Álcool entre os jovens em Timor-Leste: entre a pressão social e a fuga aos problemas

Especialistas alertam para os efeitos do consumo de álcool na saúde, na segurança e no desenvolvimento dos jovens em Timor-Leste.

Aquilo que começou como um simples convite de amigos durante a adolescência transformou-se, para muitos jovens timorenses, num hábito difícil de abandonar. Entre a influência do grupo, a procura de alívio para o stress, a facilidade de acesso às bebidas alcoólicas e normas culturais que associam o consumo à masculinidade e ao convívio social, especialistas alertam para um problema com impactos na saúde, nas relações familiares e no futuro das novas gerações.

Luís Francisco tinha pouco mais de 20 anos quando um acidente de viação, em 2020, lhe mudou a vida. Depois de passar o dia inteiro a consumir álcool, conduzia uma mota embriagado quando sofreu um acidente que lhe provocou ferimentos graves na perna e na parte esquerda das costas.

Apesar do tratamento intensivo a que foi submetido, aos 27 anos continua com dificuldades em andar normalmente. “Naquela altura, bebíamos desde manhã até à noite”, recordou.

Antes do acidente, Luís consumia regularmente bebidas alcoólicas, incluindo “tua mutin” e “tua sabu”. Conta que começou a beber depois dos 18 anos, influenciado pelos amigos.

Tal como muitos outros jovens, explica que recorria ao álcool depois de trabalhos pesados, por sentir que a bebida o ajudava a aliviar o stress. “Também consumo quando me sinto cansado depois de fazer trabalhos pesados, porque o álcool ajuda-me a não pensar demasiado e a ficar mais tranquilo”, afirmou.

Após o acidente, decidiu deixar de consumir álcool. Embora considere que esse episódio representou um ponto de viragem na sua vida, continua a lidar com as consequências físicas.

Dos convites dos amigos ao consumo habitual

Ezo da Costa, de 22 anos, teve o primeiro contacto com bebidas alcoólicas aos 16 anos, depois de ter sido influenciado por amigos da comunidade. Desde então, o consumo passou a fazer parte do seu dia a dia. Admite que, quando enfrenta problemas pessoais ou conflitos familiares, recorre frequentemente ao álcool como forma de fuga.

Esse hábito acabou por ter consequências graves. Devido ao consumo excessivo e contínuo, foi internado no hospital por problemas de saúde. “Houve um momento em que fiquei doente por causa do álcool. Como o consumia continuamente, isso acabou por afetar o meu coração, ao ponto de ter de ser internado”, relatou.

Apesar de estar consciente dos prejuízos, admite que ainda não conseguiu abandonar o hábito.

Uma experiência semelhante é partilhada por Natalino de Jesus Gusmão, de 21 anos. Também começou a consumir álcool aos 16 anos.

Recorda que experimentou bebidas alcoólicas pela primeira vez numa festa, depois de os amigos insistirem para que provasse. “Na festa, os meus amigos chamaram-me para beber. Eu recusei no início, dizendo que não bebia, mas eles disseram-me para eu experimentar apenas uma vez. Experimentei e nunca mais deixei”, contou.

Natalino reconhece que, por vezes, a bebida lhe proporciona uma sensação de conforto e ajuda a aliviar o stress. Contudo, admite que o álcool também altera o seu comportamento. “Quando estou bêbado, começo a falar de forma inadequada e às vezes arranjo problemas”, afirmou.

Um hábito enraizado há mais de uma década

Um homem de 34 anos, que pediu para não ser identificado, conta que começou a consumir álcool há mais de dez anos, influenciado pelo meio social. “Comecei por volta de 2011 ou 2012. Já nem me lembro bem. Começou por influência e até agora continuo a beber”, disse.

Embora já não beba diariamente, afirma que continua a consumir em determinadas ocasiões e que prefere “tua sabu”, por ser mais barata e facilmente acessível.

Segundo o próprio, o consumo faz parte de celebrações, encontros com amigos e outros momentos de convívio. “Em festas, ou quando alguém oferece, também juntamos dinheiro para beber no bairro”, explicou.

Reconhece, contudo, que o álcool já teve consequências negativas na sua saúde, no comportamento e na situação financeira. “Os efeitos negativos são doenças, mudanças mentais quando estou bêbedo, acidentes… já passei por tudo isso”, afirmou.

