Subida do preço dos combustíveis começa a pressionar transportes e custo de vida em Timor-Leste

População faz fila para abastecer / Foto: Diligente

A subida do preço do petróleo no mercado internacional, impulsionada pelo conflito no Médio Oriente, começa a refletir-se em Timor-Leste. Nos últimos dias, postos de combustível em Díli aumentaram o preço da gasolina e do gasóleo, gerando preocupação com o impacto nos transportes e no custo de vida.

Timor-Leste depende totalmente da importação de combustíveis, pelo que qualquer variação nos preços internacionais acaba por se refletir no mercado interno. Desde domingo passado, os preços têm aumentado em vários postos de combustível do país.

No posto de Culu-hun, em Becora, a gasolina subiu de 1,16 para 1,30 dólares por litro e o gasóleo de 1,25 para 1,46 dólares. No posto Esperança Timor Oan, a gasolina passou de 1,09 para 1,19 dólares e o gasóleo de 1,19 para 1,31 dólares. Já no Realistic Fuel, a gasolina aumentou de 1,15 para 1,27 dólares e o gasóleo de 1,24 para 1,36 dólares.

A subida começa a gerar preocupação entre a população, sobretudo devido ao impacto que poderá ter no custo dos transportes e, consequentemente, no preço dos produtos essenciais.

Transportes públicos já sentem a pressão

Os transportes públicos — como táxis, microletes e autocarros — estão entre os setores mais sensíveis à subida do preço dos combustíveis.

Valentino Afonso de Sousa Ximenes, motorista de microlete na rota Hera, afirmou que, para já, preços permanecem inalterados, mas admitiu que poderá ser necessário rever os preços, caso o aumento se mantenha.

“Por enquanto, a tarifa para os passageiros continua a mesma, mas mais tarde poderemos pedir ao ministério competente autorização para aumentar o preço, para que a subida do combustível não afete os nossos rendimentos”, disse.

Atualmente, a tarifa do Terminal de Becora até Hera é de 50 centavos por passageiro. No entanto, alguns condutores defendem que o valor deveria aumentar para 75 centavos.

Também o motorista da microlete 07, Natalino Tilman Sarmento, afirma que o aumento do preço do combustível já está a afetar o rendimento diário. “Antes o rendimento era melhor, mas agora, com o aumento do combustível, pode chegar a um ponto em que deixamos de trabalhar porque já não compensa. O que sobra mal chega para a alimentação e necessidades diárias. Temos receio de que a situação piore nos próximos meses, como aconteceu em 2022”, afirmou.

O motorista acrescentou que alguns passageiros ainda não compreendem a situação e resistem a possíveis aumentos. “Pedimos ao Governo que crie condições para definir um preço justo. Alguns passageiros recusam pagar mais porque não entendem que o preço do combustível aumentou. Às vezes, até entram crianças na microlete e depois saem sem pagar”, contou.

Estudantes preocupados com possível aumento das tarifas

A subida do preço dos combustíveis também preocupa os passageiros. Dircia da Silva, estudante da Escola Secundária Santa Terezinha do Menino Jesus, em Hera, receia que o aumento se traduza numa subida das tarifas.

Segundo a estudante, mesmo o preço atual de 50 centavos já representa um peso para muitos alunos. “Se aumentar para 75 centavos, será muito pesado para os estudantes”, afirmou.

Dircia acrescentou que, quando há paralisações nos transportes públicos, os estudantes podem ficar até um dia inteiro sem conseguir deslocar-se para a escola. Por isso, pede ao Governo que encontre soluções para evitar o agravamento da situação. “Não são apenas os transportes que são afetados, mas também nós, os passageiros. Pedimos ao Governo que encontre uma solução para este problema”, disse.

