Redes criminosas? Timor-Leste no centro de polémica internacional

“Alegações sem fundamento e sem evidências contra qualquer indivíduo não devem ser aceites. Timor-Leste está aberto a investimentos legítimos e continuará vigilante” / Foto: Presidência da República

Relatório do The Guardian e do OCCRP levanta preocupações sobre o projeto “AB Digital Technology Resort”. Autoridades, analistas e organizações locais dividem-se entre alertas de risco e a ausência de provas concretas de atividade criminosa.

Uma investigação do The Guardian, em colaboração com o OCCRP, colocou Timor-Leste no centro de preocupações internacionais após levantar suspeitas sobre um projeto de investimento com possíveis ligações a redes criminosas.

O projeto foi apresentado como uma iniciativa de modernização económica, visando a criação de um resort baseado em tecnologia blockchain e criptomoedas para atrair investimento estrangeiro. No entanto, rapidamente se tornou alvo de escrutínio devido às ligações de algumas das figuras envolvidas.

Em fevereiro de 2026, uma investigação jornalística realizada no local indicado para a implementação do projeto não identificou qualquer sinal de construção, encontrando apenas um espaço vazio. A ausência de progresso físico levantou dúvidas quanto à viabilidade do projeto.

Segundo o The Guardian, três indivíduos associados ao empreendimento — Yang Jian, Yang Yanming e Shih Ting-yu — foram sancionados pelo Governo dos Estados Unidos, em outubro de 2025.

As sanções estão relacionadas com alegadas ligações a um projeto em Palau associado ao Prince Group, um conglomerado do Camboja que Washington descreve como envolvido em fraude cibernética, branqueamento de capitais e crimes ligados à exploração sexual e ao tráfico humano.

Embora estes indivíduos tenham sido posteriormente afastados do projeto em Timor-Leste, a sua ligação inicial continua a suscitar preocupação entre observadores internacionais.

Outro ponto destacado na investigação prende-se com a concessão de um passaporte diplomático, por parte do Presidente da República, José Ramos-Horta, a Lin Xiaofan.
O empresário é descrito como figura-chave do projeto e foi nomeado conselheiro especial para assuntos económicos e comerciais.

Segundo declarações do Chefe de Estado ao The Guardian, a decisão teve como objetivo facilitar contactos internacionais e atrair investimento estrangeiro, sobretudo em países onde Timor-Leste ainda dispõe de representação diplomática limitada.

O Presidente afirmou que o país não permitirá ser instrumentalizado por atividades ilícitas e garantiu que o caso será monitorizado. Sublinhou ainda que, caso surjam provas concretas de irregularidades, o projeto poderá ser cancelado.

A atribuição do passaporte diplomático e a divulgação de uma doação de 500 mil dólares, apoiada pela Fundação AB Charity, destinada a iniciativas de cariz social, incluindo apoio a crianças, intensificaram o debate público sobre os critérios de atribuição de privilégios diplomáticos e os mecanismos de verificação de investidores estrangeiros.

Sociedade civil alerta para fragilidades institucionais e riscos de crime organizado

Também organizações da sociedade civil têm manifestado preocupações quanto à vulnerabilidade de Timor-Leste perante possíveis redes de crime organizado, sobretudo no contexto de novos investimentos estrangeiros.

A Lao Hamutuk reuniu-se com o Presidente da República, José Ramos-Horta, para discutir temas estratégicos como transparência, gestão do Fundo Petrolífero e diversificação económica. Durante o encontro, alertou para a necessidade de reforçar mecanismos de due diligence, transparência e capacidade institucional, de forma a evitar que o país seja utilizado como ponto de entrada para redes internacionais de fraude ou branqueamento de capitais.

Celestino Gusmão Pereira, investigador da organização, sublinhou que, embora não existam provas de uma presença consolidada de crime organizado em Timor-Leste, o país continua exposto a tentativas de influência externa.

“Existem várias tentativas de envolver Timor-Leste em situações deste tipo. No entanto, o país ainda não atingiu um nível de gravidade elevado em termos de crime organizado ou corrupção sistémica”, afirmou.

