Envelhecer em movimento: como os idosos em Timor-Leste mantêm corpo e mente ativos

“Podemos escolher o estilo de vida que quisermos, mas devemos preocupar-nos com a nossa saúde. O ideal é fazer exercício físico duas ou três vezes por semana, pelo menos caminhar um pouco"./Foto: OMS

A atividade física simples, como caminhar e fazer exercícios leves, ajuda os idosos a manter a saúde e a reduzir o risco de doenças. Várias iniciativas em Timor-Leste mostram que programas de exercício direcionados para idosos podem melhorar as condições físicas, mentais e a autonomia dos participantes.

“Agora não penso em fazer desporto, porque passo o dia inteiro a carregar cocos para vender, e subir aos coqueiros também já é como fazer exercício. Se ficar apenas em casa a descansar, não tenho força.”

Aos 65 anos, João Filipe, natural de Baucau e residente em Bidau, resume a realidade de muitos idosos em Timor-Leste: o trabalho diário substitui o exercício físico formal. Depois de anos na agricultura e, mais tarde, no comércio de produtos florestais como lenha e legumes, diz que nunca teve tempo para praticar desporto e que o esforço diário já é, por si só, atividade física suficiente.

“Antes, quando ainda vivia numa zona remota, trabalhava na agricultura, mas agora, com as chuvas irregulares, a produção já não é boa e não há colheitas. Esta é a atividade física que pratico”, explica.

Apesar da rotina intensa, João admite que não participa em atividades organizadas de exercício físico. O trabalho diário ocupa todo o seu tempo e energia. “Se ficar apenas em casa a descansar, não tenho força”, reforça.

Também gostaria de participar em programas para idosos, mas considera que a falta de tempo é o principal obstáculo. “Gostava de participar em atividades físicas para idosos, se houvesse, mas não tenho tempo. A vida de cada pessoa é diferente.”

Esta realidade não é exceção. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sublinha que a atividade física é essencial para um envelhecimento saudável, ajudando a prevenir doenças cardiovasculares, diabetes, problemas de mobilidade e contribuindo para a saúde mental.

No entanto, a OMS lembra também que não é necessário exercício formal: atividades do dia a dia, como caminhar, trabalhar na terra, vender produtos ou realizar tarefas domésticas, também contam como movimento físico benéfico, sobretudo quando são regulares.

Em muitas comunidades timorenses, sobretudo rurais, essa distinção é ténue. O trabalho diário continua a ser a principal forma de atividade física, especialmente entre os idosos.

Teresa Jacinta de Fátima Soares (64 anos), vendedora de comida em Caicoli, vive uma rotina semelhante. Acorda diariamente por volta das 04h00 para preparar e vender alimentos.

“De manhã cedo faço atividades em casa, porque acordo às quatro horas para preparar comida para vender. Isto também pode ser considerado um tipo de exercício”, afirma.

Para Teresa, o movimento constante ao longo do dia substitui qualquer prática formal de desporto. “O exercício é importante, mas a minha vida diária já é uma forma de atividade”, acrescenta.

Entre estas realidades de esforço diário e ausência de programas formais, surgem também iniciativas comunitárias que procuram transformar o envelhecimento ativo numa prática estruturada de saúde.

Becora: quando o exercício deixa de ser sobrevivência e passa a ser cuidado

Em Becora, Díli, um programa comunitário iniciado em 2022 tem vindo a mudar a forma como os idosos encaram a atividade física.

Maria de Fátima Ximenes Dias, coordenadora do programa, explica que a iniciativa nasceu da preocupação com o estado de saúde da comunidade. Sem financiamento específico, envolve a Igreja, profissionais de saúde e académicos.

No início, muitos idosos apresentavam dores nas pernas e mãos, hipertensão e dificuldades de mobilidade. A equipa começou por realizar rastreios clínicos e, depois, introduziu exercícios leves adaptados às condições de cada participante. “A maioria deles tem problemas como dores nas pernas, tensão arterial elevada e dificuldade em se movimentar”, explica.

As sessões são semanais e têm mostrado resultados positivos: melhoria da pressão arterial, maior mobilidade e melhor compreensão sobre hábitos de vida saudável. “Agora a saúde deles está melhor e também compreendem melhor o que é bom para comer e fazer para o corpo”, refere.

Para além dos efeitos físicos, Maria destaca mudanças sociais importantes. Muitos idosos, antes isolados, passaram a interagir mais e a sentir-se mais ativos. “Não devemos esperar apenas pelo Governo. Toda a comunidade deve ter iniciativa para desenvolver atividades como esta”, afirma.

O programa de Becora conta também com o apoio da Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL). José Alberto Lopes, professor convidado internacional da UNTL, explica que se trata de um projeto-piloto iniciado em 2022, em cooperação com profissionais de saúde de Cuba.

Antes de iniciarem os exercícios, os participantes são avaliados clinicamente, incluindo medição da pressão arterial e análise da condição física. Esses dados são usados para adaptar os exercícios a cada pessoa. “Quando têm pressão arterial elevada ou outras doenças, essa informação é utilizada para adaptar os exercícios à condição de cada um”, explica.

O programa conta atualmente com cerca de 27 participantes, todos de uma zona de Becora, e realiza sessões semanais com exercícios simples e adaptados.

