O encerramento da classe paralela em Uaguia, no posto administrativo de Ossu, tem deixado centenas de estudantes sem acesso seguro ao ensino secundário. A distância até à escola central em Olo-Cassa e a falta de recursos financeiros obrigam jovens a abandonar os estudos, suscitando indignação entre famílias e líderes comunitários.
Em 2025, o Governo determinou, através de um despacho da rede escolar, o encerramento de estabelecimentos considerados paralelos ou filiais, incluindo a classe paralela do suco de Uaguia. A escola central correspondente situa-se em Olo-Cassa, também no posto de Ossu. Após esta medida, estudantes de diversos sucos enfrentam deslocações que variam entre 5 e 40 km, tornando difícil ou mesmo impossível a continuidade dos estudos.
Romário da Silva, residente em Ossorua, explicou ao Diligente que não consegue frequentar as aulas em Ossu devido à distância e à falta de recursos para arrendar casa. “Preocupo-me muito com esta situação. Temos dificuldades financeiras, então decidi não continuar a estudar para ajudar os meus pais”, afirmou. O jovem revelou ainda que sonhava, desde criança, ser médico. “Queria um dia poder voltar à minha terra natal para atender a população que vive longe dos estabelecimentos de saúde. Mas estes sonhos foram interrompidos”, acrescentou.
A irmã mais velha de Romário, Anastácia Gusmão, explicou que tanto ele como a irmã Adalsiza, que preferiu não comentar, decidiram não prosseguir o ensino secundário devido ao encerramento da classe paralela. “Os meus irmãos não conseguiram frequentar o Ensino Secundário-geral porque a distância do nosso suco de Ossorua à escola central em Olo-Cassa é de cerca de 10 km”, disse.
Anastácia referiu ainda que a situação económica da família contribui para o problema: “Não temos dinheiro suficiente para arrendar uma casa em Ossu. Comparando a distância entre Uaguia e a escola central, Uaguia é um pouco mais próxima. De transportes, demora cerca de duas horas; a pé, aproximadamente cinco horas.”
Segundo Anastácia, os irmãos decidiram ajudar os pais na agricultura e em outros trabalhos remunerados. “O meu irmão trabalha na construção civil para ganhar dinheiro, enquanto a Adalsiza fica em casa a realizar tarefas domésticas.”
A jovem acrescentou que deputados da Comissão G, responsável pela educação, juventude, cultura e cidadania, chegaram a falar com os jovens, prometendo apoio para colocação no colégio, mas até ao momento nada foi concretizado. “Estamos quase no final do primeiro período, então já não vão às aulas. Apesar da tristeza, no próximo ano procuraremos outro caminho para que possam continuar os estudos”, explicou.
Relativamente à decisão do Ministério da Educação, Anastácia sublinhou “esta medida prejudica os alunos de diversos sucos que agora têm dificuldade em frequentar aulas. A decisão foi um choque, sobretudo para os estudantes do suco de Ossorua. Por isso, estas classes paralelas deveriam continuar, para facilitar o acesso ao ensino.”
Juventude de Ossu mobiliza-se pela reabertura da classe paralela
O Movimento de Juventude de Ossu tem-se mostrado preocupado com o encerramento da classe paralela em Uaguia e anunciou ações para pressionar o Ministério da Educação a reverter a decisão.
Em entrevista ao Diligente, Ason Maubere, porta-voz do movimento, afirmou sentir-se “triste e preocupado” com os efeitos desta medida. “As crianças da nossa comunidade, que não têm condições suficientes, perdem o direito à educação”, alertou.
Segundo Ason, a decisão afeta moradores de seis sucos que têm de atravessar a ribeira, enfrentando grandes dificuldades para chegar à escola. “Se os estudantes têm de percorrer distâncias tão longas, não conseguem concentrar-se nas aulas. Pior ainda, correm risco de vida durante a época das chuvas”, explicou.
O porta-voz criticou a política do Ministério, considerando-a “injusta e sem fundamentos concretos”. “A decisão não se baseia em factos reais. O Estado perdeu o seu papel de aproximar a educação das zonas rurais e das comunidades carentes”, afirmou.
