Reconciliação, Estado e futuro: a visão de Joaquim ‘Russo’ da Fonseca para Timor-Leste

Joaquim “Russo” da Fonseca ganhou maior visibilidade internacional ao liderar a Comissão da Verdade e Reconciliação nas Fiji, reforçando o seu papel como mediador em contextos pós-conflito /Foto: DR

Num momento em que Timor-Leste continua a enfrentar desafios de coesão social, confiança nas instituições e consolidação democrática, Joaquim “Russo” da Fonseca defende que o futuro do país depende de uma combinação entre reconciliação nacional, meritocracia e reforço do papel mediador das instituições do Estado.

Timor-Leste continua a confrontar-se com um desafio central da sua construção democrática: transformar a independência política em coesão social efetiva e confiança sólida nas instituições do Estado. Apesar dos avanços institucionais, persistem debates profundos sobre inclusão, justiça social, meritocracia e o papel dos líderes na consolidação da unidade nacional.

É neste contexto que Joaquim “Russo” da Fonseca partilha a sua leitura sobre o país e os seus desafios. Com experiência em processos de mediação de conflitos, envolvimento em negociações internacionais sobre soberania e fronteira,  participação em iniciativas de reconciliação em contextos pós-conflito, a sua trajetória é frequentemente associada a temas como diálogo, estabilidade e construção de pontes institucionais e sociais.

Em janeiro de 2026, o percurso de Joaquim “Russo” da Fonseca ganhou maior visibilidade internacional ao liderar uma Comissão da Verdade e Reconciliação nas Fiji, reforçando o seu perfil como mediador em contextos de pós-conflito e promotor de diálogo entre comunidades.

Nesta conversa, Joaquim “Russo” da Fonseca partilha a sua visão sobre o papel do Presidente da República, os desafios da inclusão social, a necessidade de meritocracia nas instituições do Estado e o futuro de Timor-Leste nas próximas décadas.

Mais do que respostas fechadas, esta entrevista traça uma reflexão estruturante sobre as tensões que ainda atravessam o processo de desenvolvimento do país, entre unidade e divisão, discurso e prática, ambição e realidade institucional.

“Como timorense, quero seguir um caminho, ainda que modesto, para projetar a imagem de Timor-Leste no exterior e demonstrar que o país também tem capacidade de contribuir para a paz noutros contextos”

O que o motivou a aceitar a liderança da Comissão de Verdade e Reconciliação nas Fiji? Quais eram as condições políticas que justificavam a sua intervenção no país?

Quando recebi o convite do Governo das Fiji, considerei se teria capacidade para desempenhar essa função. Após alguma reflexão, entendi que deveria avançar e aceitar o convite.

Aceitei por várias razões. Em primeiro lugar, enquanto timorenses, conhecemos bem o que é o conflito, compreendemos os seus impactos na vida das pessoas e reconhecemos a importância da paz.

Além disso, tive experiência no processo de construção da paz em Timor-Leste entre 2006 e 2008, durante a crise dos peticionários. Nessa altura, assumi uma responsabilidade atribuída pelo Estado para gerir um processo de procura de soluções para essa crise, entre outras experiências semelhantes. Por isso, considerei que estava preparado para contribuir e prestar o meu apoio nesta missão.

Outra razão prende-se com o facto de o Governo das Fiji ter decidido criar uma Comissão de Verdade e Reconciliação, o que demonstra disponibilidade para enfrentar o seu passado doloroso. Esse passo merece apoio, pois, vindo de um país pós-conflito, sinto que há também uma responsabilidade em apoiar outras nações que procuram resolver problemas herdados do passado.

Acresce ainda que, enquanto timorense, procuro, ainda que de forma modesta, contribuir para projetar a imagem de Timor-Leste no exterior, demonstrando que o país tem capacidade para oferecer apoio genuíno e ajudar outras nações a alcançar a paz.

Antes de partir para esta missão nas Fiji, desempenhei também a função de porta-voz do processo de reconciliação comunitária em Timor-Leste. Essa experiência foi igualmente importante, dando-me maior confiança e reforçando a convicção de que podemos contribuir de forma significativa para processos semelhantes em Fiji.

Quais são os principais conflitos ou feridas históricas nas Fiji que a comissão está a tentar resolver?

