Com engenho, persistência e conhecimentos construídos de forma autodidata, Luciano Pereira desenvolveu um sistema de dessalinização que levou água potável à ilha de Jaco, salvou animais e abriu caminho a soluções sustentáveis para zonas remotas de Timor-Leste.
Luciano Pereira, jovem inovador de Liquiçá, transformou a curiosidade em trabalho científico aplicado, contribuindo para o avanço da produção de água potável em Timor-Leste. Munido de determinação, do apoio da família e de dezenas de livros que reuniu em vários países, iniciou a sua pesquisa de forma independente em 2017, muito antes de receber autorização oficial da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) para estudar Ciências Químicas.
Combinando métodos de filtração com carbono e osmose inversa — que ele próprio adaptou —, construiu um sistema simples, mas eficaz, capaz de transformar água do mar em água própria para consumo humano. A sua criatividade e perseverança permitem-lhe ultrapassar limitações técnicas e burocráticas para responder às necessidades das comunidades.
Luciano destacou-se no município de Lautém, na ilha de Jaco, onde o sistema de dessalinização salvou animais e garantiu água potável numa zona totalmente desabitada. O projeto contou com o apoio direto do Primeiro-Ministro e do Ministro da Agricultura, Pecuária, Pescas e Florestas. Ao mesmo tempo, instalou sistemas semelhantes na ilha de Ataúro, na aldeia de Baruana, com o apoio do PNUD.
Qual foi a principal razão para ter iniciado o projeto de dessalinização precisamente na ilha de Jaco e não noutra zona do país?
O projeto recentemente lançado na ilha de Jaco não foi uma iniciativa minha, mas sim do Ministério da Agricultura, Pecuária, Pescas e Florestas (MAPPF). Fizemos pesquisas e apresentámos ao Primeiro-Ministro os problemas existentes em Jaco. Foi a partir daí que o MAPPF me enviou para a ilha.
Quando estava a desenhar o projeto e tinha acabado de receber o contrato do MAPPF, fui também contactado pelo Ministério do Turismo e Ambiente, através da Direção-Geral do Ambiente, para dar continuidade às obras em Ataúro, na aldeia de Baruana, no suco Acrema, e na aldeia de Ilidua, no suco Fatu. A construção nessas zonas já está a meio e encontra-se agora à espera da fase seguinte para poder produzir água potável para a comunidade.
Como se sentiu no momento do lançamento oficial? Foi um marco importante para si, pessoalmente e profissionalmente?
Acredito que a flexibilidade, o espírito de nacionalismo e o foco nos recursos locais são essenciais. Tenho 100% de vontade de contribuir para o desenvolvimento do país, porque aquilo que fazemos reflete o cuidado pelos seres humanos — como acontece em Ataúro. Ataúro é um local que podemos considerar isolado: a internet é limitada, o transporte de materiais depende das marés e só podemos viajar quando o mar o permite.
É por isso que digo que, se o Governo decidir ajudar outras regiões, estarei sempre disponível. Isto não é apenas um negócio; se eu estivesse apenas a aproveitar oportunidades ou a procurar lucro, não seria o meu trabalho. Por isso, na altura, prometi que voltaria a atuar, e o Governo planeou que eu regressasse a Ataúro e também à ilha de Jaco.
Se pensasse apenas no meu benefício pessoal, não teria feito nada disto. O meu objetivo sempre foi transformar a água para que os seres vivos locais pudessem usufruir dela. Não temos fundos de investimento, como acontece noutros países, onde, com dinheiro e conhecimento, uma pessoa pode agir apenas com uma autorização do Governo e cobrar uma taxa à comunidade. Na realidade, sou alguém com conhecimento e capacidade técnica, mas sem capital, por isso dependo das decisões do Governo.
Se houver decisões, ideias ou políticas para fornecer água às comunidades que vivem junto ao mar, em zonas de difícil acesso e com falta de água, acredito que a melhor solução é transformar a água do mar em água potável. Posso garantir que, desde 2019, transformo água do mar em água engarrafada própria para consumo. Assim, a comunidade pode utilizar o mar de forma sustentável e continuar a beneficiar dele, como acontece atualmente.
Consegue explicar, de forma simples e acessível, como funciona o sistema de dessalinização instalado em Jaco?
