Díli acolheu, nos dias 6 e 7 de maio de 2026, a XIV Reunião de Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que reuniu representantes dos Estados-membros para debater os desafios, os progressos alcançados e as prioridades do setor educativo no espaço lusófono.
Sob o lema “Educação – Valores Democráticos e Participação Cívica: Caminhos para o Fortalecimento das Sociedades da CPLP”, o encontro centrou-se na consolidação de sistemas educativos mais inclusivos e no reforço da cooperação multilateral para o desenvolvimento da educação.
Em entrevista ao Diligente, a Secretária de Estado da Administração Escolar de Portugal, Maria Luísa Oliveira, destacou que, no âmbito da reunião, foram definidas várias prioridades estratégicas para o setor educativo no espaço lusófono. Entre elas, salientam-se a alfabetização e o desenvolvimento das literacias, a valorização da língua portuguesa, o reforço da educação inclusiva e a formação de professores.
Quais são, neste momento, as principais prioridades educativas que estão a ser definidas no âmbito da CPLP?
No âmbito da CPLP, temos várias prioridades que foram ontem elencadas na reunião ministerial. Temos, como primeira prioridade, a alfabetização e as literacias determinantes para que os cidadãos possam intervir e participar ativamente na sociedade.
A valorização da língua portuguesa é também determinante, porque constitui esta herança comum e este património cultural que partilhamos. A educação inclusiva é igualmente essencial, porque integra todos, chega a todos, apoia e respeita a diferença.
A formação e valorização dos professores são fundamentais para garantir um ensino de qualidade, porque os professores têm de ser capacitados e manter uma aprendizagem contínua.
Um professor está sempre em aprendizagem ao longo da vida, não pode parar. Temos ainda como prioridade a educação para a cidadania e para a participação cívica, que é determinante para formar cidadãos e promover o seu envolvimento na comunidade.
Temos também o ensino técnico-profissional, igualmente importante para capacitar os alunos e os jovens, permitindo-lhes desenvolver competências e contribuir para o desenvolvimento do país.
Em Timor-Leste, a educação inclusiva ainda enfrenta muitos desafios. Vi alguns alunos e jovens deixarem de estudar por falta de inclusão e de condições adequadas.
É uma urgência. Digamos que é uma urgência em todos os sistemas educativos. É claro que existem diferentes níveis de desenvolvimento, mas todos os países irão evoluir positivamente.
A cooperação na área da educação no espaço da CPLP é muito importante precisamente por causa desta partilha entre países. Estamos todos a aprender uns com os outros.
“Quanto maior for essa capacitação, maior será o desenvolvimento do país, permitindo que este deixe de depender de financiamentos externos”
É por isso que a CPLP quer reforçar o apoio a Timor-Leste, sobretudo na área da educação inclusiva?
Cada país tem o seu nível de desenvolvimento e, por isso, capacidades diferentes para implementar medidas.
Aquilo que pretendemos efetivamente é promover a capacitação dos cidadãos. Quanto maior for essa capacitação, maior será o desenvolvimento do país, permitindo que este deixe de depender de financiamentos externos.
Neste momento, alguns países da CPLP ainda necessitam de apoio, como é o caso de Timor-Leste. Portugal tem vindo a colaborar através dos projetos CAFE e das escolas portuguesas no estrangeiro, nomeadamente aqui em Díli, através da Escola Portuguesa Ruy Cinatti.
Na realidade, é necessário passar do plano estratégico para o plano operacional. É isso que fazemos nas reuniões e nos seminários integrados nestes encontros. Trabalhamos para que cada país conheça soluções implementadas noutros contextos, de modo a poder adaptá-las e desenvolver os seus próprios sistemas educativos.
Estes encontros têm produzido resultados concretos ou a cooperação educativa ainda está aquém do seu potencial?
Cada país encontra-se num determinado estádio de desenvolvimento. Através da partilha entre todos e do apoio que damos, acredito que este é um caminho que se vai consolidando.
Estive na reunião do ano passado e também nesta reunião deste ano, e vejo da parte dos governantes um grande interesse e uma forte vontade de implementar medidas e melhorar os seus sistemas educativos. Existe um compromisso entre todos nós.
Que compromissos ou decisões mais relevantes saem desta XIV Reunião realizada em Díli?
Aquilo que verificamos é que a educação é fundamental enquanto vetor de promoção do desenvolvimento de todos os países.
É através da educação que os cidadãos desenvolvem competências, adquirem conhecimentos e, através de uma vivência de cidadania participativa na escola, se formam para serem cidadãos ativos e participativos.
Esse é realmente o grande compromisso. Consideramos que a educação é um dos pilares estruturantes da CPLP e queremos promover a alfabetização, o desenvolvimento das literacias, a inclusão e a valorização da língua portuguesa como veículo de comunicação e afirmação no mundo.
Quanto maior for a comunidade de falantes da língua portuguesa, maior será também a nossa capacidade de afirmação global.
Além disso, é fundamental valorizar uma cidadania democrática, baseada na escuta dos cidadãos e na participação nas decisões. Isto é algo que promovemos nestas reuniões, tal como a partilha de experiências entre os países.
Na minha intervenção, apresentei um conjunto de medidas que estamos a implementar em Portugal, trabalhadas também pelos pontos focais de cada país. Existe uma partilha muito intensa dos temas em discussão, que depois são transmitidos aos respetivos países para a implementação dos projetos.
“Cada professor, em contexto de sala de aula, deve recorrer a metodologias ativas em que o aluno não seja um elemento passivo, mas esteja no centro do processo de aprendizagem”
O lema desta reunião destaca valores democráticos e participação cívica. Como é que estes princípios podem ser integrados de forma prática nos sistemas educativos?