O arquipélago das Fiji tem a sua história marcada por quatro golpes de Estado desde 1987. Nesse ano, ocorreram dois golpes, seguidos de outro em 2000, quando as suas forças estavam destacadas em Timor-Leste como força de manutenção da paz. Posteriormente, ocorreu ainda um golpe em 2006. O governo resultante desse golpe manteve-se no poder até 2022, altura em que perdeu as eleições e foi substituído por um novo executivo.

Na sequência destes acontecimentos, emergiram também conflitos étnicos entre os habitantes indígenas das Fiji e os cidadãos de origem indiana, ou seja, descendentes de populações oriundas da Índia. Esta divisão étnica e social tornou-se bastante profunda, tendo provocado sofrimento físico e emocional a muitas pessoas ao longo destes quatro golpes de Estado.

Para além da desconfiança entre diferentes grupos étnicos e sociais, verifica-se igualmente um clima de desconfiança em relação às instituições do Estado, uma vez que os militares estiveram envolvidos em todos estes golpes. Neste contexto, torna-se evidente a necessidade de promover um processo que contribua para a coesão social e a reconciliação nas Fiji.

Assim, pode dizer-se que existe um problema de natureza horizontal, entre diferentes grupos sociais e étnicos, incluindo os indígenas fijianos, os indo-fijianos (cidadãos de Fiji de origem indiana, e também alguns de origem chinesa), bem como outras comunidades presentes no país. Paralelamente, existe também um conflito de natureza vertical, entre a sociedade e o Estado, associado ao período de governação militar instaurado após o golpe de 2006, que se prolongou até 2022.

Importa referir que esta comissão já tinha sido criada antes de eu assumir a liderança. Iniciou os seus trabalhos em março de 2025, sob a presidência de um cidadão austríaco, tendo funcionado até outubro, altura em que esse presidente se demitiu. Fui então convidado, em novembro, para assumir o cargo, mas o processo levou algum tempo, tendo apenas chegado ao país em janeiro de 2026.

A minha presença teve como objetivo dar um novo impulso ao trabalho da comissão. O ano passado foi sobretudo dedicado à sua instalação, nomeadamente ao recrutamento de pessoal. Foi apenas em maio que se iniciaram efetivamente os trabalhos junto das comunidades.

Durante o ano passado, foram realizadas 11 audiências. Já este ano, apenas nos meses de fevereiro e março, foram realizadas mais de 20. Este aumento deve-se, em parte, a uma campanha intensiva nos meios de comunicação social lançada após a minha chegada, o que contribuiu para um maior conhecimento público sobre a comissão. É também possível que a nomeação de um novo presidente tenha reforçado a confiança da população.

À medida que os trabalhos avançaram, a visibilidade da comissão aumentou, assim como a confiança do público. Não se tratou de um único fator, mas do resultado do trabalho consistente desenvolvido pela comissão. Como consequência, este ano foi possível realizar audiências com pessoas que anteriormente se opunham fortemente aos quatro líderes militares, e esse trabalho terá continuidade.

Existem elementos específicos do processo de reconciliação em Timor-Leste que considera que poderiam ser aplicados nas Fiji para avançar ainda mais no processo de cura nacional?

A partir da nossa experiência, sabemos que o reconhecimento do que aconteceu às vítimas funciona como uma forma de validação do seu sofrimento. Reconhecer que os acontecimentos ocorreram de facto, e não os negar, permite que as vítimas sintam que estão a passar por um processo de cura, uma vez que existe um reconhecimento real das violações que sofreram. Assim, esta validação das experiências das vítimas constitui um importante mecanismo de justiça. Penso que este aspeto, presente na experiência de Timor-Leste, é também altamente relevante para as Fiji.

Outro elemento importante é o realismo. Em Timor-Leste, fomos de facto realistas, mas começámos com padrões muito elevados. O processo de reconciliação foi inicialmente pensado para avançar em paralelo com um processo de justiça retributiva, ou seja, com a responsabilização dos autores dos crimes em tribunal. Na altura, existiam painéis especiais para crimes graves. Atualmente, sabe-se que há mais de 400 pessoas cujos nomes constam da lista de crimes graves, mas já não é possível atuar da mesma forma, uma vez que o tribunal que anteriormente tratava desses casos deixou de existir, tendo sido estabelecido pelas Nações Unidas.

