Dom José Joaquim Ribeiro foi o segundo bispo da Diocese de Díli, cargo que exerceu de 1967 a 1977. Substituiu o primeiro bispo da Diocese de Díli, Dom Jaime Garcia Goulart, que renunciou devido ao seu estado de saúde. Em 1977, Dom Martinho da Costa Lopes, o primeiro timorense a ocupar o cargo, substituiu Dom José Ribeiro após a sua renúncia.
Após a invasão militar indonésia de Díli, a 7 de dezembro de 1975, Dom José Ribeiro fez esforços para proteger os timorenses que tinham sido baleados e que viviam no meio do terror e das ameaças. Utilizava o seu carro para transportar os feridos para o hospital e, vestindo a sua batina branca e levando uma cruz, visitava famílias que viviam sob ameaça dos militares indonésios.
A contribuição de Dom Ribeiro para o fortalecimento da fé cristã, para a proteção dos timorenses numa situação extremamente difícil após a invasão e para a identidade de Timor-Leste é muito importante, e ninguém pode negar esse aspeto. Contudo, no processo de transladação dos seus restos mortais e na representação de Dom Ribeiro relacionada com o período de 1975–1977, o foco tem incidido sobretudo sobre aquilo que fez depois da invasão indonésia, enquanto as suas intervenções anteriores à invasão têm sido praticamente ausentes da construção da narrativa da Igreja e do Estado, bem como da sua repercussão nos meios de comunicação social e nas declarações de algumas pessoas.
A Igreja Católica, em geral, funcionou como uma das principais armas do sistema colonial português. Do ponto de vista do império português, particularmente durante o século XX, a Igreja tinha dois objetivos: contribuir para a unificação e promover o patriotismo (James Dunn, Timor: A People Betrayed, 1996).
Dom Ribeiro era um bispo que não apoiava a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal nem o seu impacto em Timor-Leste. Não estava aberto às mudanças políticas que estavam a acontecer no exterior e no próprio país. A Igreja Católica portuguesa era, em geral, uma instituição conservadora. Portugal não sofreu uma influência significativa do protestantismo e, por isso, não sentiu a mesma necessidade de mudar e de se abrir. Esta realidade tinha ainda maior expressão no Timor Português, devido à enorme distância geográfica e ao relativo isolamento da colónia.
A Igreja Católica no Timor Português não acompanhou nem implementou o Concílio Vaticano II, que promovia a justiça social como parte da evangelização e afirmava que a Igreja Católica não era o único caminho para a salvação. Esta situação era diferente, por exemplo, da de várias Igrejas Católicas da América Latina, onde o Concílio Vaticano II foi implementado e onde os religiosos, juntamente com o povo, lutaram contra as ditaduras militares como parte da sua missão evangelizadora.
O bispo, nascido em Évora, Portugal, a 4 de fevereiro de 1918, não concordava com o processo de descolonização liderado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), porque o considerava uma ideia comunista. Durante o processo de consulta do Grupo Coordenador para a Reformulação do Ensino em Timor (GCRET), liderado por Barbedo Magalhães, Dom José Ribeiro opôs-se à ideia de timorização do ensino, considerando que o programa era comunista (Barbedo Magalhães, Descolonização do Ensino em Timor, Um Projeto que a Intervenção Indonésia Matou à Nascença, 1997).
Havia padres, como Bruno Pistocchi e Eduardo Roxo, que se identificavam com o povo e lutavam contra a injustiça social. Estes dois padres apoiavam abertamente a independência de Timor-Leste e manifestavam a sua solidariedade para com a FRETILIN. Contudo, devido às suas críticas e ao seu envolvimento em atividades políticas, a Igreja e o Governo expulsaram o padre Eduardo Roxo do Timor Português (Nacroma, n.º 5, Ano I, 16/31 de outubro de 1974). Por outro lado, o bispo Dom Ribeiro encorajava os religiosos a apoiarem a UDT. As freiras e as meninas que viviam na casa das Canossianas, em Balide, costuravam bandeiras e bandeirolas utilizadas nas manifestações da UDT (Buibere Hamriik Ukun Rasik-An, 2020).
