“Nonoi nia Dapur”: quando a ‘cozinha’ se transforma em espaço de criação artística feminina

Exposição representa a vida das mulheres timorenses através de materiais naturais/Foto: Diligente

“Nonoi nia Dapur” significa literalmente “A Cozinha de Nonoi”, sendo Nonoi um apelido frequentemente usado para se referir às mulheres timorenses. À primeira vista, o título pode sugerir um estereótipo antigo — a ideia de que a cozinha é o espaço das mulheres. No entanto, a exposição joga precisamente com essa ironia: transforma simbolicamente a cozinha num lugar de criatividade, reflexão e expressão artística feminina.

Nesta “cozinha”, 15 artistas timorenses reuniram-se para “cozinhar” ideias, memórias e histórias, que apresentaram ao público sob a forma de sete obras de arte.

Uma das obras expostas é “Ingrediente domin” (Ingredientes de amor), de Zinha Piedade, que retrata a relação da artista com a sua avó. A obra evoca memórias de infância passadas na cozinha: o fumo do fogão e a figura da avó como uma verdadeira “chef” de cozinha, onde o amor se manifestava não através de palavras, mas de gestos repetidos e partilhados — o cheiro da comida, as gargalhadas à volta da mesa, as mãos de uma avó que cozinham com cuidado.

“A ideia surgiu quando a equipa recolhia materiais para as obras. Encontrei um leque feito de palmeira e lembrei-me da minha avó, que o usava para nos abanar quando dormíamos”, contou Zinha Piedade. A artista acrescenta que ainda hoje utiliza esse tipo de leque para avivar o fogo na cozinha.

A instalação mergulha o visitante num ambiente sensorial que remete para o espaço doméstico. Entre areia, folhas secas e objetos do quotidiano, a artista procura transformar recordações íntimas em linguagem artística.

Para Zinha, a cozinha é um lugar onde o amor se manifesta não através de palavras, mas de gestos repetidos e partilhados — o cheiro da comida, as gargalhadas à volta da mesa, as mãos de uma avó que cozinham com cuidado.

As obras da exposição foram criadas com materiais naturais recolhidos no ambiente timorense, transformados pelas artistas com o apoio de uma curadora e de alguns artistas internacionais.

Segundo a curadora e facilitadora do projeto, Deirdre Porter-Hanson, os materiais foram escolhidos pela sua capacidade de guardar histórias e memórias. Descreveu a exposição como um verdadeiro banquete de ideias, preparado para “nutrir a imaginação e alimentar a alma”.

As próprias artistas sublinham que o processo criativo partiu precisamente dessa relação entre objetos e memória. Nos materiais simples — folhas, fibras, areia ou madeira — encontram vestígios de vidas passadas e experiências partilhadas. Embora cada obra reflita um percurso pessoal, as artistas reconhecem que muitas das suas histórias se cruzam, revelando tanto momentos de dificuldade como celebrações da cultura e da ligação à natureza.

A exposição foi inaugurada ontem, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, na Fundação Oriente, onde estará patente ao público até ao dia 31 de março. Logo à entrada, os visitantes encontram a obra “Hakat ba Futuro” (Rumo ao Futuro), uma criação conjunta das artistas Carmen Elo, Inocência Gusmão e Maria Fátima.

A obra inclui um barco que simboliza a capacidade das mulheres de seguirem o seu próprio caminho, mesmo enfrentando desafios. “Colocámos um vestido para mostrar que se trata de uma mulher e fizemos flores de tecido. São flores de esperança — representam uma mulher que tem sonhos e coragem para caminhar com os próprios pés e realizar esses sonhos”, explicou Carmen Elo.

Para a artista, o simbolismo da obra reflete a determinação das mulheres em conduzir o seu próprio destino, seguindo com orgulho e confiança naquilo que são e guiando o seu barco em direção ao futuro com esperança.

A artista reconhece que muitas mulheres continuam a enfrentar dificuldades, seja no seio da família, no trabalho ou nas relações pessoais. Ainda assim, observa que cada vez mais mulheres encontram coragem para seguir o seu próprio rumo e “ficarem de pé sozinhas” — tal como quem conduz o seu próprio barco.

Para Carmen, a experiência de ser mulher inclui momentos bons e difíceis. Ela própria sentiu pressão familiar para conseguir um emprego permanente. “Talvez porque querem que eu case rapidamente. Mas eu sei o que quero para a minha vida”, afirmou.

Carmen trabalha como artista e também como engenheira freelancer. Com o tempo, diz, os pais começaram a compreender melhor o seu percurso. Apesar de algumas dúvidas por parte de colegas sobre o valor da arte como profissão, a artista sublinha que muitas pessoas reconhecem o seu trabalho com orgulho e incentivo.

Outras obras da exposição exploram diferentes dimensões da experiência feminina. Em “Asas Partidas”, Agnes Madeira, Chrisden Mesquita, Genoveva Guterres e Nofia Maria Flora evocam sentimentos de dor, perda e traição, refletindo sobre momentos em que a confiança se quebra e a voz das mulheres é ignorada.

Já a instalação “O Feio torna-se belo”, de Lourença Ximenes e Mónica Ximenes, convida a olhar para o oceano com novos olhos: à superfície, a beleza da praia; debaixo de água, um universo vibrante de corais e peixes — mas também sinais de poluição e abandono.

A artista utiliza materiais descartados para lembrar que aquilo que muitas vezes rejeitamos pode ganhar nova vida. Na sua leitura, a obra fala de transformação: mesmo o que está partido ou esquecido pode tornar-se novamente belo quando é resgatado e reinterpretado.

Também a instalação “Conexão: o início”, de Domiana Ximenes e Cacilda da Silva, reflete sobre a ligação entre gerações. A obra sugere que todos fazem parte de uma mesma continuidade — das mães que dão vida às crianças que um dia também darão continuidade à história.

Entre memória, dor, resistência e esperança, as obras abordam diferentes momentos da vida feminina: o início da vida, o papel das mulheres na preservação da cultura e da tradição, os desafios enfrentados ao longo do caminho e a força que permite superá-los.

Num comunicado conjunto, as artistas afirmam que a arte é uma forma poderosa de partilhar ideias e emoções. “Esta foi uma oportunidade para falar de energia feminina e de valorização das mulheres. Foi um tempo para sermos curiosas”, referiram.

Mais do que uma exposição, “Nonoi nia Dapur” funciona como uma conversa coletiva entre mulheres. As obras dialogam entre si, sobrepõem-se em significados e refletem a diversidade de percursos e experiências.

Tal como numa cozinha onde diferentes ingredientes se juntam para criar algo novo, também aqui memórias, objetos e histórias se combinam para formar uma narrativa comum — uma celebração da vida, da cultura e da esperança num futuro mais justo.

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