Durante décadas, quatro homens da Igreja viveram momentos decisivos da história de Timor-Leste. Entre a reconstrução do pós-guerra, a violência política, a ocupação indonésia e o caminho para a independência, cada um deixou uma marca diferente. Agora, quatro percursos que atravessam gerações voltam a encontrar-se na terra onde foram vividos.
A 1 de setembro, milhares de pessoas saíram às ruas de Díli para acompanhar a chegada das urnas com os restos mortais de Jaime Garcia Goulart, José Joaquim Ribeiro e Martinho da Costa Lopes. Alberto Ricardo da Silva, o único dos quatro que morreu em Timor-Leste, já se encontrava sepultado no país.
As urnas foram transportadas do Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato até Tasi Tolu, onde foi celebrada uma missa de acolhimento presidida por três bispos. Para alguns, tratava-se de uma cerimónia religiosa. Para outros, era o regresso de uma parte da história de Timor-Leste.
Famílias inteiras permaneceram à beira da estrada. Outros fiéis dirigiram-se diretamente ao local onde seria celebrada a missa de acolhimento. Desta vez, porém, não esperavam os homens que um dia os cumprimentaram ou levantaram a mão para saudar os fiéis.
João Bobo, residente na Região Administrativa Especial de Oé-Cusse, considera que esta transladação representa muito mais do que o regresso dos restos mortais de quatro figuras da Igreja. “Estes quatro foram figuras importantes da Igreja, incluindo os primeiros bispos e os bispos de Díli, que, ao longo do seu percurso, contribuíram também para abrir o caminho para o processo de autodeterminação.”
Para João, preservar essa memória é também uma forma de transmitir a história às novas gerações. “Assim, os jovens também podem aprender e preservar a nossa história, tornando-a cada vez mais forte.”
Entre os fiéis estava Alda Rosário, de Díli. Confessa que não conhecia em profundidade a história de cada uma das quatro figuras, mas sentiu que devia estar presente. “Viemos esperar aqui porque, como fiéis, temos o dever de acolher os prelados que vieram para anunciar e proclamar esta religião na nossa terra.”
Alda admite que o seu conhecimento sobre cada um deles é limitado. Mas é precisamente nessa distância entre a memória histórica e aquilo que as novas gerações conhecem que este regresso ganha outro significado.
Quatro homens. Quatro percursos. Quatro momentos de uma história marcada pela guerra, pela ocupação, pela resistência e pela independência.
“Ainda hoje recordamos aquele bispo pela generosidade que demonstrou”
Jaime Goulart: reconstruir a Igreja a partir das ruínas
Jaime Garcia Goulart nasceu a 10 de janeiro de 1908, em Candelária do Pico, nos Açores, e tornou-se o primeiro bispo de Díli depois da separação da Igreja de Timor da Diocese de Macau.
O seu episcopado decorreu num dos períodos mais conturbados da história do território. Durante a ocupação japonesa, refugiou-se na Austrália, onde recebeu a ordenação episcopal, antes de regressar a Timor.
Quando voltou a Díli, encontrou uma cidade devastada pela guerra. A catedral, recentemente inaugurada, tinha sofrido danos e a Igreja dispunha de poucos sacerdotes. Foi a partir dessas ruínas que Goulart começou a reconstruir a Igreja.
O trabalho não passou apenas pela recuperação de edifícios. Apostou também na formação de recursos humanos, criou programas para catequistas e fundou um seminário menor, contribuindo para a formação de uma nova geração de religiosos timorenses. Mas a memória de Goulart não se limita à reconstrução da Igreja.
Abdullah Said Sagran, diretor da Fundação da Mesquita An-Nur de Díli, recorda-o também pela relação que manteve com a comunidade muçulmana.
Num documentário da Media CET, Abdullah recorda que a missão católica possuía uma fábrica de tijolos em Fatumeta. Quando a comunidade muçulmana precisava de material para reparar a Mesquita Haji Hasan, Goulart, em vez de vender os tijolos, ofereceu-os.
A ajuda não se ficou por aí. Segundo Abdullah, as duas comunidades colaboravam regularmente em diferentes atividades. “Ainda hoje recordamos aquele bispo pela generosidade que demonstrou.”
Os tijolos oferecidos foram utilizados na reparação e melhoria da mesquita antes de 1975. A memória de Goulart ficou, assim, associada não apenas à reconstrução da Igreja, mas também a uma relação de proximidade entre comunidades religiosas.
“Timor vai ser um cemitério”
José Ribeiro: o bispo que viu a guerra de perto
Quando Jaime Goulart deixou a liderança da Diocese de Díli, em 1967, sucedeu-lhe José Joaquim Ribeiro.
