Entre Deus e os antepassados: a fé e o lulik continuam a dividir e unir os timorenses

“A religião não pode ser separada da cultura, porque ambas fazem parte da identidade da população”/Foto:Diligente

Em Timor-Leste, a relação entre a fé católica e as crenças tradicionais, como o sagrado, continua a ser uma parte importante da vida da população. Alguns optam por seguir firmemente os ensinamentos da religião, enquanto outros consideram que ambos podem coexistir como identidade e orientação de vida.

“Disseram que nunca viveríamos bem porque recusámos cuidar da casa sagrada.” Albito Alves ainda se lembra das palavras que ouviu de familiares depois de decidir afastar-se das práticas tradicionais ligadas ao lulik. A decisão criou tensão dentro da família e marcou uma mudança profunda na sua vida espiritual.

Durante anos, Albito utilizou ai-kulit e abut, elementos associados, em algumas comunidades, à proteção espiritual e a poderes ocultos. Hoje, diz que escolheu viver apenas segundo os ensinamentos cristãos.

“Antes, falava frequentemente sobre poderes ocultos e utilizava também ai-kulit e abut. Depois, percebi que queria viver apenas segundo a fé em Deus”, afirmou.

A mudança começou em 2008, quando entrou para a organização Sagrado Coração de Jesus, em Taibessi, Díli. Desde então, acredita que a proteção espiritual deve vir apenas de Deus.

Também Juliana Maria António decidiu afastar-se completamente das práticas tradicionais ligadas aos objetos sagrados e aos rituais ancestrais. “Decidi acreditar apenas em Deus, pois compreendi através das Sagradas Escrituras que Deus é o Criador, e não uma criatura feita pelas pessoas”, afirmou.

Para Juliana, abandonar essas práticas trouxe tranquilidade. “Desde que decidi acreditar apenas em Deus, nunca enfrentei situações de azar ou maldição”, disse.

As histórias de Juliana e Albito refletem um debate silencioso, mas presente em muitas famílias timorenses: até que ponto a fé cristã pode coexistir com as crenças tradicionais ligadas às casas sagradas, aos antepassados e ao lulik?

Em Timor-Leste, cerca de 97,5% da população identifica-se como católica, segundo o Censo de 2022. Apesar disso, as práticas culturais associadas às casas sagradas e aos rituais ancestrais continuam profundamente presentes em muitas comunidades, sobretudo nas zonas rurais.

Enquanto algumas pessoas consideram que essas tradições entram em conflito com os ensinamentos religiosos, outras acreditam que fé e cultura fazem parte da mesma identidade timorense.

Entre a missa e a casa sagrada

No meio da floresta, longe da cidade, Justino da Silva cresceu numa casa sagrada onde os rituais familiares continuam a ser realizados segundo as orientações do lia nain, autoridade tradicional responsável pela preservação das regras culturais.

Ali, entre cerimónias, rezas tradicionais e encontros familiares, aprendeu desde criança que os antepassados continuam presentes na vida da comunidade.

Segundo conta, viver numa zona isolada dificultou o acesso à educação e acabou por impedir a continuação dos estudos. “Como cresci longe da cidade, numa casa sagrada, não consegui frequentar a escola”, explicou.

Apesar disso, continua profundamente ligado às tradições da família e participa regularmente nos rituais culturais realizados pela comunidade. “Participo sempre nos rituais porque tenho receio de infringir as regras culturais e sofrer consequências negativas ou doenças no futuro”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Justino garante que essa ligação às tradições não entra em conflito com a sua fé católica. “Acredito na cultura dos antepassados, mas também tenho uma fé forte em Deus”, disse.

Para muitas famílias timorenses, esta convivência entre tradição e religião acontece naturalmente. Participam nos rituais ligados às casas sagradas, mas também frequentam a missa, celebram o Natal e batizam os filhos na Igreja Católica.

Mónica Araújo considera que essa ligação faz parte da própria identidade timorense. “Em Timor-Leste, a nossa riqueza está na diversidade de tradições que, apesar das diferenças, formam o tecido da nossa nação”, afirmou.

Segundo explica, muitas pessoas acreditam simultaneamente na proteção espiritual associada às casas sagradas e na fé católica. “A devoção às casas sagradas e a religião católica caminham lado a lado em muitas comunidades”, disse.

Também Manuel da Silva, lia nain da casa sagrada Letisi, considera que preservar as tradições significa manter viva a herança deixada pelos antepassados. “Nós devemos acreditar na nossa cultura, porque ela vem dos nossos antepassados e foi transmitida até hoje”, afirmou.

Segundo explica, os jovens continuam a participar nos rituais comunitários e na construção das casas sagradas. “Os jovens continuam a mostrar entusiasmo em participar nas tradições”, disse.

O padre salesiano Bernardo Pereira Domingos considera que a cultura e a fé católica podem coexistir. Segundo explica, a própria Igreja Católica reconhece o princípio da inculturação, permitindo integrar elementos culturais locais nas celebrações religiosas. “Quando olhamos para a cultura, não devemos vê-la como uma ameaça, mas como um caminho para nos aproximarmos mais de Deus”, afirmou.

Uma cultura que resistiu à história

O investigador de História Ivo Gonçalves considera que a cultura timorense já estava profundamente enraizada antes da chegada dos portugueses e da expansão do catolicismo.

“A cultura local já existia antes da presença colonial. Existiam relações familiares como fetosan e umane, bem como ligações entre casas sagradas. Era essa cultura que sustentava a sociedade timorense”, afirmou.

Segundo o investigador, durante o período colonial os portugueses recorreram frequentemente aos liurais para aproximar a religião católica das comunidades locais.

Mais tarde, durante a ocupação indonésia, o catolicismo ganhou ainda mais força numa sociedade marcada pela violência, pela fome e pelas deslocações forçadas. “Durante a ocupação, muitas pessoas passaram a procurar proteção e esperança através da religião católica”, explicou.

Apesar das influências externas, Ivo Gonçalves considera que a cultura timorense permaneceu resiliente. “A religião não pode ser separada da cultura, porque ambas fazem parte da identidade da população”, afirmou.

Também o antropólogo Josh Trindade considera que a tradição timorense demonstrou uma forte capacidade de adaptação ao longo da história.

Segundo explica, muitos elementos externos foram integrados nas práticas culturais sem substituir completamente os conhecimentos ancestrais. “Aquilo que vem de fora não é necessariamente visto como algo negativo, mas como um conhecimento novo que complementa o antigo”, afirmou.

O antropólogo aponta exemplos dessa convivência em celebrações religiosas como as festas de Santo António, em Manatuto, onde símbolos católicos e elementos tradicionais coexistem nos mesmos rituais.

Para Josh Trindade, a sobrevivência dessas práticas está diretamente ligada à identidade coletiva do povo timorense. “A tradição é identidade. Enquanto o povo mantiver essa identidade, a tradição continuará viva”, concluiu.

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