Protesto estudantil na UNTL denuncia alegadas cobranças ilegais e alterações de notas

“Depois de participar na associação estudantil, compreendi melhor a situação e decidi levantar esta questão. Não queremos que a próxima geração passe pelo mesmo que nós” /Foto: Diligente

A Associação Académica Estudantil da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) iniciou uma ação de protesto para exigir esclarecimentos e medidas em relação a duas docentes acusadas de alegadas irregularidades administrativas e académicas.

A Associação Académica Estudantil da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) iniciou, na segunda-feira, uma ação de protesto para exigir esclarecimentos e medidas relativamente a duas docentes.

Os estudantes acusam uma professora do Departamento de Língua Tétum de alegadas cobranças ilegais que terão afetado mais de cem alunos e uma professora do Departamento de Ensino da Física, que também exerce funções de diretora do departamento, de alegadamente alterar notas e falsificar documentos académicos, num caso que envolve dez estudantes.

A finalista do Departamento de Ensino da Língua Tétum, Auxiliadora de Santa Rosa, afirmou ter sido vítima de uma alegada cobrança ilegal praticada por uma professora em 2022.

Segundo a estudante, a docente exigiu que cada aluno entregasse quatro dólares, alegando que o dinheiro seria utilizado para organizar uma festa de confraternização entre as três turmas do departamento. “A professora Alexandra Tilman obrigava cada estudante a entregar quatro dólares. Alguns pagavam três dólares inicialmente e entregavam o restante mais tarde”, afirmou.

De acordo com Auxiliadora, os estudantes nunca receberam esclarecimentos sobre o destino do dinheiro nem sobre a realização da referida festa.

A finalista explicou ainda que, na altura, os alunos não apresentaram qualquer denúncia porque desconheciam os seus direitos e não sabiam que este tipo de cobrança poderia ser ilegal. “Depois de participar na associação estudantil, compreendi melhor a situação e decidi levantar esta questão. Não queremos que a próxima geração passe pelo mesmo que nós”, declarou.

A estudante acrescentou que a professora nunca apresentou nenhum documento oficial da faculdade que autorizasse a cobrança, tendo apenas comunicado verbalmente, durante as aulas, que cada estudante deveria entregar o dinheiro.

Quanto às medidas a adotar, Auxiliadora defendeu que qualquer eventual devolução do dinheiro deve ser feita publicamente e perante o Conselho Disciplinar. “Queremos que a professora devolva o dinheiro perante o Conselho Disciplinar. Não queremos receber o dinheiro diretamente e considerar o caso encerrado”, afirmou.

Associação denuncia cobranças em vários anos

O porta-voz da Associação Académica Estudantil da Faculdade de Educação, Eugénio Tilman, afirmou que a docente do Departamento de Língua Tétum terá exigido pagamentos aos estudantes em diferentes anos letivos.

Segundo o responsável, em 2017 foram cobrados 1,50 dólares a cada um dos 62 estudantes de duas turmas, alegadamente para a compra de livros. “Até hoje, esses livros nunca foram entregues, apesar de muitos desses estudantes já não frequentarem a faculdade”, afirmou.

Em 2022, os estudantes terão sido obrigados a pagar quatro dólares cada para uma alegada festa de confraternização. “Quem não entregasse o dinheiro corria o risco de reprovar na disciplina lecionada pela professora. Na realidade, a festa nunca aconteceu”, afirmou Eugénio Tilman.

Já em 2023, segundo a Associação, os estudantes entregaram dez dólares cada para a produção de uma camisola relacionada com a visita do Papa Francisco. “O Papa já regressou ao seu país e faleceu, mas os estudantes nunca receberam nenhuma camisola”, declarou.

O porta-voz afirmou que os montantes alegadamente arrecadados ascendem a cerca de 850 dólares em 2017, 450 dólares em 2022 e 50 dólares em 2023, num total de aproximadamente 1.350 dólares.