Atualmente, nas Fiji, desde o início do processo, não se tem dado prioridade à justiça retributiva; em vez disso, o foco tem sido colocado na justiça restaurativa. Assim, a questão central passa por perceber como restaurar a dignidade dos sobreviventes, promovendo um processo de entendimento e construindo a coesão social na sociedade fijiana com base na verdade. É precisamente esta abordagem que se tornou o principal foco da Comissão de Verdade e Reconciliação nas Fiji neste momento.

“Acreditamos que as Fiji caminharão para um caminho positivo e que a reconciliação pode ser considerada bem-sucedida quando houver respeito e reconhecimento mútuo entre todas as pessoas nas Fiji”

Qual é a sua visão a longo prazo para as Fiji após o trabalho da comissão? É possível alcançar uma verdadeira reconciliação nacional ou as cicatrizes do passado são difíceis de superar?

Não existem apenas desafios, porque, como acontece em muitos contextos, parte da sociedade quer simplesmente esquecer tudo, enquanto outros setores defendem posições mais extremas e querem que todos os responsáveis sejam punidos e presos. Há também aqueles que assumem uma posição intermédia. Portanto, existem diferentes perspetivas dentro da sociedade.

Desde o início, quando cheguei, a mensagem que tenho transmitido ao público, através dos meios de comunicação locais nas Fiji, é que a reconciliação não é um destino, mas sim um processo que precisa de ser continuado dia após dia, de forma a reforçar a confiança entre os diferentes grupos da sociedade. O objetivo é permitir que as pessoas aceitem e respeitem a diversidade e a heterogeneidade social.

A diversidade nas Fiji é muito ampla, tanto do ponto de vista étnico, como já referi, com povos indígenas, pessoas de origem indiana, bem como outras comunidades vindas do Pacífico, de origem chinesa e outras, como também em termos de diversidade religiosa. Nas Fiji existem cristãos metodistas, católicos, hindus, muçulmanos, entre outros. O processo de reconciliação envolve, por isso, a construção de um entendimento mais sólido entre estes diferentes grupos religiosos e étnicos que vivem em conjunto no país.

Em termos de visão futura, considero que devem ser os próprios fijianos a definir o caminho para o seu país. No entanto, enquanto observadores externos, acreditamos que as Fiji seguirão um percurso positivo e que a reconciliação poderá ser considerada bem-sucedida quando existir respeito e reconhecimento mútuo entre todas as pessoas.

As Fiji podem também recorrer a meios democráticos para resolver as diferenças existentes na sociedade, de forma a evitar a perpetuação da discriminação étnica e religiosa. Se isso for alcançado, acredito que a população sentirá maior tranquilidade e perceberá que o processo de reconciliação já começou a produzir resultados e benefícios concretos para a sociedade.

“No meu caso, se um dia me candidatar à Presidência da República, contaria apenas com a confiança do povo”

O trabalho nas Fiji reforçou a sua posição no cenário internacional como mediador e líder de processos de reconciliação. O senhor também já anunciou recentemente a sua intenção de se candidatar à Presidência de Timor-Leste. Quais são as principais razões que o motivaram a dar esse passo e o que pode trazer de novo para o país?

Penso que, no futuro, Timor-Leste deve tornar-se uma sociedade verdadeiramente igualitária, onde todas as pessoas se possam sentir incluídas, como cidadãos com os mesmos direitos, sejam idosos, jovens, adultos, combatentes ou não combatentes. Em Timor-Leste, todos devem sentir que são cidadãos que merecem o mesmo tipo de atendimento e tratamento por parte do seu país.

Em segundo lugar, considero que o Presidente da República deve ter a capacidade de atuar como mediador das divisões políticas existentes no nosso país. Durante este período, algumas pessoas nasceram e cresceram sem compreender o que realmente aconteceu, mas de repente veem na televisão conflitos e divisões e perguntam: “estão a zangar-se uns com os outros, mas não sabemos porquê”.

Não existe inclusividade, e os partidos políticos muitas vezes limitam-se a opor-se uns aos outros. Por isso, o Presidente da República deve ter a capacidade de mediar essas divisões, para que as diferenças possam ser resolvidas de forma mais harmoniosa e, no final, tragam benefícios para a população.

Devem existir debates, mas debates com valor, por exemplo sobre políticas públicas e sobre formas de melhorar a vida do povo, e não discussões sobre quem é melhor ou quem venceu guerras. Isso já pertence ao passado.

