Roubos de telemóveis: entre a insegurança nas ruas e as causas sociais da criminalidade

Roubo de telemóvel de um peão captado por CCTV. / Foto: DR

Os roubos de telemóveis voltaram a estar em destaque após vários incidentes, alguns dos quais resultaram em ferimentos graves e até em mortes. Estes crimes, que têm como alvo pessoas que circulam na via pública, continuam a alimentar a preocupação da população quanto à segurança nos espaços públicos.

Os telemóveis tornaram-se parte integrante do quotidiano e são hoje um dos principais alvos da criminalidade de rua. Os roubos por esticão, cometidos de forma rápida e inesperada, têm levado muitas pessoas a alterar os seus hábitos por receio de serem vítimas destes crimes.

No mês passado, a morte de uma menina de 14 anos, na sequência de um assalto em Díli (https://www.diligenteonline.com/por-tras-da-tragedia-da-praia-dos-coqueiros-criminalidade-juvenil-e-desafios-para-o-futuro-de-timor-leste/), voltou a colocar em evidência a criminalidade juvenil e os desafios que o país enfrenta nesta matéria. Apesar da atenção gerada por esse caso, continuam a registar-se roubos semelhantes, sobretudo nas zonas urbanas, agravando o sentimento de insegurança da população.

Vítimas e cidadãos perdem o sentimento de segurança

O aumento dos roubos de telemóveis em Díli tem levado muitas pessoas a adotar maiores precauções quando circulam na via pública. Para várias vítimas, os prejuízos não se limitaram à perda dos bens, mas traduziram-se também numa mudança dos hábitos diários e da forma como transportam objetos de valor.

Caryn Camões foi uma dessas vítimas. Conta que escapou por pouco ao furto do telemóvel, depois de um suspeito ter recorrido a uma manobra de distração para desviar a sua atenção antes de tentar apoderar-se do aparelho.

Segundo Caryn, a frequência destes casos tem feito crescer o receio de utilizar o telemóvel ou transportar dinheiro em espaços públicos.

“Agora sinto-me insegura quando uso o telemóvel ou levo dinheiro em espaços públicos. Estes casos acontecem frequentemente e fazem com que as pessoas percam os seus bens e, em alguns casos, até a vida”, afirmou.

Na sua opinião, este tipo de crime ocorre sobretudo nas zonas urbanas, em especial em Díli. Por isso, defende que o Governo deve dar maior prioridade à segurança pública para evitar novos casos.

Considera ainda que a instalação de câmaras de videovigilância pode facilitar a identificação dos autores dos crimes e reforçar o sentimento de segurança da população. Defende igualmente uma aplicação mais rigorosa da lei aos responsáveis pelos crimes de rua.

“É necessário ter uma lei rigorosa e uma boa segurança pública para prevenir este tipo de casos”, afirmou.

Jaime Mendonsa Lopes viveu uma experiência semelhante. O telemóvel foi-lhe roubado quando regressava a pé para Santa Cruz, depois de sair de um transporte público em Balide. Enquanto segurava o aparelho, duas pessoas numa motorizada aproximaram-se repentinamente, arrancaram-lho da mão e colocaram-se em fuga.

Ainda tentou pedir ajuda, mas os suspeitos desapareceram rapidamente. No dia seguinte apresentou queixa na esquadra da Polícia em Nain Feto-Balide.

A investigação acabou, porém, por enfrentar dificuldades. O local não dispunha de câmaras de videovigilância (CCTV) e Jaime não conseguiu identificar a matrícula da motorizada, uma vez que tudo aconteceu em poucos segundos.

“Como o incidente aconteceu de forma inesperada, não consegui ver a matrícula da motorizada utilizada”, disse.

A experiência alterou também os seus hábitos. Atualmente evita segurar o telemóvel enquanto caminha ou colocá-lo na parte frontal da motorizada. Considera que a prevenção depende igualmente dos próprios cidadãos.

“Nós próprios temos de garantir a nossa segurança e guardar bem os objetos importantes quando estamos em espaços públicos”, afirmou.

