Timor-Leste 24 anos depois: Entre o orgulho da independência e os desafios do presente

24 anos restauração da independência de Timor-Leste/Foto: AI

Passados 24 anos da Restauração da Independência, Timor-Leste continua dividido entre o orgulho da liberdade conquistada e os desafios que permanecem no quotidiano da população. Entre figuras públicas, jovens, ativistas, profissionais e cidadãos comuns, 24 vozes partilham críticas, memórias, conquistas e esperanças sobre o presente e o futuro do país.

A celebração dos 24 anos da Restauração da Independência de Timor-Leste é também um momento de balanço nacional. Entre os avanços alcançados desde 2002 e os problemas que continuam por resolver, persistem desafios ligados à pobreza, ao desemprego, à qualidade da educação, ao acesso à saúde, à justiça social e aos direitos humanos.

Ao longo desta reportagem, académicos, veteranos, jovens, artistas, diplomatas, profissionais de saúde, ativistas e cidadãos comuns refletem sobre o percurso do país, lembrando que a independência não se resume à liberdade política, mas também à construção de uma sociedade mais justa, digna e inclusiva.

Na saúde, o desafio passa por combater a subnutrição crónica infantil e melhorar as infraestruturas hospitalares”

Rui Maria de Araújo, médico e ex-primeiro-ministro

Quais considera terem sido os maiores avanços na saúde e na educação desde a independência?

“Celebrar 24 anos da Restauração da nossa Independência obriga-nos a olhar para trás com acrescida responsabilidade. Em 2002, partimos quase do zero, com infraestruturas destruídas e um escasso efetivo de recursos humanos qualificados. Hoje, os avanços na saúde e na educação são inegáveis e constituem as fundações do Estado-Nação.

Maiores Avanços na Saúde: Consolidação do Serviço Nacional de Saúde (SNS): Construímos um sistema público, universal e gratuito que garante que a esmagadora maioria dos timorenses tenha cuidados de saúde acessíveis, independentemente da sua condição económica.

Redução drástica da mortalidade infantil: Graças à expansão da cobertura vacinal e aos cuidados pré-natais, registámos uma das maiores descidas da região na mortalidade infantil.

Formação e descentralização médica: A cooperação internacional, com especial destaque para o programa com Cuba, permitiu formar centenas de médicos timorenses. Hoje, temos profissionais de saúde colocados em quase todos os sucos e postos administrativos do país.

Controlo de doenças endémicas: Timor-Leste alcançou marcos históricos reconhecidos globalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como a eliminação da malária e o controlo efetivo de várias doenças transmissíveis.

Maiores avanços na educação: Massificação e universalidade do acesso: O maior sucesso foi colocar as crianças na escola. Conseguimos atingir uma taxa líquida de escolarização no ensino básico que ronda os 90%, erradicando quase por completo a exclusão escolar inicial.

Criação de infraestruturas próprias: Erguemos uma rede escolar nacional que cobre todo o território, desde as zonas urbanas às comunidades mais isoladas das montanhas.

Desenvolvimento do ensino superior: A consolidação da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) e o nascimento de instituições privadas permitiram que milhares de jovens tenham hoje o diploma universitário com que os seus pais apenas podiam sonhar.

Institucionalização do currículo nacional: Desenvolvemos e implementámos currículos próprios que valorizam a nossa história, a nossa identidade e promovem o bilinguismo oficial (tétum e português).

Embora os avanços quantitativos e de cobertura sejam extraordinários, os próximos anos exigem um foco absoluto na qualidade. Na saúde, o desafio passa por combater a subnutrição crónica infantil e melhorar as infraestruturas hospitalares. Na educação, a prioridade máxima deve ser a formação contínua de professores e a adequação do ensino técnico às necessidades de emprego do país. Construímos as fundações; cabe-nos agora garantir a excelência.”

“Apesar de Timor-Leste estar praticamente rodeado pelo mar, a realidade é que muitas pessoas ainda não compreendem ou não têm oportunidade de conhecer em profundidade a riqueza e a biodiversidade existente no mar”

Dedy Kayaka, coordenador do Underwater Cinema

Ao longo dos 24 anos de independência de Timor-Leste, na sua perspetiva, quais continuam a ser os principais desafios na preservação do mar e da biodiversidade marinha para as novas gerações?

“Ao longo dos 24 anos de independência de Timor-Leste, na perspetiva do Underwater Cinema (UC), um dos grandes desafios que continuamos a enfrentar é a preservação do mar e dos seus ecossistemas e a falta de conhecimento e consciência sobre a importância da vida marinha, especialmente entre as gerações mais jovens, bem como a dificuldade em equilibrar o desenvolvimento, a vida comunitária e a conservação a longo prazo (sustentável).

Apesar de Timor-Leste estar praticamente rodeado pelo mar, a realidade é que muitas pessoas ainda não compreendem ou não têm oportunidade de conhecer em profundidade a riqueza e a biodiversidade existente no mar. Muitas ainda não tiveram experiência direta de observar a beleza e a importância do ecossistema marinho, como os recifes de coral, os peixes, as algas marinhas e outros recursos essenciais para a vida das comunidades e para o futuro do país.

Ao mesmo tempo, o mar de Timor-Leste enfrenta várias ameaças, como o lixo nas zonas costeiras e no mar, a poluição, as alterações climáticas e outras atividades que podem destruir o ecossistema marinho. Por isso, é muito importante reforçar a educação ambiental e a sensibilização das comunidades e dos jovens, para que se sintam proprietários destes recursos e saibam utilizá-los e cuidar deles de forma responsável, bem como protegê-los, pois sustentam a nossa vida.

O Underwater Cinema é um grupo de voluntários formado por jovens timorenses apaixonados e comprometidos com o cuidado do ambiente marinho, através de atividades de mergulho e snorkeling, limpeza das zonas costeiras e recolha de dados sobre lixo marinho. Também realizamos atividades de advocacia e educação em escolas em Díli, Ataúro e Manatuto, e no futuro planeamos expandir o nosso programa “UC BA ESKOLA” para outros municípios.

Acreditamos que, através dos media, da partilha de histórias, da partilha de experiências e da oportunidade de levar as pessoas a ver diretamente esta riqueza natural, podemos ajudar mais pessoas a compreender e valorizar os recursos marinhos de Timor-Leste. O nosso objetivo é inspirar a nova geração a ver o mar não apenas como um local de sustento, mas como um património importante que precisa de ser protegido e preservado para o futuro.”

