Ter acesso gratuito aos cuidados de saúde não significa, para todos, conseguir chegar até eles. Em Timor-Leste, a distância, o custo das deslocações, a falta de profissionais e as limitações de medicamentos e equipamentos continuam a criar desigualdades, sobretudo para quem vive longe dos centros urbanos.
Ter acesso gratuito aos cuidados de saúde não significa, para todos, conseguir chegar até eles.
Em Timor-Leste, a distância, o custo das deslocações, a falta de profissionais e as limitações de medicamentos e equipamentos continuam a criar desigualdades, sobretudo para quem vive longe dos centros urbanos.
Para quem vive em zonas remotas, a distância até uma unidade sanitária, o custo do transporte, o tempo perdido e a falta de profissionais, medicamentos ou equipamentos podem transformar um serviço público gratuito num cuidado difícil de alcançar.
A questão ganhou destaque durante a 79.ª sessão do Comité Regional da Organização Mundial da Saúde para o Sudeste Asiático, realizada em Díli. Mas, para Timor-Leste, o desafio ultrapassa as discussões de um encontro internacional: trata-se de saber se o sistema de saúde consegue garantir que uma pessoa, independentemente do local onde vive, consegue chegar a um serviço e receber, no momento certo, os cuidados de que necessita.
O preço escondido de uma consulta gratuita
Os serviços públicos de saúde em Timor-Leste são gratuitos, mas isso não significa que o acesso não tenha custos.
Para uma família que vive numa zona remota, procurar assistência médica pode implicar uma longa deslocação, despesas de transporte e horas, ou até um dia inteiro, afastada do trabalho.
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que, apesar de os cuidados de saúde públicos serem gratuitos, as pessoas continuam a enfrentar custos indiretos, como transporte, combustível e tempo perdido.
O problema, por isso, não está apenas no preço de uma consulta ou de um tratamento. Está também na possibilidade de chegar ao serviço, no tempo necessário para fazer a deslocação e na capacidade de encontrar, quando se chega, os profissionais, medicamentos e equipamentos necessários.
O primeiro-ministro, Kay Rala Xanana Gusmão, defende que estes custos indiretos devem ser considerados quando se avalia o acesso à saúde. “Os serviços públicos de saúde são gratuitos, mas isso não significa que sejam igualmente acessíveis para todos. Para uma família que vive numa zona remota, uma ida ao centro de saúde pode significar uma viagem difícil, despesas de transporte e tempo perdido de trabalho”, afirmou.
Para Xanana, medir o acesso apenas pelo número de unidades de saúde existentes ou pelo facto de os serviços serem gratuitos deixa de fora uma parte essencial da experiência dos utentes. “Chegar a uma unidade de saúde tem de significar conseguir receber cuidados atempados, com profissionais, medicamentos e equipamentos adequados”, afirmou.
É esta diferença entre ter um serviço disponível e conseguir utilizá-lo quando é necessário que coloca em causa a igualdade no acesso aos cuidados.
Quando a distância também é uma barreira
O problema torna-se particularmente evidente nas comunidades mais afastadas dos centros urbanos.
A questão não é apenas saber quantas unidades de saúde existem no país, mas perceber quem consegue chegar até elas, quanto tempo demora, quanto custa a deslocação e que cuidados encontra quando chega.
Sem dados detalhados sobre as distâncias, os tempos médios e os custos das deslocações por município, a dimensão desta desigualdade territorial nem sempre aparece nos números oficiais. A experiência das comunidades torna-se, por isso, essencial para perceber o impacto concreto destas barreiras. A distância pode ser ainda mais problemática quando a pessoa necessita de cuidados especializados ou de uma resposta de emergência.
Para quem vive longe dos principais centros urbanos, uma ida ao hospital pode significar uma viagem prolongada, despesas adicionais e tempo afastado do trabalho ou de outras responsabilidades familiares.
Xanana defende que as políticas públicas devem partir da experiência concreta das pessoas e não apenas dos indicadores produzidos pelas unidades de saúde.