Segundo José Alberto Lopes, os resultados são significativos. “Alguns dizem que agora a vida deles é como se fosse uma nova vida, e já não precisam de ir ao médico todas as semanas como antes.”

Há também registos de redução da dependência de medicamentos em alguns casos, com base na monitorização feita em conjunto com o setor da saúde.

O professor sublinha que este programa não deve permanecer apenas como um projeto-piloto numa única zona, defendendo a sua expansão a outras regiões de Timor-Leste, para que mais idosos possam beneficiar.

Segundo ele, essa expansão requer apoio intersectorial e um compromisso conjunto entre instituições de ensino, saúde e autoridades locais. “O objetivo do Departamento de Desporto é promover a atividade física, mas também trabalhamos de forma autónoma. Mesmo sendo apenas um projeto, podemos implementá-lo em muitos bairros e municípios. Queremos mostrar aos decisores e ao Governo que é necessário dar atenção às pessoas idosas”, afirmou.

Jacinta do Rosário (62 anos), residente em Becusi Centro, Díli, confirma os efeitos positivos do programa. Antes sofria de hipertensão e colesterol elevado. Com medicação e acompanhamento, a sua condição melhorou, mas foi com o exercício físico que sentiu uma mudança mais significativa.

“Além da tensão, também tinha colesterol. Deram-me medicação duas vezes por dia e o colesterol desapareceu”, afirma. Hoje continua a participar nas atividades. “Agora, a tensão já baixou e o colesterol também. Continuo a participar nas atividades.”

Governo reconhece importância crescente da atividade física na saúde pública

Do ponto de vista do Governo, este programa está alinhado com os esforços de promoção da saúde pública. É visto não apenas como um benefício para a saúde individual, mas também como um contributo para a redução da pressão sobre os serviços de saúde.

Segundo as autoridades governamentais, a colaboração entre instituições de ensino, profissionais de saúde e a comunidade é um fator essencial para garantir a continuidade deste tipo de programas.

O ministro da Juventude, Desporto, Artes e Cultura, Nélio Isaac Sarmento, afirmou que o programa de atividade física para idosos em Becora dá continuidade a uma iniciativa anteriormente desenvolvida quando ainda estava ligado à Secretaria de Estado da Juventude e Desporto. Explicou que, na altura, o Governo apoiou a presença de especialistas cubanos no desporto, que trabalharam em conjunto com o Departamento de Desporto da UNTL.

Segundo o governante, estes especialistas não se focavam apenas no treino desportivo, mas também possuíam competências em fisioterapia, conseguindo responder às necessidades específicas dos idosos.

“Eu também estive envolvido nesta atividade, que contou com professores de desporto de Cuba em conjunto com a equipa”, afirmou. “O programa já demonstrou resultados concretos, especialmente na melhoria da condição física dos participantes, tendo a sua continuidade sido posteriormente assegurada pela UNTL”, frisou.

Sublinhou também que, para expandir este tipo de iniciativas, é necessária a participação de diferentes entidades, não devendo depender apenas de uma instituição. “Para realizar noutros locais, é preciso iniciativa de diferentes partes e depois avaliar a necessidade”, explicou.

Entretanto, o vice-ministro do Fortalecimento Institucional da Saúde, José dos Reis Magno, explicou que os programas de exercício físico para idosos devem ser desenhados de forma específica, tendo em conta que as suas condições físicas são diferentes das dos jovens.

Reforçou que os idosos não podem ser submetidos aos mesmos métodos de treino aplicados aos jovens, devido às limitações associadas à idade. “O exercício para idosos tem de ser específico, não pode ser como o dos jovens, que têm força para saltar, correr ou fazer movimentos intensos”, afirmou.

Segundo José dos Reis Magno, em Timor-Leste a categoria de idoso começa geralmente aos 60 anos, coincidindo com a idade da reforma. Por isso, considera necessária uma abordagem mais cuidadosa e estruturada nas atividades físicas destinadas a este grupo.

Destacou também a importância de instrutores com formação específica para trabalhar com idosos, de modo a evitar riscos para a saúde. “Tem de haver instrutores treinados especificamente para idosos, para não causar problemas ou riscos à sua saúde”, acrescentou.

Recomendou que a população pratique atividade física regularmente, pelo menos duas a três vezes por semana, privilegiando exercícios leves como caminhar. “Podemos escolher o estilo de vida que quisermos, mas devemos preocupar-nos com a nossa saúde. O ideal é fazer exercício físico duas ou três vezes por semana, pelo menos caminhar um pouco. Mesmo sem correr, é importante manter o corpo ativo. Também é preciso descansar bem e não ficar demasiado tempo acordado”, afirmou.

A realidade dos idosos em Timor-Leste revela dois caminhos paralelos: o movimento imposto pelo trabalho diário, que muitas vezes substitui o exercício formal, e os programas comunitários estruturados, que procuram promover saúde preventiva e envelhecimento ativo.

Enquanto João e Teresa representam a dimensão do esforço diário como forma de sobrevivência, iniciativas como a de Becora mostram uma abordagem diferente, mais orientada para o cuidado da saúde, prevenção e acompanhamento clínico.

Apesar das diferenças, ambas as realidades convergem num ponto essencial: manter o corpo em movimento continua a ser fundamental para envelhecer com dignidade e saúde.

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