Contentores armazenados e lixo nas ruas agravam crise do saneamento em Díli

Muitos contentores de lixo continuam abandonados em Tibar /Foto: Diligente

Adquiridos para reforçar a gestão de resíduos e melhorar o saneamento urbano em Timor-Leste, vários contentores de lixo continuam armazenados em Tibar sem utilização. Entretanto, moradores de diferentes zonas de Díli enfrentam a falta de infraestruturas adequadas e continuam a depositar resíduos em ruas, valetas e praias, agravando os problemas de saúde pública e ambientais.

Grande parte dos sete mil caixotes de lixo adquiridos pelo Estado por cerca de 7,5 milhões de dólares continua armazenada em Tibar, enquanto várias zonas de Díli permanecem sem condições adequadas para a deposição de resíduos sólidos.

Entre arbustos e terrenos expostos ao sol acumulam-se centenas de contentores de lixo, lado a lado com pneus abandonados e outros materiais degradados. Alguns dos equipamentos já apresentam sinais visíveis de desgaste e danos, apesar de nunca terem sido utilizados.

A imagem contrasta com a realidade vivida diariamente na capital timorense, onde muitos moradores enfrentam problemas persistentes de saneamento, lixo acumulado nas ruas e ausência de contentores em espaços públicos. Para vários cidadãos, o facto de centenas de equipamentos permanecerem parados num armazém simboliza desperdício de recursos públicos e falta de capacidade administrativa.

Segundo dados das autoridades municipais, em 2023 foram distribuídos 563 contentores de lixo por 387 locais diferentes de Díli, com cada ponto a receber entre dois e três caixotes. Ainda assim, diversas comunidades continuam a denunciar a insuficiência de equipamentos e a acumulação de resíduos em áreas residenciais e espaços públicos.

Os moradores destacam que a demora na distribuição dos contentores compromete não apenas a higiene urbana, mas também a saúde pública e a credibilidade das políticas ambientais promovidas pelo Estado.

Lixo acumulado junto à Escola 12 de outubro preocupa comunidade

Os habitantes de Comoro acabam por deitar o lixo no chão e queimá-lo no local devido à falta de contentores. /Foto: Diligente

A falta de contentores de lixo na comunidade de Madohi, em Tasi Tolu, Díli, está a provocar a concentração de lixo nas imediações da Escola 12 de outubro, gerando preocupação entre os moradores devido aos riscos para a saúde pública e ao impacto ambiental.

O lixo acumulado na área tem causado maus odores, poluição e obstrução dos canais de drenagem, provocando a estagnação da água e afetando diretamente o ambiente escolar, incluindo as crianças que frequentam a instituição.

Segundo relatos recolhidos no local, vendedores e moradores continuam a depositar resíduos junto à escola devido à inexistência de contentores adequados. “Atualmente, vendedores e moradores continuam a deitar lixo ao redor da Escola 12 de Outubro porque não existem contentores suficientes”, afirmou o morador Tobias Boro.

O residente defende uma intervenção do Governo para resolver o problema. “O Governo precisa de instalar contentores de lixo e organizar melhor os espaços de recolha para que a população saiba onde depositar os resíduos. Sem locais apropriados, as pessoas acabam por utilizar áreas improvisadas, o que prejudica o ambiente e coloca em risco a saúde das crianças”, acrescentou.

Tobias Boro afirmou ainda que, no ano passado, o Governo instalou alguns contentores naquela área, mas que continuam a ser insuficientes. O morador apelou à Autoridade Municipal de Díli para instalar novos contentores no local, de forma a garantir um ambiente mais limpo e seguro.

“Os cães espalham o lixo, até para dentro das casas e da escola”

 

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A comunidade de Ailok Laran pede a instalação de contentores de lixo para reduzir os impactos ambientais e sanitários na zona. /Foto: Diligente

Também a comunidade de Ailok Laran, no suco do Bairro Pité, enfrenta o mesmo problema. Garrafas de plástico, restos de comida e outros resíduos sólidos são frequentemente deixados junto às paredes e à beira da estrada, atraindo insetos, ratos e cães.

Segundo informações recolhidas no local, moradores e transeuntes acabam por depositar os resíduos naquele ponto devido à inexistência de contentores. Sem infraestruturas adequadas, o lixo acumula-se diariamente, criando um cenário persistente de poluição e degradação ambiental.

