Praia do dólar: um investimento público à espera de uma nova vida

Praia do dólar, no Suco Uma Kaduak, Posto Administrativo de Laclo, Município de Manatuto. As infraestruturas turísticas construídas no local encontram-se atualmente parcialmente degradadas / Foto: Diligente

Mais de 800 mil dólares foram investidos na construção de infraestruturas turísticas na Praia do dólar, em Manatuto. Hoje, piscinas vazias, casas danificadas, jardins degradados, falta de água e eletricidade e um portão fechado há anos levantam dúvidas sobre o futuro do espaço e sobre a gestão de um projeto pensado para impulsionar o turismo comunitário.

A areia branca e o mar azul continuam a fazer da Praia do dólar um dos locais costeiros com maior potencial turístico do município de Manatuto. Mas, por trás da paisagem natural, as infraestruturas construídas para receber visitantes apresentam sinais evidentes de degradação.

Durante uma visita ao local, o Diligente encontrou três piscinas sem água, balneários sem abastecimento, torneiras danificadas, pequenas casas deterioradas e instalações elétricas sem funcionamento.

As piscinas construídas junto à linha costeira estão também expostas à ação das ondas, que atingem diretamente algumas das estruturas. A erosão costeira contribui para a deterioração das fundações e poderá, a prazo, comprometer a segurança das instalações.

Das cerca de 16 pequenas casas construídas para os visitantes, algumas apresentam danos nos telhados. As escadas e estruturas metálicas mostram sinais de ferrugem e deterioração, havendo partes partidas.

Também o espaço exterior perdeu grande parte das condições para as quais foi concebido. Algumas lâmpadas estão danificadas ou não funcionam e grande parte da vegetação plantada no jardim morreu. O portão de entrada permanece fechado há cerca de seis anos, segundo a autoridade local.

Mais de 800 mil dólares investidos em duas fases

Antes da intervenção do Estado, a Praia do dólar já era utilizada pela comunidade local.

Segundo Ferminio Ribeiro da Cruz, chefe do Suco Uma Kaduak, a partir de 2000 os moradores começaram a desenvolver pequenas atividades económicas no local, incluindo a venda de peixe, catupa, cocos e outros produtos.

Foi também nessa altura que, segundo o responsável, o local passou a ser conhecido como Praia do dólar, devido à cobrança de um dólar aos visitantes pelo estacionamento dos veículos. Antes disso, a praia era conhecida como Redan Leet ou Praia de Areia Branca.

A comunidade construiu pequenas estruturas com materiais locais e desenvolveu atividades que permitiam obter algum rendimento. “Um grupo denominado Ilimano Anan também chegou a investir no espaço, mas conflitos internos acabaram por interromper a iniciativa”, afirmou Ferminio.

Mais tarde, o Governo decidiu investir no desenvolvimento turístico da área. A Praia do dólar viria a ser incluída entre os projetos considerados para o desenvolvimento do setor do turismo, incluindo propostas no âmbito do modelo de Parceria Público-Privada (PPP).

Documentos oficiais da Agência de Desenvolvimento Nacional (ADN) registam, em 2018, o projeto de construção do espaço de turismo comunitário Praia do dólar, sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego (SEFOPE).

Durante essa intervenção foram construídas várias infraestruturas, incluindo 16 pequenas casas destinadas aos visitantes, cinco espaços para cafés e venda de produtos locais, três piscinas, um muro de proteção, um campo de futsal e um espaço para voleibol de praia.

O objetivo era transformar a área num espaço de turismo comunitário, lazer e atividade económica para a população local.

Segundo Paulo Alves, antigo diretor-geral da SEFOPE, o investimento foi realizado em duas fases. A primeira representou cerca de 500 mil dólares norte-americanos, enquanto a segunda, destinada à construção do muro que circunda o espaço, terá representado aproximadamente 300 mil dólares.

No total, o investimento referido pelo antigo responsável ascende, assim, a cerca de 800 mil dólares americanos.

Uma bomba de quase 30 mil dólares que continua sem funcionar

Em 2022, a responsabilidade pelo espaço passou da SEFOPE para o então Ministério do Turismo, Comércio e Indústria (MTKI). Em março de 2023, a SEFOPE confirmou publicamente a entrega de três locais de turismo comunitário ao MTKI, incluindo a Praia do dólar, com vista à sua gestão municipal.

Já em 2023, foi lançado um projeto para o fornecimento, reabilitação e reinstalação de uma bomba de água para a Praia do dólar.

A intervenção foi adjudicada à empresa Macocta PACMA Unipessoal, Lda., por cerca de 30 mil dólares americanos. Segundo os dados do projeto, os trabalhos começaram a 23 de maio de 2023 e tinham como prazo de conclusão 31 de dezembro do mesmo ano.

A intervenção destinava-se a recuperar o sistema de abastecimento de água, essencial para o funcionamento dos balneários e das piscinas e para a manutenção dos jardins.

No entanto, segundo o guarda do espaço, a bomba continua inoperacional. As piscinas permanecem vazias, os balneários continuam sem água e os jardins não dispõem de condições adequadas de manutenção.

O Diligente tentou contactar a empresa responsável pela intervenção para saber por que razão a bomba continua sem funcionar, apesar do investimento realizado, mas não conseguiu obter uma resposta até à publicação desta reportagem.

Sem água e eletricidade, a infraestrutura não funciona

Apesar das limitações, a praia continua a receber ocasionalmente pessoas que se deslocam ao local para passear, apreciar a paisagem ou tomar banho de mar. O problema está sobretudo no funcionamento das instalações turísticas, que permanecem sem condições para receber o público em pleno.