Ainda assim, defende que as autoridades devem reforçar a segurança nos espaços públicos e aplicar medidas legais mais rigorosas aos autores destes crimes, de forma a aumentar o seu efeito dissuasor.

Relia Costa foi também vítima de roubo de telemóvel, no dia 7 de junho, na zona de Rai-Kotu, em Díli. Conduzia uma motorizada com as duas sobrinhas em direção a Kasnafar quando outra mota se aproximou por trás.

Num primeiro momento, pensou que seria ultrapassada. No entanto, segundos depois, o passageiro da outra motorizada arrancou o telemóvel que transportava na parte frontal do veículo e fugiu imediatamente.

Relia ainda tentou perseguir os suspeitos, mas desistiu quando um camião surgiu em sentido contrário, colocando em risco a sua segurança.

Após apresentar queixa, a investigação permitiu às autoridades deter alguns suspeitos de integrarem uma rede criminosa. Com base nas informações recolhidas durante os interrogatórios, a polícia deteve posteriormente dois indivíduos suspeitos de terem cometido o roubo. O processo foi entretanto remetido ao Ministério Público.

Embora tenha recuperado o telemóvel, perdeu toda a informação armazenada no equipamento, que foi reiniciado depois de ter sido vendido por cerca de 20 dólares americanos.

Antes deste episódio, Relia via Díli como uma cidade relativamente segura. Hoje admite que essa perceção mudou.

“Antes achava que Díli era uma cidade segura. Mas, depois deste incidente, comecei a sentir que, especialmente para as mulheres, a segurança nos espaços públicos já não é suficiente”, afirmou.

Através do processo judicial, ficou ainda com a perceção de que este tipo de crimes pode envolver grupos organizados e não apenas indivíduos isolados. Ainda assim, diz confiar no trabalho das autoridades.

“Confio totalmente nas autoridades para tratarem este caso de acordo com a lei”, concluiu.

Embora nem todos tenham sido vítimas diretas, os sucessivos casos de roubo têm alterado os hábitos da população relativamente à proteção dos seus bens.

Joaninha de Carvalho nunca foi assaltada, mas admite que os episódios recentes — incluindo alguns que resultaram em mortes — mudaram a forma como encara a segurança. Sempre que sai de casa, guarda o telemóvel dentro da mala e evita utilizá-lo enquanto caminha.

“Mesmo que nunca me tenha acontecido diretamente, sinto-me com medo e insegura. Agora, quando saio para a rua, guardo o telemóvel dentro da mala para evitar este tipo de situações”, afirmou.

Na sua opinião, os assaltos deixaram de ser casos isolados e passaram a fazer parte do quotidiano da população. Defende, por isso, um reforço da aplicação da lei, incluindo aos menores que pratiquem crimes graves.

Considera igualmente necessário aumentar o número de patrulhas policiais, instalar mais câmaras de videovigilância nas zonas de maior risco e melhorar a proteção da população.

“O Governo deve garantir a segurança nos espaços públicos e nos bairros onde estes casos de roubo de telemóveis acontecem frequentemente. Assim, os cidadãos poderão viver com mais tranquilidade”, afirmou.

Uma opinião semelhante é partilhada por Joni Soares. Embora reconheça que a população está hoje mais cautelosa ao transportar bens de valor, considera que a sensação de insegurança resulta de fatores mais profundos.

Na sua perspetiva, o aumento da criminalidade está associado a vários problemas sociais, entre os quais a falta de educação no seio familiar e as dificuldades económicas.

Joni entende que, apesar de as pessoas estarem hoje mais alerta, a cidade continua a apresentar fragilidades ao nível da segurança. Muitas ruas permanecem sem câmaras de videovigilância e a iluminação pública continua a ser insuficiente em várias zonas.

“Nem todos os locais têm CCTV, e algumas luzes da via pública ainda não funcionam corretamente. Isso faz com que as pessoas não se sintam seguras”, afirmou.

Defende, por isso, que o Governo acelere a instalação de câmaras de videovigilância, melhore a iluminação pública e reforce a presença policial nas áreas mais vulneráveis ao crime.