“Temos de compreender o percurso que as pessoas fazem para conseguir cuidados de saúde. As mães que percorrem longas distâncias desde as montanhas, as pessoas com deficiência que procuram serviços acessíveis e os jovens que necessitam de apoio na área da saúde mental têm experiências diferentes e podem mostrar-nos problemas que os números nem sempre revelam”, afirmou.
O acesso à saúde começa, assim, antes da chegada à unidade sanitária.
Aproximar os cuidados das comunidades
O Governo procura aproximar os cuidados de saúde das comunidades através do Programa Integrado de Saúde (PIS), que visa reforçar os cuidados de saúde primários, melhorar o sistema de referência e encaminhamento e levar os serviços especializados para mais perto da população.
O programa inclui promoção da saúde, prevenção, rastreio, diagnóstico, tratamento e reabilitação.
A aposta procura reforçar a ligação entre os cuidados de saúde primários e os hospitais, para que os doentes possam ser acompanhados de forma mais próxima e encaminhados para os serviços de que necessitam.
A ministra da Saúde, Élia de Sousa Amaral, considera que o reforço dos cuidados primários deve avançar em paralelo com o desenvolvimento dos serviços especializados. “Para conseguirmos melhores resultados em saúde, precisamos de reforçar os cuidados de saúde primários e, ao mesmo tempo, desenvolver os serviços especializados e os profissionais necessários para os prestar”, afirmou.
A aproximação dos serviços é particularmente importante num país onde a distância e as condições de deslocação podem dificultar o acesso regular aos cuidados de saúde.
O objetivo está integrado na estratégia de Timor-Leste para alcançar a Cobertura Universal de Saúde: garantir que os serviços não estejam apenas disponíveis, mas que sejam acessíveis às populações, sobretudo às mais vulneráveis.
Faltam profissionais onde são mais necessários
A distribuição dos profissionais de saúde é outro dos obstáculos à igualdade no acesso.
Médicos, enfermeiros, parteiras, técnicos de laboratório, farmacêuticos e outros profissionais são essenciais para garantir que as unidades de saúde conseguem prestar cuidados de forma contínua e adequada.
O desafio não passa apenas por formar mais profissionais, mas também por garantir que estão onde são mais necessários e que as unidades de saúde têm as condições para prestar os cuidados de que as populações precisam.
Para Élia de Sousa Amaral, os profissionais estão no centro da transformação do sistema de saúde timorense. “Os nossos profissionais de saúde estão no centro desta transformação. Reforçar as suas competências e garantir melhores condições para o seu trabalho é essencial para melhorar os serviços prestados à população”, afirmou.
A Organização Mundial da Saúde defende equipas multidisciplinares e novos modelos de prestação de cuidados que permitam levar serviços especializados às zonas rurais, remotas e insuficientemente servidas.
Timor-Leste procura também reforçar a cooperação entre instituições de ensino e hospitais, através de formação, apoio técnico, acompanhamento e desenvolvimento profissional. Mas o aumento do número de profissionais, por si só, não resolve necessariamente o problema.
O responsável da OMS para a Região do Sudeste Asiático, Nilesh Buda, afirmou que a região registou um aumento de cerca de 70% na densidade de médicos, enfermeiros e parteiras. Ainda assim, a distribuição dos profissionais continua a ser determinante para garantir um acesso equitativo.
“O desafio já não é apenas formar mais profissionais de saúde. É garantir que tenham as competências e o apoio necessários e que estejam distribuídos de acordo com as necessidades das populações”, afirmou.
Para Timor-Leste, a questão é particularmente relevante num território onde a geografia pode dificultar o acesso regular aos serviços.
Apesar dos desafios, a OMS destaca progressos na área dos cuidados de emergência e críticos. Segundo a organização, Timor-Leste passou de uma capacidade de seis camas de cuidados intensivos com ventiladores, todas no Hospital Nacional Guido Valadares, em Díli, para 75 camas de cuidados de alta dependência e cuidados intensivos em todo o país. Mais de 1 300 profissionais de saúde receberam formação nesta área.