A moradora Lourdes da Silva afirmou que anteriormente existia um contentor de grandes dimensões na zona, mas que este foi removido pela equipa de saneamento devido a dificuldades na recolha.

“Na verdade, o Governo é que deve encontrar uma solução. Atualmente, sem contentores, a equipa de saneamento recolhe o lixo apenas de manhã e, até ao final da tarde, os resíduos já estão acumulados novamente, acabando por espalhar-se ao longo do dia”, explicou.

Segundo a residente, a ausência de contentores contribui também para a dispersão dos resíduos por animais. “Os cães levam o lixo para vários locais, até para dentro das casas e da escola, porque algumas pessoas colocam os resíduos em sacos e outras deixam-nos espalhados”, acrescentou.

Lourdes da Silva defende a reinstalação de contentores na área e o reforço da frequência da recolha de resíduos. “Sugiro ao Governo que coloque pelo menos dois ou três contentores nesta zona e que a limpeza seja feita duas vezes por dia, de manhã e à tarde”, afirmou.

A moradora alertou ainda para o crescimento da população local e para os riscos associados à saúde pública. “O lixo acumulado junto à estrada pode prejudicar a nossa saúde, sobretudo a das crianças. Existe uma escola nesta área e as moscas e os mosquitos estão a aumentar, especialmente durante a época das chuvas”, destacou.

Falta de contentores leva moradores de Beto Tasi a despejar lixo em locais improvisados

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A acumulação de resíduos provoca maus odores e atrai insetos na comunidade. /Foto: Diligente

A ausência recorrente de contentores de lixo no bairro de Beto Tasi, em Comoro, Díli, está a provocar a acumulação de resíduos e a agravar os problemas ambientais na comunidade. Plásticos, restos de comida e outros resíduos sólidos acabam por ser depositados nas ruas devido à falta de alternativas adequadas para a recolha de lixo.

A residente Manuela das Dores afirmou que a falta de infraestruturas apropriadas está na origem do problema. “A população, sem opções, acaba por depositar os resíduos em pontos improvisados, que rapidamente ficam cheios e com o lixo espalhado”, explicou.

A moradora apelou a uma intervenção mais rápida das autoridades. “O Governo deve tomar medidas rápidas e rigorosas para evitar que o problema continue a agravar-se, porque a acumulação de lixo provoca maus odores, atrai insetos e pode causar doenças na comunidade”, acrescentou.

Manuela das Dores afirmou ainda que, com o aumento do número de habitantes na zona, a situação tende a piorar, levando muitos moradores a descartar os resíduos em locais improvisados, que rapidamente ficam sobrecarregados e contribuem para a degradação ambiental da área.

“Prometeram recolher o lixo todos os dias, mas só aparecem uma vez por semana”

 

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Moradores de Ribeira Maloa denunciam falta de contentores e alertam para resíduos espalhados na ribeira e no mar. /Foto: Diligente

Os habitantes da aldeia de Ribeira Maloa, no suco de Bairro Pité, lamentam a inexistência de contentores de lixo na localidade, situação que tem levado à acumulação de resíduos a céu aberto e à dispersão de lixo ao longo da ribeira. Durante a época das chuvas, a corrente arrasta os resíduos até ao mar, agravando a poluição e a degradação do ambiente marinho.

A moradora Sandra Jakes afirmou que a ausência de contentores na comunidade já foi comunicada às autoridades locais, que terão transmitido a preocupação ao Governo. No entanto, segundo os residentes, foi-lhes dito que a zona não reúne condições para a instalação de contentores devido às dificuldades de acesso.

“Disseram que não podem colocar contentores de lixo perto da nossa aldeia porque a estrada não permite a passagem das camionetas de recolha de resíduos”, afirmou.

Como consequência, explicou Sandra Jakes, caixas, roupas usadas e outros resíduos acabam por ser depositados em espaços abertos dentro da própria aldeia.

A residente afirmou ainda que a Autoridade Municipal de Díli instalou contentores longe da comunidade, dificultando o acesso da população. Segundo Sandra, devido à distância, muitos moradores optam por descartar os resíduos perto das habitações.