Economistas e sociedade civil alertam para impacto na economia

O aumento do preço da gasolina, impulsionado por conflitos internacionais, poderá ter um impacto significativo na economia de Timor-Leste. Especialistas em economia avisam que o país depende totalmente da importação de combustíveis fósseis, pelo que qualquer variação nos preços internacionais acaba por refletir-se no mercado interno.

“Timor-Leste importa toda a energia fóssil que consome e o comportamento dos preços nos mercados internacionais reflete-se inevitavelmente no país. A dimensão desse impacto dependerá sobretudo da duração da subida do preço dos combustíveis”, explicou o economista António Almeida Serra.

Segundo o especialista, a intensidade do impacto dependerá da duração da atual tendência de subida, sendo ainda difícil prever se os efeitos serão mais ou menos significativos, sobretudo devido à instabilidade dos preços no mercado internacional.

“Depois de atingir os 106 dólares por barril, o Brent estabilizou em cerca de 92 dólares por barril a 10 de março. Embora seja difícil prever a evolução futura, é possível que se mantenha nesta faixa durante alguns dias, o que representa um aumento de cerca de 20 dólares por barril em relação ao período anterior ao início da guerra no Golfo Pérsico”, acrescentou.

O economista indicou que os setores mais afetados pela subida do preço dos combustíveis deverão ser os transportes e a produção de eletricidade. No entanto, o impacto sobre os consumidores e sobre a economia em geral dependerá também da política fiscal aplicada aos combustíveis e do nível de subsídios à eletricidade atribuídos pelo Estado.

“Os setores mais afetados serão os transportes e a produção de eletricidade, mas o impacto final dependerá da fiscalidade aplicada aos combustíveis e dos subsídios do Estado”, afirmou Serra.

Para reduzir o impacto na população, o especialista aponta para a necessidade de medidas de curto e de longo prazo. A curto prazo, o Governo poderá reduzir os impostos sobre os combustíveis e aumentar os subsídios ao diesel utilizado na produção de eletricidade.

“Há uma perspetiva de curto prazo e outra de longo prazo. A curto prazo, pouco se pode fazer além de reduzir os impostos sobre os combustíveis utilizados nos transportes. No caso da eletricidade, o Estado pode absorver parte do aumento dos custos através do reforço dos subsídios ao diesel utilizado na produção”, explicou.

A médio e longo prazo, António Almeida Serra recomenda um maior investimento em energias renováveis, como a solar, a eólica e a hidroelétrica. O economista salientou que a retoma do projeto hidroelétrico de Iralalara poderia representar uma estratégia importante para reforçar a independência energética do país.

“A médio e longo prazo, pode incentivar-se a produção de energias renováveis. Sempre considerei um erro ter-se desistido do aproveitamento hidroelétrico de Iralalara, que representou um investimento elevado para o país. Talvez esteja na altura de retomar esse projeto. Além disso, é possível incentivar a produção de energia solar e eólica, sobretudo para comunidades de pequena ou média dimensão”, afirmou.

O futuro do preço da gasolina dependerá, em grande medida, da evolução do conflito internacional. “É difícil fazer previsões, porque tudo dependerá da evolução da guerra. No entanto, a curto prazo, o preço do barril poderá manter-se durante algum tempo entre os 88 e os 92 dólares”, concluiu Serra.

Quanto à moeda, o economista observa que, como Timor-Leste utiliza o dólar americano, a valorização da moeda norte-americana desde o início do conflito não deverá ter efeitos significativos na economia nacional.

“O dólar americano valorizou ligeiramente desde o início da guerra no Golfo. No entanto, não antevejo uma alteração significativa nas taxas de câmbio e, por isso, os efeitos deverão ser limitados”, concluiu.

Para Marta da Silva, investigadora da organização La’o Hamutuk, o aumento do preço do combustível poderá acelerar a inflação em Timor-Leste.

