para que possamos ajudar efetivamente as pessoas com transtornos mentais. Além disso, o Ministério da Educação deve investir na formação de novos psicólogos, incentivando estudantes a seguir esta área tão necessária.
Como vê a perceção da sociedade timorense em relação à saúde mental e à procura de apoio psicológico?
A nossa geração, com o apoio da tecnologia, já consegue compreender melhor o que é a saúde mental. No entanto, muitas vezes, mesmo tendo os sintomas, não conseguimos identificá-los, porque a nossa sociedade tende a normalizá-los. As gerações anteriores, que não tiveram acesso à informação, têm mais dificuldade em reconhecer os sintomas como depressão ou stress.
Na sociedade timorense, ainda se pensa que “saúde mental” está apenas ligada à deficiência mental. Mas isso não é verdade. Na realidade, os sinais de que algo não está bem mentalmente podem ser simples, como: irritação frequente, nervosismo, medo constante, tristeza prolongada, pensamentos excessivos, dificuldade em falar em público, choro frequente. Estas condições são sinais de alerta e quem as vivencia deve procurar apoio psicológico.
Que estratégias utiliza para ajudar os pacientes a lidar com ansiedade, depressão ou outros transtornos comuns?
Embora eu não atenda muitos casos de depressão ou outros transtornos graves, a maioria dos meus pacientes apresenta ansiedade. As estratégias que costumo utilizar incluem: encorajar as pessoas a praticarem atividades de que gostam, ajudá-las a reconectarem-se consigo mesmas e promover o autoconhecimento.
Se estas estratégias não forem suficientes, recomendo outras práticas, como lazer, passeios à beira-mar, atividades físicas ou exercícios leves. Como psicóloga, estou pronta para ouvir os problemas dos meus pacientes, mas também reforço que precisam de se abrir à possibilidade de agir por conta própria, fazendo coisas que os façam sentir-se melhor e mais confortáveis — e, assim, superar as situações enfrentadas.
Existe medicação adequada disponível em Timor-Leste para apoiar pessoas com transtornos de saúde mental? Como é normalmente prescrita e acompanhada?
Até ao momento, nos casos que acompanhei, nunca houve falta de medicação para pacientes com transtornos mentais, o que considero algo muito positivo. Talvez isso aconteça porque nem todas as pessoas procuram diretamente apoio psiquiátrico.
No entanto, seria importante confirmar esta realidade com o par IQ Care no Hospital Nacional Guido Valadares, para garantir que a medicação continua a estar disponível de forma consistente e acessível.
Quais são os sinais de alerta que todos deveriam conhecer para identificar problemas de saúde mental em si mesmos ou nos outros?
Um sinal importante é quando a pessoa deixa de sair de casa sem motivo claro. Contudo, este comportamento depende sempre do contexto, pois há pessoas naturalmente mais reservadas. Ainda assim, quando a tristeza se torna constante e prolongada, pode evoluir para níveis graves, como pensamentos suicidas.
Outros sinais de alerta incluem: medo persistente ou sem causa definida, incapacidade de lidar com os próprios problemas, dificuldade em dormir (insónia ou sono perturbado), falta de inteligência emocional, choro frequente e preocupações excessivas. Estes sintomas são motivos suficientes para procurar apoio psicológico.
Quais são os seus projetos ou planos para o futuro como psicóloga?
Atualmente, estou a desenvolver um plano para ministrar formações a estudantes do ensino secundário e universitário sobre a importância da psicologia. Esta iniciativa pretende ajudá-los a adquirir noções básicas sobre saúde mental e autoconhecimento.
Além disso, estou também à procura de financiamento para apoiar a Associação de Psicólogos de Timor-Leste, de modo a fortalecer o trabalho e a oferta de serviços psicológicos no país.
Que mensagem gostaria de deixar a quem sente medo ou vergonha de procurar ajuda psicológica?
Para quem tem medo ou vergonha de procurar psicoterapia, recomendo que não hesite em procurar informação primeiro. Se estiver a enfrentar problemas que não consegue partilhar com a família ou amigos, a psicoterapia pode ser uma alternativa segura e eficaz. Ela permite que a pessoa desenvolva autoconhecimento e aprenda a viver de forma mais independente e emocionalmente saudável.