Durante mais de vinte anos de independência, os líderes muitas vezes apenas contam histórias. Em vez de mobilizarem a população com uma visão e com programas concretos para conquistar votos e chegar ao poder, acabam por se limitar a narrativas do passado. Não há, muitas vezes, um líder que apresente estratégias políticas claras para melhorar a vida do povo.

Por isso, penso que o próximo Presidente deve orientar este aspeto, para que as diferenças e discussões passem a ser debates com impacto real na vida das pessoas.

Em terceiro lugar, considero importante restaurar o prestígio institucional da Presidência da República. Durante muitos anos, vimos o Presidente da República como alguém que apenas segue ou acompanha: o Parlamento diz uma coisa, o Governo diz outra, e até vozes externas afirmam que o Presidente apenas acompanha. Entretanto, quando a casa do povo é afetada ou destruída pelo Governo, o Presidente muitas vezes não se manifesta, por ser visto apenas como defensor do povo.

Por isso, considero que estas questões são importantes como motivação para a abertura de candidaturas à Presidência da República.

Todos os presidentes costumam candidatar-se como independentes, embora alguns recebam apoio de partidos políticos. No meu caso, se um dia me candidatar à Presidência da República, contaria apenas com a confiança do povo.

Já identificou alguns dos principais desafios ou problemas que considera urgentes de resolver nos próximos anos?

Penso que, quando falamos de inclusão, estamos também a falar de justiça social. Timor-Leste deve tornar-se uma sociedade onde não existam apenas pessoas em melhor situação e outras em situação de grande dificuldade. Isso não pode acontecer. Ao longo do processo de desenvolvimento, as coisas têm mudado constantemente, mas nem sempre há um olhar verdadeiro e sistemático sobre esta questão.

A transparência e a integridade nas instituições públicas ainda não estão plenamente garantidas, e a confiança pública também continua baixa. O papel do Presidente da República é garantir o cumprimento da Constituição e assegurar que os outros também a cumpram. Por isso, considero que este é um ponto muito importante e deve ser uma prioridade na atuação presidencial.

Outra questão é a soberania do Estado. Soberania do Estado não significa apenas a existência formal de um país, com uma bandeira e um nome. Hoje em dia, nem sempre se sabe exatamente o que entra em Timor-Leste. Por exemplo, vimos recentemente a circulação de dinheiro falso. Isto acontece porque as nossas fronteiras estão fragilizadas ou mal controladas. As pessoas podem entrar com diversos materiais sem controlo adequado. Em termos políticos, fala-se de “captura do Estado”, ou seja, o Estado acaba por ser influenciado ou controlado por interesses poderosos. O Estado continua a existir, mas a sua soberania não está plenamente garantida. Isso precisa de ser restaurado.

Depois, há também a questão da unidade nacional. A unidade nacional é um tema importante e não deve ser tratado de forma superficial. Fala-se bastante de unidade nacional, mas é necessário também reconhecer que ainda existem questões por resolver relacionadas com o passado do conflito.

Isto não diz respeito apenas aos líderes, mas também à sociedade. Existem processos de reconciliação comunitária que mostram que, dentro da sociedade, ainda há pessoas que se sentem feridas.

Não podemos falar de unidade nacional numa situação em que algumas pessoas ainda sentem dor e não se sentem plenamente integradas na vida da comunidade. O Presidente da República deve prestar atenção a esta realidade e garantir que o processo de reconciliação não seja apenas formal, mas também efetivo no interior da sociedade timorense.

Esse processo deve ser promovido e aprofundado para que todas as pessoas se sintam incluídas. Ainda existem, por vezes, acusações entre nós, quem fez a guerra ou não, quem teve culpa ou não teve. É necessário ultrapassar esse tipo de abordagem.

“Quando falamos de gerações, muitas vezes a geração mais velha conta as suas histórias de luta, mas isso pode fazer com que a geração mais nova se sinta alienada, por não ter histórias próprias para contar. Por isso, o papel do Presidente da República também é garantir que o Governo adote políticas adequadas que deem mais oportunidades e força aos jovens”

A política interna em Timor-Leste tem sido marcada por um certo grau de instabilidade. Quais são as medidas necessárias para promover a unidade nacional em Timor-Leste?

Diálogo, diálogo e mais diálogo. O próximo Presidente da República deve demonstrar que pertence a todos os timorenses. Não pertence apenas às pessoas que o apoiaram para chegar à Presidência, nem a um grupo específico que o apoia ou determina o seu futuro político. Ele representa todo o povo de Timor-Leste. Isso significa que deve estar ao serviço de toda a população.

