Com cada vez mais crianças e adolescentes a utilizarem diariamente o TikTok, o Facebook e o YouTube, crescem também as preocupações sobre a exposição a conteúdos inadequados, os impactos na saúde mental e a falta de supervisão no espaço digital. Pais, jovens e especialistas defendem mais literacia digital e uma utilização mais responsável das plataformas.
O telemóvel tornou-se um objeto quase inseparável do quotidiano de muitas crianças e adolescentes timorenses. Com o aumento do acesso à internet e aos smartphones, plataformas como o TikTok, o Facebook e o YouTube passaram a fazer parte da rotina de milhares de jovens, que recorrem às redes sociais para comunicar, estudar, procurar informação e divertir-se.
A tendência acompanha o crescimento global da utilização da internet. Segundo a União Internacional das Telecomunicações (ITU), cerca de seis mil milhões de pessoas, o equivalente a 74% da população mundial, utilizam a internet em 2025, um aumento significativo face aos 60% registados em 2020.
Em Timor-Leste, as redes sociais são cada vez mais utilizadas por crianças e adolescentes. Contudo, à medida que o acesso ao mundo digital se expande, aumentam também as preocupações quanto à segurança dos menores online. Entre pais, jovens e especialistas, cresce o alerta para a facilidade com que conteúdos considerados inadequados chegam aos ecrãs de crianças e adolescentes, muitas vezes sem que estes os procurem.
Para muitos jovens, as redes sociais são uma ferramenta importante de aprendizagem. Para outros, representam sobretudo um espaço de entretenimento. Mas quase todos reconhecem que o ambiente digital traz consigo riscos que exigem maior atenção por parte das famílias, das escolas e das próprias plataformas.
Sílvina Pereira Barros de Jesus Soares Mesquita, de 14 anos, utiliza diariamente várias plataformas digitais, entre elas o TikTok, o YouTube, o Facebook e o Google.
A estudante explica que as redes sociais desempenham diferentes funções no seu dia a dia. Algumas servem para entretenimento; outras ajudam-na nos estudos.
“Normalmente, uso o TikTok para ver vídeos e dançar, depois o YouTube para ver filmes. Para os trabalhos da escola, pesquiso no Google ou no Facebook, porque, por vezes, não compreendo bem as matérias lecionadas pelos professores”, contou ao Diligente.
No entanto, afirma que encontra frequentemente conteúdos que considera inadequados para a sua idade, sobretudo no TikTok. “Já vi transmissões em direto no TikTok que mostram conteúdos inadequados, que, na minha opinião, não são apropriados para os jovens. Isto pode influenciar a nossa forma de pensar”, afirmou.
Segundo a estudante, este tipo de conteúdos surge muitas vezes sem que os utilizadores o procurem. “Sinto-me desconfortável e triste, porque o corpo é algo que deve ser protegido. Mas, hoje em dia, muitas pessoas mostram esse tipo de coisas nas redes sociais, e isso pode levar outras crianças a imitá-las”, acrescentou.
A preocupação é partilhada por Giográcio Lopes, de 23 anos, que considera que as redes sociais se transformaram, em muitos casos, numa plataforma de procura de notoriedade e de ganhos financeiros. “Atualmente, muitas pessoas fazem transmissões em direto de forma pouco apropriada apenas para ganhar dinheiro ou popularidade. Isto pode fazer com que pessoas percam o respeito por si próprias”, afirmou.
Segundo Giográcio, existe uma diferença importante entre as várias plataformas. “No YouTube, os conteúdos aparecem normalmente de acordo com aquilo que procuramos. Já no TikTok e no Facebook surgem automaticamente. Não precisamos de procurar e, por isso, qualquer pessoa os pode ver, incluindo crianças.”
O jovem considera que esta facilidade de acesso torna os menores particularmente vulneráveis à exposição a conteúdos inadequados. “Os pais devem prestar mais atenção aos seus filhos. Atualmente, as crianças têm fácil acesso aos telemóveis e às redes sociais, pelo que é necessária uma supervisão mais rigorosa.”
Apesar das preocupações, tanto Sílvina como Giográcio reconhecem que as redes sociais podem ter uma utilização positiva, desde que sejam usadas de forma responsável. “As redes sociais devem ser usadas para fins positivos, como estudar e procurar informação, e não para comprometer o futuro”, defendem.
Pais preocupados com o que os filhos veem online
À medida que o acesso às redes sociais se torna mais comum entre crianças e adolescentes, muitos pais admitem sentir-se cada vez mais preocupados com os conteúdos a que os filhos estão expostos.
O TikTok é frequentemente apontado como uma das plataformas que mais suscita preocupações, devido à facilidade com que os vídeos e as transmissões em direto surgem no ecrã dos utilizadores.
Agripina Soares, mãe de uma estudante do 3.º ano do ensino secundário, conta que a filha utiliza o TikTok quase todos os dias, sobretudo para ver vídeos e dançar com os amigos, enquanto recorre ao Facebook para acompanhar as publicações dos colegas. “A minha filha usa o TikTok todos os dias, normalmente depois de chegar da escola ou nos tempos livres. Dança e vê vídeos com os amigos”, disse.
Embora procure acompanhar a atividade digital da filha, Agripina admite que a supervisão nem sempre é fácil. “Não consigo vigiá-la permanentemente porque também tenho de tratar das tarefas de casa. Mas aconselho-a sempre a não passar demasiado tempo ao telemóvel.”
A mãe reconhece que as redes sociais têm aspetos positivos, mas considera que os riscos são igualmente evidentes, sobretudo para crianças e adolescentes. “Nas redes sociais há coisas boas e coisas más. Como a minha filha ainda tem 15 anos, preocupo-me muito com a possibilidade de ser influenciada por conteúdos inadequados.”
Agripina diz que já encontrou a filha a visualizar conteúdos que considera impróprios para a sua idade. “Já a vi a ver vídeos que não são apropriados para a idade dela. Chamei-a a atenção e proibi-a de os continuar a ver.”
Na sua opinião, a orientação dos pais é fundamental para evitar que os menores tenham acesso livre a conteúdos potencialmente prejudiciais. “Os pais devem orientar e supervisionar os filhos na utilização das redes sociais.”
Uma preocupação semelhante é partilhada por Etelvina Gouveia Magno, que considera cada vez mais difícil controlar a utilização dos telemóveis em casa.
Segundo a mãe, a filha utiliza o TikTok quase todos os dias e, por vezes, permanece na plataforma até tarde. “Vejo frequentemente a minha filha a usar o TikTok quase todos os dias, mesmo depois da escola. Por vezes, fica até à noite a ver vídeos ou a dançar no TikTok.”
Etelvina admite que os pais enfrentam dificuldades em acompanhar permanentemente a atividade dos filhos na internet. “Não podemos estar com os nossos filhos 24 horas por dia, porque também temos de trabalhar. Por isso, a supervisão só pode ser feita em determinados momentos.”
Por vezes, acrescenta, é necessário impor limites. “Quando ela passa demasiado tempo ao telemóvel, fico zangada e chamo-lhe a atenção. Às vezes, até lhe retiro o telemóvel durante algum tempo.”
Apesar das preocupações, Etelvina reconhece que as plataformas digitais também podem ser utilizadas de forma positiva, sobretudo para fins educativos. “Na minha opinião, o YouTube é mais seguro porque pode ser utilizado para aprender e aceder a conteúdos educativos.”
As duas mães concordam que a tecnologia faz hoje parte da vida das crianças e dos adolescentes e que proibir totalmente o acesso às redes sociais dificilmente será uma solução. Ainda assim, defendem uma maior participação dos pais na orientação e acompanhamento dos filhos no espaço digital.
A crescente utilização das redes sociais coloca novos desafios às famílias timorenses.
Por um lado, as plataformas digitais oferecem oportunidades de aprendizagem, comunicação e acesso à informação. Por outro, a facilidade de acesso a conteúdos inadequados, a exposição prolongada aos ecrãs e a dificuldade de supervisão por parte dos pais geram preocupações cada vez maiores.
Para muitas famílias, o desafio consiste em encontrar um equilíbrio entre permitir que as crianças beneficiem das oportunidades oferecidas pela internet e, ao mesmo tempo, protegê-las dos riscos associados ao ambiente digital.
É uma tarefa que, segundo especialistas e pais, exige não apenas vigilância, mas também diálogo, orientação e educação digital desde cedo.
O impacto das redes sociais no desenvolvimento de crianças e adolescentes
Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, a infância e a adolescência são períodos decisivos para o desenvolvimento do cérebro, em particular do córtex pré-frontal, a região responsável pela tomada de decisões, pelo autocontrolo, pelo planeamento e pela regulação emocional.
Segundo o especialista, esta área do cérebro apenas atinge a sua maturidade completa por volta dos 25 anos de idade, o que torna crianças e adolescentes mais vulneráveis aos efeitos de determinados estímulos, incluindo aqueles que encontram no ambiente digital.
“As crianças e os adolescentes ainda estão numa fase de desenvolvimento neurológico e emocional. Por isso, podem ter mais dificuldade em gerir impulsos, controlar emoções e avaliar os riscos associados a determinados comportamentos”, explicou ao Diligente.
De acordo com Alessandro, as redes sociais são concebidas para captar e manter a atenção dos utilizadores. Notificações, vídeos curtos, comentários e novos conteúdos surgem constantemente, criando estímulos rápidos e sucessivos.
