Especialistas, docentes e estudantes reuniram-se em Díli para debater estratégias de melhoria do ensino do português como língua não materna, num seminário dedicado à planificação pedagógica e às práticas em sala de aula.
O encontro, intitulado “Da Planificação à Sala de Aula: Práticas no Ensino da Língua Portuguesa”, foi organizado pelo Centro de Língua Portuguesa (CLP) da Universidade Nacional Timor-Lorosa’e (UNTL), entre 11 e 12 de maio de 2026, no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa.
Na abertura do seminário, a diretora do CLP, Ana Guterres, destacou que, nos dias anteriores, a instituição promoveu diversas atividades culturais e científicas em diferentes espaços, incluindo exposições, sessões de cinema e concertos.
Segundo a responsável, o seminário integrou esse conjunto de iniciativas e reforça o compromisso do CLP com a promoção e o ensino da língua portuguesa em Timor-Leste. Destacou ainda a realização de uma oficina pedagógica dirigida a estudantes finalistas e a docentes de português como língua não materna no ensino superior.
“O objetivo é criar um espaço de partilha de experiências, reflexão conjunta e análise crítica das práticas pedagógicas. Através deste processo, os participantes enriquecem-se profissionalmente e tornam-se mais capazes de responder aos desafios do ensino da língua portuguesa em Timor-Leste”, afirmou.
UNTL defende articulação entre teoria e prática
O reitor da UNTL, Joviano da Costa, considerou o seminário relevante para a formação de docentes e para o desenvolvimento do conhecimento científico no ensino da língua portuguesa no país.
Sublinhou que o maior desafio não está apenas na elaboração de planos e metodologias, mas na sua aplicação em contexto real de sala de aula.
“O verdadeiro desafio não termina na reflexão académica nem na elaboração de programas. Começa quando conseguimos transformar essas ideias em práticas pedagógicas, ajustadas às realidades concretas da sala de aula em todo o país”, afirmou.
O reitor destacou ainda a importância da cooperação entre instituições e defendeu uma visão pluricêntrica da língua portuguesa, sublinhando que a diversidade entre países lusófonos não fragiliza a língua, antes a fortalece.
Referiu também a necessidade de articulação entre diferentes estruturas da universidade, como o Departamento de Ensino da Língua Portuguesa, o CLP, o mestrado em ensino de português e outras unidades académicas.
“Precisamos de mais investigação, produção científica, materiais pedagógicos adaptados à realidade local e de continuar a formar docentes qualificados”, afirmou.
Língua portuguesa entre identidade, memória e espaço público
Na conferência inaugural, subordinada ao tema “O português como língua de ensino e ciência no espaço lusófono”, o Provedor dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ), Virgílio Guterres, destacou o papel da língua portuguesa na construção da identidade e na preservação da memória coletiva.
Citando Fernando Pessoa, o orador sublinhou que a frase “A minha pátria é a língua portuguesa” deve ser entendida como uma afirmação cultural e literária, mais do que política ou geográfica.
Durante a sua intervenção, Virgílio Guterres lembrou o período de ocupação indonésia, referindo que, apesar da perda de autonomia política, a língua portuguesa manteve um papel simbólico na resistência e na afirmação nacional.
“Para os timorenses, o português não é apenas um instrumento de comunicação, mas uma arma de luta e um símbolo de reafirmação nacional”, afirmou.
O Provedor alertou ainda para os desafios atuais da reintrodução e consolidação da língua, sublinhando a influência de outras línguas no quotidiano, como o inglês e conteúdos audiovisuais indonésios.
Defendeu também que o domínio da língua depende da sua utilização prática no dia a dia. “Um aluno pode ter uma boa nota em português, mas se não utilizar a língua na sociedade, isso não significa que a domine verdadeiramente”, referiu.
Virgílio Guterres criticou ainda o papel da comunicação social, defendendo que o jornalismo não deve limitar-se à divulgação de atividades oficiais, mas também questionar decisões públicas e promover o pensamento crítico.
“O verdadeiro papel da imprensa é perguntar por que razão as decisões são tomadas e quais os seus impactos”, afirmou.
Docentes propõem ensino mais prático e centrado no aluno
Na sessão dedicada à planificação curricular no ensino do português em contextos plurilingues, docentes do CLP apresentaram uma proposta centrada no ensino do português como língua não materna.
As docentes sublinharam que o objetivo é responder às necessidades específicas do contexto timorense, promovendo competências linguísticas, culturais e comunicativas.
A proposta assenta em três eixos principais: desenvolvimento de competências linguísticas, valorização da dimensão cultural da língua e utilização de metodologias baseadas em situações reais de comunicação.
Foram ainda destacadas competências como léxico, gramática, semântica, fonética e pragmática, essenciais para uma comunicação eficaz.
Segundo as docentes, a progressão da aprendizagem vai desde níveis básicos de comunicação quotidiana (A1/A2) até níveis mais avançados, onde os estudantes desenvolvem argumentação e pensamento crítico (B2).
A metodologia apresentada privilegia a abordagem comunicativa, a aprendizagem baseada em tarefas e o uso de materiais autênticos, incluindo simulações e recursos do quotidiano.
Foram igualmente destacadas ferramentas digitais como o Canva e o Google Classroom, que contribuem para aumentar a motivação dos alunos e reforçar a aprendizagem.
Estudantes defendem planificação como ferramenta essencial
Estudantes do Departamento de Ensino da Língua Portuguesa da UNTL destacaram a importância da planificação das aulas como instrumento fundamental para o sucesso pedagógico.
Teresa Freitas referiu que a planificação ajuda os professores a organizar conteúdos, objetivos e atividades, tornando o ensino mais estruturado e eficaz. “Permite aos professores compreender melhor as dificuldades dos alunos, utilizar métodos mais criativos e incluir atividades práticas do quotidiano”, afirmou.
Já Januário do Espírito Santo sublinhou que a falta de organização pode prejudicar o processo de ensino e aprendizagem. “A planificação permite desenvolver as quatro competências da língua: leitura, escrita, oralidade e gramática”, afirmou, acrescentando que muitos estudantes ainda enfrentam dificuldades de expressão devido ao medo ou à complexidade da gramática.
Defendeu ainda que a prática é essencial no processo de aprendizagem. “Aprender português não significa apenas decorar regras, mas praticar a língua no dia a dia”, concluiu.