Agusto Maria Jesus da Cunha, guarda da Praia do dólar, afirma que o espaço ainda não recebeu autorização para funcionar plenamente como atração turística. “Até agora ainda não recebemos autorização para os visitantes pagarem quando entram para passear, divertir-se ou tirar fotografias”, explicou.

Segundo o guarda, a falta de água é atualmente um dos principais problemas. A bomba que deveria abastecer os balneários, as piscinas e o sistema de rega deixou de funcionar, segundo Agusto, entre 2023 e 2024. “Fechámos a porta por não ter a água e a eletricidade”, afirmou.

A eletricidade constitui outro problema. De acordo com o guarda, a rede elétrica ficou danificada depois de um veículo que transportava uma escavadora ter atingido a linha elétrica, provocando a queda dos fios e danos nos transformadores.

Técnicos da EDTL terão estado no local para avaliar os danos, mas a reparação ainda não foi concluída. “O serviço da EDTL já esteve no local e verificou a situação, mas nós, com o nosso salário, não temos condições de pagar pela manutenção. Isso é, na verdade, uma responsabilidade do Governo”, disse.

Agusto afirmou ainda que técnicos do Ministério do Turismo e Comércio estiveram no local para recolher informações sobre os equipamentos e estruturas danificadas. Até à publicação desta reportagem, não havia, contudo, uma data definida para o início de novos trabalhos de recuperação.

Ferminio Ribeiro da Cruz afirma que a autoridade do suco não tem competência para administrar o espaço. “O portão está fechado porque, neste momento, a autoridade do suco ainda não tem competência para gerir o espaço. O encerramento resulta de uma decisão do Governo central e, por isso, ainda não podemos autorizar a entrada das pessoas.”

Segundo o responsável, a questão tem sido discutida no Conselho Municipal, mas continua sem uma definição clara. “A autoridade municipal disse-me que ainda não existe uma decisão sobre como investir na Praia do dólar, porque atualmente a competência continua nas mãos do Ministério do Turismo, Comércio e Indústria.”

Visitantes criticam abandono

O estado atual da Praia do dólar também suscita críticas entre os visitantes.

Leónia Amaral considera que o desenvolvimento do espaço não foi acompanhado por um modelo de gestão adequado. “Este lugar, se fosse bem recuperado e mantido, poderia atrair visitantes internacionais. O dinheiro público foi investido aqui, mas, depois das obras, algumas estruturas, como as piscinas e as pequenas casas, acabaram por ficar abandonadas.”

Para a visitante, manter o espaço fechado enquanto as infraestruturas se deterioram representa uma perda para o Estado e para a população.

Pedro da Costa Sarmento também lamenta o estado das instalações. “É um lugar com capacidade para receber muitas pessoas e que muitos gostam de visitar, mas o portão permanece fechado dia e noite.”

O visitante considera que a falta de controlo, manutenção e monitorização contribuiu para a deterioração das estruturas.

Animais, lixo e falta de manutenção

A degradação das infraestruturas não é o único problema. Segundo Agusto, vacas e cabras entram no recinto e danificam as plantas e flores do jardim. O muro existente não chega à linha costeira, facilitando a entrada dos animais.

A acumulação de lixo constitui outro desafio. Os dois guardas são responsáveis pela limpeza de uma área extensa e, segundo Agusto, parte dos resíduos recolhidos volta a ser trazida pelas ondas.

Apesar das limitações, o espaço continua a ser procurado ocasionalmente para atividades. Segundo o guarda, um grupo de estudantes chegou recentemente a deslocar-se ao local para utilizar o salão, mas acabou por abandonar a iniciativa devido à falta de água e eletricidade.

A comunidade quer recuperar o espaço

Para Ferminio Ribeiro da Cruz, a solução passa por recuperar a Praia do dólar e devolver à comunidade um papel ativo na gestão do espaço.

O responsável recorda que, antes da intervenção do Estado, os moradores já desenvolviam atividades comerciais na área. “É importante dizer que o sítio foi originalmente desenvolvido e iniciado pela própria comunidade, que desenvolvia atividades comerciais no local e obtinha rendimentos através dessas atividades.”

Caso o Governo conclua as obras e entregue formalmente a infraestrutura ao município ou às autoridades locais, Ferminio defende a criação de um modelo de turismo comunitário. “Queremos transformar este espaço num sítio de turismo comunitário, para dar oportunidade aos membros da comunidade de desenvolverem negócios e ajudarem a melhorar a economia das suas famílias.”

Maria Fátima Soares, membro da comunidade, também espera que a Praia do dólar seja reaberta e que os moradores possam voltar a desenvolver atividades comerciais no local. Segundo Maria, a chegada de visitantes poderia criar oportunidades para a venda de produtos locais e aumentar o rendimento das famílias.

Um projeto à espera de uma decisão

A Praia do dólar continua a ter aquilo que inicialmente justificou o investimento: uma praia de areia branca, uma localização acessível e potencial para atrair visitantes. Mas, anos depois da construção das infraestruturas, o espaço continua sem funcionar plenamente.

A falta de água e eletricidade, a deterioração das instalações e a ausência de uma definição clara sobre a gestão impedem que o investimento cumpra, até agora, o objetivo para que foi concebido.

A situação representa também uma utilização pouco eficaz de recursos públicos, uma vez que a comunidade e os visitantes continuam sem beneficiar plenamente das infraestruturas construídas.

O Diligente tentou obter esclarecimentos junto do diretor-geral do Turismo, do Ministério do Turismo e Ambiente, António da Silva, sobre o estado das infraestruturas, o calendário para a recuperação, a atual responsabilidade pela gestão e os planos do Governo para a Praia do dólar, mas não obteve resposta até à publicação desta reportagem.

Enquanto isso, o portão continua fechado e parte das infraestruturas permanece inutilizada.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *