Menos crianças morrem, mais mulheres têm acesso a cuidados de saúde e a taxa de fertilidade continua a diminuir. Apesar destes progressos, quase metade das crianças timorenses com menos de cinco anos sofre de atraso de crescimento, revelando que a desnutrição continua a comprometer o futuro do país.
Quase uma em cada duas crianças timorenses com menos de cinco anos sofre de atraso de crescimento, uma condição associada à subnutrição prolongada que pode comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo. A conclusão consta do Inquérito Demográfico e de Saúde de Timor-Leste (TL DHS) 2025-2026, divulgado esta semana.
Os dados revelam que 45% das crianças com menos de cinco anos apresentam atraso de crescimento, enquanto 19% sofrem de emaciação, uma forma de desnutrição aguda caracterizada por emagrecimento grave.
Apesar dos progressos registados em vários indicadores de saúde, os resultados mostram que a desnutrição continua a representar um dos maiores desafios para o país.
Para além dos problemas nutricionais, o inquérito indica que apenas 52% das crianças possuem vacinação completa e alerta para a persistência de práticas de disciplina violenta contra crianças, fatores que continuam a afetar o seu bem-estar e desenvolvimento.
Menos filhos, mais partos assistidos e menor mortalidade infantil
O relatório destaca, contudo, avanços significativos na saúde materno-infantil. A taxa de fertilidade nacional desceu para 3,4 filhos por mulher, quando em 2009-2010 se situava nos 5,7 filhos por mulher.
O acesso aos serviços de saúde materna também registou melhorias. Atualmente, 78% dos partos são assistidos por profissionais de saúde qualificados, um aumento expressivo face aos 33% registados há cerca de uma década.
Segundo os dados do inquérito, a mortalidade infantil também continua a diminuir, refletindo os investimentos realizados nos serviços de saúde materno-infantil e no acesso aos cuidados de saúde.
Dados devem orientar políticas públicas
O Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) considera que os resultados do TL DHS 2025-2026 constituem um instrumento fundamental para compreender a realidade da saúde materno-infantil em Timor-Leste e apoiar a definição de políticas públicas mais eficazes.
O inquérito reúne informação sobre fertilidade, mortalidade infantil, planeamento familiar, nutrição, saúde reprodutiva e desenvolvimento infantil precoce, oferecendo um retrato abrangente das condições de vida da população.
Segundo o UNFPA, os dados recolhidos permitem identificar necessidades, avaliar o impacto das políticas implementadas e orientar investimentos futuros. “Cada ponto de dados reflete a saúde, o bem-estar e as experiências vividas por indivíduos e famílias em todo o país”, afirmou a organização.
O UNFPA sublinhou ainda que a informação estatística só produz mudanças quando é utilizada para apoiar a tomada de decisões. “Os dados têm o poder de gerar mudanças, mas apenas quando são utilizados”, acrescentou.
O inquérito contou com o apoio do Governo de Timor-Leste, através do Ministério da Saúde, do Ministério das Finanças e do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), bem como de vários parceiros internacionais, entre os quais a UNICEF, o Banco Mundial, o Governo da Austrália e o Programa Alimentar Mundial (PAM).
Os resultados do TL DHS 2025-2026 deverão servir de base para futuras políticas e programas destinados a melhorar os indicadores de saúde e nutrição, em particular no combate ao atraso de crescimento infantil.
Ministério da Saúde reconhece desafios persistentes
O Diretor-Geral do Gabinete de Política, Planeamento, Cooperação e Desenvolvimento do Ministério da Saúde, Florindo Pinto Gonzaga, reconheceu que os resultados do inquérito mostram progressos importantes, mas também evidenciam desafios que continuam por resolver.
Durante a apresentação do relatório, o responsável afirmou que o inquérito não se limita a avaliar a situação nutricional do país, fornecendo igualmente informação relevante sobre diversas áreas da saúde e do desenvolvimento humano.
“Este inquérito demográfico e de saúde não apresenta apenas problemas de nutrição, mas também outros desafios mais abrangentes. Os resultados mostram os principais indicadores que refletem os progressos alcançados”, afirmou.
Segundo Florindo Pinto Gonzaga, Timor-Leste já conseguiu atingir ou aproximar-se de várias metas estabelecidas em diferentes setores. No entanto, a área da nutrição continua a exigir uma intervenção reforçada por parte das autoridades.