Quando ocorreram o golpe e o contragolpe, a liderança da FRETILIN pediu ao bispo Ribeiro que atuasse como mediador do conflito, mas o bispo recusou-se a reunir com representantes da FRETILIN. Por outro lado, mantinha uma relação próxima com a UDT e recebia frequentemente delegações do partido na sua residência.
No dia do nascimento das FALINTIL, em 20 de agosto de 1975, o vice-presidente da FRETILIN, Nicolau Lobato, pediu a Dom José Ribeiro que celebrasse uma missa no Quartel-General, em Taibessi, mas o bispo recusou, segundo o testemunho de Abílio Araújo na CLTV, em 2026.
Durante as férias da Páscoa de 1975, quando a FRETILIN mobilizou estudantes da UNETIM para recolher histórias e expressões culturais do povo, utilizando temas geradores segundo o método de Paulo Freire, com o objetivo de preparar um manual para uma campanha de alfabetização, o bispo classificou as atividades dos estudantes como uma forma de transformar o povo em comunista (Julgamos Que Comunicar com o Povo Não Significa Comunizá-Lo, A Voz de Timor, 22 de abril de 1975).
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, que substituiu Dom Martinho da Costa Lopes, afirmou na sua biografia que não concordava com a posição de Dom Ribeiro, que era contra a FRETILIN durante a guerra civil (Arnold Kohen, From the Place of the Dead – Bishop Belo and the Struggle for East Timor, 1999). Na realidade, Dom Ribeiro apresentava-se como uma pessoa neutra, mas tomou uma posição claramente anti-FRETILIN, enquanto mantinha uma relação muito próxima com a UDT.
O bispo Dom José Ribeiro tornou-se também um dos centros da campanha anticomunista contra a FRETILIN. Desde o início, numa carta pastoral de 25 de janeiro de 1975, alertava os fiéis para lutarem contra o comunismo e proibia-os de o seguirem. Na sua homilia, apelava aos padres e missionários para desejarem um Timor com progresso, justiça e paz, e pedia ao povo católico que rejeitasse as ideias comunistas e socialistas (Rowena Lennox, Fighting Spirit of East Timor: The Life of Martinho da Costa Lopes, 2000).
Não se sabe de onde o bispo obtinha as suas informações e influências, porque as informações que divulgava publicamente eram, muitas vezes, incorretas. Por exemplo, classificou a mobilização dos estudantes da UNETIM pela FRETILIN para recolher histórias, trabalhar com temas geradores e divulgar a campanha de alfabetização como uma atividade comunista.
Quando o conflito entre a UDT e a FRETILIN se intensificou, Dom José Ribeiro terá alegadamente informado os líderes da UDT de que comunistas do Vietname do Norte já se encontravam em Timor para treinar a FRETILIN. Embora essa informação fosse falsa, a declaração do bispo circulou na imprensa indonésia controlada pelos militares (Jill Jolliffe, East Timor: Nationalism and Colonialism, 1978). O Governo da Indonésia utilizou essa informação para justificar a sua campanha anticomunista e a sua intervenção em Timor.
Esta posição contrastava fortemente com a do padre português Leoneto do Rego, que fugiu juntamente com a população para as zonas montanhosas quando ocorreu a invasão. O padre Leoneto elogiou e apoiou os programas sociais, políticos e económicos da FRETILIN, considerando-os um caminho adequado para a libertação do povo (Três Anos nas Zonas Libertadas pela FRETILIN, Funu, n.º 1, Ano I).
O que mais preocupava Dom José Ribeiro era a defesa, por parte da FRETILIN, da separação entre a Igreja e o Estado, o que acabaria com os privilégios da Igreja Católica em Timor. Por isso, Dom Ribeiro acreditava que os comunistas já se tinham infiltrado na FRETILIN (Jill Jolliffe, East Timor: Nationalism and Colonialism).
Mas como é que a separação entre a Igreja e o Estado poderia ser uma ideia comunista? Muitos países capitalistas praticam a separação entre o poder do Estado e a Igreja. A separação entre os dois não é uma prática exclusivamente comunista, mas faz parte dos princípios de muitos Estados democráticos.