Nascido a 4 de fevereiro de 1918, em Degolados, Campo Maior, Portugal, Ribeiro dirigiu a diocese até 1977, atravessando um período de crescente instabilidade política e social.
Dom Norberto do Amaral, bispo da Diocese de Maliana, conheceu-o quando era seminarista. Num dos períodos de maior tensão, Ribeiro visitou os seminaristas refugiados em Fatumaka e contou-lhes o que tinha testemunhado em Díli.
Falou de feridos, de pessoas que tinham perdido braços e pernas e dos efeitos dos confrontos que então dividiam a população.
Numa das deslocações pela cidade, a caminho de Motael, encontrou a igreja relativamente intacta. No regresso, deparou-se com um cadáver na rua. Escavou uma sepultura e enterrou o corpo.
Para Norberto, esse episódio ficou entre as memórias mais fortes dos seus anos de seminário.
Terá também intercedido perante situações de julgamento popular de pessoas acusadas de traição. Quando começaram a ouvir-se apelos à execução de alguns dos acusados, levantou a mão e pediu para falar. Defendeu que ninguém deveria ser condenado através de julgamentos arbitrários e que os processos deveriam ser conduzidos pelas instituições competentes.
Questionou ainda, naquele contexto de violência, por que razão os timorenses não podiam amar-se uns aos outros. Pouco tempo depois, deixou Timor.
O seminário estava praticamente vazio. Apenas Norberto do Amaral e o padre Filomeno Barreto permaneciam no local.
Enquanto os aviões sobrevoavam a zona e se ouviam explosões ao longe, Ribeiro colocou as mãos sobre os ombros dos dois seminaristas, olhou para o céu e disse: “Timor vai ser um cemitério.”
Morreu em Évora, Portugal, a 27 de julho de 2002. Não chegou a assistir, em Timor-Leste, à restauração da independência.
Se Goulart é recordado como o homem que ajudou a reconstruir a Igreja depois da guerra, Ribeiro ficou na memória daqueles que o conheceram como alguém que testemunhou de perto a violência e procurou proteger a vida humana num período de profunda divisão.
“Um patriota, um homem corajoso, que renunciou a privilégios e benefícios para poder defender a causa sagrada do povo Maubere”
Martinho da Costa Lopes: a voz que não se calou
Depois da saída de Ribeiro, a Diocese de Díli passou a ser administrada por um homem nascido em Timor-Leste. Martinho da Costa Lopes nasceu a 11 de novembro de 1918, em Laleia, Manatuto.
Não foi bispo. Nos documentos oficiais da Igreja surge como monsenhor e, mais tarde, como Administrador Apostólico da Diocese de Díli. Mas o seu papel na história de Timor-Leste ultrapassou largamente o título que ostentava.
Martinho já tinha uma longa ligação à Igreja. Servira em Bobonaro, estivera envolvido na fundação do Colégio Infante de Sagres, em Maliana, e exercera funções de chanceler da diocese.
Quando assumiu a administração da Diocese de Díli, Timor-Leste encontrava-se sob ocupação indonésia. Perante a violência e o sofrimento da população, Martinho decidiu usar a sua posição para denunciar aquilo que testemunhava.
A sua voz começou a incomodar as autoridades. Em 1983, deixou Timor-Leste e partiu para Portugal, mas continuou a denunciar internacionalmente a situação vivida no território.
O padre Domingos Alves da Costa recorda, num documentário da Media CET, alguns dos episódios que marcaram esse período.
Segundo o sacerdote, por volta de 1981 começaram a ser recolhidas, em Aitane, fotografias que documentavam a violência das forças militares indonésias. As imagens mostravam, entre outras situações, crianças detidas e espancadas. A documentação acabou por chegar às mãos de Martinho.
Durante uma procissão com início em Motael, o monsenhor falou sobre o que estava a acontecer. A pressão sobre ele aumentou.
Quando surgiu a decisão de o retirar de Timor-Leste, Martinho não terá aceitado facilmente abandonar a população que acompanhava.
Domingos recorda uma das suas respostas. “Eu fico aqui à espera de vocês; se vocês disserem que devo partir, então partirei.” Acabou por partir.
Levou consigo documentos e fotografias que registavam as condições vividas pela população durante a ocupação. Parte desse material terá sido inspecionada pelas autoridades antes da sua saída, mas uma das malas acabou por não ser aberta depois de um monsenhor identificado como Pablo ter alegado tratar-se de bagagem diplomática.
A documentação saiu, assim, de Timor e continuou a circular no exterior, contribuindo para dar visibilidade à situação vivida pela população timorense.