PNTL revela aumento dos roubos em vias públicas e apela ao reforço da vigilância

Os receios manifestados pela população refletem-se também nos dados da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL). Segundo a Secção de Investigação Criminal do Município de Díli, entre janeiro e julho de 2026 foram registados 12 furtos em vias públicas e espaços abertos, a maioria na zona de Dom Aleixo e áreas circundantes.

O chefe da Secção de Investigação Criminal de Díli, superintendente-assistente Rogério dos Reis, explicou que a maioria dos casos envolve o furto de telemóveis e carteiras, praticado por grupos que circulam em motorizadas.

“Estes casos ocorrem maioritariamente em vias públicas e já identificámos alguns suspeitos. No entanto, ainda não podemos divulgar as suas identidades, uma vez que a investigação continua e algumas vítimas ainda não forneceram informações completas”, afirmou Rogério dos Reis.

Segundo o responsável, a investigação baseia-se na recolha de testemunhos e na análise de imagens de videovigilância. Contudo, a ausência de câmaras em vários locais continua a dificultar a identificação dos suspeitos.

“Utilizamos vários métodos de investigação, como testemunhas oculares e imagens de CCTV. Contudo, em algumas zonas não existem câmaras, o que dificulta a identificação dos suspeitos”, acrescentou.

A PNTL explica que os autores destes crimes atuam, regra geral, aos pares e deslocam-se em motorizadas, aproveitando momentos de distração das vítimas para subtrair telemóveis, carteiras e outros objetos de valor antes de abandonarem rapidamente o local.

“Os autores destes crimes circulam geralmente em motorizadas, aos pares, e aproveitam os momentos em que as vítimas estão distraídas. Observam telemóveis ou carteiras visíveis e rapidamente cometem o furto antes de se colocarem em fuga”, explicou.

Um dos casos que ganhou maior visibilidade ocorreu na zona da Praia dos Coqueiros, onde duas mulheres foram vítimas de roubo. Graças às imagens de CCTV, a polícia conseguiu identificar e deter os suspeitos, posteriormente constituídos arguidos e sujeitos a processo judicial.

“Já detivemos alguns suspeitos com base em imagens de CCTV e estes encontram-se a responder judicialmente pelos factos. Um dos indivíduos já se encontra a cumprir pena, de acordo com a decisão do tribunal”, referiu.

Face ao aumento deste tipo de criminalidade, a PNTL recomenda à população que adote medidas de autoproteção, evitando transportar bens de valor de forma visível, sobretudo quando circula a pé ou de motorizada.

Segundo a polícia, as zonas menos movimentadas e com menor cobertura de videovigilância continuam a ser as mais procuradas pelos autores destes crimes.

“Por isso, apelamos à população para que esteja sempre atenta e não facilite a atuação dos criminosos”, reforçou.

A PNTL acrescenta que continua a reforçar o patrulhamento nas áreas consideradas mais vulneráveis, apesar das limitações de efetivos e da reduzida cobertura policial em algumas zonas.

Fundasaun Mahein: Os roubos por esticão refletem uma crise social e a falta de investimento no desenvolvimento humano

Para o diretor da Fundasaun Mahein, Nelson Belo, o aumento dos roubos de telemóveis e de outros crimes de rua não deve ser analisado apenas como um problema de segurança pública. Na sua perspetiva, trata-se da consequência de problemas sociais acumulados ao longo de décadas, associados ao reduzido investimento do Estado no desenvolvimento dos recursos humanos.

Segundo Nelson Belo, desde a restauração da independência, a atenção dos sucessivos governos tem incidido sobretudo em agendas políticas e em questões históricas, enquanto áreas como a educação, a formação cívica e o desenvolvimento humano permaneceram em segundo plano.

“Durante mais de duas décadas após a restauração da independência, o investimento no desenvolvimento humano, na educação e na ordem social não foi uma prioridade. Tem-se dado mais atenção a outras questões, mas o investimento na formação de pessoas com valores e responsabilidade social continua a ser bastante reduzido”, afirmou.