“No que diz respeito à nutrição, ainda há muito trabalho a fazer. Este inquérito constitui uma importante base de evidência para ajudar a definir planos e estratégias futuras”, referiu.
O responsável abordou igualmente a questão da anemia, alertando para a necessidade de estudos mais aprofundados antes de serem tiradas conclusões definitivas sobre a evolução do problema.
“O país ainda não dispõe de dados comparativos suficientes entre diferentes períodos dos inquéritos DHS. Por isso, ainda não podemos afirmar com precisão se a prevalência da anemia aumentou ou diminuiu”, explicou.
Apesar das limitações identificadas, o Ministério da Saúde garante que continua a desenvolver programas comunitários destinados a prevenir e combater a anemia e outras formas de malnutrição.
Segundo Florindo Pinto Gonzaga, foram criados mecanismos de monitorização e integradas várias intervenções no sistema nacional de saúde, incluindo visitas domiciliárias, clínicas móveis, atividades do Serviço Integrado de Saúde Comunitária (SISCA) e pacotes integrados de serviços de saúde.
“O Ministério da Saúde encara esta questão com seriedade. Foram estabelecidos mecanismos para monitorizar a situação da anemia e integrar estas intervenções no sistema de saúde”, afirmou.
O responsável concluiu sublinhando que o TL DHS 2025–2026 constituirá uma referência fundamental para orientar políticas públicas e intervenções baseadas em evidência.
Governo quer usar resultados para melhorar o planeamento
A Ministra das Finanças, Santina Cardoso, afirmou que os resultados do inquérito fornecem informação essencial para apoiar o planeamento e a tomada de decisões em áreas como a saúde materno-infantil, a nutrição, a saúde reprodutiva, o planeamento familiar e a mortalidade infantil.
“Com o TL DHS 2025–2026, temos agora uma base sólida para comparar as mudanças ao longo do tempo. O Ministério da Saúde, os parceiros de desenvolvimento e outras entidades relevantes podem utilizar estes dados para um melhor planeamento do setor da saúde”, afirmou.
A governante destacou igualmente os progressos alcançados na assistência ao parto. Em 2009-2010, apenas 33% dos partos eram acompanhados por profissionais de saúde qualificados. Em 2016, esse valor aumentou para 60% e, atualmente, situa-se nos 78%.
“Os dados mostram que as mulheres estão cada vez mais a optar por dar à luz em unidades de saúde, em vez de o fazerem em casa”, referiu.
Apesar destas melhorias, Santina Cardoso reconheceu que a desnutrição infantil continua a ser um dos maiores desafios do país, particularmente no que diz respeito ao atraso de crescimento.
A ministra defendeu ainda que a disponibilidade de dados fiáveis é essencial para garantir políticas públicas mais eficazes e uma utilização mais eficiente dos recursos do Estado. “Com dados corretos, conseguimos planear melhor, monitorizar os resultados e garantir que as decisões governamentais são baseadas em evidências”, afirmou.
Segundo a governante, os dados estatísticos desempenham um papel fundamental na definição de prioridades e na avaliação do impacto das políticas públicas.
O Governo, através do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL) e do Ministério das Finanças, continuará a trabalhar com os parceiros nacionais e internacionais na divulgação e utilização dos resultados do inquérito.
Após a publicação do relatório final, prevista para setembro, serão promovidas ações de divulgação a nível municipal para garantir que a informação chega às comunidades e possa ser utilizada no planeamento local. “Os dados recolhidos devem regressar às comunidades para apoiar o planeamento local”, concluiu.
Embora Timor-Leste tenha registado progressos significativos em áreas como a saúde materna, a assistência ao parto e a redução da mortalidade infantil, os resultados do Inquérito Demográfico e de Saúde 2025-2026 mostram que a desnutrição continua a afetar uma parte significativa da população infantil.
Com 45% das crianças menores de cinco anos a sofrerem de atraso de crescimento, o país continua confrontado com um problema que compromete o desenvolvimento físico, cognitivo e educativo das gerações futuras.
O relatório surge, por isso, não apenas como um instrumento estatístico, mas também como um alerta para a necessidade de acelerar as políticas públicas destinadas a melhorar a nutrição infantil e a garantir melhores oportunidades de desenvolvimento para as crianças timorenses.