Nos locais onde instalei os sistemas, as condições não são iguais. Em Liquiçá, as pessoas obtêm água através de galões; para aceder a essa água, é necessário comprar os galões. Em Liquiçá, também já existe um plano, cuja construção começou entre 2024 e 2025. Já preparámos um armazém que está cerca de 60% concluído. Esta é uma alternativa para reduzir as importações.
Atualmente, estamos a preparar água do mar captada diretamente do oceano e água de nascente proveniente das montanhas, que serão combinadas para produzir água engarrafada — tanto em galões como em copos. Tudo isto está a ser preparado para o final deste ano e, no próximo ano, instalaremos o sistema e faremos o seu lançamento ao público.
Em Ataúro, o consumo de água segue um padrão diferente daquele que implementámos noutros locais. A água é consumida diretamente na parte inferior do sistema, antes de passar pelos canais de drenagem, o que a torna livre de micróbios e de quaisquer contaminações. Este é o padrão adequado para o consumo humano. Contudo, para lavar roupa, o volume disponível não é suficiente face ao orçamento que eles têm. Por isso, o sistema de Ataúro não é igual ao de Liquiçá.
Na ilha de Jaco, quando foi feito o acordo, o sistema destinava-se aos animais. Porém, continuamos a procurar alternativas para que também os visitantes possam consumir água.
Assim, preparámos igualmente um sistema que processa e produz água própria para consumo humano.
Portanto, estas são as soluções de água que instalámos nestes três locais.
Que tipo de energia é utilizada no sistema — energia solar, gerador ou outra solução?
Anteriormente, em Ataúro, quando a rede elétrica ainda não chegava ao local, levámos um gerador para fornecer água potável à população. Na ilha de Jaco, também utilizámos um gerador. Contudo, segundo o plano do Governo — e tendo em conta que estamos na estação seca — é necessário usar geradores para garantir o abastecimento de água para os veados, para evitar que voltem a morrer este ano. Este é um plano já existente, que o Ministério deve ter em consideração.
Por vezes, as pessoas pensam que o gerador consome demasiado combustível, produzindo apenas pouca água e gastando muito dinheiro. Mas isso não é verdade. De acordo com os cálculos que fizemos em Jaco, com 5 litros de combustível colocados no gerador conseguimos produzir quase 1000 litros de água. Assim, podemos fazer uma comparação lógica: se gastássemos 5 ou 6 dólares para comprar um tanque de água, o custo seria muito mais elevado. Desta forma, reduzimos algumas despesas e diminuímos a necessidade de determinados serviços adicionais.
Como é feita a manutenção e o acompanhamento técnico do sistema?
Quanto à manutenção, acredito que em Liquiçá será relativamente fácil, pois o sistema já faz parte da indústria doméstica. Em Ataúro, também considero simples, porque realizámos campanhas de sensibilização sobre a manutenção e ensinámos um membro da comunidade local a operar o sistema.
No entanto, existem duas dificuldades principais: a primeira é o sal que chega aos bairros em Ataúro, porque sabemos que a água do mar, se não for bem tratada, pode danificar o equipamento; a segunda é o filtro que separa a água limpa do sal. Se for utilizado regularmente, deve ser substituído de dois em dois anos; se for usado com menor frequência, pode durar até três anos.
De forma prática, este sistema permite uma manutenção anual com um custo aproximado de 500 a 600 dólares. Quando a comunidade contribui financeiramente, é possível fazer uma poupança conjunta, o que também ajuda na manutenção. Outras dificuldades incluem os tubos e canalizações utilizados, mas assegurámos que não serão danificados pela água do mar.
Quanto à ilha de Jaco, considero a manutenção fácil, porque o sistema é propriedade do Governo. As dificuldades são semelhantes: algumas pessoas pensam que a manutenção é complicada, mas o sistema que projetei está adaptado às nossas condições e capacidades, não exigindo muito esforço. Além disso, o custo de manutenção não é superior ao da instalação inicial.
Desde que o sistema foi implementado, que mudanças já consegue observar no dia a dia — principalmente em relação aos animais e ao ecossistema?
