Howard-Yana Shapiro: “Timor-Leste precisa de reavaliar o seu potencial agrícola”

Howard-Yana Shapiro, cientista de plantas e especialista em sistemas alimentares, durante uma conversa sobre a agricultura de Timor-Leste/Foto: Diligente

O cientista de plantas e especialista em sistemas alimentares Howard-Yana Shapiro defende que Timor-Leste deve repensar as suas prioridades agrícolas, investir na gestão da água, melhorar as sementes e apostar em culturas de maior valor nutricional e económico. Em entrevista ao Diligente, Shapiro fala sobre os desafios e oportunidades do setor agrícola e sobre o papel que este pode desempenhar na diversificação da economia do país.

Timor-Leste tem procurado diversificar a sua economia e reduzir a dependência das receitas do petróleo. Neste processo, a agricultura surge como um dos setores com maior potencial, mas também como uma área marcada por desafios relacionados com a água, as sementes, a produtividade, o acesso aos mercados e as cadeias de abastecimento.

Como aumentar a produtividade agrícola? Que culturas devem ter prioridade? E de que forma podem os agricultores obter maior rendimento do seu trabalho?

Estas são algumas das questões abordadas nesta entrevista com Howard-Yana Shapiro, cientista de plantas e especialista em sistemas alimentares, com várias décadas de experiência nas áreas da agricultura, do melhoramento de plantas, da genética e dos sistemas alimentares em diferentes países.

Shapiro, que esteve envolvido em iniciativas de investigação e desenvolvimento de culturas alimentares em países em desenvolvimento, esteve recentemente em Timor-Leste, onde participou em discussões sobre o desenvolvimento do setor agrícola.

Na conversa com o Diligente, defende que Timor-Leste deve avaliar melhor os recursos de que dispõe, estabelecer ligações com instituições internacionais de investigação e desenvolver soluções adaptadas às condições locais.

Timor-Leste tem muitos agricultores que trabalham em condições difíceis, com parcelas de terra fragmentadas, acesso irregular à água e limitações no transporte e armazenamento. Que modelo de produção pode ser desenvolvido em larga escala nestas condições?

Uma das questões a considerar é a forma de armazenar a água. Cada gota de água que desce pelas encostas é, na realidade, água desperdiçada. Bill Mollison, que desenvolveu o conceito de permacultura, introduziu um método chamado swale, que consiste numa vala ou depressão construída seguindo as curvas de nível do terreno, com o objetivo de captar a água e conduzi-la muito lentamente até uma lagoa ou reservatório. Desta forma, a água pode ser retida e utilizada, sobretudo durante os períodos de seca, quando as culturas sofrem de stress hídrico.

Estou em Díli há apenas 72 horas, por isso, seria difícil falar especificamente sobre todos os ecossistemas disponíveis para a agricultura em Timor-Leste. No entanto, já trabalhei em Bali, no Vietname, na Papua-Nova Guiné e em cerca de 50 outros países, onde tive contacto com diferentes abordagens para enfrentar problemas semelhantes.

A melhoramento de plantas será extremamente importante. Precisamos de desenvolver variedades adequadas às diferentes condições dos ecossistemas. Em zonas com escassez de água, por exemplo, precisamos de desenvolver e cultivar plantas mais resistentes ao stress causado pela seca. Isto é muito importante. Se não o fizermos, estaremos, na prática, a dizer aos agricultores: “Terão de enfrentar todos estes desafios sozinhos.” Por isso, precisamos de ter capacidade para formar os agricultores e, ao mesmo tempo, desenvolver programas de melhoramento de plantas para que possam utilizar sementes adequadas às condições locais, incluindo através de programas de melhoria do Ministério da Agricultura.

Um programa deste tipo requer tempo. Um bom programa de melhoramento de plantas pode levar cerca de três a cinco anos. No entanto, se não começarmos hoje, daqui a cinco anos Timor-Leste estará realmente atrasado.

Por isso, também é necessário prestar atenção às culturas que normalmente não são uma prioridade para as grandes empresas de sementes. Tomate? Não há problema. Pepino? Não há problema. Mas sei que ainda não existe muito trabalho dedicado à melhoria da qualidade e da produtividade da batata-doce roxa, amarela ou laranja. Então, como podemos desenvolver essas culturas? Quem podemos contactar, em diferentes países, que tenha conseguido aumentar os rendimentos das suas culturas três ou quatro vezes? Será que podemos obter acesso ao seu germoplasma através de cooperação internacional?

Já formei uma mulher através da African Plant Breeding Academy que conseguiu duplicar a produção de batata-doce na mesma área de terra. Ou seja, com a mesma área, a quantidade de alimentos disponível pode ser duas vezes maior. É este tipo de aumento da produtividade que precisamos de começar a desenvolver em Timor-Leste.