“O desenvolvimento existente tem um impacto positivo na vida da nossa comunidade. No entanto, desenvolvimento não significa apenas estradas ou cidades bonitas; deve também criar condições de vida dignas para a população, sem levar as pessoas a situações de vulnerabilidade ou perda de dignidade”

Mariana das Neves, comerciante

“Passados 24 anos da Restauração da Independência de Timor-Leste, as comunidades sentem realmente o impacto do desenvolvimento do país na vida do dia a dia? E o que considera que ainda precisa de ser melhorado no futuro, especialmente para apoiar os pequenos comerciantes e melhorar as condições de vida da população?”

“Como população, sentimos no dia a dia os impactos que a nossa comunidade recebeu e experienciou após a independência. Quando observamos o desenvolvimento no país, como, por exemplo, a construção de estradas em Díli, sentimos esse progresso. No entanto, também constatamos a forma como algumas pessoas acabam por viver essas mudanças.

Algumas pessoas deixam a sua situação anterior e acabam por viver sem dignidade, incluindo aquelas que vendem comida à beira da estrada. Para muitas famílias, a sobrevivência torna-se dependente dessa atividade diária de venda.

O desenvolvimento existente tem um impacto positivo na vida da nossa comunidade. No entanto, desenvolvimento não significa apenas estradas ou cidades bonitas; deve também criar condições de vida dignas para a população, sem levar as pessoas a situações de vulnerabilidade ou perda de dignidade.”

“Também são patrióticos aqueles que trabalham arduamente, como os jornalistas que não pensam na sua própria segurança para garantir que a sociedade esteja informada”

Joaquim Fonseca, diplomata

O patriotismo da nova geração é diferente do patriotismo da geração da resistência?

“Eu penso que a manifestação ou expressão de patriotismo pode assumir diferentes formas, consoante a época. No entanto, o grau de patriotismo não pode ser medido dizendo que são mais patrióticos aqueles que lutaram na guerra, ou aqueles que estudaram bastante para promover uma vida melhor em Timor-Leste.

Também são patrióticos aqueles que trabalham arduamente, como os jornalistas que não pensam na sua própria segurança para garantir que a sociedade esteja informada. Da mesma forma, os funcionários da alfândega que não aceitam subornos e não praticam corrupção também estão a demonstrar patriotismo.

Por isso, na minha opinião, o grau de patriotismo não deve ser determinado com base apenas na forma de expressão ou manifestação desse sentimento. Antigamente, no tempo da luta armada, o patriotismo era expresso através da luta pela liberdade da terra, mesmo com o sacrifício da vida. Hoje, já não existe guerra, mas o patriotismo pode ser expresso de outras maneiras, através de diferentes formas de contribuição para o país.”

Se olharmos para a realidade, as infraestruturas educativas em Timor-Leste continuam a ser muito limitadas. Muitas escolas apresentam condições precárias e falta de apoio às equipas educativas, o que faz com que o processo de ensino e aprendizagem nem sempre decorra de forma adequada”

Cesário João, estudante da UNTL

Enquanto estudante, que expectativas espera do Estado para apoiar a educação e preparar a nova geração para um futuro melhor do país, após 24 anos de independência?

“Como estudante, vejo estes 24 anos de independência numa perspetiva de cidadania e enquanto estudante, e gostaria de pedir ao Estado que atribua maior seriedade à educação, tratando-a como uma prioridade fundamental.

Se olharmos para a realidade, as infraestruturas educativas em Timor-Leste continuam a ser muito limitadas. Muitas escolas apresentam condições precárias e falta de apoio às equipas educativas, o que faz com que o processo de ensino e aprendizagem nem sempre decorra de forma adequada.

Por isso, considero que, após 24 anos de independência, o Estado deve assumir um compromisso mais sério no apoio às crianças e às escolas, especialmente nas zonas rurais. Desta forma, estas também poderão contribuir para o desenvolvimento do país no futuro. Se observarmos com atenção, em Díli existe uma grande concentração de escolas, incluindo escolas internacionais. Isto revela um certo desequilíbrio em relação às restantes regiões do país.

Assim, o Governo deve analisar formas de reforçar e apoiar a educação já existente ao nível dos municípios, postos administrativos, sucos e aldeias mais remotas. O apoio financeiro e estrutural deve ser reforçado, para que as crianças das zonas rurais também possam alcançar o sucesso.”

“O Estado ainda não disponibiliza orçamento ou programas específicos, como subsídios, para apoiar os escritores na impressão das suas obras”

Lena Mafalda, escritora timorense

Após 24 anos de independência, como avalia o interesse do Estado pelos livros, arquivos e pela cultura escrita em Timor-Leste?

“Se olharmos para estes 24 anos de independência na perspetiva de uma escritora, posso dizer que o interesse do Estado pelo livro e pela cultura escrita apresenta várias limitações. É difícil obter apoio para publicar livros e, até agora, ainda não existe um sistema próprio de ISBN totalmente estruturado. Por isso, os escritores em Timor-Leste têm de lutar sozinhos.

O Estado ainda não disponibiliza orçamento ou programas específicos, como subsídios, para apoiar os escritores na impressão das suas obras. Os custos de publicação são elevados e, como o Governo ainda não dá prioridade a esta área, os escritores muitas vezes têm de financiar as suas obras com recursos próprios ou procurar apoio de doadores internacionais.

Ainda não existe uma valorização suficiente das obras dos escritores locais. Embora existam iniciativas como a Xanana Gusmão Reading Room e o Movimento das Letras, que procuram promover a literatura timorense, esta ainda não tem importância para o Estado.

O Governo também ainda não tem uma política forte para comprar livros escritos por autores timorenses e distribuí-los nas escolas. Isto torna difícil para os escritores viverem do seu trabalho e sentir que o Estado valoriza a sua produção intelectual.

Existe também uma falta de reconhecimento dos escritores, porque a nossa cultura ainda é fortemente oral. Para transformar esta realidade numa cultura escrita, os escritores acabam por lutar quase sozinhos. Ainda não existe um prémio literário nacional que reconheça os escritores.

No que diz respeito aos arquivos, embora exista o Arquivo Nacional para preservar documentos históricos, o apoio à investigação ainda é limitado. O acesso aos arquivos não é facilitado o suficiente para que escritores e investigadores possam desenvolver a cultura escrita de forma adequada.