Estudantes denunciam alegada manipulação de notas

Os estudantes do Departamento de Ensino da Física denunciam também alegadas irregularidades relacionadas com a alteração de classificações académicas.

Emiliano Madeira, estudante do curso de Física, afirmou que, após a realização dos exames, os docentes divulgam normalmente as notas aos estudantes, que podem verificar os resultados.

Contudo, segundo o estudante, durante a fase de validação administrativa, algumas classificações terão sido alteradas. “Os resultados apresentados deixaram de corresponder às notas inicialmente atribuídas pelos professores. Por exemplo, um estudante tinha 75 valores, equivalente à classificação B, mas depois a nota passou para 68, equivalente a C”, afirmou.

Emiliano defendeu que qualquer alteração deve ser comunicada pelo docente responsável pela disciplina. “Neste caso, os estudantes não foram informados sobre as mudanças, uma vez que estas terão sido introduzidas pela direção do departamento”, afirmou.

Segundo o estudante, a situação teve impacto direto no processo de estágio pedagógico e levou os alunos a procurarem esclarecimentos junto da direção do departamento. “Sentimos que existem interesses internos que estão a dificultar a resolução do problema”, acrescentou.

O porta-voz da Associação explicou ainda que, em 2023, os estudantes receberam e validaram as notas divulgadas pelos docentes. No entanto, este ano, quando se preparavam para iniciar os estágios pedagógicos, verificaram que as classificações registadas eram diferentes.

“Algumas notas foram reduzidas significativamente e alguns estudantes surgem agora como reprovados, apesar de anteriormente constarem como aprovados”, afirmou.

Segundo a Associação Académica Estudantil, os estudantes possuem documentos e recibos administrativos que demonstram diferenças entre as classificações inicialmente divulgadas e as notas posteriormente registadas.

Associação exige medidas e ameaça alargar protestos

Perante estas situações, a Associação Académica Estudantil exige a suspensão da professora do Departamento de Língua Tétum e a exoneração da diretora do Departamento de Ensino da Física.

Questionado sobre a demora na resolução dos casos, Eugénio Tilman garantiu que a associação continuará a exercer pressão até que seja encontrada uma solução. “A nossa luta só termina quando obtivermos uma resposta. Se o reitor continuar sem resolver o problema, existe a possibilidade de bloquearmos a reitoria”, declarou.

Segundo o porta-voz, desde 17 de junho a associação tem realizado encontros com a estrutura da faculdade para solicitar esclarecimentos, mas até ao momento não obteve qualquer resposta.

“Por isso, ontem iniciámos uma greve na faculdade. Encerrámos os serviços administrativos e fechámos o gabinete do decano, incluindo as secretarias das duas professoras. Assim que recebermos uma resposta, voltaremos a abrir os serviços”, afirmou, sublinhando que as atividades letivas continuam a decorrer normalmente.

O responsável acrescentou que, depois de tomarem conhecimento dos casos, os estudantes e a associação procuraram esclarecimentos junto das docentes envolvidas. “No entanto, as duas professoras ignoraram os pedidos de esclarecimento. O decano e a reitoria também não deram nenhuma resposta”, afirmou.

Os estudantes ainda não apresentaram nenhuma queixa ao Ministério Público, defendendo que a reitoria da UNTL deve, numa primeira fase, assumir a responsabilidade de esclarecer e resolver os casos internamente.

Reitoria defende resolução interna

Questionado sobre o assunto, o reitor da UNTL, Joviano da Costa, afirmou que os problemas devem ser resolvidos internamente pelos departamentos.

“Os chefes dos departamentos devem organizar-se para resolver este problema. Não há ninguém melhor do que os outros. Por isso, estas questões devem ser resolvidas internamente. Quem quiser levar este assunto para fora deve assumir a responsabilidade”, declarou.

O Diligente tentou contactar o decano da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades para obter esclarecimentos. Inicialmente, o responsável informou que se encontrava numa reunião, mas não voltou a atender as chamadas posteriores. O jornal tentou igualmente contactar as duas docentes visadas, sem sucesso.

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