A organização destacou que um dos principais riscos reside na fragilidade das instituições do Estado em avaliar e filtrar propostas de investimento. Defende, por isso, uma maior aposta no desenvolvimento interno, nomeadamente na agricultura, produção local e turismo comunitário, como forma de reduzir a dependência de investimentos externos de risco.

Um dos pontos mais sensíveis abordados foi a doação de 500 mil dólares associada a indivíduos ligados a projetos de investimento. Segundo a explicação do Presidente, tratou-se de uma contribuição privada para fins de caridade. Ainda assim, a Lao Hamutuk considera que este tipo de situação pode levantar riscos institucionais e afetar a perceção de integridade no processo de decisão pública. “Não se deve confundir a função do Presidente da República com assuntos privados”, alertou.

Também a Fundasaun Mahein manifestou preocupações semelhantes, defendendo uma resposta mais firme por parte do Estado perante potenciais ameaças de criminalidade organizada.

O diretor da organização, Nelson Belo, considera que, até ao momento, não houve investigações suficientemente aprofundadas nem ações concretas visíveis para travar possíveis redes criminosas. “Não se sabe claramente quem autorizou determinadas atividades, nem houve detenções significativas. Isso transmite a ideia de fragilidade na aplicação da lei, especialmente em áreas como a cibersegurança”, afirmou.

Nelson Belo frisou ainda que a ausência de medidas consistentes pode comprometer a confiança pública e afetar a credibilidade internacional de Timor-Leste na prevenção e combate ao crime organizado.

Apelos à investigação sobre alegadas ligações entre poder político e investidores estrangeiros

O debate sobre a integridade das instituições do Estado e os riscos associados ao investimento estrangeiro em Timor-Leste intensificou-se após declarações do académico Armindo Moniz, que defende a abertura de uma investigação formal a alegadas ligações entre o Presidente da República, José Ramos-Horta, e indivíduos mencionados em reportagens internacionais.

Segundo o académico, existem indícios que justificam a atuação do Ministério Público e da Polícia Científica de Investigação Criminal (PCIC), sublinhando que o princípio do Estado de direito implica que nenhuma figura pública esteja acima da lei.

Armindo Moniz considera que a discussão sobre a imunidade presidencial não deve impedir o apuramento de factos. Defende que uma eventual investigação permitiria esclarecer suspeitas e reforçar o princípio da igualdade perante a lei. “A questão central é saber o que aconteceria se houvesse envolvimento. Isso só pode ser esclarecido através de uma investigação”, afirmou, referindo-se à reportagem do The Guardian como um ponto de partida possível para averiguações.

O académico manifestou ainda preocupação pelo facto de, apesar de existirem alegações públicas, não terem sido anunciadas investigações formais. Na sua perspetiva, essa ausência pode refletir fragilidades institucionais, apontando, como exemplo, limitações na atuação de entidades como a Comissão Anticorrupção (CAC).

Ainda assim, sublinhou que não devem ser feitas acusações diretas sem prova, defendendo que cabe às instituições competentes — Ministério Público, CAC e PCIC — conduzir eventuais investigações.

Referindo-se ao contexto internacional, Armindo Moniz destacou que alguns dos indivíduos mencionados em relatórios externos “foram alvo de sanções ou restrições noutros países, por alegado envolvimento em práticas como branqueamento de capitais ou tráfico humano.” Considera, por isso, que Timor-Leste deve manter alinhamento com compromissos internacionais nesta matéria.

O académico alertou também para o impacto que associações, mesmo que não comprovadas, podem ter na perceção externa do país. “A ligação a indivíduos suspeitos pode afetar a imagem internacional de Timor-Leste”, afirmou.

Entre as questões levantadas está ainda a atribuição de passaportes diplomáticos, cuja competência é do Presidente da República. “Importa clarificar se esses atos seguem critérios legais ou se podem levantar dúvidas quanto à sua fundamentação”, advertiu.

Referiu igualmente a necessidade de escrutínio sobre situações passadas, incluindo decisões presidenciais e contactos com figuras estrangeiras, sublinhando que quaisquer conclusões devem resultar de investigação formal.