O Presidente da República deve abandonar qualquer tendência partidária e manter-se neutro, atuando como árbitro em conflitos políticos e como defensor do povo sempre que este necessitar de proteção.

Em segundo lugar, deve também servir como ponte entre gerações. O Presidente deve ter a capacidade de ligar a geração mais velha, que viveu os tempos de conflito e luta, com a geração mais nova. Nesse sentido, deve haver continuidade entre estas duas gerações. Quando a geração mais velha já não estiver presente, o país continuará a avançar, e serão as novas gerações que o levarão para a frente.

Quando falamos de gerações, muitas vezes a geração mais velha conta as suas histórias de luta, mas isso pode fazer com que a geração mais nova se sinta alienada, por não ter histórias próprias para contar. Por isso, o papel do Presidente da República também é garantir que o Governo adote políticas adequadas que deem mais oportunidades e força aos jovens.

Timor-Leste tem mostrado uma postura mais assertiva em relação a questões de soberania, como a disputa com a Indonésia sobre as fronteiras terrestres. Qual seria a sua abordagem em relação a essas disputas internacionais?

Em disputas internacionais como estas, quando nos sentamos à mesa de negociações, partimos sempre do princípio de que somos amigos durante o processo negocial, mas cada equipa defende os interesses do seu próprio país. Este é o princípio básico da negociação.

Devemos compreender que a equipa de negociação da Indonésia não vai defender os interesses de Timor-Leste, assim como Timor-Leste também não vai defender os interesses da Indonésia. O mesmo acontece, por exemplo, com a Austrália: cada parte defende a sua própria posição. A razão e a força dos argumentos determinam quem tem razão e quem não tem.

Na relação com a Indonésia é exatamente o mesmo. Considero importante que Timor-Leste se mantenha firmemente ancorado no direito internacional que regula as questões de fronteiras. A Indonésia pode ser um país amigo, mas devemos basear-nos no direito internacional para resolver as disputas territoriais.

Apesar de Timor-Leste e a Indonésia terem dúvidas em relação às fronteiras devido ao passado colonial, quando potências coloniais definiram os limites entre os dois países, existe documentação, incluindo mapas completos das áreas em disputa. Esses mapas podem ser usados como referência em disputas internacionais e devem servir para determinar onde se situam as fronteiras corretas.

Penso que a nossa firmeza não deve ser confundida com arrogância, mas sim com a vontade de esclarecer quem tem razão e quem não tem. Essa mesma postura deve ser mantida também na relação com a Austrália. No final, mesmo quando recorremos à conciliação obrigatória, conseguimos delimitar a fronteira marítima no sul.

A nossa relação com a Austrália não se deteriorou, porque todo o processo foi conduzido com base no direito internacional.

“Também no setor jurídico e na formulação das leis, o Presidente da República promulga as leis e deve usar a sua posição para garantir que essas leis não sejam contrárias à Constituição, aos princípios constitucionais ou que prejudiquem o interesse nacional. Isso não pode acontecer”

Quais reformas acredita serem necessárias nas instituições do país para garantir maior estabilidade política e confiança do povo nas suas instituições?

Penso que devemos falar de meritocracia, ou seja, uma pessoa deve assumir um cargo porque tem mérito próprio, porque acumulou capacidade e competência suficientes para desempenhar essa função.

Portanto, em termos de reforma institucional, o que deve acontecer é o abandono do sistema de patronagem política e a transição para o estabelecimento de uma função pública baseada no mérito e na competência técnica. As nomeações não devem ser baseadas em relações políticas. Isto é extremamente importante.

Também no setor jurídico e na formulação das leis, o Presidente da República promulga as leis e deve usar a sua posição para garantir que essas leis não sejam contrárias à Constituição, aos princípios constitucionais ou que prejudiquem o interesse nacional. Isso não pode acontecer.

O veto presidencial deve funcionar como um mecanismo de controlo de qualidade, garantindo que as leis promulgadas tenham consistência e estejam em conformidade com os princípios constitucionais e com o interesse nacional. Não devem contrariar esses princípios.

Por isso, a meritocracia deve ser a base das nomeações para cargos públicos. A política não deve dominar o processo de nomeação.

Quando se fala de confiança dos cidadãos nas instituições públicas, por exemplo, se os juízes não forem nomeados com base no mérito ou no seu percurso profissional, mas sim por critérios políticos, então não irão defender os cidadãos quando estes tiverem problemas com o Estado ou com grupos poderosos com grande influência dentro do Estado.