Martinho morreu em Lisboa, a 27 de fevereiro de 1991. Não chegou a ver o referendo de 1999 nem a restauração da independência, em 2002.
Roque Rodrigues conheceu-o desde criança, quando Martinho visitava a casa dos seus pais, em Balide.
Foi, porém, durante a guerra que Roque passou a conhecer outra dimensão daquela figura. “A guerra, a ocupação criminosa da nossa pátria, provocou em Dom Martinho uma verdadeira reviravolta.” E acrescenta: “Um patriota, um homem corajoso, que renunciou a privilégios e benefícios para poder defender a causa sagrada do povo Maubere.”
“Dom Alberto era uma pessoa simples, gostava de fazer amigos, gostava de conversar com as pessoas e era bom para os outros”
Alberto Ricardo da Silva: permanecer junto do povo
Anos depois da saída de Martinho, um jovem sacerdote começava a construir o seu próprio percurso pastoral.
Alberto Ricardo da Silva nasceu a 24 de abril de 1943, em Aileu. Foi ordenado sacerdote em 1972 e exerceu funções pastorais em Motael. Aquele lugar viria a ficar ligado a um dos acontecimentos mais marcantes da história contemporânea de Timor-Leste.
A 12 de novembro de 1991, uma manifestação em Díli terminou com o assassinato de dezenas de jovens timorenses no Cemitério de Santa Cruz. As imagens do massacre correram o mundo e contribuíram para aumentar a pressão internacional sobre a Indonésia.
Alberto estava próximo da população. Depois do massacre, foi chamado e interrogado pelas forças militares indonésias. Os interrogatórios repetiram-se e a pressão tornou-se cada vez maior. Apesar disso, continuou a exercer o seu ministério.
Roque Rodrigues conheceu também este lado de Alberto. Embora reconheça a sua relação com figuras da luta pela independência, prefere recordá-lo sobretudo como sacerdote. “Conheço a sua ação como pastor, como homem que estava junto daqueles que sofriam e que, por isso, merece o meu respeito.”
Alberto é também recordado pela sua personalidade. Domingos Sousa, seu colega, descreve-o como um homem simples, comunicativo e próximo das pessoas. “Dom Alberto era uma pessoa simples, gostava de fazer amigos, gostava de conversar com as pessoas e era bom para os outros. Gostava de pintar e de desporto.”
O padre Ludgerio da Silva, que trabalhou como chanceler da Diocese de Díli durante cerca de cinco anos sob a liderança de Alberto, recorda sobretudo a sua dimensão espiritual.
Segundo Ludgerio, Alberto usava quase sempre a batina. “Usava sempre a batina; nunca o vi sem batina. Só nos momentos de descanso é que não a usava.”
Mas, mais do que o vestuário, Ludgerio destaca a forma como Alberto vivia a sua fé. “Para mim, foi sobretudo a sua vida de santidade que mais me impressionou.”
Também guardava uma coleção privada de pinturas, incluindo algumas obras da sua autoria.
Alberto viveu uma trajetória diferente da dos outros três homens da Igreja. Nasceu quando Timor ainda estava sob administração portuguesa, atravessou a ocupação indonésia, testemunhou o referendo de 1999 e acompanhou o nascimento do Estado independente.
Mais tarde, tornou-se bispo de Díli e permaneceu em Timor-Leste até à sua morte, a 2 de abril de 2015. Foi o único dos quatro a nascer e morrer em Timor-Leste.
Quatro histórias que regressam a casa
Goulart, Ribeiro, Martinho e Alberto não viveram a mesma época nem desempenharam exatamente o mesmo papel.
Um reconstruiu uma Igreja destruída pela guerra. Outro atravessou um período de conflito e divisão. Um terceiro transformou a sua posição numa voz contra a violência da ocupação. E o último permaneceu junto da população durante os anos decisivos que conduziram à independência.
As suas histórias cruzam-se, por isso, com diferentes capítulos da história de Timor-Leste. O seu regresso não representa apenas uma cerimónia religiosa. Para muitos dos que foram a Tasi Tolu, é também uma oportunidade para recuperar uma memória que corre o risco de se afastar das gerações mais jovens.
A 1 de setembro, quatro percursos diferentes voltaram a encontrar-se na mesma terra. Desta vez, não regressaram como bispos, administradores ou líderes religiosos. Regressaram como memória. Uma memória que atravessou guerras, ocupações, perdas e mudanças políticas e que, décadas depois, voltou a casa. Porque há histórias que não terminam quando os seus protagonistas partem.