Segundo a investigadora, apesar de o país possuir recursos petrolíferos, continua a depender totalmente da importação de combustíveis refinados. “As pessoas pensam que temos combustível porque possuímos recursos petrolíferos, mas isso não é verdade. Exportamos o petróleo em bruto e depois importamos novamente o combustível já processado. Por isso, quando o preço dos combustíveis sobe, o preço dos bens em geral também aumenta”, explicou.

Marta da Silva destacou ainda a ausência de reservas estratégicas de combustível controladas pelo Estado. “O Estado, através da Timor Gap, não conseguiu garantir reservas para três a seis meses. Apenas a empresa privada ETO afirma ter combustível armazenado para cerca de três meses”, disse.

De acordo com a investigadora, sem reservas estratégicas e sem diversificação económica, Timor-Leste poderá enfrentar maiores dificuldades caso o conflito internacional se prolongue. “Sem produção local suficiente e sem diversificação económica, teremos de gastar cada vez mais na importação de bens e combustíveis”, alertou.

A investigadora defende também um maior investimento nos setores produtivos nacionais, nomeadamente na agricultura, para reduzir a dependência externa. “Há muito tempo que o Governo fala em investir nos setores produtivos, mas isso ainda não aconteceu”, afirmou.

O impacto da subida dos combustíveis já começa também a gerar debate político.

A médio e longo prazo, António Almeida Serra recomenda um maior investimento em energias renováveis, como a solar, a eólica e a hidroelétrica /Foto: Diligente

Tema chega ao Parlamento

A situação foi também debatida no Parlamento Nacional. O deputado da bancada da FRETILIN, Antoninho Bianco, alertou que o conflito no Médio Oriente, envolvendo Israel, Irão e os Estados Unidos, pode ter efeitos indiretos em Timor-Leste.

“Já estamos a observar subidas de preços, como na gasolina, transportes, eletricidade e em alguns bens alimentares”, afirmou durante a sessão plenária.

O deputado expressou ainda preocupação com a ausência de reservas estratégicas de combustível no país. “Na realidade, o Estado não possui reservas estratégicas e depende totalmente do setor privado para garantir o abastecimento”, disse.

Antoninho Bianco pediu ao Governo que esclareça quais são as medidas previstas para garantir a sustentabilidade energética do país caso o conflito se prolongue.

Em resposta, o vice-ministro dos Assuntos Parlamentares, Adérito Hugo, afirmou que o Governo está a acompanhar atentamente a evolução da situação desde o início do conflito no Médio Oriente.

Segundo o governante, o Ministério do Petróleo e Recursos Minerais, em coordenação com a Timor Gap e a Autoridade Nacional do Petróleo e Minerais (ANPM), tem mantido contacto com empresas privadas para garantir a continuidade do abastecimento.

Adérito Hugo confirmou também que o Estado timorense não possui atualmente reservas próprias de combustível. “Há mais de vinte anos que o Estado não possui reservas de combustível em nome ou sob controlo direto do Governo”, afirmou.

O vice-ministro explicou ainda que a Timor Gap dispõe apenas de uma infraestrutura limitada no Suai, que não tem capacidade suficiente para assegurar reservas estratégicas em caso de crise.

No entanto, garantiu que o Governo mantém mecanismos para intervir caso se verifique uma crise internacional mais grave no mercado petrolífero. “Continuaremos a coordenar com as empresas privadas que operam no setor para assegurar que o fornecimento de combustível se mantenha de acordo com as reservas e a capacidade existente”, concluiu.

Se a instabilidade no mercado internacional se mantiver, especialistas alertam que os efeitos poderão estender-se a vários setores da economia. Num país que depende totalmente da importação de combustíveis, uma nova subida poderá refletir-se não apenas nos transportes, mas também no preço de bens essenciais, aumentando a pressão sobre o custo de vida da população.

 

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  1. Contrariamente às minhas expectativas o preço do crude brent ultrapassou os 100 usd/barril. A grande instabilidade dos preços continua e é difícil prever o futuro, que dependerá da evolução da guerra.

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