De uma forma muito simples: cada escola tem de viver em democracia. A liderança da escola e os professores devem promover modelos participativos assentes no respeito pelos alunos e pela comunidade escolar, construindo uma cidadania escolar baseada nesses princípios.
Depois há aspetos mais específicos. Cada professor, em contexto de sala de aula, deve recorrer a metodologias ativas em que o aluno não seja um elemento passivo, mas esteja no centro do processo de aprendizagem.
Ao envolver o aluno através de metodologias ativas e modelos pedagógicos dinâmicos, ele passa a ter capacidade para dar o melhor de si.
Ontem à noite, referi isso mesmo durante o espetáculo apresentado pelos alunos do CAFE, no qual foi evidente a mobilização das artes e do património como ferramentas de aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de competências.
Os alunos que estudaram poemas e canções em português e depois os apresentaram publicamente tiveram um trabalho muito exigente de preparação e desenvolveram inúmeras competências ao longo desse processo. Isso é uma vivência efetiva de participação escolar.
Mas aquilo que vimos na apresentação dos alunos do CAFE parece bastante diferente da realidade das escolas públicas timorenses.
Não me parece. Estive na Escola 4 de setembro e também houve alunos a apresentar poemas e canções em português. Estão igualmente no caminho certo.
O CAFE tem naturalmente uma vantagem: conta com professores portugueses que já possuem formação específica. Mas a vivência escolar e a formação dos professores são muito importantes. Esses professores têm também a missão de formar docentes timorenses, tanto do CAFE como de outras escolas.
A Escola Portuguesa Ruy Cinatti dispõe igualmente de um centro de formação aberto aos professores do CAFE e a docentes de outras escolas.
É notório que este caminho está a ser feito, que a senhora Ministra da Educação tem esta preocupação, domina estes conceitos das ciências da educação e da pedagogia, e está a promovê-los nas escolas.
“Quanto mais falantes de língua portuguesa existirem, maior será o peso que poderemos ter nesta economia global”
A língua portuguesa continua a ser um desafio em vários contextos educativos da CPLP. Que estratégias podem ser reforçadas para melhorar o seu ensino e consolidação?
Já referimos a formação de professores, que é realmente uma estratégia fundamental. Depois, também a partilha de materiais didáticos entre os vários países.
O Instituto Internacional da Língua Portuguesa pode desempenhar um papel muito importante. Foi-nos apresentado ontem um portal disponível para todos os países e que os professores poderão utilizar.
Além disso, é importante valorizar a língua portuguesa como língua de partilha de conhecimento e como elemento da nossa herança cultural comum.
Quanto mais falantes de língua portuguesa existirem, maior será o peso que poderemos ter nesta economia global.
Que papel pode Portugal desempenhar de forma mais estruturada e sustentável no apoio ao sistema educativo de Timor-Leste?
No âmbito da CPLP, e no caso de Portugal, temos aqui a Escola Portuguesa Ruy Cinatti e os 14 centros CAFE.
Vamos investir numa nova escola para melhorar as condições e aumentar a capacidade da Escola Portuguesa Ruy Cinatti. Tudo isto contribui para o fortalecimento do sistema educativo.
Além disso, a formação de pessoas é efetivamente determinante.
Existem também várias plataformas digitais de partilha de conteúdos, tanto a nível mundial como no âmbito da CPLP. Tal como referi relativamente ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, estas plataformas podem servir para disponibilizar materiais didáticos e pedagógicos destinados aos professores.
A inovação educativa é hoje uma prioridade global. Como pode ser aplicada em contextos com limitações de recursos, como o de Timor-Leste?
A inovação educativa não depende apenas da tecnologia. O que vimos na apresentação do CAFE demonstra que os alunos podem adquirir conhecimentos e desenvolver competências através da cultura, das artes e do património, sem necessidade de grandes recursos.
Basta que as aprendizagens estejam contextualizadas no currículo, na comunidade e até nos espaços naturais e monumentos, transformando-os em lugares de aprendizagem que ajudam os alunos a conhecer a sua herança cultural local.
É claro que a tecnologia e as plataformas digitais disponíveis, bem como o investimento que o Governo timorense tem vindo a realizar nas ferramentas digitais, complementam este trabalho.
Mas a inovação passa sobretudo pela criatividade e pelo pensamento crítico, a partir daquilo que existe e daquilo que desejamos para a comunidade.
Se tivesse de identificar uma prioridade urgente e imediata para o setor educativo em Timor-Leste, qual seria?
A prioridade é a formação de professores. Os professores são sempre fundamentais.
A formação de professores é, sem dúvida, a chave para o sucesso dos alunos. E uma formação diversificada, desde as didáticas às pedagogias, é determinante. A pedagogia das artes e do património também é importante.
Que mensagem gostaria de deixar aos professores e alunos timorenses neste contexto de cooperação reforçada?
Quero deixar uma mensagem de reconhecimento e confiança aos timorenses. Temos confiança nas vossas capacidades, no vosso potencial e em tudo aquilo que podem alcançar, porque todos conseguimos evoluir.
Vejo em Timor-Leste muitas pessoas empenhadas em alcançar o desenvolvimento. E esse desenvolvimento constrói-se sobretudo através da educação. Por isso, acredito que estamos no bom caminho.
A senhora Ministra tem uma estratégia muito bem definida para melhorar o sistema educativo, e estamos disponíveis para ajudar. Essa é a mensagem que quero deixar: reconhecimento, confiança e compromisso.