Eu também sou de Liquiçá, e as pessoas elogiam Liquiçá porque conseguiu realizar este trabalho, e a sua indústria marítima é considerada uma boa referência no abastecimento de água do município.
Em Ataúro, sei que não há consistência na forma como tratam os seus próprios problemas. Por exemplo, fornecemos água potável, mas não posso garantir que haja união ou responsabilidade na manutenção do sistema, porque cada pessoa tem a sua própria opinião. Estão habituados à água da chuva, à água do mar e ao facto de não pagarem pela água, porque o sistema não os motiva a valorizar esse recurso. O projeto foi concluído e entregue ao governo local para ser gerido. Também informámos que o sistema precisa de manutenção e que a comunidade deve contribuir, porque necessita muito de água para consumo.
No município de Lospalos, o sistema foi instalado para os animais, não para humanos. O triste é que a população local não cuida dos seus animais. Em conjunto com o Governo, poderíamos preservá-los, mas a realidade mostra o contrário.
Existe algum plano para expandir ou aumentar a capacidade de produção do sistema de dessalinização?
Tenho dois planos. O primeiro é criar um sistema natural capaz de limpar o mar de forma eficaz sem recorrer a equipamentos de grande dimensão. Já ando a tentar concretizar este plano há três anos, mas ainda não obtive resultados — é um objetivo que continuo a querer alcançar.
O segundo plano é expandir este sistema para Ataúro, porque há necessidade de uma grande instalação que possa abastecer toda a cidade, uma vez que existe apenas uma fonte de água. Pretendo também expandir o sistema para outros locais, como instituições governamentais e comunidades vizinhas, incluindo eventuais intervenções da BTL, caso considerem viável implementar um programa semelhante.
Para isso, preciso de iniciativas governamentais e do apoio da empresa que fundei em Liquiçá há um ou dois anos, que já filtra e transforma água das montanhas em água potável.
Durante a implementação, quais foram os principais desafios que enfrentou — logísticos, técnicos ou de apoio institucional?
A ilha de Jaco é muito diferente. Primeiro, pela sua própria natureza; segundo, porque não existem pessoas a residir lá; e terceiro, porque é necessário atravessar o mar para transportar os materiais. Além disso, de Díli a Lospalos é uma grande distância e, depois dessa viagem, ainda precisamos de atravessar o mar para chegar a Jaco. Por isso, enfrentámos muitos desafios.
Até quando estava a perfurar a rocha, as coisas não correram bem. Não por falta de conhecimento técnico, mas porque, segundo a minha opinião, perfurar daquela forma poderia danificar a própria natureza. Por isso, tive de aprender novamente como captar água diretamente do mar.
Antes disso, nunca tinha captado água do mar para a levar diretamente ao local de produção. Lá, consegui estudar e analisar a situação e, finalmente, criei um filtro e um “elevador” para ajudar a impulsionar a água até à margem, permitindo que fosse aspirada para terra e depois tratada. Esse foi um grande desafio, porque, se não conseguíssemos puxar a água do mar, não teríamos nada para processar.
Outro desafio foi o facto de não haver vida humana na ilha — apenas animais e o ambiente natural — e estarmos longe da família e dos amigos, num contexto completamente isolado. Como empresa responsável pelo projeto, nunca pensámos em obter lucro com este trabalho. O que tínhamos em mente era garantir que o projeto fosse bem-sucedido, pelo Ministério da Agricultura e pela dignidade da nossa empresa; tínhamos de concretizar o plano estabelecido.
Os trabalhadores de Lautém, incluindo residentes do próprio município, dormiam todos em Jaco. Quase todos os meus técnicos — como o Francisco Kalimau, do município de Bobonaro — viveram na ilha, e o Martinho Freitas, do município de Baucau, permaneceu lá durante dois meses. Ambos ficaram permanentemente na ilha enquanto eu fazia viagens de ida e volta para preparar os equipamentos de que precisavam.
Apesar de todos os desafios, conseguimos concluir o projeto e transformar a água, que inicialmente era salgada, em água limpa para consumo dos animais. O trabalho decorreu desde o início do contrato até à inauguração e durou três meses.
A comunidade local ou as autoridades colaboraram consigo?
