Ajito Nelson Lúcio da Costa colocou Timor-Leste no mapa global da inovação ao conquistar o primeiro lugar num concurso internacional de Inteligência Artificial, com um projeto focado na monitorização ambiental e na gestão de resíduos sólidos.
Um jovem timorense destacou-se a nível internacional ao alcançar o primeiro lugar numa competição promovida pela Amazon Web Services (AWS), que reuniu milhares de participantes de todo o mundo. O feito representa um marco para Timor-Leste no domínio da tecnologia e da inovação, demonstrando que o talento nacional pode competir ao mais alto nível global.
Ajito Nelson Lúcio da Costa, engenheiro de dados formado pela Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), desenvolveu o Autonomous AI Agent for Environmental Monitoring, um agente de Inteligência Artificial capaz de monitorizar e classificar resíduos sólidos.
O concurso da Amazon Web Services contou com a participação de 9.500 concorrentes provenientes de 127 países. A vitória de Ajito representa não apenas um reconhecimento individual, mas também um momento histórico para Timor-Leste no campo da Inteligência Artificial. No início deste ano, o jovem conquistou igualmente o terceiro lugar no Global AI Agents League Hackathon, consolidando o seu percurso como promotor da inovação tecnológica.
Atualmente, o jovem trabalha no desenvolvimento do projeto EcoLafaek, centrado em soluções tecnológicas baseadas em Inteligência Artificial, e pretende expandi-lo, envolvendo outros jovens timorenses e organizações não governamentais, com o objetivo de aplicar tecnologia ao serviço do desenvolvimento sustentável do país.
Como soubeste da existência desta competição?
Depois de chegar a esta fase de primeiro lugar, já tinha participado em várias competições. Em abril, consegui alcançar o terceiro lugar. Posteriormente, a Amazon Web Services abriu o concurso em setembro, e recebi informações através de newsletters por e-mail, UDS, entre outros canais.
Este concurso é mundial, mas alguns países que não mantêm boas relações com os Estados Unidos da América (EUA) não participam. Nesse momento, recebi a newsletter da Amazon Web Services. Entre outubro e novembro, a empresa avaliou os projetos e, no dia 5 deste mês, anunciou os resultados durante o evento re:Invent, em Las Vegas.
“Quando disseram o meu nome e o país — Ajito Nelson, de Timor-Leste — fiquei extremamente orgulhoso. Levei o nome do nosso país ao palco da Amazon Web Services, onde muitos clientes ainda desconhecem Timor-Leste.”
Onde estavas quando soubeste que tinhas vencido?
Antes de saber o resultado, recebi um e-mail a informar que os concorrentes podiam deslocar-se aos Estados Unidos da América para participar no evento. No entanto, os bilhetes de ida e volta são muito caros, assim como o acesso ao evento. Por isso, decidi acompanhar o anúncio online.
Na madrugada do dia 5 de dezembro, participei numa transmissão em direto a partir de Díli. Ouvi os discursos dos funcionários da empresa e o anúncio dos 9.500 participantes de 127 países.
Naquele momento, não sabia se iria vencer. Estava nervoso. Selecionaram cerca de nove participantes com projetos considerados de grande qualidade e anunciaram apenas o primeiro lugar. Quando disseram o meu nome e o país — Ajito Nelson, de Timor-Leste — fiquei extremamente orgulhoso. Levei o nome do nosso país ao palco da Amazon Web Services, onde muitos clientes ainda desconhecem Timor-Leste.
Muitas vezes ouvi colegas timorenses dizerem que não conseguimos competir com outros países devido às suas infraestruturas avançadas. Mas isso não é verdade. Podemos competir mesmo com infraestruturas precárias. Além disso, os nossos conhecimentos podem ajudar a resolver os problemas que enfrentamos.
Eu sentia que podia ganhar, mas não esperava o primeiro lugar, pois vi que os portfólios de participantes da Índia, do Japão e dos próprios EUA eram muito fortes.
O que representa esta vitória para ti?
Serve para mostrar que tudo o que estudámos não foi em vão. Na prática, provámos que somos capazes.
Que tipo de projeto apresentaste na competição?
Podíamos apresentar qualquer projeto, desde que utilizasse os serviços da Amazon. Olhei para a capital do país e encontrei dados da JICA que indicam que Díli produz cerca de 300 toneladas de lixo por dia, das quais 100 toneladas não são recolhidas.
Além disso, vi muitas pessoas a protestarem nas redes sociais, publicando fotografias e críticas sobre a forma como o lixo é descartado. Muitas vezes, o lixo não é colocado dentro dos contentores, fica no exterior, os contentores estão cheios ou nem sequer existem perto das zonas habitadas.
Por isso, os governantes devem considerar se a população tem realmente condições para descartar o lixo de forma adequada. Com base nisso, desenvolvi o meu projeto. Tirei fotografias e utilizei Inteligência Artificial para analisar as imagens e identificar os tipos de lixo.
Assim, o Governo pode tomar decisões mais eficazes, como aumentar o número de contentores. O nome do projeto é EcoLafaek. Desenvolvi-o ao longo de cerca de dois meses.
