Apesar de avanços em educação, emprego e participação social, a igualdade de género em Timor-Leste enfrenta desafios estruturais. Discriminação e violência persistem, como mostram histórias e vozes da sociedade civil na exposição fotográfica “Histórias de mulheres timorenses tecidas em Português”, na Galeria Memória Viva, de 4 a 12 de março, organizada pelo Instituto Profissional de Canossa.
Aos 19 anos, Febriana Teixeira enfrentou bullying e discriminação na escola durante a gravidez. Alguns colegas espalharam boatos, fizeram piadas como “Santa Fingida” e chegaram a gravá-la secretamente durante apresentações, ampliando partes do seu corpo para a expor ao ridículo.
Apesar das situações difíceis, Febriana manteve-se firme. “Mesmo estando grávida, continuei a estudar e a participar em várias atividades”, afirma.
Para a jovem, a resiliência, o trabalho árduo e a paciência são fundamentais para alcançar um futuro melhor, mesmo quando o caminho parece incerto. “Não devemos deixar de aprender nem de tentar. Também precisamos de resiliência, esforço e paciência como chave para que coisas boas aconteçam, talvez não saibamos quando, mas certamente virão.”
Experiências como a de Febriana ilustram as pressões sociais que muitas mulheres enfrentam no quotidiano.
O silêncio imposto pela história
Madre Terezinha do Menino Jesus descreve as mulheres como a “coluna vertebral” da família, sobretudo em tempos difíceis. Recorda o período da crise de 2006, marcado por conflitos, durante o qual muitos homens abandonaram as suas casas, enquanto as mulheres permaneceram, assegurando a alimentação e a sobrevivência das crianças.
Segundo a religiosa, as mulheres demonstram uma resiliência extraordinária, mesmo em contextos adversos. “Elas mostram tudo isso porque têm filhos e famílias que precisam proteger. Mesmo sendo difícil, continuam a demonstrar resiliência.”
A madre sublinha ainda a necessidade de dar voz às mulheres, lembrando que, ao longo da história do colonialismo e dos conflitos, muitas foram forçadas ao silêncio. Esse silêncio, defende, não era sinal de virtude, mas consequência da dominação.
“Desde os nossos avós, que foram oprimidos sob a colonização até à invasão, a situação manteve-se. Mesmo depois da independência, ainda é difícil falar. Por isso, é importante quebrarmos esta cadeia de silêncio.”
Apesar dos progressos registados, continuam a existir desafios significativos. Dados do Censo da População de Timor-Leste de 2022 mostram que as razões para o desemprego diferem entre homens e mulheres.
A razão mais apontada por ambos os sexos é a frequência escolar: 40,3% das mulheres e cerca de 45% dos homens jovens indicam estar a estudar como principal motivo para não trabalharem.
No entanto, 36,3% das mulheres referem que não trabalham devido às responsabilidades familiares, comparativamente a apenas 18,4% dos homens — um indicador claro da persistente divisão desigual do trabalho doméstico.
Jovens defendem homens e mulheres na mesma luta
Anastasia Santos Martins defende que a Secretaria de Estado para a Igualdade e Inclusão (SEI) e a Rede Feto devem reforçar formações e ações de advocacia sobre igualdade entre mulheres e homens. A mudança, diz, não deve incidir apenas sobre as mulheres.
“Não apenas para as mulheres, mas também formações para os homens, para que haja uma mudança de mentalidade, de modo que o impacto nas oportunidades para mulheres e homens seja igual.”
Também Aderito Lobo sublinha a importância da formação em psicologia para compreender as diferenças na construção social de mulheres e homens, incluindo o impacto das experiências familiares. Na sua perspetiva, entender essas dinâmicas pode ajudar as famílias a promover um desenvolvimento mais equilibrado.
“Normalmente, aquilo que desejamos hoje já existe, mas muitas vezes as mães pensam de forma diferente: elas consideram também os impactos no futuro, as consequências das suas ações e as memórias que ficam. Por vezes, algo que aconteceu há 10 anos ainda continua presente na memória delas. Por isso, no contexto familiar, quando acontece alguma coisa, nós, homens, também precisamos de refletir e de recordar.”
Jubelia do Ceu destaca, por sua vez, a realidade no seu suco, onde muitas famílias continuam a dar prioridade à educação dos rapazes em detrimento da educação das raparigas.
