Especialistas defendem que a aquisição poderia ter sido feita a preços mais baixos e alertam para a ausência de uma reserva estratégica nacional, que evitaria o recurso uma adjudicação direta.
Perante o agravamento do conflito no Médio Oriente, o Governo timorense aprovou, esta quarta-feira, 1 de abril, uma despesa de 168,8 milhões de dólares para a compra de 80 milhões de litros de gasóleo, com o objetivo de garantir reservas até ao final do ano.
O impacto do conflito começou a fazer-se sentir noutros países já no ano passado, quando os preços dos combustíveis iniciaram uma trajetória de subida gradual. Para o economista António Serra, a decisão revela “um erro importante de gestão macroeconómica”, ao adquirir combustível num momento em que os preços atingem níveis recorde nos mercados internacionais.
O especialista sublinhou que o preço do gasóleo era significativamente mais baixo meses antes, o que poderia ter evitado um gasto desta dimensão. “Na véspera do início da atual guerra (28 de fevereiro de 2026), o preço era de 2,03 dólares por litro, mas no final de 2025 situava-se nos 1,88 dólares”, explicou. Acrescentou ainda que, seis meses antes, o preço rondava 1,76 dólares por litro, o que representa uma diferença de cerca de 50 centavos por litro.
“Mas a questão fundamental nem é esta. O mais relevante é perceber por que razão um país tão dependente do gasóleo, nomeadamente para a produção de eletricidade, não dispõe de uma reserva estratégica, à semelhança da maioria dos países”, afirmou António Serra.
Esta preocupação é partilhada pela investigadora da La’o Hamutuk, Marta da Silva, que alertou para a inexistência de reservas deixou o Governo sem margem de manobra, obrigando-o a depender de empresas privadas.
“A Timor Gap, sendo uma empresa estatal, não consegue indicar até quando pode garantir as reservas do país. Foi a ETO (Empresa Timor Oan) que assegurou capacidade para três meses”, referiu.
Relativamente à quantidade adquirida para assegurar o consumo até ao final do ano, António Serra questiona qual será a estratégia após esse período, defendendo que a existência de uma reserva estratégica permitiria reduzir despesas imprevistas.
No entanto, um dia após anunciar a compra deste volume de combustível, o próprio Primeiro-Ministro admitiu que a quantidade poderá cobrir apenas cerca de seis meses. Perante esse cenário, sugeriu a possibilidade de cortes no fornecimento de eletricidade entre as 23h e as 5h, e apelou à redução do uso de viaturas, exceto em situações de necessidade. Argumentou ainda que, mesmo que o conflito termine, a recuperação dos mercados levará tempo.
Segundo o Worldometer, Timor-Leste consome mais de 4.500 barris por dia. Os 80 milhões de litros correspondem a mais de 503 mil barris, o que, ao ritmo de consumo atual, garantiria abastecimento por pouco mais de três meses.
Caso o conflito se prolongue e não sejam adotadas medidas mais estruturais, estas restrições poderão ser implementadas.
Quanto ao procedimento de aprovisionamento por ajuste direto urgente, Marta da Silva reconhece tratar-se de uma solução preocupante, ainda que, no atual contexto, possa não haver alternativas imediatas. Ainda assim, sublinha a necessidade de transparência e rigor na prestação de contas.
A investigadora defende também que o Governo poderia ter atuado mais cedo, antecipando a evolução do conflito no Médio Oriente. “Esta não é uma situação repentina. Já há meses que se percebia a sua possível evolução e impacto”, observou.
Dependência do combustível e vulnerabilidade económica
Marta da Silva salientou que o subsídio aos combustíveis exerce pressão sobre a inflação. Sendo Timor-Leste um país fortemente dependente de importações, o preço do combustível tem um impacto direto no custo dos bens essenciais.
Essa dependência constitui, segundo a investigadora, uma das principais vulnerabilidades económicas do país perante choques externos, obrigando o Estado a subsidiar empresas privadas para manter os preços acessíveis à população.
O Governo fixou, a 25 de março de 2026, limites máximos para os preços dos combustíveis: 1,50 dólares por litro de gasolina, 1,65 dólares para gasóleo, 2,50 dólares para combustível de aviação e 4,20 dólares por quilo para gás de petróleo liquefeito (GPL).
“Esta situação reforça as recomendações que a La’o Hamutuk tem feito ao longo dos anos: diversificação económica, redução das importações e aposta em energias renováveis. Com energia renovável, a dependência de combustíveis seria menor”, afirmou.
A investigadora destacou ainda que o aumento dos preços pode afetar o financiamento da EDTL, podendo a verba prevista revelar-se insuficiente para cobrir os custos operacionais. Nesse contexto, o corte de eletricidade poderá surgir como medida de resposta na ausência de soluções preventivas.
Apesar de existirem planos para a transição energética, estes parecem não estar a ser concretizados. O Plano Estratégico de Desenvolvimento Nacional (PEDN) 2011-2030 previa que, até 2015, 50% da energia fosse proveniente de fontes renováveis, e 100% até 2030. No entanto, em 2026, o país continua fortemente dependente de energia não renovável.
“Quanto se gasta anualmente com eletricidade? O Governo não conseguiu implementar estas medidas. Porquê?”, questionou Marta da Silva. Segundo a investigadora, estudos indicam que o país possui potencial para biomassa e energia solar, entre outras fontes, mas continua a expandir o acesso à eletricidade com base em combustíveis fósseis. “Existem boas soluções, mas falta vontade política”, afirmou.
No que diz respeito à diversificação económica, Marta da Silva lamenta que esta tenha permanecido sobretudo no plano retórico. Comparando com outros países, refere que, em contextos de crise, o impacto tende a concentrar-se nas áreas urbanas, enquanto as zonas rurais permanecem mais resilientes devido à sua autossuficiência.
Em Timor-Leste, porém, o impacto estende-se também às áreas rurais, uma vez que a população depende amplamente de bens importados, como o arroz.
“Esta é uma medida temporária. A longo prazo, não podemos continuar a responder com subsídios. Se a guerra se prolongar, como poderá o Estado proteger a população?”, questionou, defendendo que a diversificação económica e a aposta em energias renováveis devem avançar desde já.
A investigadora apontou ainda que fatores políticos, incluindo a preservação de legados e interesses, têm constituído obstáculos à implementação de medidas estruturais de longo prazo.