“Esta exposição contínua a estímulos rápidos pode fazer com que crianças e adolescentes desenvolvam mais dificuldades de autocontrolo, se aborreçam com maior facilidade e tenham menor capacidade de concentração em atividades que exigem mais atenção, como estudar ou ler”, afirmou.
O psicólogo refere que o hábito de deslizar continuamente o ecrã à procura de novos conteúdos pode contribuir para uma necessidade crescente de gratificação imediata. “Quando o cérebro se habitua a receber estímulos constantes e recompensas rápidas, atividades mais lentas ou que exigem maior esforço podem tornar-se menos atrativas.”
Ansiedade, comparação social e isolamento
Além da capacidade de concentração, Alessandro alerta para os efeitos que as redes sociais podem ter na saúde mental.
Segundo o especialista, a exposição permanente a notificações, comentários e interações online pode aumentar os níveis de ansiedade, sobretudo entre adolescentes que ainda se encontram em processo de desenvolvimento emocional.
As comparações constantes com outras pessoas nas redes sociais podem também afetar a autoestima. “Muitos jovens tendem a comparar a sua vida com aquilo que veem na internet. No entanto, aquilo que é publicado nas redes sociais corresponde, muitas vezes, apenas a uma pequena parte da realidade.”
O psicólogo alerta igualmente para o risco de isolamento social. “Alguns jovens acabam por substituir parte das suas interações presenciais pelas interações online. Em certos casos, isso pode contribuir para sentimentos de solidão, tristeza ou dificuldades nas relações interpessoais.”
Entre os sinais de alerta a que os pais devem estar atentos estão alterações de humor, irritabilidade, ansiedade, tristeza prolongada, perturbações do sono, diminuição do rendimento escolar, perda de interesse em atividades anteriormente apreciadas e tendência para o isolamento.
“Se vários destes sintomas surgirem em simultâneo e persistirem durante um período prolongado, os pais devem procurar apoio profissional na área da saúde mental”, aconselhou.
O risco de normalizar comportamentos negativos
Alessandro alerta ainda para a facilidade com que crianças e adolescentes podem imitar comportamentos observados nas redes sociais.
Violência verbal, discursos de ódio, comportamentos agressivos ou desafios perigosos podem, segundo o especialista, ser encarados como normais quando os menores são expostos repetidamente a esse tipo de conteúdos.
“As crianças aprendem muito através da observação e da imitação. Quando determinados comportamentos aparecem de forma repetida e parecem ser aceites ou recompensados, existe o risco de serem vistos como algo normal.”
Por isso, considera que a proteção das crianças não depende apenas de restringir o acesso às redes sociais, mas também de ajudá-las a compreender aquilo que veem.
O papel dos pais: mais diálogo, menos proibição
Apesar dos riscos, Alessandro sublinha que as redes sociais não são, por si só, prejudiciais. “As redes sociais não são sempre más. O problema está na forma como são utilizadas, no tempo de exposição e na qualidade dos conteúdos consumidos.”
Na sua opinião, o mais importante é criar uma relação de confiança entre pais e filhos. “O mais importante é construir uma relação de confiança para que a criança se sinta confortável em falar sobre o que vê e experiencia no mundo digital.”
O psicólogo considera ainda que os pais devem estabelecer regras adequadas à idade, conhecer as plataformas utilizadas pelos filhos e promover a literacia digital. “O objetivo não é proibir o uso das redes sociais, mas ajudar crianças e adolescentes a utilizá-las de forma segura, equilibrada e responsável, protegendo a sua saúde mental e o seu desenvolvimento.”
Algoritmos, desinformação e a necessidade de literacia digital
À medida que o acesso à internet aumenta em Timor-Leste, cresce também a necessidade de preparar crianças e adolescentes para um ambiente digital cada vez mais complexo.
Para o investigador e facilitador de literacia digital Miqueias da Conceição, as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de entretenimento e passaram a desempenhar um papel importante na comunicação, na educação e até nos negócios.
No entanto, este desenvolvimento trouxe novos desafios, entre os quais a disseminação de desinformação e a exposição de menores a conteúdos inadequados.
“Conteúdos vulgares ou inadequados podem afetar o comportamento, a linguagem, os valores e a saúde mental das crianças. Além disso, estas podem imitar comportamentos negativos que observam nas redes sociais”, afirmou.
Segundo Miqueias, um dos principais desafios está relacionado ao funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais.
Os algoritmos são sistemas que analisam o comportamento dos utilizadores e lhes apresentam conteúdos que, à partida, têm maior probabilidade de captar a sua atenção. Na prática, isso significa que vídeos ou publicações populares podem ser recomendados repetidamente, independentemente de serem adequados para a idade de quem os vê.