O reforço desta capacidade permite que alguns doentes com situações graves possam receber cuidados mais próximos das suas comunidades, reduzindo a necessidade de deslocação para Díli.
Timor-Leste venceu doenças, mas enfrenta novos desafios
Os problemas de acesso surgem num momento em que Timor-Leste alcançou importantes progressos no combate às doenças transmissíveis.
Em 2024, a OMS reconheceu a eliminação da filariose linfática como problema de saúde pública no país. Em 2025, Timor-Leste recebeu a certificação de eliminação da malária. Mas a eliminação de algumas doenças não significa que os principais problemas de saúde estejam resolvidos.
A tuberculose, a malnutrição, as mortes maternas e infantis evitáveis e o crescimento das doenças não transmissíveis continuam a exigir respostas do sistema de saúde.
A mudança significa que o sistema terá de responder simultaneamente a problemas antigos e a novas necessidades.
Um sistema preparado para necessidades que estão a mudar
O envelhecimento da população e o aumento das doenças crónicas estão a tornar os cuidados de saúde mais complexos, não apenas em Timor-Leste, mas em toda a região.
A crescente necessidade de serviços de diagnóstico, reabilitação, saúde mental, cuidados de longa duração e cuidados especializados coloca novas exigências ao sistema de saúde.
O ministro da Saúde e dos Meios de Comunicação Social do Sri Lanka e antigo presidente do Comité Regional, Nalinda Jayatissa, alertou para a crescente necessidade de serviços de diagnóstico, reabilitação, saúde mental, cuidados de longa duração e cuidados especializados.
“À medida que a população envelhece e as doenças crónicas aumentam, o acesso equitativo aos serviços de diagnóstico, reabilitação, saúde mental, cuidados de longa duração e outros serviços especializados será cada vez mais importante”, afirmou.
A resposta, segundo Nalinda, não passa apenas por aumentar o número de profissionais. É também necessário melhorar a sua distribuição, criar equipas multidisciplinares e garantir que os serviços dispõem de informação e apoio suficientes.
A modernização do sistema deverá, contudo, manter a dimensão humana dos cuidados. “A excelência científica e tecnológica deve ser acompanhada de empatia, compaixão e respeito pela dignidade humana”, afirmou.
O próximo desafio é garantir que ninguém fica para trás
Os progressos alcançados por Timor-Leste no controlo de doenças demonstram que o país consegue obter resultados quando existe uma estratégia nacional sustentada e cooperação com parceiros internacionais.
O desafio seguinte é mais amplo: garantir que esses resultados se traduzem numa melhoria concreta da vida das pessoas. Construir unidades de saúde, formar profissionais e desenvolver novas tecnologias são passos importantes. Mas nenhum deles, isoladamente, garante acesso.
A pergunta decisiva é outra: quando uma pessoa adoece, consegue chegar ao serviço de que precisa e encontrar ali o profissional, os medicamentos, os equipamentos e os cuidados adequados?
Para quem vive numa zona remota, a resposta pode depender não apenas da existência de uma unidade de saúde, mas também da distância, do transporte disponível, do dinheiro necessário para a deslocação, do tempo que terá de perder e dos recursos existentes quando finalmente chega.
É neste ponto que Timor-Leste enfrenta o seu próximo desafio na saúde: passar de um sistema em que os cuidados são formalmente gratuitos para um sistema em que sejam também efetivamente acessíveis. Porque, para quem vive longe de uma unidade de saúde, não ter de pagar pela consulta é apenas o primeiro passo.
A verdadeira igualdade começa quando a distância, o transporte, o tempo, a falta de profissionais ou a ausência de medicamentos deixam de determinar quem consegue — e quem não consegue — receber cuidados.