Assim, concluo que, enquanto escritora, sinto que nestes 24 anos escrever e publicar livros em Timor-Leste exige muito esforço pessoal e amor pelo país. O desenvolvimento da cultura escrita ainda depende muito do esforço individual. O verdadeiro interesse do Estado em apoiar a produção de livros, os direitos de autor e a valorização dos escritores ainda é fraco e precisa de ser fortemente melhorado no futuro.”

“Por isso, pergunto: a democracia e os direitos humanos são para quem?”

Amandina da Silva, ativista dos direitos humanos

Qual é hoje o maior desafio na defesa dos direitos humanos em Timor-Leste?

“Temos muitos desafios quando falamos sobre direitos humanos. Um deles é a falta de seriedade na implementação das leis. Mesmo que as nossas leis sejam bastante progressistas e estejam bem alinhadas com os princípios dos direitos humanos, na realidade a sua aplicação continua a ser um grande desafio. Especialmente as pessoas cujos direitos foram violados continuam sem obter justiça de forma adequada perante a lei, em comparação com aqueles que têm poder.

Outro problema no nosso país é que as pessoas sem poder muitas vezes não têm esperança de ver os seus direitos reconhecidos, como no caso dos despejos que aconteceram em Ai-Mutin. Nós vemos com os nossos próprios olhos que, mesmo quando há terra e bens que pertencem a pessoas, o Estado, com o seu poder, toma decisões conforme a sua vontade. Ao mesmo tempo, pessoas com dinheiro conseguem facilmente influenciar o poder político e o Estado, o que torna difícil lutar pelos direitos humanos. Isto é também agravado pela promoção de práticas oligárquicas e pela corrupção, onde o dinheiro destinado ao desenvolvimento não chega para melhorar a vida do povo, aumentando assim a pobreza.

Por isso, não é fácil falar sobre direitos humanos, porque muitas vezes quem defende os direitos dos mais pobres acaba por ser vítima de violações desses mesmos direitos, devido às suas vozes e aspirações serem vistas como uma ameaça ao poder. Este é um desafio contínuo, especialmente para as mulheres, num sistema patriarcal, neoliberal e capitalista. Todos estes fatores tornam difícil para mulheres e grupos marginalizados lutarem pelos seus direitos.

Recentemente, no caso do ex-padre Richard Dasbach, surgiu uma nova notícia de que o Governo apresentou uma proposta para conceder indulto através do Presidente da República. Para mim, isto também representa uma traição aos direitos humanos, porque não se ouve a voz das vítimas e dos sobreviventes. Por isso, pergunto: a democracia e os direitos humanos são para quem?”

“A geração jovem deve dar continuidade a este processo e, por isso, como referi anteriormente, precisamos de nos preparar, aprender mais e participar ativamente, para que, quando recebermos essa responsabilidade, estejamos prontos para continuar esse caminho”

Sisto dos Santos, diretor da HAK

Que lições da luta pela independência não podem ser esquecidas pelas novas gerações?

“A HAK considera que é necessário prestar atenção e valorizar a dignidade, a dedicação dos heróis e a sua contribuição para a luta pela autodeterminação. Por isso, enquanto geração jovem da RDTL, entendemos que estas pessoas já deram o seu contributo, cabendo-nos agora refletir sobre a forma de continuar a promover e criar estabilidade.

Isto deve ser feito através da valorização e do reconhecimento das suas contribuições e da sua luta ao longo do tempo. Neste momento, em que celebramos os 24 anos da Restauração da Independência, a nossa visão, enquanto geração jovem, é a de participar ativamente e continuar a aprender mais.

Devemos também contribuir para a estabilidade, participando ativamente no processo de desenvolvimento em todos os setores. Isto significa que a geração jovem deve dar continuidade àquilo que foi iniciado pelos nossos líderes e heróis e, por isso, devemos prestar grande atenção a este legado.

Por outro lado, considero que a geração jovem deve compreender que a Restauração da Independência já assinala 24 anos e que Timor-Leste passou por um período de ocupação por parte da Indonésia. Por isso, devemos preparar-nos para continuar esse legado, assumindo o papel que as gerações anteriores deixaram.

Assim, a geração jovem deve dar continuidade a este processo e, por isso, como referi anteriormente, precisamos de nos preparar, aprender mais e participar ativamente, para que, quando recebermos essa responsabilidade, estejamos prontos para continuar esse caminho.”

“Ainda não conseguimos libertar o povo da pobreza e das dificuldades económicas, porque até hoje continuamos a enfrentar problemas estruturais na vida da população, como a malnutrição, a pobreza, a falta de oportunidades de trabalho e o elevado desemprego”

Marta da Silva, pesquisadora da La’o Hamutuk

Timor-Leste conquistou a independência política, mas conseguiu também alcançar independência económica?

“Já passaram quase 24 anos desde que restaurámos a nossa independência, desde 2002 até agora, em 2026. Podemos dizer que, em termos políticos, já alcançámos a meta da autodeterminação e do Governo próprio que desejávamos.

No entanto, em termos económicos, continuamos a enfrentar muitos desafios. Ainda não conseguimos libertar o povo da pobreza e das dificuldades económicas, porque até hoje continuamos a enfrentar problemas estruturais na vida da população, como a malnutrição, a pobreza, a falta de oportunidades de trabalho e o elevado desemprego. A nossa dependência das importações continua muito forte, porque ainda não conseguimos construir uma base sólida para os setores produtivos. A agricultura, até agora, ainda não tem capacidade para responder à procura local e nacional. Além disso, continuamos extremamente dependentes do Fundo Petrolífero, do qual retiramos ou colocamos cerca de 80% para o Orçamento Geral do Estado todos os anos. Isto demonstra que a nossa economia é muito vulnerável e que ainda não alcançámos um verdadeiro desenvolvimento económico interno.

Para gerir a economia e construir uma base económica mais sustentável para o povo, ainda existem muitas fragilidades. Quando surgem choques internacionais, como guerras no Médio Oriente ou situações como a pandemia da COVID-19, Timor-Leste torna-se ainda mais vulnerável devido à dependência das importações e da flutuação dos recursos petrolíferos, que dependem do mercado mundial, algo que nós não conseguimos controlar. Às vezes, os efeitos são positivos, outras vezes negativos.

