Na pele de um vendedor de peixe: a luta diária de Júlio sobre duas rodas

Júlio Soares, 46 anos /Foto:Diligente

Enquanto os primeiros raios de sol rasgam o céu sobre as ruas movimentadas de Hera, uma velha cadeira de rodas avança lentamente por entre a multidão. Sobre ela, um homem. À frente, um balde preto cheio de peixe fresco. Mais do que mercadoria, aquele balde carrega a dignidade de quem se recusa a desistir.

Numa manhã clara em Hera, a vida começa cedo. O som das conversas, dos passos apressados e das portas que se abrem mistura-se no ar. No meio dessa azáfama, Júlio Soares, 46 anos, empurra a sua cadeira de rodas com as próprias mãos. Conhece cada curva, cada desnível e cada rosto daquela terra onde nasceu e cresceu.

Veste uma camisa de mangas curtas, calças compridas e um pequeno chapéu para se proteger do sol intenso. À frente da cadeira, pendurado com cuidado, segue o balde preto com peixe fresco. Com voz firme — ainda que nem sempre facilmente compreendida — anuncia a sua venda aos transeuntes e às casas próximas. Espera. Sempre espera que alguém pare.

Há mais de dez anos que vive assim. “Compro aos pescadores e revendo”, diz com simplicidade.

Investe cerca de 10 dólares na compra dos molhos de peixe. Cada molho é vendido por um dólar. No fim do dia, se tudo correr bem, consegue cerca de cinco dólares de lucro — um valor que para muitos pode parecer pequeno, mas que para ele significa o suficiente para continuar.

“Normalmente, compro cinco molhos por um dólar; cada molho tem cinco peixes. Depois junto para formar um molho com sete peixes e vendo por um dólar. Mas há sempre quem regateie e o lucro acaba por ser pequeno.

Todos os dias sai de manhã e regressa apenas ao final da tarde. Percorre Hera sozinho, empurrando a cadeira de rodas sob o calor e o cansaço. “Às vezes volto mais cedo, se o peixe acabar”, explica.

Mas nem sempre acaba. Quando sobra, há um gesto que lhe traz algum conforto: “Se não acaba, são sempre as freiras dominicanas que compram. Isso ajuda muito.”

Júlio vive com deficiência desde a infância. Tinha sete ou oito anos quando começou a perder a força nas pernas. “Dizem que foi uma magia que era para o meu irmão mais velho, mas que acabou por me atingir. Não fui levado ao hospital… e fiquei assim.”

As palavras saem sem revolta, apenas com uma aceitação que parece ter sido construída ao longo dos anos. Sem tratamento médico, a condição permaneceu. A cadeira de rodas tornou-se parte da sua vida.

Apesar disso, nunca deixou que a imobilidade das pernas significasse imobilidade da vida. Aprendeu a adaptar-se, a sobreviver e a trabalhar. Continua solteiro. Escolheu uma vida simples. Diz nunca ter sofrido discriminação, talvez porque toda a gente o conhece desde criança. Em Hera, Júlio é parte da paisagem humana.

Quando não está a vender, descansa à sombra de uma árvore. Ao final da tarde, vai pescar na praia próxima. “O peixe que apanho é para comer com a família. Vou ao fim da tarde e volto à noite. A casa fica perto da praia, é seguro.”

Desde pequeno vive com o tio, na aldeia de Bedik, em Hera. Os pais já faleceram. Os irmãos vivem em Camea, cada um com a sua família. A relação mantém-se, mas Júlio escolheu ficar e lutar pela própria independência. “Guardo uma parte do lucro para reinvestir. O lucro é pequeno, mas é meu.” Na pequena casa onde vive com o tio e os sobrinhos, ajudam-se mutuamente. É pouco, mas é partilhado.

Júlio nunca foi à escola. Queria estudar, mas as dificuldades económicas, a situação familiar e os problemas na fala impediram-no de concretizar esse sonho. Ainda hoje, quando fala com os clientes, precisa de erguer a voz e repetir as palavras. “Tenho de falar alto. Às vezes, o cliente aproxima o ouvido e tenho de repetir duas vezes.” Mas nunca se envergonha. Nunca recua.

O ano em que a água levou o que restava

Em 2024, a chuva caiu sem descanso. A água subiu lentamente até invadir a pequena casa de madeira que lhe servia de abrigo. As paredes frágeis e o telhado simples não resistiram. A inundação levou o pouco que tinha.

“Fiquei muito triste por perder a casa…”, recorda, pausadamente. “Mas recebi ajuda. O padre da região trouxe arroz, sabonete e outros bens.”

A ajuda aliviou a urgência, mas não apagou a dor. Desde então, voltou a viver com o tio e os sobrinhos. A casa que era sua tornou-se memória. E como se não bastasse, pouco tempo depois, outro golpe. Num dia comum de trabalho, enquanto vendia peixe na rua, foi atropelado por uma mota.

“O meu sobrinho levou-me logo ao hospital. Sofri lesões nos ossos da perna. Como já estou paralisado, piorou.” Para alguém que depende dos braços para se mover, qualquer lesão é mais do que dor física — é ameaça direta à sobrevivência. “Senti medo. Mas não fiquei traumatizado. Este é o risco de vender nas ruas.”

Depois de recuperar, voltou. Voltou com o mesmo balde preto, a mesma cadeira de rodas, a mesma determinação. Como se cada regresso fosse uma declaração silenciosa de resistência.

Segundo o Censo de 2022, Timor-Leste registava 17.061 pessoas com deficiência, num universo de cerca de 1,3 milhões de habitantes. Até ao final de 2023, apenas cerca de oito mil recebiam subsídios do Estado. Desde 2024, passou a existir uma pensão mensal de 60 dólares.

Júlio, porém, continua a trabalhar. “Até agora ainda não sei se existe algum subsídio para pessoas na nossa situação”, diz.

E, enquanto fala, as rodas da sua cadeira continuam a girar pelas ruas de Hera. Pequenas, firmes, persistentes. Tal como a esperança que carrega todos os dias — discreta, silenciosa, mas impossível de apagar.

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