Armindo Moniz admite a possibilidade de riscos mais amplos. “O país deve prevenir a eventual utilização do seu território como ponto de passagem para redes criminosas internacionais, ainda que tal cenário careça de prova.”

Também Abel Pires, membro jurado da RENETIL, afirmou que não existe clareza sobre eventuais decisões do IX Governo relativamente a licenças associadas ao caso.

Segundo Abel Pires, atividades ligadas a criptomoedas não são, por si só, ilegais, mas “podem representar riscos quando associadas a indivíduos com histórico controverso referido em relatórios internacionais.”

O responsável alertou para a possibilidade de projetos de investimento serem utilizados como porta de entrada para outras atividades, defendendo maior rigor na avaliação de investidores estrangeiros.

Abel Pires referiu ainda alegações relacionadas com uma doação de 500 mil dólares e possíveis decisões subsequentes. “Essas situações devem ser devidamente esclarecidas pelas autoridades competentes”, sublinhou.

“Isto levanta questões que precisam de ser analisadas com rigor”, afirmou, acrescentando que eventuais fragilidades na supervisão podem ter impactos na economia e na credibilidade do país.

A Fundação AB Charity é uma organização não governamental internacional independente, registada na Irlanda e com reconhecimento jurídico na União Europeia. Conta com apoio da AB DAO em termos de financiamento e tecnologia. A sua missão é promover a filantropia global através do uso de tecnologias como blockchain e inteligência artificial, garantindo maior transparência e rastreabilidade/Foto: DR

 

Investimentos sociais da Fundação AB Charity

Segundo informação divulgada pela Fundação AB Charity, a entidade desenvolveu, ao longo de 2025, duas iniciativas em Timor-Leste nas áreas da educação e apoio social, num total de 1,19 milhões de dólares norte-americanos.

A primeira, anunciada a 4 de julho de 2025, consistiu na doação de 500 mil dólares para um programa de bolsas de estudo destinado a estudantes de famílias economicamente vulneráveis, com o objetivo de apoiar o acesso e a permanência no ensino superior.

A segunda iniciativa, anunciada a 21 de novembro do ano passado, envolveu a disponibilização de bens essenciais, avaliados em cerca de 691 mil dólares, para apoio a crianças em situação de pobreza, através de programas de assistência social.

De acordo com a organização, estas intervenções procuram responder a necessidades imediatas, ao mesmo tempo que promovem o acesso à educação como fator de mobilidade social.

Presidente rejeita alegações e defende abertura ao investimento estrangeiro

O Presidente da República, José Ramos-Horta, reagiu à recente reportagem do The Guardian, que levanta suspeitas sobre ligações entre investidores estrangeiros e um alegado esquema fraudulento com possíveis ramificações em Timor-Leste.

Segundo o Chefe de Estado, um dos indivíduos referidos, identificado como Frank Lin, é um empresário com atividade em vários países na área das tecnologias de informação. Indicou que este esteve em Timor-Leste no ano passado em contactos exploratórios, sem que tenham resultado investimentos concretos.

Ramos-Horta referiu ainda que o empresário apoiou iniciativas de caráter social, incluindo doações de bens e contributos para programas de bolsas de estudo.

O Presidente afirmou que não existem, até ao momento, provas que sustentem alegações de envolvimento em atividades criminosas em território nacional. “Não devemos fazer acusações com base na origem das pessoas. O Sr. Lin não cometeu qualquer infração em Timor-Leste”, declarou.

Sublinhou que a avaliação e aprovação de investimentos compete às autoridades competentes, com base no interesse nacional.

Ramos-Horta reconheceu, contudo, que o país, enquanto Estado jovem, pode estar exposto a riscos de infiltração por redes internacionais, defendendo a necessidade de vigilância. Ainda assim, afirmou não existirem sinais de presença consolidada de crime organizado em Timor-Leste.

Referiu também intervenções recentes das autoridades, incluindo o encerramento de atividades ilegais em Oé-Cusse e em Díli, como exemplo da capacidade de resposta do Estado.

“Devemos ser firmes contra o crime organizado”, afirmou, reiterando que o país continuará aberto ao investimento estrangeiro, desde que enquadrado na legalidade.

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