Admite ainda que nunca procurou apoio médico e que uma parte do dinheiro proveniente do trabalho e da venda de lotaria é utilizada para comprar bebidas alcoólicas.

Bebidas baratas e facilmente acessíveis

A facilidade de acesso ao álcool é confirmada por Eugénia Boavida, vendedora, que afirma que as bebidas alcoólicas locais continuam a ter uma grande procura, sobretudo entre os jovens.

Segundo explica, os preços variam em função do tipo e da quantidade. Uma garrafa grande pode custar entre 7,50 e 29 dólares americanos, enquanto as embalagens mais pequenas, como latas ou garrafas de menor capacidade, custam entre 1,25 e 2 dólares.

Eugénia observa que os consumidores pertencem a várias faixas etárias, incluindo adolescentes e adultos. “São sobretudo os mais velhos e os jovens que compram mais, porque o preço não é muito alto”, disse.

Acrescenta que bebidas como “tua sabu” estão entre as mais procuradas devido ao preço acessível. Uma embalagem de 0,6 litros custa cerca de 1,50 dólares americanos, enquanto uma de 1,5 litros ronda os 3 dólares. “Tua sabu e outras bebidas são sempre compradas pelas pessoas”, afirmou.

Pais preocupados com os riscos

Leopoldina da Silva afirma que dois dos seus filhos consomem bebidas alcoólicas ocasionalmente, sobretudo durante celebrações.

Embora sublinhe que o consumo não é diário, admite que a situação lhe causa preocupação. Explica que, quando os filhos bebem em casa, permite que descansem, mas sente-se mais apreensiva quando o consumo acontece fora de casa. “Tenho medo que aconteça alguma coisa, porque muitas vezes quando as pessoas estão embriagadas surgem problemas como discussões, brigas e até acidentes”, disse.

Apesar disso, continua a aconselhá-los a proteger a saúde e a evitar os excessos. Também faz questão de salientar que nem todos os seus filhos, apesar de terem mais de 17 anos, consomem álcool.

Fundasaun Mahein alerta para o enfraquecimento do tecido social

O diretor da Fundasaun Mahein, Nelson Belo, considera que os problemas sociais enfrentados pelos jovens não podem ser resolvidos apenas através da aplicação da lei.

Na sua perspetiva, o enfraquecimento das normas sociais e dos valores que tradicionalmente orientavam a convivência comunitária tem contribuído para fenómenos como o consumo excessivo de álcool e a criminalidade juvenil.

“Se uma criança ainda não tem permissão para beber álcool, então não deve beber. Se se considera que há um lugar para beber álcool, então deve-se procurar esse lugar, como em casa, e não em jardins. Isto refere-se à ordem social”, afirmou.

Nelson Belo defende que a sociedade passou a depender excessivamente da legislação formal, enquanto as regras sociais e comunitárias perderam influência.

Também critica a tendência para responsabilizar apenas os jovens pelos problemas, sem analisar as causas mais profundas. “Muitas vezes apenas os jovens são condenados. Porque é que eles se envolvem no crime? Por que é que bebem álcool sem ter um espaço adequado? Isto está ligado à falta de investimento no desenvolvimento humano”, questionou.

Na sua opinião, a insuficiente atenção dada à educação, ao desenvolvimento dos recursos humanos e ao fortalecimento das estruturas sociais tem contribuído para que muitos jovens percam referências e sentido de responsabilidade. “Isto continua a ser uma ameaça à segurança em Timor-Leste quando não há investimento no desenvolvimento humano”, alertou.

Por isso, apela ao Governo e à sociedade para que reforcem o investimento na educação, no desenvolvimento da juventude e na promoção dos valores sociais.

Psicólogo aponta influência dos amigos, da família e da cultura

O psicólogo Alessandro Boarccaech considera que o consumo de álcool entre adolescentes e jovens resulta da interação de vários fatores, incluindo a pressão dos amigos, o ambiente familiar e determinadas normas culturais.

Em entrevista ao Diligente, explicou que a influência dos pares é um dos fatores mais importantes. “Na adolescência, o grupo de amigos funciona como referência, e o álcool surge muitas vezes como um ritual de pertença”, afirmou.

Segundo o psicólogo, muitos adolescentes veem o consumo de álcool como uma forma de serem aceites pelo grupo. A curiosidade, a procura de identidade e o exemplo dado pelos pais também podem contribuir para o início do consumo.