“Crianças e adolescentes correm um risco acrescido de serem expostos a conteúdos impróprios, porque muitos utilizadores acedem às redes sociais sem supervisão parental e sem restrições adequadas”, explicou.
O investigador alerta ainda para a criação das chamadas “bolhas informativas”, em que os utilizadores são expostos repetidamente a conteúdos semelhantes, podendo desenvolver uma perceção distorcida da realidade. “Quando uma pessoa vê o mesmo tipo de conteúdo muitas vezes, pode começar a pensar que esse comportamento é normal ou que representa a opinião da maioria das pessoas.”
Mais educação digital nas escolas
Para Miqueias, a resposta não passa apenas por limitar o acesso às plataformas digitais, mas sobretudo por investir na educação e na literacia digital. “As crianças precisam de ser ensinadas a utilizar as redes sociais de forma responsável, a desenvolver pensamento crítico e a denunciar conteúdos perigosos.”
Na sua opinião, as escolas devem assumir um papel mais ativo na promoção da segurança digital, ajudando os alunos a compreender como funcionam as plataformas e a distinguir informação credível de conteúdos prejudiciais ou falsos.
A literacia digital, defende, deve ser encarada como uma competência essencial no século XXI, à semelhança da leitura e da escrita. “Hoje em dia, saber utilizar a internet de forma segura e responsável é uma competência fundamental.”
O papel dos pais, do Governo e das plataformas
Miqueias considera que a construção de um ambiente digital seguro exige um esforço conjunto.
Os pais, afirma, devem acompanhar a utilização da internet pelos filhos, conversar com eles sobre os riscos existentes e estabelecer regras claras quanto ao tempo de utilização e aos conteúdos adequados à idade. As escolas devem reforçar a educação para a cidadania digital e para a segurança online.
Já o Governo, acrescenta, deve investir em programas de literacia digital e reforçar as políticas de proteção das crianças no ambiente digital. “É importante desenvolver programas de educação digital e cooperar com as plataformas para melhorar a monitorização dos conteúdos publicados.”
O investigador considera igualmente que os criadores de conteúdos têm uma responsabilidade acrescida, sobretudo numa altura em que as redes sociais desempenham um papel cada vez maior na formação de opiniões e comportamentos.
“Os criadores de conteúdos devem contribuir para a promoção de valores positivos e evitar a divulgação de conteúdos que prejudiquem a sociedade.”
Um debate ainda em construção em Timor-Leste
Embora a utilização das redes sociais continue a crescer no país, o debate sobre a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital ainda está numa fase inicial.
Especialistas defendem que a expansão do acesso à internet deve ser acompanhada por medidas de sensibilização, educação digital e proteção dos menores, de forma a garantir que os benefícios das tecnologias não sejam ultrapassados pelos riscos.
Para Miqueias, o desafio é encontrar um equilíbrio. “As redes sociais podem ser ferramentas muito úteis para aprender, comunicar e criar oportunidades. Mas é necessário garantir que as crianças e os jovens tenham as competências necessárias para navegar neste ambiente de forma segura e responsável.
Governo apela ao uso responsável das redes sociais
O Ministro dos Transportes e Comunicações, Miguel Manetelu, considera que a criação de um espaço digital mais seguro não depende apenas da ação do Estado, mas também da responsabilidade individual de cada utilizador.
Segundo o governante, a sociedade não deve esperar pela aprovação de novas leis para adotar comportamentos responsáveis no ambiente digital. “Para viver corretamente, a sociedade não precisa de esperar que o Governo faça leis”, afirmou.
As declarações do ministro refletem um dos principais desafios colocados pela expansão das tecnologias digitais em Timor-Leste: a necessidade de combinar o acesso crescente à internet com uma utilização mais consciente e segura das plataformas.
Um desafio que acompanha a transformação digital do país
As redes sociais vieram transformar a forma como os timorenses comunicam, aprendem e se relacionam.
Para muitas crianças e adolescentes, plataformas como o TikTok, o Facebook e o YouTube representam oportunidades de aprendizagem, de entretenimento e de contacto com o mundo.
Ao mesmo tempo, a facilidade de acesso a conteúdos inadequados, a exposição prolongada aos ecrãs, a desinformação e os impactos na saúde mental levantam novas preocupações para pais, professores e especialistas.
Apesar das diferenças de perspetiva, os entrevistados para esta reportagem convergem num ponto: proibir o acesso às redes sociais não é a solução.
A resposta passa, antes, por reforçar a supervisão parental, investir na literacia digital, promover o pensamento crítico e construir uma relação de confiança entre adultos e crianças.
Num país onde cada vez mais jovens crescem ligados à internet, o desafio será garantir que o mundo digital se torna um espaço de aprendizagem e de oportunidades, e não uma fonte de riscos para o desenvolvimento das novas gerações.