Estes desafios continuam presentes até hoje. Por isso, Timor-Leste precisa de reavaliar o seu processo de desenvolvimento para perceber qual deve ser a direção mais urgente e necessária. Durante este tempo, grande parte das alocações orçamentais foi usada para despesas correntes, sem conseguir investir suficientemente nos sectores produtivos que, a longo prazo, poderiam aumentar as receitas domésticas e fortalecer a economia nacional.

Nós acreditamos que o Governo deve continuar a investir em setores mais próximos da vida do povo, como a agricultura, a saúde, a água, o saneamento e a educação. Estes setores são fundamentais. Muitos países que não possuem petróleo nem grandes recursos naturais investiram fortemente no seu povo, porque o capital humano é a verdadeira base do desenvolvimento. Quando a população tem capacidades e competências para competir no mercado de trabalho, o país consegue desenvolver-se de forma mais sustentável.”

“Hoje, temos uma relação de Estado a Estado, sólida, abrangente, ambiciosa, multidimensional, focada nas pessoas, no planeta e na prosperidade partilhada”

Duarte Bué Alves, Embaixador de Portugal em Timor-Leste

Ao fim de 24 anos de independência, como avalia a relação de amizade e cooperação entre Portugal e Timor-Leste?

“A nossa relação não tem 24 anos — tem mais de meio milénio. Vivemos juntos, caminhámos juntos.

Durante 24 terríveis anos, Portugal defendeu Timor e o seu direito à autodeterminação. A diplomacia portuguesa e a opinião pública nunca, mas nunca, desistiram desta nobre causa.

Quando, em 2002, [re]nasceu o primeiro país do novo milénio, a nossa alegria foi contagiante e tocou a todos. Lembro-me bem desses dias em Lisboa.

Hoje, temos uma relação de Estado a Estado, sólida, abrangente, ambiciosa, multidimensional, focada nas pessoas, no planeta e na prosperidade partilhada.

Olhamos com grande confiança para o futuro de Timor-Leste. Volto ao início. Inquebrantável. Mas é também uma relação “lulik.” Viva Timor-Leste!’”

“O estigma é, sem dúvida, um dos fatores que contribui para esta situação”

Elvis Uvaldo Guterres, médico geral no programa de VIH da ONG Maluk Timor

Como evoluiu a consciência da sociedade timorense em relação ao VIH e ao combate ao estigma?

“Da minha parte, enquanto médico que trabalha no programa de VIH, olhando para a realidade, considero que as intervenções destinadas a combater o estigma contra as pessoas que vivem com VIH ainda não têm a eficácia desejada.

Isto porque muitas pessoas que vivem com VIH continuam a sentir-se marginalizadas e acabam por fugir ou afastar-se do acompanhamento e controlo do tratamento. O estigma é, sem dúvida, um dos fatores que contribui para esta situação.

Isto significa que a consciência da sociedade timorense no combate ao estigma relacionado com o VIH ainda não demonstra resultados suficientemente sólidos para ajudar as pessoas que vivem com VIH a manterem-se em tratamento.

Penso também que é importante aproveitar diferentes meios de comunicação como instrumentos para disseminar informação correta, clara e positiva, sem ferir os sentimentos das pessoas infetadas.

Quero apenas dizer que combater o estigma e a discriminação é algo complexo e difícil de resolver. No entanto, é fundamental que todas as entidades e partes relevantes se unam e sirvam de voz pública para desafiar e mudar a mentalidade de estigma e discriminação contra as pessoas que vivem com VIH.”

Alessandro Boarccaech, psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia

De que forma os traumas da ocupação continuam a afetar a saúde mental da população timorense?

“A história timorense não começou em 1975. Pelo contrário, é longa e marcada por conflitos, massacres, deslocações forçadas de populações, fome, torturas, abusos e trabalho em condições de semiescravidão. Se recuarmos apenas ao século XX, por exemplo, um suco inteiro de Atáuro foi dizimado; houve o massacre em Manufahi; durante a Segunda Guerra Mundial, dezenas de milhares de pessoas foram mortas; e, em 1975, a guerra civil entre partidos políticos vitimou centenas de famílias.

Tal como a história timorense, os traumas da população não começaram com a ocupação indonésia. Os 24 anos de ocupação não só criaram novos traumas, como também mantiveram e intensificaram as inúmeras feridas abertas.

Do ponto de vista psicológico, muitos sobreviventes apresentam sintomas associados ao trauma complexo: ansiedade crónica, depressão, luto prolongado, fobias, hipervigilância e insónias. Contudo, o sofrimento psicológico pode manifestar-se também sob a forma de somatizações, isolamento emocional e conflitos familiares. Em muitos casos, podem surgir episódios dissociativos, dificuldades em estabelecer vínculos afetivos duradouros, impulsividade, agressividade, sentimento de impotência, desconfiança excessiva, comportamentos compulsivos e consumo abusivo de álcool, entre outros sintomas.

O trauma não persiste apenas na memória individual. O trauma pode também ser continuamente reforçado pelas condições sociais do presente, como pobreza, desemprego, acesso limitado a cuidados de saúde mental, justiça seletiva, autoritarismo, burocracia ineficiente, poucas oportunidades de ascensão social, preconceitos e desvalorização de grupos minoritários ou vulneráveis, como mulheres, jovens, pessoas neurodivergentes, pessoas com mobilidade reduzida e pessoas de diferentes orientações sexuais.

Destaco ainda a dimensão intergeracional do trauma. Quando não elaborados, os traumas podem passar de pais para filhos através do medo, da desconfiança em relação aos outros, dos silêncios, da negligência emocional e da violência doméstica. Aquilo que nos causa sofrimento acaba por ser normalizado.

Isto afeta a saúde mental de toda uma geração que não viveu diretamente essas situações traumáticas, mas que, ainda assim, carrega as suas consequências emocionais.

Neste momento de celebração dos 24 anos da Restauração da Independência, é importante questionarmo-nos: como promover mudanças concretas e materiais na vida das pessoas? Como transformar o silêncio e os traumas num diálogo honesto sobre o passado? Será que hoje não estamos a reproduzir, por outros meios, a violência sofrida? E como garantir que a saúde mental deixe de ser um tema tabu e passe a ser uma responsabilidade coletiva?”

“O papel da PNTL é garantir a segurança dos cidadãos e protegê-los. O trabalho da PNTL no terreno deve assegurar isso e não praticar violência nem abuso de poder”

Comandante da PNTL de Díli, Superintendente-Chefe Orlando Gomes

Perante críticas recorrentes de abuso de poder, violência policial e atuação em despejos administrativos, incluindo comparações feitas por cidadãos com práticas do passado, como avalia o papel da PNTL na proteção dos direitos dos cidadãos 24 anos após a restauração da independência?

“Neste ano em que celebramos os 24 anos da Restauração da Independência, este é um momento importante em que a PNTL (Polícia Nacional de Timor-Leste) tem vindo a dar passos em frente, levando a missão de desenvolvimento para a frente. A PNTL também tem realizado várias formações para reforçar as suas capacidades, de modo a melhorar o atendimento ao público e às nossas comunidades.

O papel da PNTL é garantir a segurança dos cidadãos e protegê-los. O trabalho da PNTL no terreno deve assegurar isso e não praticar violência nem abuso de poder. A sua ordem e cadeia de comando têm como objetivo servir e proteger o povo e a nação. Por isso, o serviço da PNTL deve ser profissional, assegurando todas as atividades no nosso país.

Ao nível do comando municipal de Díli, por exemplo, deve ser assegurado que, quando há despejos administrativos ou questões relacionadas com terras e propriedades, incluindo decisões dos espaços do tribunal, qualquer intervenção junto da comunidade seja feita de forma a evitar conflitos, desentendimentos ou crimes. Quando há pedidos dirigidos ao comando municipal de Díli, a polícia deve estar pronta a intervir para garantir que não haja conflitos entre as partes.

No que diz respeito à atuação da PNTL, esta deve cumprir sempre as regras e o Decreto-Lei n.º 43/2012, que regula o regime jurídico da força policial. No terreno, por vezes surgem situações em que é necessário abordar pessoas, parar veículos ou lidar com impedimentos ou queixas. Nesses casos, deve ser sempre seguido o procedimento adequado, incluindo a identificação correta. A polícia não deve obrigar nem abusar da sua competência para pressionar os cidadãos. A presença policial deve servir para garantir segurança e ordem.

Caso existam irregularidades no terreno, estas devem ser tratadas posteriormente através de queixas formais e processos adequados, para que a verdade seja apurada corretamente através dos mecanismos legais.”

“Eu só concordo que estamos num processo de independência, porque ainda há lugares onde o povo é tratado como animal e a lei não é respeitada. Existem pessoas que falam a verdade, perseguidas por expressarem as suas opiniões, e também há interferência no setor da justiça”

Armindo Moniz Amaral, jurista

Quais continuam a ser os maiores obstáculos para uma justiça verdadeiramente independente em Timor-Leste?

“Eu não concordo com o uso da palavra ‘independente’ de forma absoluta. Eu só concordo que estamos num processo de independência, porque ainda há lugares onde o povo é tratado como animal e a lei não é respeitada. Existem pessoas que falam a verdade, perseguidas por expressarem as suas opiniões, e também há interferência no setor da justiça.

Eu sinto que o Estado ainda não é totalmente independente nem plenamente soberano, mas está num processo de construção dessa soberania. E, nesse processo, pode haver falhas, como acontece com qualquer Estado em construção ou em consolidação da independência.

Por isso, ainda estamos nesse processo. Tudo depende daquilo que queremos: se queremos viver de acordo com o que está estabelecido na Constituição, ou se queremos viver de acordo com a vontade de alguns indivíduos ou de pequenos grupos. Esta é a situação atual.”

“Isto significa que os políticos e os governantes devem trabalhar em conjunto com os jovens para construir esse desenvolvimento. O desenvolvimento não deve ser apenas para os jovens, mas sim feito com os jovens”

Ricardo Valente Araújo, Fundador da Gen-Z Talk Timor-Leste

Como vê a participação dos jovens no desenvolvimento atualmente, e o que é que os jovens devem fazer para aproveitar as oportunidades existentes, especialmente com a participação de Timor-Leste em diferentes comunidades regionais e internacionais?

“Para mim, a participação dos jovens no desenvolvimento, atualmente, precisa de ser vista como a de agentes e cocriadores desse mesmo desenvolvimento. Isto significa que os políticos e os governantes devem trabalhar em conjunto com os jovens para construir esse desenvolvimento. O desenvolvimento não deve ser apenas para os jovens, mas sim feito com os jovens.

O que os jovens podem fazer é procurar compreender mais. Devem manter-se curiosos sobre tudo o que acontece à sua volta, fazer perguntas sobre as mudanças que estão a ocorrer na nossa sociedade, colaborar, organizar-se e participar ativamente em qualquer evento que aconteça.

Com a participação de Timor-Leste na comunidade regional e global, este é um momento de oportunidade para todos nós. Devemos aproveitá-lo bem e de forma positiva.”

“O jornalismo não foi apenas um registo de acontecimentos, mas também algo que transformou o impossível em possível, especialmente ao revelar ao mundo acontecimentos como o Massacre de Santa Cruz.”

Rojer Cardoso Neves, coordenador dos média e e produção CAMSTL

Qual considera ter sido o papel e a contribuição dos jornalistas durante a luta pela libertação nacional de Timor-Leste e como avalia a evolução do jornalismo no país após a independência?

“O jornalista é, de certa forma, a voz daqueles que não têm voz. Por isso, o seu papel é muito importante quando analisamos o processo da luta pela libertação nacional.

A contribuição dos jornalistas começou logo em 1974 e 1975. Se olharmos para o passado e para as imagens antigas, vemos muitos acontecimentos importantes, como o caso de Balibó. Nessa altura, houve várias reportagens feitas por jornalistas como Jill Jolliffe, Adelino Gomes e também pelos cinco jornalistas que morreram em Massacre de Balibó.

Mais tarde, durante o processo de luta pela libertação nacional, os jornalistas continuaram a desempenhar um papel importante. Em 1980, por exemplo, Rui Araújo fez reportagens sobre a luta de Timor-Leste após a invasão da Indonésia.

Nos anos 90, houve também entrevistas importantes, como a entrevista ao Comandante-Chefe Xanana Gusmão em Ainaro. E, em 1991, aconteceu um dos momentos mais marcantes, com um impacto muito forte para o país: o trabalho de Max Stahl, que conseguiu captar e divulgar imagens da realidade de Timor-Leste ao mundo.

Todos conhecem o impacto dessas imagens, especialmente as do Massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro, em que muitos jovens foram mortos desde Tasi-Tolu até ao cemitério de Santa Cruz. As imagens mostraram ao mundo a violência e as violações dos direitos humanos cometidas em Timor-Leste.

Assim, a contribuição dos jornalistas durante o período da luta pela libertação nacional, de 1975 até 1999, foi enorme. O jornalismo focou-se muito nesse processo de luta, e isso foi fundamental para mudar a perceção internacional. O jornalismo não foi apenas um registo de acontecimentos, mas também algo que transformou o impossível em possível, especialmente ao revelar ao mundo acontecimentos como o Massacre de Santa Cruz. Enquanto o regime de Soeharto e o governo da Indonésia rejeitavam as campanhas diplomáticas dos líderes timorenses no exterior, as imagens e reportagens mostravam claramente as graves violações dos direitos humanos em Timor-Leste.

Em geral, considero que o papel do jornalismo foi muito positivo. No entanto, também sabemos que o processo de construção de um Estado não é fácil. Nem todos compreendem bem o trabalho dos jornalistas. Às vezes, a comunicação social não segue totalmente a narrativa nacional, e isso pode gerar interpretações diferentes.

Mas, ao longo do tempo, vemos que houve mudanças muito significativas desde 1975 até hoje. Antes não havia liberdade; existiam medo e intimidação contra os jornalistas. Hoje, apesar de ainda existirem desafios, há mais liberdade e mais jornalistas a trabalhar.

Em geral, podemos dizer que houve uma grande evolução. Hoje existem mais jornalistas do que antes, e isso é algo positivo para o espaço democrático e para o desenvolvimento do país.”

“O povo Maubere e Buibere da RDTL, enquanto povo de uma nação soberana, soube sacrificar-se, lutar, demonstrar e afirmar a sua identidade enquanto povo e nação. Esta memória marcou e continua preservada em todo o povo, desde o núcleo familiar, aos sucos, às regiões e a todo o solo pátrio”

Maria Domingas Alves “Mikato”, veterana da Resistência

Timor-Leste está a conseguir preservar a memória da resistência?

“Para começar, gostaria de assinalar esta Comemoração dos 24 anos da Restauração da Independência e fazer uma autoavaliação, comparando os 24 anos da Luta da Resistência pela Independência com os 24 anos decorridos após a vitória do Referendo e durante este processo de desenvolvimento.

Louvamos o processo da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, através do CHEGA e do CVA In Memoriam, que deixaram documentação em livros sobre o sacrifício e a causa desta luta.

O povo Maubere e Buibere da RDTL, enquanto povo de uma nação soberana, soube sacrificar-se, lutar, demonstrar e afirmar a sua identidade enquanto povo e nação. Esta memória marcou e continua preservada em todo o povo, desde o núcleo familiar, aos sucos, às regiões e a todo o solo pátrio.

Para preservar de forma forte a memória da Resistência, segundo o meu ponto de vista, é necessário preservar a identidade timorense, bem como as boas práticas da sua cultura, respeitando os Direitos Humanos e os princípios de solidariedade e respeito mútuo. Acredito nesta força impetuosa do nosso povo Maubere e Buibere.”

Uma questão muito importante é a dificuldade dos jovens em encontrar emprego, porque não existem oportunidades suficientes no mercado de trabalho. Por isso, muitos jovens timorenses continuam a emigrar para trabalhar no estrangeiro, porque o nosso Governo ainda não conseguiu preparar devidamente o mercado de trabalho para empregar os jovens no país”

Natalízio Nunes, porta-voz dos EUTL

O que preocupa mais os jovens timorenses hoje?

“Um dos principais desafios que os jovens enfrentam está relacionado com a situação do desenvolvimento do país.

Uma questão muito importante é a dificuldade dos jovens em encontrar emprego, porque não existem oportunidades suficientes no mercado de trabalho. Por isso, muitos jovens timorenses continuam a emigrar para trabalhar no estrangeiro, porque o nosso Governo ainda não conseguiu preparar devidamente o mercado de trabalho para empregar os jovens no país. Este é um grande desafio para a juventude.

Em segundo lugar, o Governo também precisa de considerar mais as vozes dos jovens. No passado, durante a luta pela libertação nacional, a voz da juventude foi muito importante. Hoje, os jovens também querem contribuir para o país e, por isso, o Governo deve ouvir as suas opiniões e permitir que participem no processo de desenvolvimento nacional. Talvez este seja outro grande desafio: a dificuldade em continuar a dar atenção às preocupações dos jovens.

O problema do emprego continua a ser muito sério. Por isso, é essencial criar mais oportunidades de trabalho para os jovens, para que não precisem de emigrar constantemente. Eles devem poder utilizar os seus conhecimentos e capacidades no próprio país. Atualmente, o Governo deve ter capacidade financeira e recursos humanos para criar essas oportunidades de emprego para os jovens. Isto também depende da criatividade da juventude.

Por isso, a questão é: como pode o Governo valorizar o potencial dos jovens? Isso deve ser feito através do diálogo e da consulta pública, para compreender as suas preocupações. Mas talvez o Governo ainda não esteja a dar atenção suficiente a estas questões, e isso torna-se outro grande desafio.

O Governo deve também dar mais importância à juventude, preparando-a para competir na ASEAN, uma vez que Timor-Leste já é membro de pleno direito. Os jovens precisam de se preparar para enfrentar os desafios do futuro e o desenvolvimento que ainda está por vir.

Por isso, o mais importante é que o Governo prepare os jovens, invista neles e desenvolva recursos humanos de qualidade, para que possam enfrentar melhor estas situações.”

“Precisamos de aproximar mais os postos de saúde e os serviços de atendimento, para que o acesso não seja difícil para a população”

Élia Amaral, Ministra da Saúde

O sistema de saúde timorense falhou em acompanhar as promessas feitas após a independência?

“Sabemos que todo o trabalho e esforço realizados começaram desde o primeiro Governo, e é importante agradecer tudo o que foi feito até à data. Atualmente, estamos a dar atenção à saúde primária, e a questão é como podemos reforçar as infraestruturas da saúde para que a população, que continua vulnerável, tenha acesso mais fácil aos serviços.

Precisamos de aproximar mais os postos de saúde e os serviços de atendimento, para que o acesso não seja difícil para a população. Neste momento, já completámos mais postos de saúde previstos. Já foram construídos mais de 100 centros de saúde, e agora faltam ainda cerca de 40 para completar a rede de postos de saúde planeada, com base na população.