Após o contragolpe, a UDT, a APODETI e os seus aliados fugiram para a fronteira em busca do apoio da Indonésia, enquanto o governador Lemos Pires e membros da sua administração fugiram para Ataúro. O bispo Dom José Ribeiro esperava que a Indonésia pudesse salvar Timor do comunismo.
Contudo, a invasão da Indonésia não correspondeu às expectativas de Dom José Ribeiro. Dom José pensava que a Indonésia viria como um anjo para salvar Timor do comunismo, mas o seu comportamento acabou por ser o de um demónio (Frédéric Durand, Catholicisme et Protestantisme dans L’île de Timor: 1556–2003, 2004).
Depois da invasão, para conhecer melhor a realidade dos militares indonésios e a vida da população, o bispo Ribeiro saiu à rua para visitar famílias e constatou que a população vivia sob terror. Transmitiu então aos outros religiosos a sua opinião, comparando a invasão indonésia com a invasão de povos bárbaros (João Felgueiras e José Martins, Nossas Memórias de Vida em Timor, 2006).
O próprio bispo reconheceu implicitamente o seu erro quando visitou os prisioneiros da FRETILIN que os indonésios tinham capturado e mantinham presos na Comarca de Balide. Alguns militantes da FRETILIN confrontaram-no, dizendo que também tinha contribuído para aquelas atrocidades devido ao seu apoio à intervenção militar indonésia.
Germano da Silva responsabilizou o bispo pelo apoio à intervenção militar indonésia. O bispo respondeu que, embora fosse bispo, tinha visto apenas até Ataúro e não tinha visto o que acontecia para além dali. Durante a visita à Comarca de Balide, ajoelhou-se no chão da prisão, demonstrando a mudança da sua posição (entrevista com Germano da Silva e Francisco Kalçona, 2019).
Consciente de que a sua posição em relação à FRETILIN, que considerava comunista, estava errada e de que a sua expectativa de que a Indonésia pudesse salvar Timor do comunismo tinha resultado no contrário, Dom José Ribeiro escreveu, no início de 1976, uma carta ao Governo da Indonésia, afirmando que os militares indonésios estavam a matar, violar e torturar de forma extremamente cruel e que os seus paraquedistas desciam dos céus como anjos, mas comportavam-se como demónios (João Filgueiras e José Martins, Nossas Memórias de Vida em Timor).
O padre João Felgueiras e João Martins relatam ainda que, num encontro com militares indonésios, um comandante criticou a FRETILIN, afirmando que os comunistas tinham matado padres e religiosos. Dom José Ribeiro ficou furioso e respondeu: “Alto, senhor general, a FRETILIN não matou nenhum padre”.
Noutro encontro com autoridades indonésias, o bispo afirmou: “Vocês são aqueles que esperávamos, mas a forma como entraram e agiram destruiu todas as nossas expectativas”.
Dom José Ribeiro reconheceu, assim, que a sua posição contra a FRETILIN e a sua expectativa de que os militares indonésios salvariam Timor-Leste do comunismo estavam erradas, embora a sua posição anticomunista não tivesse mudado.
A compreensão que Dom José Ribeiro tinha do comunismo estava distorcida pela propaganda produzida pelos Estados Unidos da América, segundo a qual os comunistas não acreditavam em Deus, eram violentos e defendiam a ideia de que a mulher de um era também a mulher de outro. A realidade era muito diferente, pois a maioria dos líderes da FRETILIN eram cristãos católicos e tinham apenas uma esposa.
Não aceitando a invasão, que considerava bárbara, Dom José Ribeiro começou a denunciar e a confrontar a atitude dos militares indonésios. Dom José assumiu então um papel diferente. Durante o período colonial português, a Igreja fazia parte do Estado e recebia subsídios do Governo para a sua missão civilizadora, de acordo com a Concordata assinada entre o Vaticano e Salazar em 1940. Contudo, após a saída do Governo português e a sua substituição pelas autoridades indonésias, surgiu uma nova situação que obrigou a Igreja a assumir um papel diferente: a Igreja já não fazia parte do Estado.