Ason destacou ainda a importância da educação como direito fundamental, citando a Constituição da República Democrática de Timor-Leste: “No artigo 6º, o Estado garante e promove os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. O artigo 59 assegura o direito de todos os cidadãos à educação e garante igualdade de oportunidades para estudar e desenvolver competências”.
Perante esta situação, o Movimento de Juventude de Ossu anunciou várias iniciativas. Entre elas, está o envio de uma petição ao Parlamento Nacional, em particular à Comissão G, responsável por questões de educação, e aos órgãos de liderança do país — Presidente da República e Primeiro-Ministro — solicitando uma audiência pública para apresentar as preocupações da comunidade. “Queremos expor os problemas que o povo Maubere enfrenta devido ao encerramento da classe paralela”, sublinhou Ason.
Caso não haja uma resposta positiva do Ministério da Educação, o movimento compromete-se a organizar protestos pacíficos. “Se não houver uma solução, vamos mobilizar-nos e tomar medidas pacíficas contra esta decisão”, concluiu.
Controvérsia sobre encerramento da classe paralela mantém tensão entre comunidade e Governo
O ex-professor da classe paralela de Uaguia, Elídio Pinto, explicou que, no início de janeiro, apenas uma semana de aulas foi ministrada. Pouco depois, a classe paralela entrou em acordo com o Ministério da Educação, através da Direção-Geral do Ensino Secundário, para encerrar provisoriamente o processo de aprendizagem. “Estamos à espera da decisão final do Ministério”, afirmou.
Em 2025, 140 estudantes estavam registados na classe paralela de Uaguia, dos quais 9 desistiram durante o ano letivo. Dos restantes, 47 concluíram o curso como finalistas, enquanto cerca de 90 alunos continuaram do 10º para o 11º ano e do 11º para o 12º ano. No início deste ano letivo, inscreveram-se aproximadamente 30 novos alunos do 10º ano, totalizando cerca de 130 estudantes transferidos para a escola central em Olo-Cassa.
O Diretor Nacional do Ensino Secundário-Geral, Benjamim Fernandes, explicou que, no momento do encerramento, a classe paralela contava com apenas 95 alunos. Segundo ele, para manter uma turma paralela, o número mínimo de estudantes por ano letivo deve ser 90, e cada turma deve ter 45 alunos para que os professores cumpram 24 horas semanais de aula, conforme a lei da função pública. Por estas razões, justificou o encerramento da turma.
Elídio Pinto acrescentou que alguns estudantes desistiram devido à distância, e que outros, que se deslocavam de motorizada para Olo-Cassa, chegaram a ser detidos pela polícia por infrações de trânsito. Além disso, regras internas da escola — como pagamento de um dólar por atraso e dez dólares em caso de problemas disciplinares — tornam ainda mais difícil a frequência de alunos provenientes de sucos distantes.
Quanto à responsabilidade pela logística e transporte, Benjamim Fernandes afirmou que existem alternativas, mas que cabe aos pais organizar soluções próximas: “Ainda há estudantes que andam mais de 10 km diariamente para a escola. A responsabilidade de encontrar soluções próximas é dos pais.”
Recentemente, a Comissão G do Parlamento Nacional, responsável por educação, juventude, cultura e cidadania, visitou a escola e comprometeu-se a levar o caso à Ministra da Educação para inspeção direta. Apesar das críticas e da pressão da comunidade, o Governo mantém a decisão, argumentando que concentrar os alunos na escola central garante melhor qualidade de ensino, com recursos didáticos completos.
O ex-professor destacou ainda que, em 2025, 131 alunos frequentaram as aulas da classe paralela, cumprindo os critérios mínimos estabelecidos pelo regulamento para formar uma turma. “Estes dados são reais e comprovam que a classe atendia aos requisitos em termos de número de estudantes”, garantiu.
O Diligente tentou obter comentário do Presidente da Comissão G, Armando dos Santos, mas não recebeu resposta até à publicação da reportagem.
No meio desta situação, muitos estudantes e famílias questionam-se: se os líderes políticos apelam constantemente à juventude para estudar, esforçar-se e construir o futuro do país, por que razão não garantem as condições necessárias para que isso seja possível? Os estudantes perguntam aos responsáveis: “Se querem que sejamos o futuro de Timor-Leste e nos discursos nos dizem constantemente para estudar, por que é que não criam as condições para que possamos de facto estudar?”


