A história das mulheres em Timor-Leste sempre foi dura. Durante a ocupação indonésia, as mulheres não foram apenas combatentes, mensageiras e organizadoras políticas — foram também deliberadamente alvo por causa disso. Muitas foram mortas pela sua participação na ala armada da resistência, torturadas devido à sua ligação a membros das Falintil ou do CNRM/CNRT, ou violadas por soldados indonésios como instrumento de punição e degradação. Como regista o Chega!: “As mulheres foram sujeitas a violações, escravatura sexual e tortura sexual como estratégia deliberada para punir, intimidar e quebrar a vontade de indivíduos e comunidades.”
Com a independência, o padrão de violência apenas mudou de forma. As mulheres continuam a ser esmagadoramente as vítimas da violência doméstica — com 35% a sofrer violência por parte dos parceiros íntimos (algumas estimativas apontam para mais de 50%), e com a violência doméstica a representar hoje quase metade de todos os casos nos tribunais timorenses. É uma realidade diária: as mulheres são assediadas ou abusadas por qualquer pessoa capaz de exercer poder sobre elas — maridos e namorados, professores, padres, funcionários públicos, motoristas de transportes, membros do governo e até atores judiciais cujo mandato deveria garantir o acesso à justiça.
A violência contra as mulheres hoje não é um dano colateral da luta pela independência. É o resultado de uma negligência estrutural prolongada por parte do Governo, do Parlamento e de todas as camadas masculinizadas da sociedade. Timor-Leste nunca reconheceu a violência baseada no género como uma crise nacional, um desastre ou uma epidemia. Os líderes falam dela brevemente em eventos — quase sempre organizados por parceiros de desenvolvimento ou ONG’s — e um pouco mais durante os 16 Dias de Ativismo, para depois seguirem em frente.
A consciência pública está a crescer lentamente; algumas pessoas veem um vídeo “viral” de violência e expressam choque no Facebook. Mas sejamos honestas: choque nas redes sociais não é sistema, não é política pública e, certamente, não protege nenhuma mulher.
A prevenção e a resposta à violência baseada no género continuam relegadas a prioridades secundárias. O próprio Roteiro para a Justiça do IX Governo Constitucional menciona a violência de género apenas uma vez — uma única frase! — enquanto os tribunais continuam a enviar agressores reincidentes de volta para casa com pequenas multas, mostrando claramente que o Estado falhou em construir um sistema de proteção acessível e eficaz.
O investimento público permanece mínimo; o peso recai quase totalmente sobre a sociedade civil e os parceiros de desenvolvimento, que mantêm abrigos abertos, prestam assistência jurídica e realizam programas de educação e prevenção.
Entretanto, o sistema de apoio ficou parado no tempo: dez anos — e não foi criado um único novo centro ou serviço de apoio para mulheres. E todos continuam concentrados em alguns municípios, deixando mulheres das áreas rurais e remotas efetivamente abandonadas.
A consciência aumenta, mas a resposta do Estado permanece congelada — e as mulheres pagam o preço.
O que exatamente esperávamos que acontecesse nestas condições?
Estamos agora a ver o resultado: parceiros, maridos e membros da família estão a matar mulheres. Só em 2024–2025, mais de dez mulheres foram vítimas de feminicídio, assassinadas em atos claramente ligados à violência baseada no género.
O ciclo da violência contra a mulher — amplamente documentado na literatura global (Walker, 1979; OMS, 2021) — está a tornar-se mais curto, mais explosivo e mais letal. E ninguém parece alarmado.
O país debate a adesão à ASEAN, se um ou dois homens devem governar este Estado no futuro, uma estrada que demora demasiado tempo a ser concluída, os nomes das paragens de autocarro e intermináveis disputas políticas masculinas sobre velhas mágoas históricas — mas não o facto de que mulheres estão a morrer, a sofrer violência de forma regular e a ser mortas em número crescente pelos seus pares masculinos.
Como observa a ativista Berta Antonieta, a cultura política de Timor-Leste frequentemente assenta no “maunbootizmu” — uma lógica de fraternidade masculina em que homens protegem homens, instituições protegem os agressores e ninguém ousa desafiar o poder.
A política continua dominada por homens, com algumas mulheres a conquistar um pequeno espaço — e ainda assim observa-se uma cobardia estarrecedora, em que praticamente todos tratam outras mulheres como descartáveis e recusam enfrentar uma realidade em que mulheres e crianças podem ser violadas, e mulheres podem ser mortas às dezenas, centenas ou milhares sem que o Estado apresente uma resposta minimamente proporcional à dimensão da crise.
O feminicídio em Timor-Leste representa uma crise que está a desdobrar-se neste exato momento — e o silêncio está literalmente a matar-nos.