Dom Martinho da Costa Lopes testemunhou que Dom José Ribeiro não conseguia suportar a situação que enfrentava. Chorava sempre que via ou ouvia falar do comportamento dos militares indonésios contra os timorenses. Sendo português, não suportava ver a Indonésia baixar a bandeira portuguesa e destruir tudo o que estava ligado a Portugal. Por isso, pediu ao Vaticano que lhe permitisse renunciar. Em 1977, Dom José Ribeiro renunciou e regressou a Portugal (Jill Jolliffe, East Timor: Nationalism and Colonialism).
A Igreja Católica definiu então o seu novo papel perante a nova situação. Dom José Ribeiro, no início da invasão, protegeu os timorenses e falou firmemente contra os militares indonésios, mas foi Dom Martinho da Costa Lopes quem conduziu a Igreja Católica de Timor juntamente com o povo na resistência contra a ocupação indonésia, apesar das várias pressões exercidas pelas autoridades indonésias e pelo próprio Vaticano. Dom Martinho nunca deixou de defender o povo Maubere, até que o Vaticano o obrigou a renunciar devido ao seu envolvimento na resistência contra a ocupação indonésia.
Como devemos enquadrar a posição de Dom José Ribeiro antes da invasão, quando apoiou a Indonésia na invasão de Timor? Até hoje, ainda não ouvimos a Igreja Católica reconhecer publicamente o seu erro relativamente a Dom José Ribeiro, que apoiou a intervenção militar indonésia para invadir Timor-Leste com o objetivo de eliminar o comunismo, apesar de ele próprio ter posteriormente reconhecido o seu erro.
Do mesmo modo, o Vaticano não reconheceu o seu erro ao obrigar Dom Martinho da Costa Lopes a renunciar ao cargo de bispo de Timor devido ao seu envolvimento na luta contra a ocupação indonésia. A Igreja Católica discriminou Dom Martinho, incluindo ao não o reconhecer como bispo em Portugal, isolando-o até à sua morte em Portugal. Pode consultar-se o documentário produzido por Max Stahl, intitulado Sometimes I Must Speak Out Loudly, para compreender, entre outros aspetos, como o Vaticano o obrigou a renunciar, o discriminou e como acabou por morrer em Portugal.
Dom José Ribeiro tornou-se um dos centros da campanha anticomunista, com uma compreensão distorcida do comunismo, reproduzida pela UDT e pela APODETI e reforçada pelos militares indonésios, que utilizaram essa narrativa como pretexto para a invasão da Indonésia.
A compreensão distorcida do comunismo continua a ser reproduzida até aos dias de hoje, tendo como alvo a FRETILIN, para justificar a ideia de que a Indonésia invadiu Timor-Leste porque a FRETILIN era comunista. Contudo, com base nos factos existentes, fosse ou não comunista, a Indonésia tinha ambições territoriais e estava disposta a utilizar todos os meios necessários para incorporar Timor como parte do território indonésio, transformando-o numa das suas províncias.
As intervenções de Dom Ribeiro antes da invasão tiveram consequências profundas para Timor-Leste, não apenas no que diz respeito à invasão e à ocupação, que provocaram a morte de muitas pessoas, mas também à campanha anticomunista distorcida que continua hoje a ganhar força em Timor.
Chegou o momento de fazer uma crítica histórica à campanha anticomunista distorcida e à utilização contínua da propaganda política contra a FRETILIN. Contudo, para fazer uma crítica da história, é primeiro necessário conhecer a história. Para fazer uma campanha contra o comunismo, é necessário compreender primeiro o que é o comunismo, e não simplesmente repetir a propaganda dos países capitalistas que apresentam o comunismo como algo intrinsecamente mau.
Quando procuramos conhecer verdadeiramente o nosso passado, podemos aprender as lições da nossa história e, assim, construir um Timor para todos, baseado na verdade, e não na manipulação da história, evitando que erros semelhantes sejam repetidos hoje e no futuro.

Nuno Rodriguez Tchailoro, investigador independente.