Na sua opinião, Timor-Leste deve concentrar-se no aumento da produção de arroz e milho ou dar maior atenção à horticultura, incluindo frutas, leguminosas, culturas arbóreas e criação de animais em pequena escala?

Para responder a essa questão, Timor-Leste precisa de olhar para além do seu próprio contexto e estabelecer relações com instituições internacionais. O International Rice Research Institute (IRRI), com sede nas Filipinas, dedica-se à investigação e à melhoria de variedades de arroz para as regiões tropicais. Se existirem variedades mais produtivas e adequadas a Timor-Leste, o Governo poderá estabelecer uma relação com o IRRI para obter material de plantação, testá-lo e desenvolvê-lo no país. O mesmo se aplica ao milho, através do CIMMYT (International Maize and Wheat Improvement Center), com sede no México e parte do CGIAR, uma rede internacional de investigação agrícola. Timor-Leste deve aproveitar a investigação e os recursos genéticos já desenvolvidos por estas instituições, em vez de começar tudo do zero.

A questão é saber se a prioridade deve realmente ser o arroz e o milho ou se deveria ser dada maior atenção à horticultura.

Timor-Leste ainda importa arroz e a produção nacional não é suficiente para satisfazer as necessidades da população. Além disso, arroz e milho exigem grandes áreas de terra e quantidades significativas de nutrientes, sobretudo azoto. Dada a área agrícola limitada do país, é importante questionar se uma libra de arroz proporciona mais valor à população do que uma libra de vegetais de folha verde, altamente nutritivos e ricos em ácido fólico.

Ambos têm funções diferentes, mas, se o arroz pode ser comprado em grandes quantidades e transportado por navio, talvez seja mais vantajoso utilizar a terra limitada para culturas de maior valor nutricional e mais difíceis de importar em estado fresco. Vegetais e frutas fornecem importantes macronutrientes e micronutrientes, incluindo vitaminas A, C e D, ácido fólico, zinco e ferro. Por isso, eu daria prioridade às culturas importantes para as necessidades nutricionais da população, considerando simultaneamente a possibilidade de importar mais arroz. O arroz e o milho podem ser secos e transportados por navio, enquanto os produtos frescos são muito mais difíceis de transportar em grandes quantidades, mantendo as mesmas condições de qualidade.

A gestão da água parece ser um dos principais desafios para o desenvolvimento agrícola. Que soluções considera prioritárias?

Timor-Leste tem muita água; o problema é saber como captar e armazenar a água que desce das montanhas. Se a fonte estiver numa zona elevada, a água pode ser armazenada e conduzida para os vales, onde poderá ser utilizada para irrigar as terras agrícolas.

Se eu estivesse na posição do Banco Mundial ou do FMI, uma das prioridades seria melhorar os sistemas de captação e armazenamento de água para irrigar as zonas baixas. Um projeto deste tipo poderia ser preparado para ser apresentado ao Banco Mundial, com o envolvimento do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB).

Timor-Leste precisa de aproveitar esta oportunidade. O Governo pode trabalhar juntamente com instituições como o Banco Mundial e o ADB para conceber sistemas de armazenamento de água adaptados às diferentes paisagens do país. Com um bom planeamento, todo o sistema pode ser concebido antes do início da construção, permitindo ao Governo demonstrar claramente o que precisa de ser feito e como deve ser executado.

Timor-Leste continua muito dependente das receitas do petróleo, enquanto a agricultura ainda gera receitas limitadas. Como pode o setor agrícola contribuir para a diversificação da economia?

É possível que nunca venha a ser um país exportador de arroz, e esse não deveria ser o principal objetivo. Existem muitas oportunidades que podem ser desenvolvidas.

Ao mesmo tempo, o fundo petrolífero não deve ser utilizado até se esgotar, mas continuar a crescer para beneficiar os filhos, os netos e as gerações futuras. O petróleo não é um recurso ilimitado e, um dia, vai acabar. Por isso, Timor-Leste precisa de desenvolver novas fontes de rendimento a longo prazo e os economistas devem analisar de que forma outros setores podem contribuir para essa diversificação.

O setor agrícola tem um grande potencial, sobretudo pela diversidade de hortícolas que podem ser produzidas no país para satisfazer as necessidades alimentares da população. Se quiserem aumentar a produção de arroz, por exemplo, será necessário construir grandes reservatórios nas encostas das montanhas para armazenar água e utilizá-la na irrigação, em vez de a deixar escoar para o mar.

Para as exportações, Bali é um dos mercados mais próximos. No entanto, como já produz grande parte das suas próprias necessidades e dispõe de uma área agrícola considerável, Timor-Leste deveria concentrar-se em produtos de valor diferenciado, como frutas exóticas que não estejam disponíveis noutros mercados e que possam ser transportadas em contentores refrigerados.

Um dos principais obstáculos é a falta de uma cadeia de abastecimento adequada. O porto de Timor-Leste ainda não dispõe de grandes instalações para contentores refrigerados destinados ao transporte marítimo de produtos de elevado valor. Além disso, exportar fruta nem sempre é a melhor opção, porque grande parte do seu peso corresponde a água, um recurso valioso e necessário para a produção de alimentos e para o cultivo de plantas importantes para as necessidades de ácido fólico da população.

O café poderá oferecer uma oportunidade ainda maior. A questão é saber quanto café Timor-Leste pode realmente produzir e se será capaz de exportar 1.000 ou até 2.000 toneladas por ano. Conhecendo a capacidade de produção, será possível calcular o valor económico que o setor poderá gerar no futuro.

O café é o principal produto de exportação não petrolífera de Timor-Leste, mas os agricultores continuam a receber rendimentos baixos. Como pode esta situação ser alterada?

Os preços do café mostram também uma oportunidade significativa. Alguns cafés podem ser vendidos por cerca de 1.000 dólares americanos por libra (aproximadamente 454 gramas), enquanto a maioria se situa entre 5 e 7 dólares por libra, ou cerca de 14 a 15 dólares por quilograma. Poderá Timor-Leste transformar o seu café num dos mais procurados e valorizados do mundo?

A resposta pode ser sim, mas será necessária uma estratégia de marketing forte, com influenciadores, storytelling ou uma narrativa atrativa e um website capaz de construir uma imagem forte para o café de Timor-Leste. A mensagem deve explicar claramente por que razão os consumidores devem experimentar este café e o que o torna diferente.

O objetivo não deve ser vender o café como uma commodity ao preço mais baixo possível, mas como um produto premium de elevado valor. Assim, os agricultores poderão receber mais, será criado maior valor ao longo da cadeia de abastecimento e das atividades de exportação, e Timor-Leste poderá ficar com uma parcela maior desse valor.

Uma das razões é que não estão a ser suficientemente bem pagos. Por isso, é necessário negociar a questão do preço pago ao agricultor ao longo da cadeia de abastecimento. De um lado estão os agricultores e, do outro, empresas como a Starbucks, que precisam de café e têm capacidade para pagar preços mais elevados. Precisamos de saber qual é o preço que compradores como a Starbucks estão dispostos a pagar, para que se possa estabelecer um preço que permita aos agricultores obter um rendimento mais digno.

Com melhores rendimentos, a produção de café tornar-se-á mais valorizada pelos agricultores e poderá incentivá-los a continuar a plantar e a cuidar das suas árvores de café. Para alcançar esse objetivo, é necessária uma análise abrangente da estrutura económica e da cadeia de fornecimento do café.

Eu próprio não consigo fazer essa análise. No entanto, Timor-Leste tem economistas, incluindo economistas especializados em agricultura. Esta manhã, por exemplo, houve dois economistas a falar, e um deles tinha conhecimentos sobre cadeias de abastecimento. É precisamente este tipo de conhecimento especializado que deve ser aproveitado para compreender como o valor e o preço do café podem beneficiar mais os agricultores.

Como pode Timor-Leste proteger as variedades locais e o conhecimento tradicional perante a introdução de novas sementes, tecnologias e direitos de propriedade intelectual?

Parte disso constitui propriedade intelectual, mas outra parte corresponde a informação pública proveniente de instituições doadoras internacionais. Por isso, é importante compreender a diferença entre ambas.

Se os agricultores cultivam variedades tradicionais, mas a sua produtividade continua a ser baixa, então essas variedades precisam de ser melhoradas através de programas de melhoramento genético. Uma das partes do desenvolvimento de um país consiste em compreender que culturas alimentares a população já possui, mas que ainda não foram suficientemente desenvolvidas. Por exemplo, se a batata-doce é uma das culturas tradicionais de Timor-Leste, por que não criar um programa para aumentar a sua produtividade? O Governo precisa de procurar essas oportunidades e identificar os financiamentos disponíveis.

Conheço uma mulher que recebeu formação através do African Orphan Crops Consortium e de uma academia de melhoramento de plantas e que conseguiu duplicar a produção de batata-doce. Timor-Leste poderia contactá-la e perguntar se estaria disposta a partilhar germoplasma. Nunca saberemos a resposta se não perguntarmos. Este tipo de iniciativa é importante para melhorar os meios de subsistência dos agricultores que atualmente praticam uma agricultura de subsistência, produzindo apenas o suficiente para alimentar a família, os animais e pagar a educação dos filhos.