No que diz respeito aos centros de saúde, já conseguimos avançar com cerca de 70 e tal centros, e neste momento ainda estão em processo de construção mais alguns. Também é necessário reforçar os centros de maternidade nas áreas onde há maior necessidade de cuidados.

Precisamos de definir duas vertentes: como fazer o processo de reabilitação e como construir novas infraestruturas. A construção inclui postos de saúde e residências associadas. Isto significa construir cerca de 40 unidades, mas não necessariamente todas no espaço de um ano, porque depende da capacidade que temos. No entanto, antes de 2029, precisamos de concluir aquilo que ainda está em falta.”

“Mas, na realidade, não têm acesso direto a quem recebe e gere esses fundos, nem conhecem verdadeiramente como o dinheiro é utilizado”

Padre Paulos Maia, Congregação Diocesana

Durante a ocupação indonésia, a Igreja Católica foi vista por muitos timorenses como uma voz de proteção e resistência. Hoje, 24 anos após a independência, como responde às críticas de que a Igreja continua a receber elevados apoios do Estado enquanto persistem dificuldades na saúde, educação e pobreza?

“Sobre os subsídios que o Governo atribui à Igreja, é verdade que existem muitas críticas na sociedade, e isso é algo normal num Estado democrático. No entanto, muitas vezes as pessoas não compreendem realmente como esses subsídios são utilizados pelas igrejas.

Frequentemente, as pessoas observam apenas de longe ou a partir de um único ponto de vista, e acabam por generalizar tudo. Mas, na realidade, não têm acesso direto a quem recebe e gere esses fundos, nem conhecem verdadeiramente como o dinheiro é utilizado. Assim, é comum que se façam generalizações, mas a realidade nem sempre é essa.

No que diz respeito às críticas feitas aos subsídios do Governo à Igreja, muitas vezes essas críticas acabam por se concentrar noutras necessidades da sociedade, como a saúde e outras áreas sociais, o que é compreensível e normal.

No entanto, quando se faz uma crítica, deve fazer-se com base em provas. Não podemos apenas ouvir ou ver de longe. É necessário aproximarmo-nos da realidade, investigar e procurar evidências concretas antes de criticar ou tirar conclusões sobre determinado assunto.”

“A arte funciona como um remédio ou como um instrumento que pode ser utilizado para mudar a forma de pensar da sociedade”

Gaudêncio Cabral, artista Timorense

Como é que a arte contribuiu para a libertação nacional no passado e como pode a arte contribuir para a mudança social no presente?

“Quanto à contribuição da arte para a libertação nacional, penso que, naquele tempo difícil, a arte se tornou um movimento importante para expressar as opiniões das pessoas e impulsionar uma revolução.

A arte também se tornou uma forma única de expressão, permitindo às pessoas manifestarem-se sem recorrer à violência ou ao ódio. Além disso, a arte pode contribuir para a mudança social.

Nos dias de hoje, a arte continua a ser importante, porque permanece como um caminho singular para transformar comportamentos e atitudes menos positivas da sociedade.

A arte funciona como um remédio ou como um instrumento que pode ser utilizado para mudar a forma de pensar da sociedade. Assim, a arte não serve apenas para mudar situações externas, mas também para transformar mentalidades limitadas ou empobrecidas.

A arte é um caminho capaz de enriquecer o pensamento e as ideias das pessoas, ajudando-as a compreender melhor a vida e a realidade que enfrentamos.”

“Relatórios de organizações como a Fundasaun Mahein indicam que não existe risco imediato de conflito aberto, mas persistem fragilidades institucionais. O orçamento destinado ao setor da segurança nem sempre é executado de forma eficiente, e existe falta de recursos essenciais, como embarcações para patrulhamento marítimo”

Nelson Belo, diretor da Fundasaun Mahein

Como avalia a evolução da segurança nacional timorense desde a restauração da independência?

“A situação atual de Timor-Leste é considerada mais estável do que no início do período pós-independência. No entanto, continuam a existir fragilidades estruturais ao nível do policiamento, da gestão de fronteiras, da capacidade institucional e da resiliência económica. Alguns dos principais progressos do país incluem a prevenção de episódios de violência política e de grandes crises, como as que ocorreram em 2006 e 2008. O país também tem conseguido manter eleições regulares, embora, em alguns anos, tenham ocorrido eleições antecipadas que não decorreram da forma ideal. Ainda assim, o Estado conseguiu responder e manter a estabilidade institucional.

Timor-Leste também tem conseguido avançar na integração regional, nomeadamente com a adesão à ASEAN, bem como na cooperação em matéria de segurança com países como a Austrália, a Indonésia e outros parceiros estratégicos, incluindo a China, a Coreia do Sul, os Estados Unidos e também países historicamente ligados através da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Desde 2002, a situação de segurança evoluiu de um período de crise e instabilidade para uma fase de recuperação e estabilidade. Após a resolução dos episódios de 2006 e 2008, várias avaliações indicam que as autoridades civis conseguiram manter o controlo efetivo do setor da segurança, reforçando o princípio da supremacia civil sobre as forças militares.

No entanto, os desafios estruturais continuam a existir. Relatórios de organizações como a Fundasaun Mahein indicam que não existe risco imediato de conflito aberto, mas persistem fragilidades institucionais. O orçamento destinado ao setor da segurança nem sempre é executado de forma eficiente, e existe falta de recursos essenciais, como embarcações para patrulhamento marítimo. O investimento na modernização das forças de segurança continua a ser insuficiente. A polícia e as forças de defesa continuam a operar a um ritmo lento de modernização, apresentando limitações na capacidade de investigação e nos processos legais. Isto enfraquece a confiança no Estado de direito e afeta a segurança pública.

Por outro lado, também são reconhecidos progressos importantes, como a consolidação da estabilidade interna, as reformas no setor da segurança e o reforço da disciplina e da neutralidade institucional. Apesar disso, continuam a verificar-se casos de interferência política na atuação de algumas instituições. A adesão de Timor-Leste à ASEAN criou uma plataforma diplomática mais forte e reforçou a integração regional e o diálogo em matéria de segurança.

A Fundasaun Mahein também apresenta recomendações que servem como diagnóstico do setor da segurança ao longo dos 24 anos de independência. Defende a criação de uma política nacional de segurança que sirva de orientação estratégica, permitindo identificar riscos e ameaças e orientar o desenvolvimento das instituições de segurança de acordo com a realidade interna e externa.