“Existem muitas realidades semelhantes no sistema antigo do meu suco, que ainda hoje continua, em que os pais muitas vezes apenas dão prioridade aos rapazes para ir à escola em comparação com as raparigas. Por isso, a formação para os homens é muito importante, porque se não houver, quando as mulheres quiserem expressar a sua opinião, não serão ouvidas.”
Complementando esta perspetiva, Nelcia Soares recorda que o sistema patriarcal persistente contribui para situações de violência doméstica. Defende o empoderamento das mulheres como forma de quebrar o ciclo do silêncio.
“Como jovens, devemos oferecer-nos para participar em atividades como esta, para também podermos sair da nossa zona de conforto, porque o silêncio apenas fará com que as pessoas se tornem insensíveis e não trará solução para os problemas enfrentados.”
Redes e leis que empoderam mulheres timorenses
A diretora da Rede Feto, Zélia Fernandes, esclarece que a igualdade de género não se refere apenas às mulheres, mas ao equilíbrio de direitos, responsabilidades e oportunidades entre mulheres e homens.
A Rede Feto, que integra 47 organizações-membro, presta assistência a vítimas de violência baseada no género, incluindo através da FOKUPERS, que oferece apoio jurídico e social. Desenvolve ainda ações de sensibilização e formação sobre os diferentes tipos de violência e os mecanismos de denúncia.
“Há formações e sessões de sensibilização sobre os tipos de violência baseada no género e os mecanismos de denúncia de casos relacionados com essa violência, bem como orientações sobre como falar ou responder em tribunal ao longo do processo.”
Existem também outras organizações que oferecem formação em empoderamento económico das mulheres, para que possam tornar-se financeiramente independentes, tomar decisões dentro da família e participar ativamente na sociedade.
A nível regional, a SEI coopera com a Rede Feto na formação de associações de mulheres em cada município, reforçando capacidades e promovendo o conhecimento das leis que garantem proteção e oportunidades.
No plano jurídico, a Constituição da República Democrática de Timor-Leste, nos artigos 6.º, 16.º, 17.º a 22.º, consagra a igualdade e a inclusão social, incluindo para crianças, jovens, mulheres com deficiência e a comunidade LGBTQIA+.
Zélia Fernandes manifesta expectativa quanto ao surgimento de uma nova geração de líderes femininas. “Já temos um quadro jurídico forte como base. Nos próximos 10 a 15 anos, a participação das mulheres aumentará tanto em quantidade como em qualidade.”
Argentina Viegas, técnica profissional da SEI, reforça que a igualdade entre mulheres e homens tem registado mudanças significativas ao longo dos anos.
“A igualdade é o equilíbrio entre mulheres e homens que possuem os mesmos direitos. No passado, quando se falava de igualdade, praticamente não existia, porque os homens tinham sempre mais direitos do que as mulheres. Hoje existem muitas mudanças e, por isso, há muitas oportunidades para as mulheres.”
Esta posição está em consonância com o artigo 17.º da Constituição da República Democrática de Timor-Leste, que consagra a igualdade de direitos e deveres entre mulheres e homens em todos os domínios da vida familiar, cultural, social, económica e política.
No âmbito da sua missão e visão, a SEI continua a promover a defesa dos direitos das mulheres, apostando na formação e no reforço de capacidades, de modo a encorajá-las a expressar-se e a tomar decisões autónomas sobre as suas próprias vidas.
“A SEI, através da sua missão e visão, mantém o compromisso de apoiar mulheres com potencial e de garantir que tenham acesso a todas as oportunidades, incluindo no plano económico. Por isso, continuará a promover ações de formação e capacitação destinadas às mulheres que ainda não se sentem confiantes para falar em público e assumir decisões”, afirmou.
Uma exposição que dá voz às mulheres
Estas reflexões foram partilhadas durante a inauguração da exposição fotográfica “Histórias de mulheres timorenses tecidas em Português”, patente na Galeria Memória Viva, entre os dias 4 e 14 de março. A iniciativa é organizada pelo Instituto Profissional de Canossa.
O projeto assinala a Fase II da Mostra CPLP_IPDC, anteriormente realizada no Campus Canossa, entre 20 e 22 de janeiro de 2026.
Através de debates, entrevistas e atividades de aprendizagem interativas, os participantes aprofundaram o conhecimento sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em Timor-Leste — desde a discriminação nas escolas até à necessidade de empoderamento social, económico e político.
Para além de promover o uso da língua portuguesa, a iniciativa constituiu um espaço de amplificação das vozes femininas e de reforço da consciência sobre a importância da igualdade de género entre as gerações mais jovens.