Ao mesmo tempo, não devemos pensar apenas em Timor-Leste, mas também em como Timor-Leste pode fazer parte do sistema global. A investigação não deve dar prioridade apenas às culturas que são comercialmente atrativas para as empresas, mas também às culturas que são importantes para a alimentação das populações. As sementes comerciais não são necessariamente algo negativo, se puderem trazer benefícios para a população. Na verdade, muitas empresas de sementes possuem variedades melhoradas que já deixaram de comercializar e que talvez estejam dispostas a emprestar ou disponibilizar para serem testadas.

As empresas de sementes na Austrália e noutros países também possuem sementes de polinização aberta, que não são híbridas. Timor-Leste poderia solicitar algumas variedades, por exemplo, dez variedades de milho, para serem testadas. Depois de identificar quais as variedades que apresentam melhor desempenho, essas sementes poderiam ser desenvolvidas posteriormente. A partir de uma pequena quantidade de sementes, a produção poderia ser multiplicada gradualmente até atingir uma quantidade suficiente para ser distribuída ou vendida aos agricultores que dela necessitem.

No entanto, todas as sementes importadas devem ser previamente testadas no terreno antes de serem comercializadas. O ministério da agricultura ou a instituição responsável deveria realizar ensaios de campo replicados, ou seja, testes com várias repetições em diferentes locais, e não apenas num único lugar. Isto é necessário para obter evidências de que as sementes funcionam realmente bem em diferentes condições ambientais. Cinco repetições poderiam ser o ideal, mas, se o orçamento for limitado, três repetições em três regiões também poderiam ser uma opção.

Os vendedores de sementes são apenas intermediários; não são cientistas especializados em plantas nem agrónomos. Muitas vezes, escolhem as sementes com base em catálogos e fotografias, sem saber como essas sementes irão comportar-se no ambiente de Timor-Leste. Por isso, é necessário criar um sistema que obrigue todas as sementes a serem testadas antes de serem comercializadas. O Governo ou as universidades com conhecimentos especializados na área da agricultura devem assumir essa responsabilidade e garantir que as sementes disponíveis no mercado tenham elevada qualidade e sejam adequadas às condições locais.

O aumento da produtividade também é muito importante para a agricultura de subsistência. Se, por exemplo, uma variedade de milho conseguir produzir mais 30%, essa produção adicional poderá proporcionar mais alimentos às famílias agricultoras. Para apoiar este esforço, Timor-Leste não precisa de trabalhar sozinho. O IRRI (International Rice Research Institute), enquanto parte do sistema de investigação do CGIAR, possui variedades que podem crescer em Timor-Leste e que não têm necessariamente de ser pagas. O CIMMYT também possui variedades que poderão ser adequadas, incluindo variedades de milho com maior produtividade. Por isso, o Governo deve trabalhar em conjunto com instituições internacionais para desenvolver variedades adaptadas localmente, aumentar a produtividade e, em última instância, melhorar os meios de subsistência dos agricultores.

Muitas mulheres em Timor-Leste estão envolvidas em atividades agrícolas a partir de casa. Como pode a agricultura familiar contribuir para aumentar os seus rendimentos?

Os agricultores podem começar por cultivar produtos que sejam importantes e procurados pela comunidade e, depois, produzir um pouco mais do que aquilo de que a família necessita, para poderem vender o excedente. Para apoiar este processo, é necessário criar pequenos mercados onde os agricultores possam vender a sua produção. À medida que a procura aumenta, podem também aumentar a produção. Um mercado que começa por ser pequeno pode crescer gradualmente, até ao ponto em que compradores chegam com camiões refrigerados para adquirir a produção.

É isto que significa construir um sistema: começar com uma pequena horta familiar para garantir as necessidades alimentares, utilizar depois uma área adicional para cultivar produtos com valor económico, criar mercados, aumentar a produção e, finalmente, ligar os agricultores a compradores de maior dimensão.

Outra questão importante é garantir que todas as sementes certificadas que entram no país sejam previamente testadas. As sementes comercializadas devem produzir efetivamente plantas de acordo com aquilo que é apresentado na embalagem ou nas imagens. As imagens podem ser enganadoras, porque normalmente as plantas são apresentadas nas melhores condições possíveis. Um fotógrafo pode até retirar as folhas que parecem doentes antes de tirar a fotografia.

Por isso, os meios de comunicação social e o jornalismo devem chamar a atenção para estas questões. O objetivo é garantir que as famílias que cultivam em casa, os pequenos, médios e grandes agricultores obtenham resultados de acordo com as expectativas criadas pelas sementes que compraram. Aquilo que é apresentado na embalagem das sementes deve corresponder, de facto, ao que pode ser produzido quando essas sementes são cultivadas no campo.

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