Na sua opinião, o Estado privilegiou a criação de leis e regulamentos sem acompanhar esse esforço com um investimento consistente na educação cívica, na formação do caráter e na promoção do respeito pela vida e pelos bens alheios.

Acrescenta que muitas políticas públicas continuam a ser elaboradas sem estudos suficientemente aprofundados, dificultando a identificação das causas estruturais dos problemas sociais e dos riscos que afetam atualmente a sociedade timorense.

Por isso, defende que os programas de desenvolvimento sejam concebidos com base em investigação científica e com o contributo de especialistas de diferentes áreas, para que respondam de forma mais eficaz às necessidades da população.

Nelson Belo identifica ainda a degradação da qualidade da educação e a escassez de oportunidades de emprego como fatores que contribuem para o aumento do desemprego e, consequentemente, para uma maior exposição de alguns jovens à criminalidade.

“Se o investimento nos recursos humanos e na educação não mudar, o desemprego continuará a aumentar e crimes como roubos e atos de violência poderão continuar a acontecer”, afirmou.

Para a Fundasaun Mahein, Timor-Leste enfrenta atualmente uma crise social que ultrapassa a dimensão da segurança pública. Nelson Belo considera que o problema exige políticas de longo prazo centradas no desenvolvimento humano, e não apenas respostas assentes na aplicação da lei.

Nesse sentido, propõe a realização de um estudo nacional sobre a situação social da juventude, que sirva de base à definição de políticas públicas mais eficazes.

“Este assunto não é apenas um problema de segurança. Trata-se de uma crise da juventude e de uma crise da ordem social, que exige um debate nacional e políticas públicas baseadas em investigação”, sublinhou.

Nelson Belo alerta ainda que, sem uma mudança de rumo, Timor-Leste poderá enfrentar desafios sociais ainda mais graves na próxima década. Defende, por isso, uma estratégia integrada que passe pela reforma do sistema educativo, pelo reforço das oportunidades de emprego para os jovens, pela melhoria da qualidade dos recursos humanos e pela promoção de uma cultura de paz e de respeito pela lei.

“Investir nas pessoas é investir no futuro da nação. Se queremos reduzir a criminalidade, é preciso começar pela educação, pelas oportunidades de emprego e pelo desenvolvimento humano”, concluiu.

Resposta do Governo

Em resposta ao aumento dos roubos por esticão, o ministro do Interior, Francisco da Costa Guterres, garantiu que o Governo continua a trabalhar em conjunto com a Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) para combater este tipo de criminalidade.

Segundo o governante, vários suspeitos já foram detidos. Ainda assim, sublinhou que o sucesso das investigações depende também da colaboração da população, através da denúncia de comportamentos suspeitos às autoridades.

“O mais importante é a cooperação da população com a PNTL. Quando ocorre um crime, os cidadãos devem ter a coragem de o denunciar, porque a polícia precisa dessas denúncias para investigar e desmantelar as redes criminosas”, afirmou.

O ministro reconheceu igualmente que a investigação continua a enfrentar dificuldades, sobretudo em locais onde não existem câmaras de videovigilância. Apesar dessas limitações, garantiu que a polícia prossegue as investigações até à identificação e detenção dos responsáveis.

Por sua vez, o ministro dos Transportes e Comunicações, Miguel Manetelo, explicou que a cobertura do sistema público de videovigilância continua a ser reduzida. As câmaras instaladas pelo Governo concentram-se maioritariamente nos cruzamentos com semáforos, permanecendo muitas outras zonas sem este tipo de vigilância.

“Atualmente, as câmaras CCTV do Governo estão, na sua maioria, instaladas em interseções com semáforos. Noutros locais, a cobertura continua a ser bastante limitada, embora em algumas zonas existam câmaras instaladas por entidades de segurança ou outras instituições”, afirmou.

Enquanto o Governo aposta no reforço da vigilância e da investigação criminal, especialistas defendem que a resposta ao aumento dos roubos de telemóveis terá de ir além das medidas de segurança. Num contexto em que este tipo de crime continua a afetar o quotidiano da população, o desafio passa também por responder às suas causas sociais e investir em soluções que contribuam para prevenir a criminalidade a longo prazo.

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