“Decidimos deitar o lixo junto a uma pequena estrada dentro da aldeia. Depois de verem a acumulação de resíduos, avisaram que iriam recolhê-los diariamente, mas na verdade só aparecem uma vez por semana”, lamentou.

Segundo a moradora, a situação tem provocado a acumulação contínua de lixo no local e poderá contribuir para a propagação de doenças, como dengue e outras infeções. Sandra Jakes pede uma solução mais eficaz, que garanta a recolha regular dos resíduos e o acesso adequado da comunidade a contentores de lixo.

“Muitos visitantes deixam o lixo espalhado junto à praia”

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Falta de contentores em Tasi Tolu agrava acumulação de resíduos e aumenta preocupações ambientais. /Foto: Diligente

A inexistência de contentores de lixo em Tasi Tolu continua a contribuir para a acumulação de resíduos ao longo da praia. Plásticos, garrafas de água, madeira e outros materiais são frequentemente encontrados espalhados pela zona costeira, com impacto direto no ambiente marinho.

Apesar de se tratar de uma área frequentada diariamente por visitantes que passeiam, tomam banho e praticam exercício físico, o local continua sem infraestruturas adequadas para a deposição de resíduos.

Arcanjo da Silva, guarda de segurança do Pelican Paradise Resort, afirmou que a zona não dispõe de contentores de lixo há vários anos. “Muitas vezes, os visitantes deixam o lixo perto da praia. Algumas pessoas, por iniciativa própria, tentam reunir os resíduos num único local, mas depois não existe uma recolha adequada por parte dos serviços de saneamento”, afirmou.

Arcanjo apelou à intervenção do Governo para melhorar a gestão ambiental da área e instalar contentores de lixo. “Este espaço deve ser preservado, até porque também é visitado por turistas”, destacou.

O jovem questionou ainda o destino dos equipamentos adquiridos pelo Estado para a gestão de resíduos. “Ainda existem contentores de lixo?”, questionou. “Se existirem, devem ser distribuídos pelo país para evitar a poluição e permitir que as pessoas depositem os resíduos de forma adequada”, acrescentou.

“Os contentores de lixo não estão abandonados”

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A Autoridade Municipal de Díli garante que equipamentos armazenados em Tibar fazem parte de um plano de expansão do sistema de saneamento. /Foto: Diligente

O Presidente da Autoridade Municipal de Díli, Francisco dos Santos, afirmou que os contentores armazenados em Tibar não estão abandonados, mas integram um plano de gestão e expansão do sistema de saneamento na capital.

Segundo o responsável, as obras de alargamento das estradas em Díli têm condicionado a instalação definitiva dos contentores. “Depois da conclusão das obras, poderemos colocar os contentores, pelo menos a 100 ou 150 metros da estrada, para facilitar que a população deposite o lixo em locais apropriados”, explicou.

Francisco dos Santos referiu ainda que o sistema de recolha de resíduos em Díli está em processo de modernização, permitindo uma gestão mais eficiente e reduzindo a necessidade de a população manusear diretamente os contentores durante a recolha.

O presidente da Autoridade Municipal acrescentou que os equipamentos existentes em Tibar constituem uma reserva estratégica para futuras necessidades. “Não são considerados objetos abandonados, mas património reservado para utilização futura, conforme as necessidades”, afirmou.

Relativamente à distribuição de contentores, Francisco dos Santos sublinhou que instituições, escolas e comunidades devem apresentar propostas formais para solicitar apoio. “A autoridade não pode simplesmente colocar contentores em qualquer local, porque isso pode gerar problemas de higiene e conflitos com moradores”, disse.

O responsável alertou também para casos de vandalismo registados em algumas zonas da capital, incluindo a destruição e o incêndio de contentores de lixo. “Há pessoas que queimam ou atiram os contentores para dentro dos rios, por isso é importante reforçar a consciência da comunidade”, acrescentou.

Francisco dos Santos apelou ainda à responsabilidade partilhada entre autoridades e cidadãos na gestão dos resíduos urbanos.

“A gestão do lixo não é apenas responsabilidade da Autoridade Municipal, mas de todos os que vivem em Díli. A participação da comunidade é essencial para manter a cidade limpa”, concluiu.

A realidade observada em diferentes bairros da capital mostra que, apesar dos investimentos anunciados, o acesso a condições adequadas de saneamento continua longe de chegar a muitas comunidades de Díli.

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