Desde o início do projeto, a participação da comunidade já demonstrava que necessitavam de água potável e de algo que fosse realmente útil para eles. Quando os resultados começaram a surgir, pudemos sentir o impacto real das necessidades da população ao longo do desenvolvimento do projeto.
Durante a execução, embora os fundos viessem do UNDP, não os utilizámos para benefício próprio; a comunidade trabalhou e nós apenas facilitámos o processo. Assim, mesmo que o trabalho fosse voluntário, mostraram grande entusiasmo em concluir o projeto.
Como resultado, a água passou a ser disponibilizada e a comunidade utilizou o sistema durante quase dois anos. Ainda não tenho dados completos sobre quantas pessoas beneficiaram da água, mas durante o lançamento em Baruana e nos três meses seguintes, levei um membro da comunidade para realizar um estudo comparativo no município de Liquiçá. Com essa experiência, ele conseguiu, finalmente, operar o sistema de forma autónoma em Ataúro.
Que mensagem gostaria de deixar às pessoas sobre a importância de proteger a natureza, ao mesmo tempo que se utiliza a tecnologia para melhorar a vida nas nossas ilhas?
Da minha parte, ao Secretário de Estado das Florestas, ao Ministério da Agricultura e Pescas e, em especial, à comunidade, quero dizer que, como timorense, estou pronto para assumir qualquer falha no sistema que instalei. Enquanto estiver aqui, estarei sempre disponível para o reparar. Se há pagamento ou não, isso é uma questão secundária; o mais importante é que o sistema continue a funcionar.
Quero também dizer que, dentro das minhas capacidades, farei as reparações sem custos para este sistema. Portanto, desde Lospalos até Ataúro, contactem-me sempre que houver alguma falha e eu tratarei de a resolver. Garanto que, no trabalho que realizo, não entregarei 100% da responsabilidade à comunidade para operar o sistema sozinha, porque é um sistema que domino plenamente.
À comunidade, aos líderes locais e nacionais, peço que cuidem e apoiem o sistema, ou que disponibilizem algum fundo para que possa ser preservado. Assim, quando ocorrer alguma falha, poderemos substituir o equipamento e garantir que o sistema funcione para as populações que vivem ao redor, incluindo todas as formas de vida que dependem dele.
Quem o inspirou ou motivou a acreditar que um jovem timorense podia desenvolver um projeto desta dimensão?
As pessoas costumam chamar-me “bandido”, mas, na verdade, dizem que sou “um bandido de qualidade”, por causa das mudanças que fiz. Posso dizer que a minha maior inspiração é o povo em geral.
No entanto, explico desta forma: se eu fosse alguém com todas as condições, seria fácil procurar conhecimento. Mas não foi assim. Desde o ensino básico percebi que o conhecimento que tenho não veio de condições favoráveis e que não tinha ninguém que me orientasse. Mesmo assim, procurei conhecimento da melhor forma possível. Por isso, considero que este conhecimento é uma bênção.
Ao longo do meu percurso, enfrentei muitos desafios: sou filho de pais divorciados e, desde pequeno, vivi com outras pessoas. Por isso, sempre rezei a Nossa Senhora da Graça para guiar a minha vida. E agora sinto que a minha sabedoria pode contribuir para valorizar o nosso país.
Durante a escola, as minhas notas também não eram melhores do que as dos outros, mas, no fim, consegui chegar até aqui e fazer o que faço hoje.
Se tivesse de escolher, qual é o maior impacto deste projeto: salvar animais, sensibilizar para o ambiente ou mostrar que a juventude timorense tem capacidade de inovação?
Na minha opinião, a primeira prioridade é o bem-estar animal. Devemos começar por falar sobre como resolver os desafios que as pessoas têm observado e mencionado. Por exemplo, a morte dos veados. Todos comentam o que causou a sua morte e questionam porque é que o Governo não cuida dos animais selvagens e porque é que não há água em Jaco.
Não precisamos de mostrar que somos jovens com capacidade e inovação. O mais importante é aquilo que fazemos e o que podemos contribuir. Nós, timorenses, não somos avaliados pelo processo, mas pelo resultado. Por isso, falar apenas do processo não traz soluções. Outras pessoas podem criticar o processo porque não veem resultados.
Por isso, primeiro resolvamos o problema e deixemos que os outros vejam o resultado do nosso esforço.