Alessandro Boarccaech explica que muitas pessoas recorrem ao álcool na tentativa de aliviar a tensão e as dificuldades do quotidiano. “O álcool é um depressor do sistema nervoso central e produz uma sensação rápida de relaxamento e alívio da tensão”, explicou.

No entanto, salienta que o consumo repetido pode impedir o desenvolvimento de formas mais saudáveis de lidar com as emoções.

Segundo o psicólogo, muitas pessoas bebem na esperança de esquecer a tristeza ou de se sentirem mais felizes. “O álcool reduz temporariamente as inibições e cria uma sensação momentânea de bem-estar”, afirmou.

Contudo, sublinha que este efeito é passageiro e que o consumo prolongado pode aumentar o risco de depressão, tristeza persistente e perturbações do humor. “A pessoa que bebe para se sentir mais à vontade pode acordar no dia seguinte com mais ansiedade do que tinha antes de beber”, alertou.

Acrescenta que essa situação pode criar uma dependência psicológica do álcool em contextos sociais.

Além disso, Alessandro alerta que o consumo de álcool durante a adolescência pode ter impactos a longo prazo no desenvolvimento do cérebro. Explica que as áreas responsáveis pela tomada de decisões, autocontrolo e planeamento ainda estão em desenvolvimento até ao início da idade adulta.

De forma indireta, afirma que o consumo regular de álcool na adolescência pode prejudicar a memória, a concentração, a capacidade de aprendizagem e a tomada de decisões saudáveis.

No contexto timorense, Alessandro Boarccaech considera que a cultura desempenha igualmente um papel importante. “Em muitos contextos sociais de Timor-Leste, o consumo de álcool pode estar associado a ideias de masculinidade, resistência e pertença ao grupo”, explicou.

Segundo o psicólogo, muitos jovens não bebem apenas por prazer, mas também para corresponder às expectativas sociais relacionadas com a amizade, a masculinidade e a aceitação pelos pares.

Para o especialista, a prevenção deve começar muito antes do primeiro contacto com o álcool. “A prevenção começa muito antes do primeiro copo”, sublinhou. Defende ainda que relações familiares saudáveis, comunicação aberta e supervisão adequada são fatores essenciais para proteger os jovens do risco de abuso.

Segundo Alessandro, a prevenção não se deve limitar à proibição do consumo. A sociedade e o governo também devem criar mais oportunidades para os jovens se desenvolverem, receberem apoio emocional e construírem ambientes sociais saudáveis sem dependência do álcool.

O que mostram os dados

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo de álcool está associado a mais de 200 doenças e problemas de saúde, incluindo doenças hepáticas, doenças cardiovasculares, cancro, depressão e ansiedade.

A organização considera ainda que o álcool é uma substância carcinogénica e sublinha que não existe um nível de consumo totalmente seguro.

Em Timor-Leste, cerca de 34,5% dos adultos são consumidores ativos de álcool, incluindo 43,9% dos homens e 24,9% das mulheres. O consumo excessivo numa única ocasião é registado em 9,2% dos adultos, sendo mais frequente entre os homens (12,8%) do que entre as mulheres (5,5%). Entre os jovens dos 15 aos 19 anos, dados de 2019 indicam que 16,3% já consumiram bebidas alcoólicas. Destes, 17,8% são rapazes e 14,8% raparigas.

Em 2019, a taxa de mortalidade por cirrose hepática associada ao álcool foi de 4,5 por 100 mil habitantes entre os homens e de 2,7 entre as mulheres. As perturbações relacionadas com o consumo de álcool afetavam, em 2016, cerca de 3% dos homens e 0,6% das mulheres.

No domínio da segurança rodoviária, a OMS refere que, em 2019, cerca de 16,9% das mortes em acidentes de viação entre homens e 13% entre mulheres estiveram associadas ao consumo de álcool.

Timor-Leste estabeleceu um limite legal de álcool no sangue de 0,05 g/dl para todos os condutores, incluindo jovens e condutores profissionais.

O Diligente tentou obter esclarecimentos junto da ministra da Saúde e da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) sobre as medidas em curso para prevenir o consumo abusivo de álcool e reduzir os acidentes associados, mas não recebeu resposta até ao fecho desta reportagem.

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