“Além disso, os serviços da Amazon Web Services são dispendiosos, mas a empresa disponibilizou créditos para apoiar os participantes.”
Porquê o nome EcoLafaek?
“Eco” vem de ecologia, relacionada com o cuidado do ambiente no mundo moderno. Escolhi “Lafaek” porque representa a nossa identidade timorense numa competição internacional.
Qual foi o maior desafio que enfrentaste durante a competição?
Primeiro, tive de estudar as ferramentas oferecidas pela empresa nos meus tempos livres, muitas vezes durante a hora de almoço ou após o trabalho. Depois, desenvolvi o projeto.
A maior dificuldade foi organizar o tempo para procurar lixo e tirar fotografias. Além disso, os serviços da Amazon Web Services são dispendiosos, mas a empresa disponibilizou créditos para apoiar os participantes.
Quem te apoiou mais ao longo deste percurso?
No meu local de trabalho, é concedida licença às pessoas que pretendem desenvolver os seus conhecimentos. Para este concurso, participei de forma individual e apenas solicitei algumas ideias aos meus colegas. Em termos de apoio financeiro ou material, não tive qualquer ajuda de pessoas ou instituições.
“Se for possível, nos próximos cinco anos, poderemos utilizar a Inteligência Artificial para ajudar a controlar a corrupção.”
Acreditas que a Inteligência Artificial pode contribuir para o desenvolvimento de Timor-Leste? Como?
Acredito que Timor-Leste ainda não valoriza suficientemente o retorno que a tecnologia pode trazer. Por exemplo, construímos estradas, mas raramente avaliamos o retorno económico desses investimentos.
A IA pode melhorar os nossos serviços, ajudar a corrigir relatórios, fórmulas ou gráficos mal elaborados. Se for possível, nos próximos cinco anos, podemos usar a IA para ajudar a combater a corrupção, analisando gastos suspeitos.
Por exemplo, o Governo já utiliza câmaras de vigilância para identificar veículos que infringem as regras de trânsito. A IA pode acelerar esse processo. Assim, a Inteligência Artificial pode contribuir significativamente para o desenvolvimento do país.
Para ti, como é que as pessoas podem usar a IA de forma inteligente?
A Inteligência Artificial tornou-se popular devido aos Large Language Models, como o ChatGPT, o Gemini ou o Claude, também conhecidos como IA generativa. Atualmente, quase todas as pessoas utilizam estas ferramentas, pelo que tudo depende da forma como são usadas e do que lhes é solicitado.
Se dependermos excessivamente destas ferramentas, podem inventar informações, sem que saibamos a origem dos dados ou das fontes.
Por exemplo, ao pedir à IA que escreva uma monografia completa apenas com base num título, a informação gerada pode não ser fiável. Uma utilização inteligente passa por fornecer dados concretos, referências e trabalho previamente desenvolvido.
Quais são os tipos de IA?
Cada empresa desenvolve os seus próprios modelos, como o Gemini, o ChatGPT 3 e 4, ou o Claude 3 e 4. Estes modelos são treinados com dados diferentes.
No meu projeto, utilizei os serviços da Amazon Web Services, com o modelo Amazon Bedrock Nova Pro, que é multimodal, permitindo analisar textos e imagens.
Sem IA, a classificação do lixo teria de ser feita manualmente. Com IA, o sistema identifica se o lixo é plástico, papel ou uma mistura de resíduos.
Consideras que os jovens timorenses têm oportunidades iguais nesta área?
Considero que existem oportunidades semelhantes para outros jovens. Participo em concursos desde 2024 e só este ano comecei a alcançar resultados, após aprender com erros anteriores.
Anteriormente, não tínhamos acesso a cartões Visa ou Mastercard, mas atualmente o BNCTL disponibiliza o Cartão UnionPay International (UPI), o que facilita a participação em competições internacionais.
Tenho também o plano de partilhar este conhecimento com outros colegas, para que possam competir e ser avaliados por júris internacionais.
“Muitos jovens estão demasiado influenciados por conteúdos curtos do TikTok e do YouTube”
O que falta em Timor-Leste para desenvolver mais talento na área da tecnologia?
Muitos jovens estão demasiado influenciados por conteúdos curtos do TikTok e do YouTube. Além disso, existem poucas infraestruturas e dificuldades no acesso à internet.
Se a internet de fibra ótica oferecer melhor qualidade, os jovens devem aproveitá-la. O Governo já abriu caminhos, mas muitas vezes não são utilizados. Em vez disso, ficamos apenas a usar o telemóvel.
Na era atual, podemos pedir ajuda à IA para desenvolver projetos e colocá-los em prática.
Qual é o teu próximo projeto ou desafio?
Atualmente, o projeto EcoLafaek está concluído em cerca de 60%. Quero convidar outros jovens e organizações não governamentais para o desenvolver melhor e adaptar os modelos de IA à realidade do nosso país.
Outro projeto que pretendo desenvolver está relacionado com o plágio académico. Muitas monografias são copiadas entre universidades sem controlo. Seria importante criar um sistema nacional para detetar plágio, avaliando a percentagem de conteúdo original e copiado, permitindo ao Governo e ao Ministério do Ensino Superior avaliar melhor os trabalhos académicos.