Recomenda ainda o reforço do profissionalismo e da capacidade investigativa da polícia através de formação contínua, de uma maior alocação orçamental para o setor da segurança e de uma melhor manutenção das infraestruturas. Não se deve focar apenas nos salários, mas também na melhoria das condições operacionais e na gestão integrada das fronteiras, como no caso de Naktuka.”

“Em certas ocasiões, usamos essa liberdade dentro do quadro da Constituição, mas sem contenção. Às vezes expressamos os nossos desejos e opiniões sem moderação e sem respeitar plenamente a ética e a moral”

Expedito Ximenes, Secretário de Estado da Comunicação Social

Num país em que o jornalismo foi fundamental na luta pela independência, considera que hoje os jornalistas em Timor-Leste são verdadeiramente livres e independentes, tendo em conta relatos de autocensura e de interferências nas redações?

“No mandato constitucional, o artigo 41.º da Constituição da República refere-se concretamente à liberdade de expressão e informação, bem como à liberdade de imprensa e dos meios de comunicação social.

Portanto, isto significa que este mandato constitucional, através do artigo 41.º, garante que todos os cidadãos têm direito ao acesso à informação. O Estado, através do Governo, continua a garantir a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, assegurando que não pode haver intervenção na política editorial dos órgãos de comunicação social. Este é, portanto, um dos princípios do nono Governo Constitucional.

Todos sabem que o nosso Presidente da República e o nosso Primeiro-Ministro são dois líderes provenientes da área da comunicação social. São veteranos da comunidade mediática. Por isso, compreendem a importância de garantir esta liberdade de expressão e liberdade de imprensa.

No entanto, com o avanço da tecnologia, estamos atualmente a atravessar uma situação em que, infelizmente, nós, cidadãos, por vezes não utilizamos esta liberdade de expressão com limites. Em certas ocasiões, usamos essa liberdade dentro do quadro da Constituição, mas sem contenção. Às vezes expressamos os nossos desejos e opiniões sem moderação e sem respeitar plenamente a ética e a moral.

Para mim, enquanto pessoa que também vem da comunidade mediática, posso dizer que este Governo, apesar de conceder vários apoios aos órgãos de comunicação social, sejam convencionais, privados ou plataformas digitais online, nunca quis intervir na política de redação ou na política editorial. Porquê? Porque o Governo entende que o artigo 41.º da Constituição garante a liberdade de expressão e de imprensa. Além disso, o artigo 40.º estabelece que não pode haver censura nas atividades de produção jornalística.

Assim, o Governo está atualmente a preparar a revisão da Lei da Comunicação Social. Isto não significa que o Governo pretenda criminalizar o produto jornalístico. Isso está muito longe da realidade. O Governo pretende apenas proceder a esta revisão para simplificar a redação da lei, que anteriormente não estava suficientemente clara.

Em segundo lugar, o Governo pretende atribuir mais competências ao Conselho de Imprensa para monitorizar os produtos jornalísticos nas plataformas digitais. Na atual Lei da Comunicação Social, ainda não está claramente definida a competência do Conselho de Imprensa para monitorizar os conteúdos jornalísticos nas plataformas digitais online. Por isso, esta revisão pretende reforçar as competências do Conselho de Imprensa para acompanhar os produtos jornalísticos, especialmente nas plataformas digitais.

Esta revisão não vai alterar aquilo que algumas pessoas possam pensar, nem tem como objetivo criminalizar o jornalismo. Isso está muito longe dessa intenção. O objetivo é apenas tornar a redação da lei mais simples e mais clara.

Portanto, este Governo continua a garantir a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. No entanto, com o avanço da tecnologia e com a presença da inteligência artificial, nós, cidadãos, por vezes utilizamos esta liberdade sem limites e sem respeitar a ética e a moral.”

“A falta de conhecimento público sobre estas experiências contribui para a desvalorização e a falta de respeito pelas vítimas, especialmente no caso da violência sexual, muitas vezes interpretada de forma errada ou reduzida a estigma”

Manuela Leong Pereira, diretora da Acbiit

Porque é importante continuar a ouvir e reconhecer as vítimas da violência durante a ocupação e a luta pela independência?

“Durante muitos anos, temos vindo a trabalhar continuamente com sobreviventes, refletindo sobre o que ainda precisa de ser feito para garantir os seus direitos e a sua reparação. Após décadas de conflito, continua a não existir uma política específica e consistente que coloque os sobreviventes no centro da atenção do Estado.

Muitos sobreviventes já são idosos, outros estão doentes, alguns já faleceram, e muitos continuam a viver com traumas profundos. Este sofrimento não termina neles próprios, mas estende-se às suas famílias, filhos e netos. Isto é particularmente grave no caso das pessoas que sofreram violência sexual e dos filhos nascidos dessa violência, muitos dos quais continuam a enfrentar estigma, discriminação e falta de apoio.

Quando falamos destes sobreviventes, muitas vezes são vistos como pessoas sem poder. No entanto, mesmo sendo considerados vulneráveis, continuam a ter direito ao acesso à justiça e à reparação. Infelizmente, na prática, esse acesso continua limitado e muitas vezes ignorado.

Enquanto timorenses que também contribuíram para a nação, estes sobreviventes merecem políticas públicas que lhes garantam dignidade e melhores condições de vida. Um dos aspetos fundamentais é o reconhecimento. Tal como o Estado atribui prémios e distinções a personalidades nacionais e estrangeiras, também os sobreviventes deveriam ser devidamente reconhecidos pelo seu contributo e pelo sofrimento que suportaram em nome da nação. Este reconhecimento continua a ser uma exigência dos próprios sobreviventes.

Sem o trabalho de organizações como a ACbit e a Pirilampu, muitas destas histórias continuariam desconhecidas. A falta de conhecimento público sobre estas experiências contribui para a desvalorização e a falta de respeito pelas vítimas, especialmente no caso da violência sexual, muitas vezes interpretada de forma errada ou reduzida a estigma.

Quando estas histórias são finalmente partilhadas, algumas autoridades locais começam a demonstrar mais respeito e apoio. Isto mostra a importância de dar voz aos sobreviventes. Através da preservação e divulgação destas narrativas, sobretudo junto das gerações mais jovens, torna-se possível compreender que, em tempos de guerra, as mulheres foram particularmente vulneráveis à violência, sofrendo impactos profundos e duradouros, incluindo traumas que persistem até aos dias de hoje.”

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