Outro exemplo é a Comissão Anticorrupção. Se a sua nomeação for baseada em considerações políticas, então não será capaz de combater a corrupção dentro do Governo ou das instituições públicas. Portanto, quando isso acontece, torna-se impossível falar de confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.

“Se ainda houver pessoas que se sintam marginalizadas, seja pela sua história, pela sua orientação política ou pelas suas origens familiares, então não se pode falar de unidade nacional”

Muitos timorenses ainda sentem que o país está distante de um verdadeiro processo de reconciliação e justiça social. Quais são as medidas necessárias para promover a reconciliação em Timor-Leste?

Uma das funções atribuídas ao Presidente da República é ser o símbolo da unidade nacional. Sendo o símbolo da unidade nacional, deve estar na linha da frente para garantir que o povo permaneça unido. Assim, todas as pessoas devem sentir que pertencem a uma sociedade timorense verdadeiramente integrada.

Se ainda houver pessoas que se sintam marginalizadas, seja pela sua história, pela sua orientação política ou pelas suas origens familiares, então não se pode falar de unidade nacional.

Deve continuar a promover-se a reconciliação nacional, não apenas externamente, mas também internamente. Muitas vezes, a reconciliação entre os próprios timorenses dentro do país é esquecida. Algumas pessoas ainda se acusam mutuamente, referindo que os pais ou familiares de alguém eram “autonomistas”. No entanto, ser autonomista foi uma escolha política e legalmente reconhecida na altura, através de um processo de consulta em que as pessoas tinham opções claras.

Esse fator não deve continuar a prejudicar a vida de outras pessoas em Timor-Leste, um país já independente. Para ultrapassar esta situação, o processo de reconciliação dentro das comunidades deve continuar entre os timorenses. Nesse sentido, o papel do Presidente da República como símbolo da unidade nacional é fundamental, e trata-se de um aspeto extremamente importante.

A economia de Timor-Leste tem enfrentado dificuldades em termos de diversificação e criação de emprego. Quais são as suas propostas para estimular um crescimento económico sustentável?

Como disse, é verdade que a diversificação da economia é, em grande medida, uma responsabilidade do Governo. O Presidente da República não é um órgão executivo; não formula políticas de desenvolvimento nem cria planos de desenvolvimento. No entanto, entendemos que, em países democráticos como Timor-Leste, todos procuram influenciar as políticas do Governo para que estas sejam melhores.

Tal como as ONG’s e a sociedade civil fazem lobby, o Presidente da República ocupa uma posição privilegiada para influenciar as políticas do Governo, de modo a que as estratégias de desenvolvimento sejam alinhadas com o interesse nacional e promovam o desenvolvimento económico, social e político do país.

Em relação à diversificação, esta também é uma função importante do Presidente. A nossa dependência do petróleo é demasiado forte e, se não diversificarmos, no futuro poderemos enfrentar grandes dificuldades. Por isso, penso que, neste momento, o setor agrícola, por exemplo, ainda tem uma contribuição muito pequena para o rendimento nacional. Considero importante aumentar a sua produtividade e valor.

Além disso, é essencial aumentar a qualificação dos jovens em várias áreas, para que possam ser motores da diversificação económica. Se os jovens, que têm potencial físico e mental, não forem formados, não poderão contribuir e, no fim, teremos de importar mão de obra de outros países.

Agora que Timor-Leste já faz parte de grupos regionais como a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), se os nossos cidadãos não estiverem qualificados, perderão competitividade dentro da organização regional. Por isso, penso que isto é algo muito importante a considerar, porque os jovens devem ser o motor da diversificação económica.

A economia de Timor-Leste tem enfrentado dificuldades em termos de diversificação e geração de empregos. Quais são as suas propostas para estimular o crescimento económico sustentável?

Dinamizar a agricultura, ou o setor agrícola. Hoje em dia fala-se muito em economia azul e turismo, mas estes setores ainda estão praticamente parados. Falamos de turismo, mas não há facilidades para o turismo. Muitas vezes, entre o discurso e a prática, e entre os objetivos e os planos, não há coerência.

Todos os planos devem ser desenhados para alcançar objetivos concretos. Dizemos que queremos aumentar as receitas não petrolíferas, mas a afetação do orçamento continua muito concentrada no setor petrolífero, enquanto o setor agrícola recebe muito pouco.

“Em vez de gastar dinheiro a enviar pessoas para tratamento no estrangeiro, devemos investir na formação do pessoal de saúde e no desenvolvimento das infraestruturas de saúde, para que Timor-Leste tenha capacidade de cuidar dos seus próprios cidadãos”

O que propõe para melhorar a infraestrutura e o acesso a serviços essenciais, como saúde e educação, em áreas mais remotas do país?

Reconheço sempre que o Presidente não é um órgão executivo, mas pode influenciar políticas. Em áreas como educação e saúde, quando falamos da nova geração, falamos de tecnologia, e isso deve passar pela educação. Portanto, a educação deve ser o caminho para alcançar esse objetivo.

Quando falamos de capacidades dos jovens, responsabilidade e visão clara para o país, estamos a falar de educação. A educação deve estar alinhada com os interesses do país. A educação básica deve ser verdadeiramente a base de todo o sistema educativo. Não podemos ter uma educação básica fraca e esperar depois ter universitários excelentes. Isso não faz sentido. Para formar engenheiros e médicos fortes, é preciso uma base sólida que permita resolver os problemas da sociedade.

Na área da saúde também é a mesma coisa. A saúde, ao longo do tempo, não tem sido um lugar de solução, mas muitas vezes um lugar de problemas. O sistema de saúde é fraco e gastamos muito dinheiro a enviar pessoas para o estrangeiro. Levamos pessoas vivas e depois trazemos de volta os seus corpos. Depois de mais de vinte anos de restauração da independência, não conseguimos resolver isso?

A capacitação dos profissionais de saúde é extremamente importante. Em vez de gastar dinheiro a enviar pessoas para tratamento no estrangeiro, devemos investir na formação do pessoal de saúde e no desenvolvimento das infraestruturas de saúde, para que Timor-Leste tenha capacidade de cuidar dos seus próprios cidadãos.

“O futuro Presidente da República deve ter força moral para promover a proteção das crianças e das mulheres, sobretudo defendendo o princípio de tolerância zero à violência doméstica.”

Timor-Leste tem avançado em algumas questões de direitos humanos, mas ainda há muito a ser feito, especialmente em relação aos direitos das mulheres, LGBTQIA+ e das comunidades marginalizadas. Quais são as suas propostas para garantir uma maior proteção e promoção dos direitos desses grupos?

Penso que o Presidente deve promover o respeito por todas as entidades e também combater a discriminação de qualquer tipo em Timor-Leste. Não pode haver grupos privilegiados e outros marginalizados apenas por causa de tendências políticas, sociais ou culturais. O futuro Presidente deve ser um campeão desta causa.

Outra função do Presidente é promover uma sociedade inclusiva. O Presidente deve ser um promotor da inclusão. O futuro Presidente da República deve ter força moral para promover a proteção das crianças e das mulheres, sobretudo defendendo o princípio de tolerância zero à violência doméstica.

Quando existe desrespeito contra um grupo ou uma pessoa, isso abre caminho para desacreditar outros grupos. Por isso, o Presidente deve ser um protetor das pessoas vulneráveis, garantindo que a sua integração na sociedade seja uma prioridade do Estado.

Qual é a sua visão para Timor-Leste nos próximos 10 ou 20 anos? O que acredita que precisa ser feito hoje para garantir um futuro próspero, pacífico e justo para todos os timorenses?

Nos próximos 20 anos, Timor-Leste deve tornar-se uma nação respeitada por outros países, uma sociedade unida, com coesão social, bem desenvolvida, moderna e autónoma. Apesar de todos os países serem interdependentes, Timor-Leste deve ser um país independente dentro dessa interdependência.

Devemos transformar a nossa sociedade de forma forte, eliminando conflitos internos e políticos, para podermos ganhar respeito internacional. Se conseguirmos fazer tudo isto, Timor-Leste poderá erguer-se com orgulho e tornar-se um país unido e respeitado em todo o mundo.

Qual é a principal mensagem que gostaria de deixar aos timorenses, especialmente às gerações mais jovens que estão a começar a construir o futuro do país?

A libertação da pátria é uma jornada que já foi percorrida. Um novo capítulo da vida do nosso país exige novos líderes que possam levar adiante a resiliência histórica e as aspirações modernas da nova geração. Como timorense, estou comprometido em promover isso.

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